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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A preparação para a Expedição Do Atlântico ao Pacífico.

De março a dezembro de 2007 foram mais de cinco mil quilômetros percorridos em forma de treinamento. Essa distância esteve distribuída em muitas viagens, passeios, treinamentos, competições. Sempre no intuito de manter-me em movimento e estar preparado fisicamente para encarar todo o tipo de terreno durante a expedição para o Chile.

O treinamento mais freqüente que realizei neste período foi de Marechal Cândido Rondon até o distrito de São Roque a cerca de 25 quilômetros de Rondon. Esse percurso não foi escolhido aleatoriamente. A estrada vicinal é pouco transitável e o terreno que percorre o trajeto é marcado por inúmeras subidas, algumas exigindo o máximo de preparo. Em determinadas partes o asfalto é irregular, mas acabei me acostumando e no final do ano já sabia onde estava cada buraco do percurso.

Dedicava atenção para algumas coisas. As subidas por exemplo. O João já nos avisava sobre a enorme altitude que encontraríamos pela Cordilheira dos Andes. Por isso eu me concentrava a cada treino em melhorar minha performance a cada subida. Visava melhorar meu rendimento e conseqüentemente abaixar o tempo, sem deixar de focar a resistência, fundamental para uma viagem de bicicleta.

Com o tempo fui ganhando condicionamento físico, os treinamentos eram realmente constantes e em todas as horas do dia. Geralmente minha preferência era pedalar de manhã pelas condições do tempo. Mas eu tinha consciência que em uma viagem não se pedala apenas no período matutino. Desse modo, passava a encarar um treino a qualquer momento, inclusive perto do meio dia, quando o sol está mais forte. Também coloquei a bike na estrada durante a noite, testando equipamentos novos como farol e lanterna. A fase de preparação é justamente para realizar os ajustes.

No período de treinamentos, pedalei em todas as estações do ano, não parei nem mesmo no inverno, que no sul do país é mais rigoroso do que em outras regiões. Manhã, tarde e noite. Sol, chuva, neblina. Não importava as condições do tempo, estava me preparando para um desafio, onde o maior obstáculo era vencer a temida Cordilheira dos Andes.

Um outro fator era primordial, a economia de água. Tínhamos conhecimento que em algumas regiões da Argentina e Chile, a água não seria abundante. Nosso trajeto incluía o Deserto do Atacama, o mais seco do mundo. O João era o que mais chamava atenção para isso. Sempre mencionava nas conversas on-line ou na descrição de treinamentos como estava se comportando com a utilização racional da água. Com isto, aprendi a pedalar muitos quilômetros com pouca água. Não me lembro em ter passado sede. A economia era de modo racional. Utilizar a água antes de sentir a sede em pequenas proporções. Estávamos nos precavendo de todos os lados para evitar qualquer preocupação maior.

Comecei a realizar viagens para Foz do Iguaçu constantemente. Era meu destino sempre que tinha um tempo maior disponível. A experiência vem com o tempo e a prática. Assim evitei vários equívocos que cometi na primeira viagem para a casa da família em dezembro de 2006. Do meu apartamento em Marechal até a casa da família em Foz eram exatamente 175 km’s. A saída era sempre nas primeiras horas do dia, principalmente para concretizar a viagem no mesmo dia. Comecei fazendo esse trajeto pela costa oeste em 12 horas, mas como os treinamentos por esse percurso ficaram constantes, a cada viagem o tempo diminuía. Cheguei a concluir uma viagem para Foz em apenas 6h:57m, um recorde até hoje.

A paisagem da costa oeste é marcada por plantações extensivas em quase todo o percurso. Esse cenário é modificado próximo aos balneários existentes em alguns municípios como Entre Rios do Oeste, Santa Helena, Missal e São Miguel do Iguaçu. A estrada é repleta de buracos, o tráfego intenso de caminhões e a falta de revitalização pelo poder público contribuem para que a situação fique a cada dia mais agravante.

O percurso de Foz a Marechal também foi pedalado, esse era mais complicado, embora, no mesmo caminho. A altimetria era crescente. Na maioria das vezes demorava-se de duas a três horas a mais para voltar. As paradas eram freqüentes para descansar, hidratar e alimentar-se. Em muitas ocasiões o sol era realmente muito intenso, tornando difícil manter um ritmo bom.

Com a divulgação da viagem pela internet, aparecem algumas pessoas interessadas em acompanhar o andamento dos treinamentos da expedição. Neste período conheci muitos amigos na rede virtual, a maioria de outras cidades e estados. Aqueles que eram da região, fiz questão de conhecer pessoalmente. Fui pedalando para Toledo em pleno inverno a uma temperatura de quase 0º.C. para participar de um passeio ciclístico a convite da minha amiga Heloisa, amante do ciclismo. Acabei conhecendo sua família e fazendo novos amigos. Fui muito bem recepcionado e nunca esquecerei a hospitalidade em sua casa das vezes que passei por Toledo.





Conheci alguns amigos de Medianeira, um deles me fez um convite para um novo desafio dentro do ciclismo. Competir no Mountain Bike. Disputar uma prova Cross Country em Nova Aurora. E tudo isso era uma novidade pra mim que jamais havia participado de um campeonato anteriormente. Mas resolvi aceitar o convite. De Marechal fui pedalando até Medianeira, aproximadamente 140 km’s. Enfrentando neblina, chuva e muito frio também estive em Medianeira onde conheci o Eduardo e sua família que também me recepcionaram muito bem. De Medianeira fomos com o ônibus da prefeitura até o município de Nova Aurora, local do Campeonato Regional de MTB. Estava diante de um pessoal fanático pelo ciclismo, não era pela modalidade do cicloturismo, mas envolvia preparação, treinamento, concentração, determinação e tudo que se relaciona a um atleta. Do mesmo modo que fiquei admirado pelo Cross Country, muitas pessoas ficavam admiradas e queriam saber mais sobre o cicloturismo. Foi neste meio que fiz muitos amigos, alguns encontrei em outras provas em diversas cidades, alguns o contato é pela internet, onde continuamos conversando, principalmente, sobre ciclismo.
















Encontrei em todos esses quilômetros de estrada, trilha e ruas, caminhos dos mais diversos, pessoas de classes sociais variadas, culturas diferentes, paisagens maravilhosas e sobretudo, experiência de vida. E a intenção era cada vez mais conhecer outros horizontes, compartilhando histórias, alegrias e tristezas. Toda a bagagem da chegada e partida. Hoje, sei que foi mais do que um treinamento para o desafio de encarar as estradas até o Chile. Foi enfrentar todo um modo de vida padrão do qual a sociedade está inserida e conscientemente ou não acaba se conformando com uma vida rotineira onde se ganha status, dinheiro, bens materiais, mas que por outro lado esquece a humanização em cada pessoa, a valorização das coisas mais simples. Esquecem, vejam vocês, de cuidar da natureza, nossa fonte vital, destruindo-a a cada momento das mais variadas formas. E as pessoas não se dão conta disso, pois estão condicionadas em seus mundos particulares. A falsa segurança de seus lares, doce lares. A aprendizagem é contínua a cada dia. Por isso os treinamentos foram constantes e não pararam até hoje, dezembro de 2009. Mas as renúncias não foram poucas.


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