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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A Travessia do Paraná - A volta e reviravolta

Travessia do Paraná - Parte 7

A bicicleta foi desmontada, tirei as duas rodas e o banco. O quadro e o selim eu coloquei dentro da barraca que serviu como uma mala bike. Amarrei as duas rodas e pronto, estava preparado para retornar. Tudo parecia em ordem. Resolvo esticar minha coberta na recepção e passar a noite. Antes utilizei o banheiro para fazer as necessidades e escovar os dentes. Sem chuveiro, apenas jogo uma água no rosto. Vou dormir e durante a noite a única presença é de alguns policiais que não se incomodam em me ver no local.





Acordo às cinco horas da manhã e como está quase tudo pronto, basta guardar a coberta e o travesseiro e depois comprar a passagem. Aqui surge um grande obstáculo, a surpresa que eu não gostaria de ter. Dirigindo-me até o guichê tenho a informação que o único cartão aceito como forma de pagamento é de débito. Tenho apenas um cartão de crédito e nem mais um centavo. Fazia parte do planejamento levar pouco dinheiro. Sai apenas com cinqüenta reais que foram suficientes para minha alimentação. E a passagem de Matinhos para Curitiba era de apenas dezoito reais. Mas não poderia imaginar que uma rodoviária não aceitasse cartão de crédito, nos dias de hoje, a maioria dos estabelecimentos proporcionam essa opção ao cliente. Fiquei sem saber o que fazer e voltei à recepção onde estavam minhas coisas.

Eu teria que pensar em alguma alternativa e rápido. O ônibus sairia em poucos minutos. Lembrei da possibilidade de sacar dinheiro com o cartão de crédito. A bicicleta estava desmontada e eu não poderia perder tempo e o centro onde havia um banco estava longe. Com sorte um carro aparece na rodoviária para deixar um passageiro. Sem tempo para timidez, explico rapidamente a situação para o motorista, gentilmente ele compreende e me leva até o banco, converso um pouco durante o percurso e agradeço pela carona. Já no caixa eletrônico do banco, outro problema, como nunca precisei usar essa comodidade de sacar dinheiro pelo cartão, não lembrava da senha para efetuar o serviço. As várias tentativas foram sem sucesso. Eu deveria ser rápido, pois além da saída do ônibus, meus pertences estavam todos na recepção, sem nenhuma proteção. Eu levara apenas minha carteira e celular para o banco.

Eu estava preocupado, não posso negar. Mas em nenhum momento perdi a tranqüilidade, uma marca da minha personalidade, como muitos dizem. Sai do banco pensando no que poderia fazer. A praia ficava a menos de cem metros de onde eu estava e era o mesmo local que eu passara na noite anterior. A paisagem era infinitamente diferente, com a claridade dos primeiros sinais do dia, conseguia visualizar perfeitamente as ondas do mar, mesmo com certa distância. Caminhando pelo calçadão vou me aproximando cada vez mais da praia. Estou diante de um dos cenários mais belos que presenciei em toda minha vida. O sol estava nascendo ao horizonte, como se estivesse saindo do fundo mar com uma energia inerente do astro rei. As cores eram intensas.

Para contemplar a paisagem eu estava sentado em frente ao mercado de peixes ao lado da praia. O ambiente com algumas embarcações de pesca na areia à espera de seus navegadores para mais um dia de trabalho, somado ao nascer do sol, resultaram em uma das fotografias mais belas que já tive a oportunidade de fazer. Aquele momento era pra fechar com chave de ouro a viagem. E nem era para eu estar diante de tamanha beleza. Pois a esse instante o ônibus, no qual eu deveria estar, era o mesmo que partia da rodovia sem a minha presença. Eu já nem me preocupava de ter perdido esse primeiro horário. Mas eu deveria achar um meio para conseguir o dinheiro para a passagem.




Com o celular em mãos, ligo para a casa dos meus pais em Foz do Iguaçu. A intenção era que alguém em casa conseguisse entrar em contato com a empresa do cartão de crédito para a emissão de uma nova senha que permitisse a realização do saque. Mas não foi tão simples assim. Em primeiro lugar, minha mãe não estava em casa e tive que explicar rapidamente a situação para o meu pai que não tinha conhecimento da viagem. Ficou surpreso e um pouco nervoso com a ocasião que eu me encontrava. Sem poder me ajudar muito, ele avisa que a minha mãe está na minha casa em Marechal Rondon. Então tenho mais chances de resolver esse problema. Pois eu tinha certeza que havia uma carta do banco com a senha. Liguei pra minha mãe e também expliquei o que estava acontecendo. Ela achou a carta e a senha era a mesma que eu havia utilizado minutos atrás no caixa eletrônico. Restava ligar para a empresa do cartão, a mãe ficou encarregada de fazer isso. Mas logo depois ela retorna minha ligação mencionando que uma nova senha pode ser emitida, contudo, somente através dos correios e após alguns dias. Tempo que eu não tinha disponível. Portanto, deixei toda minha família preocupada e não chegamos a uma solução.

Pensei nas possibilidades para conseguir o dinheiro. Quem saber pedir na rua. Mas quem acreditaria na minha história se nem a bicicleta estava comigo. Também levantei a hipótese de passar nas bicicletarias, mas ainda era muito cedo e não estavam abertas. Estava muito difícil, continuava andando pelo centro da cidade em busca de uma luz no fim do túnel. Foi quando me surge a idéia de forjar a transação em algum estabelecimento, claro com a conscientização do responsável do local. Assim, eu passaria o cartão equivalente a vinte reais e não levaria nenhum produto, apenas o dinheiro. Mas será que alguém entenderia minha situação e aceitaria me ajudar.

A primeira tentativa para forjar a transação foi em um posto de combustível. Mas não foi fácil, após esperar alguns minutos, consigo conversar diretamente com o gerente. Explico resumidamente o que aconteceu e que pretendo apenas conseguir os vinte reais para seguir até Curitiba. Não sei, se ele compreendeu a minha situação ou queria me ver longe do posto. De qualquer forma, prefiro a primeira hipótese, até porque, ele aceitou com a condição que eu não comentasse sobre o ocorrido. Combinado.

Com os vinte reais que precisava para a passagem vou andando a passos largos em direção à rodoviária. Se não me engano o próximo ônibus sairia exatamente às nove horas. O interessante foi andar um bom trecho conhecendo a cidade. Novamente no guichê consigo comprar uma passagem para o próximo horário, mas queriam me cobrar uma taxa extra, que era maior que o preço da passagem, pela bicicleta. Argumentei que a bike estava devidamente desmontada e embalada, e estava mesmo. Levei um funcionário da empresa até a recepção para conferir. Com cara de poucos amigos, me informou que era para conversar com o motorista, e até a hora do embarque fiquei na expectativa.

Antes, vale lembrar que as minhas coisas estavam em ordem na recepção, quando eu já estava me preparando para levar tudo para a área de embarque, aparece um funcionário da rodoviária mencionando que eu não poderia ficar ali. Disse que não ficaria e já estava levando as coisas do local. Sorte a minha que ele não apareceu de noite.

Aguardo alguns minutos a chegada do ônibus. Com a movimentação da manhã, consegui apenas comprar salgados e refrigerante para agüentar até Curitiba. Claro, comprei com cartão de crédito em um posto ao lado da rodoviária. O ônibus da empresa Graciosa estaciona na área de embarque/desembarque. Para minha surpresa não tenho nenhum empecilho por causa da bicicleta. O rapaz que fez o embarque no bagageiro ainda perguntou se o quadro era de carbono, compreendi que ele não sabia nada de bicicleta, mas como deixou ela embarcar sem taxa extra, não vou condena-lo, não tenho direito e muito menos é a minha intenção. Finalmente uma etapa de volta estava vencida. Haveria mais duas pelo caminho.

De Matinhos para Curitiba vou acompanhando a Serra do Mar atrás da janela do ônibus, a sensação não é a mesma de quando se está de bicicleta. A rodoviária da capital tem um movimento intenso. Busco ser rápido no meu desembarque até um local mais calmo e seguro. A venda de passagens fica em uma área longe da qual eu me encontro. Deslocar-se com uma bicicleta desmontada e todo o restante da bagagem não é nada fácil. Então peço a um senhor que estava sentado, aparentemente aguardando alguém, para cuidar rapidamente das minhas coisas. Era arriscado tomar uma decisão desse porte, mas por algum motivo, depositei confiança naquele senhor. No guichê descubro que o ônibus parte em menos de dez minutos. Que correria, mas pelo menos aceitaram meu cartão. Outro detalhe, a linha segue para Toledo e não Marechal Rondon, isso implica em outro fato, eu precisaria de muita sorte para encontrar um ônibus para Marechal assim que estivesse em Toledo.

A viagem de Curitiba para Toledo é tranqüila, custou-me 80 reais a passagem, gastei mais um pouco durante a parada do almoço, quando me alimentei apenas de salgados para economizar. Em Toledo descubro que tem apenas um ônibus que segue para Marechal, é o metropolitano, uma linha de ônibus que não tem bagageiro e suas paradas são freqüentes em cada cidade e distrito que tem no caminho. A dúvida seria como embarcar uma bicicleta em um ônibus desse porte. Para minha sorte, era o último horário e poucas pessoas estavam no veículo. O cobrador autorizou e até me ajudou no embarque da bicicleta, de qualquer modo, eu havia comprado a passagem para garantir que iria chegar em casa ainda naquela noite. A calma e o silêncio marcaram o trajeto. Eu estava ocupando toda a área no fundo do ônibus e pensando como carregar a pé a bicicleta e a bagagem da rodoviária de Marechal até em casa, uma distância de aproximadamente dois quilômetros.

A chegada em Marechal Rondon foi por volta das dez horas da noite, faço uma parada antes da rodoviária para ficar mais perto de casa. Mesmo assim custo a andar com todos os itens ocupando minhas mãos e braços. Caminhava dez metros e parava, assim foi por cerca de cem metros. É quando aparece um conhecido acadêmico de história, apenas cumprimentava-o na universidade. E foi o mesmo procedimento quando ele passou por mim naquela noite. Mas notando minha dificuldade em carregar, principalmente a bike, ele retorna e pergunta se preciso de ajuda. Claro que não neguei. Ele estava de bicicleta, mas me ajudou e muito. Como morava perto de casa, fez questão de me ajudar até a entrada do prédio onde morava. Agradeci muito pela ajuda. Finalmente estava de volta. Minha mãe ainda estava no apartamento fazendo uma visita, mas se surpreendeu com a minha chegada inesperada àquela hora da noite. Eu estava de volta, mas não era o mesmo. A partir dessa viagem, posso dizer que minha vida mudou completamente. A Travessia do Paraná foi um sucesso, causou muita repercussão entre aqueles que souberam da aventura. Mas a vitória principal era sentir que estava vivendo da maneira que gostaria de viver.

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3 comentários:

  1. Foi um barato acompanhar essa expedição no seu blog juntamente com os vídeos do youtube. Passei por boa parte da estrada que passou antes de Curitiba, me recordei de cada uma das cidades e tbm das incômodas lombadas no acostamento.
    Bela viagem!
    Abç!

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  2. muito bom poder ter acesso a todo esse relato em certo momento
    parecia q tambem estava participando da expedição !!!

    leonardo noronha

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  3. Parabéns pela atitude de começar a pedalar pra valer!
    Morei por muitos anos em Marechal e pedalei por toda a região aí.
    Excelente relato e sensacional aventura!

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