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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Peru III

 19/10/2012 - 103° dia - Nasca a Santiago

A volta da normalidade intestinal.

Acordei cedo e às 5 horas da manhã eu já arrumava minhas coisas nos alforjes para seguir viagem. Felizmente levantei bem melhor e parecia que nada havia acontecido, nenhum desiquilíbrio intestinal. Que maravilha! Novamente estava faminto e com muita disposição para pedalar. Preparei meu desayuno e quase às 7 horas fui em direção à estrada, não sem antes me despedir do pessoal da Pousada Guadalupe onde fui muito bem recebido.

A hospedagem fica próxima à saída para Lima, assim, não demorei muito e já estava na famosa Rodovia Panamericana que atravessa todo o continente americano. A estrada está em ótimas condições, inclusive, com um acostamento gigantesco que oferece muita segurança ao ciclista que pode pedalar tranquilo apesar do movimentado trânsito da rodovia. 

Rodovia Panamericana Sul - Região de Nasca

A pretensão do dia: chegar à Ica, distante aproximadamente 150 km de Nasca. Uma distância diária considerável, mas não impossível, já que eu havia deixado a Cordilheira dos Andes para trás. Mas as montanhas continuaram pelo caminho, contudo, não interferiram no relevo, pelo menos, nos primeiros quilômetros que se revelaram mais planos e sem maiores dificuldades.

Deserto. A região é a mais seca do país e isso fica bem evidente na paisagem. Fauna e flora quase inexistentes. Pelo caminho também é possível observar letreiros à beira da estrada que informam sobre a zona arqueológica que compreende as misteriosas e igualmente famosas linhas e figuras de Nasca. Vários aviões de pequeno porte sobrevoam a área em uma altura relativamente baixa para apresenta-las aos turistas com uma situação financeira mais confortável, uma vez que o passeio custa de 80 a 90 dólares. E a considerar o número de aviões, muitos são os interessados.

Panamericana: excelente para pedalar.

Zona arqueolóica.

 
Aviões, eles são muitos pela região.

Para quem deseja conhecer os supostos desenhos da civilização Nasca sem despender-se de muito dinheiro, as opções são os mirantes na Rodovia Panamericana (sentido Lima). O primeiro. surge 25 km após a saída de Nasca. Foi preciso subir uma pequena montanha para observar a dimensão das linhas realizadas pela civilização. Neste local não existem figuras, por isso não crie expectativas em vê-las aqui. Interessante mesmo é imaginar o significado que a antiga civilização atribuía a essas “obras” que continuam a resistir ao tempo. Aqui não é preciso pagar nenhuma taxa e também não existe controle, apenas placas que alertam para não pisar nas linhas. Um guia que estava no local me informou que metros à frente se encontrava o mirante de onde era possível ver duas figuras. Este era o que eu esperava, fui a sua direção.

Lineas de Nasca visualizadas no primeiro mirante.

Lineas de Nasca.

 
Lineas de Nasca.

  
Registro garantido!

O segundo mirante não está longe do primeiro ponto de observação, menos de um quilômetro, ainda na Panamericana. No local é preciso pagar apenas dois soles para subir à torre metálica de onde é possível ver duas figuras; Las Manos e El Arbol. Os desenhos, ainda que visualizados do mirante, são no mínimo curiosos e sem dúvida vale uma parada rápida para conhecê-los. Fiquei alguns minutos no local antes de voltar a pedalar. Aqui encontrei um casal de Curitiba com quem conversei um pouco. É sempre interessante encontrar com viajantes brasileiros.

Mais um lugar conquistado.

À frente, no lado esquerdo da rodovia, o segundo mirante.

 
Mirante. Apenas 2 soles para observar as figuras.

 
Las Manos.

 
El Arbol.

 
Panamericana vista do alto do mirante.

De volta à Panamericana as surpresas não param. Agora elas acontecem em razão das áreas verdes que surgem em meio ao deserto. Geralmente são povoados que, apesar do clima da região, fazem uma inteligente utilização da irrigação na agricultura, sobretudo, para o cultivo das mais diversas frutas. 

Descida é sempre bem-vinda.

O contraste em meio ao deserto.

 
As belezas pelo caminho.

Com pouco mais de 50 quilômetros pedalados, uma parada em Palpa para almoçar. Com a proximidade do Oceano Pacífico, não é difícil encontrar restaurantes que ofereçam frutos do mar no cardápio, contudo, o preço também é salgado e isso me obriga a escolher o menu tradicional, também não muito barato, 7 soles. Sopa e macarronada estavam deliciosas. 

Chegada à Palpa.

 
Tallarin. Até na macarronada a batata está presente.

Algo que ainda não mencionei, mas que acontece na maioria dos restaurantes no Peru é o fato de servirem “gratuitamente” uma bebida para acompanhar a refeição. Geralmente é um copo de chá quente (mesmo quando a temperatura ambiente está alta) ou ainda um refresco (suco bem fraco), mas que mesmo assim é bem-vindo e acaba sendo uma forma de economizar, já que não é preciso gastar com outras bebidas.

Após o almoço surgiram algumas subidas mais fortes. A primeira foi logo após a saída de Palpa, apesar de íngreme, sua extensão não passa dos dois quilômetros, bem tranquila. No entanto, dez quilômetros depois, apareceu um aclive que não estava nos meus planos, cinco quilômetros de pura montanha com aquelas típicas curvas que por meses fizeram parte do meu cotidiano na Cordilheira dos Andes. 

Região de Palpa

Da série: Coisas que a gente encontra pelo caminho.

Subida. Repare na "casinha" no alto da montanha (lado esquerdo), eu deveria pedalar até aquele local.

Subida em pleno deserto.

Cinco quilômetros de aclive para relembrar as Montanhas dos Andes.

 
In foco.

No final da subida. A "casinha" bem mais próxima.

A forte subida deixa outro raio quebrado na roda traseira. Espero que aguente sem mais quebras até Lima onde finalmente trocarei todos os raios velhos. Avançar os cinco quilômetros de subida não foi fácil, além do trecho íngreme, o vento contra também apareceu. O senhor Pedro, recepcionista da Pousada Guadalupe havia me alertado sobre o vento, inclusive, chegou a orientar que eu começasse a viagem o mais cedo possível para evita-lo. Agora eu sabia o porquê deste aviso. Paciência!

Após a subida, um trecho com descida e logo depois algumas subidas moderadas. Com 75 quilômetros pedalados finalmente as montanhas ficam para trás e o que vejo no horizonte é somente a Panamericana em uma longa reta. Após esse trecho somente deserto e nada mais, sinistro.

Última parte com as montanhas ao redor.

Rodovia Panamericana e o deserto. Nada mais.

Eu pedalava bem tranquilo desde o começo do dia, mas com vento contra do período vespertino meu ritmo ficou bem comprometido e avançava com muita dificuldade, por vezes a velocidade média não superava os 10 km/h. O problema é que eu tinha muitos quilômetros para pedalar e pouco tempo com claridade. Cogitei parar em algum povoado para acampar, no entanto, os quilômetros e minutos passavam e nenhuma alma apareceu pelo caminho. Apenas deserto.

Eu não tinha muita água, mas seria suficiente para cozinhar caso eu realmente tivesse que montar acampamento no meio do nada. No entanto, resolvi que essa seria a minha última alternativa. Resolvi pedalar até Ica na escuridão. Isso significava ficar na estrada até às 22 horas aproximadamente, já que faltavam mais de 40 km quando o pôr-do-sol, fantástico, diga-se de passagem, aconteceu por volta das 18 horas. 

Magnífico pôr-do-sol.

Como eu preparei meu psicológico para pedalar de noite, não ligava mais para o fato de não aparecer nada pelo caminho. Consegui racionar a pouca água e avançava com a música no fone de ouvido. O pedal estava tranquilo apesar da temperatura ter despencado com o começo da noite e o vento contra que me obrigaram a colocar a jaqueta corta vento. No mais, o acostamento me oferecia uma boa segurança, sem falar que a minha lanterna iluminava bem o caminho. 

Os quilômetros passaram noite adentro quando surgiu uma cidade imensa no horizonte, seu tamanho era perceptível pela enorme área iluminada no deserto. Só poderia ser Ica que tem mais de 300 mil habitantes, no entanto, na minha planilha ainda faltava muito para a cidade chegar, então naquela hora eu já não entendia mais nada. Sei que apareceu uma descida que foi muito bem-vinda e na sequencia entradas para distritos pertencentes à Ica e aquele monte de luzes que eu enxergava. Todavia, esses povoados não ficam às margens da rodovia e assim eu continuava com o plano de terminar o dia apenas em Ica.

Após muito tempo de pedal sem aparecer nada às margens da estrada, finalmente civilização. Cheguei a um vilarejo no distrito de Santiago. No local perguntei a um jovem sobre a distância para Ica. Ele não soube responder com precisão, mas recomendou que eu acampasse na pracinha da vila, disse que era seguro e tudo mais. Apesar da aparente boa intenção do rapaz, suspeitei e resolvi seguir meu caminho.

Pedalei poucos metros e enquanto observava a “pracinha” recomendada para o camping, sou abordado por um senhor que me cumprimenta e faz as perguntas que sempre tenho o prazer de responder. Durante a conversa ele faz a mesma sugestão do rapaz anterior, me disse para montar acampamento. Garantiu ser seguro e inclusive uma família de cicloturistas da França já havia pernoitado no local. 

Não sei por que, mas eu ainda não estava convencido de ficar no lugar. Pensei bastante antes de decidir algo.  O senhor ao perceber minha indecisão resolveu me convidar para montar o acampamento no quintal da sua casa que ficava ao lado da tal praça. Perguntei se não atrapalharia e com a sua resposta, aceitei o convite. Já era bem tarde, quando olhei o velocímetro já era 20h15m. Ica estaria somente há 25 km deste local.

César era o nome do senhor que ofereceu o quintal de sua casa. No local fui muito bem recebido por toda a família. Ganhei água e um prato de comida, arroz e frango ensopado. Estava uma delícia, agradeci muito pela hospitalidade. Conversei bastante com o pessoal e após a refeição comecei a montar acampamento. Em poucos minutos minha residência estava pronta e meu sono garantido.

Dia finalizado com 125,60 km em 10h06m e velocidade média de 12,41 km/h.

20/10/2012 - 104° dia - Santiago a Pisco

A noite foi tranquila no acampamento. 

Acordei por volta das 5 horas da manhã e logo comecei a desmontar a barraca e guardar as coisas. Por incrível que pareça fiz tudo muito rápido e em menos de uma hora eu já estava preparado para seguir viagem. Fazia a última checagem na bicicleta quando a mãe do César chegou com um prato de arroz, omelete e uma xícara de chá, disse que era para eu começar bem o dia. Agradeci imensamente pela hospitalidade que me deixou bem emocionado. Toda a situação me fez lembrar a música Simplicidade do Patu Fu: Vai diminuindo a cidade / Vai aumentando a simpatia / Quanto menor a casinha / Mais sincero o bom dia.

Hora de acordar e desmontar acampamento.

Acampei no quintal desta casa à esquerda. Do outro lado fica a tal "pracinha".

Após a refeição me despedi do pessoal e fui para a estrada às 06h10m. Objetivo, chegar à Pisco, cidade estratégica para conhecer a Reserva Nacional de Paracas. No entanto, eu precisaria pedalar mais de 100 quilômetros. Parte desta distância foi percorrida sem maiores dificuldades na parte da manhã.

O trecho entre Santiago e Ica é relativamente tranquilo e plano em quase sua totalidade. Pelo caminho, muitas áreas destinadas ao cultivo das mais diferentes frutas. Segundo os vários letreiros na frente das propriedades, a fruta produzida aqui é saudável e por isso o ingresso de qualquer fruta está extremamente proibido para evitar possíveis contaminações. Atitude compreensível. 

In foco.

Com 25 quilômetros pedalados finalmente a chegada à grandiosa cidade de Ica. Logo após a placa de boas vindas há um caminho que segue para Ica e outro (à esquerda) que vai à Lima. Lógico que peguei a direção para a capital peruana. No entanto, não escapei de passar pelo extenso perímetro urbano de Ica. Foram mais de dez quilômetros pelo município em um trânsito bastante movimentado. Essa área tem muitas opções de hospedagem e também postos de combustíveis, aproveitei e parei na pretensão de comprar água. Com a temperatura mais elevada, o “motor” consome ainda mais esse precioso liquido, portanto, é bom não deixar faltar.

Chegada à Ica.

Plantações por todos os lados.

A incrível arte de plantar com sucesso em plena região desértica.

In foco.

Mais um pouco e chegarei na capital peruana.

Panamericana, eu pedalei por ela.

Quanto mais eu pedalava maior era a ansiedade para encontrar o Oceano Pacífico, após Ica o ambiente praiano fica ainda mais nítido; muito calor, areia por todos os lados na rodovia, coqueiros no horizonte e pessoas com poucas roupas, faltava apenas o mar, nada mais. O vento contra apareceu para garantir a maresia e deixar o avanço do pedal mais lento por volta do meio dia. Com o esforço físico o corpo pediu mais energia e a fome era cruel e insaciável. Além do café da manhã reforçado, havia comprado pão e frutas na região de Ica e ainda assim continuava com fome. Vários pacotes de bolacha não foram suficientes nem mesmo para enganar o estômago. 

Esse contraste é simplesmente sensacional.

Faltava somente encontrar o Pacífico.

Na estrada!

Os quilômetros passaram e nada de restaurante. Após Ica são poucos povoados pelo caminho. E aqueles existentes não oferecem muita estrutura para o viajante. Sem opção, resolvi seguir sem almoçar. Negócio foi encarar o vento de barriga “vazia” com uma e outra parada para degustar as energéticas bolachas recheadas. Que diferença elas me fazem em situações como esta. Acho que é mais fácil esquecer de comprar água do que sair para pedalar sem ter uma reserva de galletas no alforje. 

A Panamericana continua plana e as poucas subidas existentes são tiradas de letra, essa é a parte boa de ter enfrentado subidas quilométricas por meses nos Andes. Por volta das 4 horas da tarde chego ao trevo de acesso à Paracas (12 km da rodovia principal), onde fica a Reserva Nacional que leva o mesmo nome. Eu poderia ter parado neste local, mas resolvi seguir para Pisco onde o guia/livro disse ser o ponto de partida para conhecer a Reserva. Adelante.

Trevo de acesso à Paracas.

De Paracas a Pisco foram mais quinze quilômetros que custaram a passar por causa da minha fome que continuava e o vento contra que era arrasador. Em todo caso, o trevo para Pisco apareceu, no entanto, ainda tive que pedalar por mais cinco quilômetros para chegar ao centro da cidade. A surpresa foi pedalar todo esse trecho por uma ciclovia, a primeira em território peruano. Boa iniciativa das autoridades locais. 

No perímetro urbano de Pisco, ainda na Panamericana.

Ciclovia em direção ao centro de Pisco.

No centro de Pisco começo a peregrinação em busca de hospedagem econômica, afinal, eu vou permanecer de dois a três dias na cidade, por isso, quanto mais barato melhor. O problema foi justamente este, achar um local com ótimo custo x benefício. No primeiro da lista, a diária estava 25 soles, com banheiro privado e televisão a cabo, mordomias que não faço questão de ter. Sem chance de desconto. Fui procurar outras hospedagens e me espantei com o preço, de 30 a 50 soles, lugares simples e sem nenhum luxo. Tive que retornar ao primeiro local, Estancia de Diego bem próximo à Plaza de Armas. 

Devidamente hospedado fui ao centro procurar maiores informações para fazer o passeio à Reserva Nacional de Paracas. Nas proximidades da praça principal fui abordado por um funcionário de agência de turismo que perguntou se eu estava interessado nos passeios da região. Respondi que apenas gostaria de algumas informações. Fomos à agência na praça e soube tudo o que precisava. O transporte até Paracas mais o passeio, somente à Reserva, com guia, custaria 25 soles, seria o dobro caso eu resolvesse fazer também a visita para as Islas Ballestas, outro ponto turístico da região. 

Pensei, pensei e resolvi fazer o passeio. Deveria estar às 07h15m da manhã seguinte para pegar o ônibus da agência que levaria até Paracas. Como eu não faria o tour pelas Islas Ballestas, eu teria duas horas para caminhar pela cidade (leia-se orla de Paracas) até o pessoal voltar do passeio pelas ilhas. 

O Victor, dono da agência de turismo (Aprotur Pisco) ainda me recomendou e levou para conhecer uma hospedagem mais barata e com wi-fi. A Pousada do Gino fica uma quadra atrás da minha atual hospedagem. Preço da diária no quarto com banheiro privado é o mesmo, 25 soles, contudo, o dormitório compartilhado custa apenas 15 soles e quase não tem hóspedes. Acho que depois de expirar minha diária na Estancia Diego vou para a pousada, vamos ver.

O pessoal da agência ainda me indicou um restaurante para jantar, afinal eu estava morto de fome. No local meu pedido foi o já conhecido Lomo Saltado, a diferença é que desta vez não tinha sopa, no entanto, para compensar, o prato estava muito caprichado, bastante arroz, carne frita com cebola e batata frita, uma delícia. Custou 7,50 soles, um pouco mais caro que o padrão, mas valeu a pena. Infelizmente estava sem a câmera fotográfica e não registrei essa maravilha.

Na volta para a hospedagem eu ainda parei em uma lanchonete para pedir uma espécie de X-Egg. Desde Nasca bateu uma vontade de comer sanduiche. Então pela primeira vez em toda a viagem resolvi saborear uma hamburguesa, forma como os lanches são chamados aqui. Custou 2,50 soles e estava muito bom. Aprovado.

No hostal fui dormir por volta das 22 horas e coloquei o celular para despertar às 5 da madrugada para não perder de jeito nenhum o ônibus até Paracas.

O dia foi finalizado com 113,85 km em 9h30m e velocidade média de 11,97 km/h.

21/10/2012 - 105° dia - Pisco (Folga) - Reserva Nacional de Paracas - Islas Ballestas

Oceano Pacífico! Um mês em território peruano!

Que dia inesquecível! Após cinco anos, estou novamente diante do Oceano Pacífico. Muita, mas muita emoção mesmo. Meu reencontro com o mar foi em grande estilo. Surpresas marcaram minha visita à Reserva Nacional de Paracas.

Madruguei outra vez. Às cinco horas da manhã eu já preparava meu desayuno para fazer o passeio à Paracas com a barriga cheia. Local turístico é aquela história, qualquer coisa para comer custo no mínimo o dobro do preço. Por isso, o melhor a fazer é ir precavido. Assim, devorei os pães integrais que comprei na noite anterior. Aproveitei e degustei algumas bolachas também, sem esquecer de reservar quatro pacotes para levar.

Às 7 horas da manhã eu estava na frente da agência de turismo. Quinze minutos depois o ônibus apareceu na hora marcada. Vários turistas já se encontravam no interior do veículo que ainda passou em algumas hospedagens para buscar outras pessoas. No total deveria haver vinte turistas e eu era o único que não conheceria as Islas Ballestas. Isso me deixou com uma “pulga” atrás da orelha. Pensei que eu poderia deixar de conhecer algo imperdível por 25 soles. Então resolvi perguntar para o guia se ainda era possível fazer o passeio. A resposta positiva me deixou bem animado. Neste momento, para completar minha felicidade, estávamos às margens do Oceano Pacífico em Pisco. Que sensação maravilhosa! Difícil expressar por palavras o que é chegar aqui após tanto tempo de viagem. É meu presente de aniversário que acontece amanhã.

Existe um caminho costeiro que vai de Pisco à Paracas, até então eu desconhecia esse trajeto, mas fica a dica. O asfalto parece não estar nas melhores condições, mas acho que é tranquilo pedalar pelo local. O trecho entre as cidades deve ser de aproximadamente 15 quilômetros.

Chegamos em Paracas às 8 horas da manhã e seguimos direto para o porto onde as lanchas aguardam os turistas. Há um posto de controle onde é preciso pagar 6 soles para embarcar. Já na lancha, bastou esperar os passageiros se acomodarem, colocar o colete salva-vidas e partir em direção às Islas Ballestas.

Primeira foto do Oceano Pacífico. Praia de Paracas.

Área de embarque para visitar às Islas Ballestas.

  
Região portuária de Paracas.

  
In foco.

 
In foco.

 
In foco. 

As Islas Ballestas estão há cerca de 25 minutos da costa. Constituída por várias ilhas e suas mais diferentes formações, o local abriga milhares de aves, leões e lobos marinhos e ainda pinguins. A diversidade e quantidade destes animais se justificam pela riqueza de alimentos do lugar. Neste ponto a famosa corrente de Humboldt se faz presente e explica a preferencia animal. 

Logo no começo do passeio somos surpreendidos por golfinhos à beira da lancha. Sabe aquelas típicas cenas de filmes onde esses maravilhosos animais acompanham os barcos. Então, foi algo bem parecido. Os motores da lancha foram desligados em certo momento e o silêncio tomou conta do ambiente, todos estavam em clima de suspense para adivinhar em qual parte seria a próxima exibição dos golfinhos e a chance para fotografa-los. Não é fácil registra-los, mas com certeza o momento ficará guardado na memória. Que espetáculo da natureza.

  
Golfinhos, a primeira surpresa do passeio.

 
Excelente reencontro com o Oceano Pacífico.

O tempo estava bem nublado, mas como eu pensei que a temperatura aumentaria durante o dia, acabei por não levar casaco e passei um frio e tanto na lancha com motor de 400 HP de potência, imaginem a velocidade. No entanto, o frio não foi nada perto das belezas que estariam por vir. 

Uma das várias lanchas em direção à Ballestas.

Curiosidades pelo caminho.

In foco.

Pelicanos peruanos a mil por hora.

In foco.

Pelo caminho encontramos o enigmático Candelabro, mais um geoglifo famoso na região. Este, no entanto, não é atribuído à civilização Nasca. Na verdade sua construção também segue um mistério, existem hipóteses de que seria realizado por piratas ou pela civilização de Paracas há centenas de anos. Em todo caso, mais um desenho misterioso e interessante de observar.

Candelabro

Candelabro - Paracas

Minutos depois estávamos diante das Islas Ballestas, simplesmente um dos lugares mais fantásticos desta viagem. O local é todo protegido e não é possível desembarcar nas ilhas. Mas isso não é nenhum problema, já que mesmo da lancha podemos observar seus vários habitantes. Milhares e milhares de aves migratórias, que estão apenas de passagem. Encontramos diversos pelicanos peruanos, pinguins e leões marinhos. Um verdadeiro espetáculo da natureza. Ainda bem que resolvi fazer o passeio de última hora, caso contrário teria deixado de conhecer essa maravilha de lugar.

Pelicanos peruanos.

Chegada às Islas Ballestas.

A diversidade nas Islas. Leão-marinho e Pinguins de Humboldt

Além da diversidade de animais, o curioso de Ballestas são as formações das ilhas, muitas com arcos que permitem até mesmo que a embarcação passe por baixo da estrutura, simplesmente incrível. O passeio é imperdível, recomendo. 

Islas Ballestas

Islas Ballestas

Islas Ballestas

Islas Ballestas

Islas Ballestas

Islas Ballestas

 
In foco.

 
Pinguins de Humboldt

Como as Islas Ballestas são pequenas, o passeio não é rápido, para a felicidade geral, assim é possível observar, ainda que dentro da lancha, boa parte da fauna do local. Em alguns momentos somos orientados a tomar cuidado com aquilo que vem do alto. (risada sacana) Afinal, são milhares de aves que sobrevoam a região e não seria surpresa ser atingido por algo indesejado.

Milhares de aves.

Leões-marinhos.

 
Pose para fotografia.

 
Pelicanos.

In foco.

 
Área de pesquisa. Acesso bem restrito.

  
A rocha no formato da cabeça de uma ave. Maravilha de natureza!

De outro ângulo..

A reunião da malandragem, rs.

A galera registrando cada momento.

 
In foco.

 
Seria o mapa do Paraná?

 
Uma soneca para descansar.

 
Macho exibido com sua fêmea ao lado.

In foco.

In foco.

 
Islas Ballestas.

 
Islas Ballestas.

 
Pinguins de Humboldt

 
Pinguins de Humboldt

In foco.

In foco.

Aves por todos os lados.

Islas Ballestas

Leões-marinhos

Reserva Nacional Islas Ballestas.

A gaivota e os leões-marinhos.

 
Islas Ballestas

 
Islas Ballestas

  
Yo versão sem barba, rs.

Após a volta pelas ilhas está na hora de regressar ao porto de Paracas. Foi mais vinte minutos de congelar o corpo, sorte que o colete salva-vidas ajudou a proteger um pouco do vento. Mas nada que me deixasse menos feliz pelo momento inesquecível da oportunidade única de conhecer Ballestas.

Islas Ballestas

Até uma próxima visita. Islas Ballestas, recomendo a todos.

Chegada à Paracas.

Novamente na zona portuária.

Na volta à Paracas o grupo se separou e muita gente ficou “perdida” já que nossos guias não estavam presentes. Com a minha paciência andina nem me preocupei e aproveitei o momento para registrar os pelicanos peruanos na praia. Aqui eles são vários e têm um estilo bem peculiar, as cores e o tamanho do bico chamam a atenção. Eles fazem a festa com a presença dos turistas que entregam comida fresca que alguns pescadores “vendem” para aqueles que pretendem ter um registro fotográfico alimentando o animal. 

In foco.

Praia de Paracas

Praia de Paracas

Pelicanos peruanos.

Alimentação farta.

In foco.

Seduzindo, rs.

In foco.

E o medo de levar uma bicada, rs.

Resolvi voltar ao local onde o ônibus nos deixou no começo da manhã e felizmente encontrei o nosso guia que me informou que sairíamos em 15 minutos em direção à Reserva Nacional de Paracas. Aproveitei esse tempo para retornar à praia e curtir mais a maresia. A orla é bastante movimentada com vários restaurantes e bares, para variar, tudo muito caro.

No horário combinado o ônibus saiu em direção à Reserva que não estava tão próxima assim da área central de Paracas. A primeira parada foi no posto de controle para entrar na Reserva, mais 5 soles desembolsados. Depois fizemos uma pausa bem interessante no Museo Julio C. Tello com muitas informações sobre a região.

Entrada da Reserva Nacional de Paracas.

Centro de visitantes.

 Reserva Nacional de Paracas.

Na sequencia nos dirigimos até a famosa Catedral, um local que já foi mais interessante pela formação rochosa  às margens do Pacífico. No entanto, com o devastador terremoto de 2007, boa parte da estrutura que lembrava uma catedral desabou, mas ainda assim a paisagem é muito bonita. Vale ressaltar que o terremoto também destruiu mais de 60% da cidade de Pisco/Paracas e causou a morte de inúmeras pessoas. O município ainda se recupera do desastre natural mesmo após cinco anos. Estou em uma área onde a terra pode tremer a qualquer momento. Sinistro!

Atual formação da "Catedral"

 Reserva Nacional de Paracas. Encontro entre mar e deserto.

 Após o terremoto de 2007 esse é atual formato da famosa "Catedral".

 
 Catedral antes do terremoto de 2007.

Logo ao lado da Catedral existe uma das paisagens mais marcantes da Reserva de Paracas, trata-se do fenomenal contraste entre deserto e mar. O panorama da praia de Supay é simplesmente magnifico. O vento no local é assustador e a temperatura, mesmo com sol a pino, era muito baixa. Continuava a passar frio somente de camiseta.

Reserva Nacional de Paracas.

Playa de Supay ao fundo. Fascinante encontro entre o deserto e o mar. Maravilha de natureza.

 In foco.

 Presença garantida na Reserva Nacional de Paracas.

Nossa próxima parada foi na Península de Paracas, um lugar onde é observar os pontos norte e sul. Depois fomos levados à Playa Roja que tem o nome devido à cor de sua areia avermelhada em razão dos minérios do Morro Santa Maria que fica logo ao lado. Mais um local curioso e muito bonito da Reserva.

Península de Paracas.

 Playa Roja.

 
 Playa Roja

 In foco.
 Playa Roja e Morro Santa Maria ao fundo.

Nossa última parada foi na Playa de Lagunillas, onde tivemos 1h30m para almoçar e entrar na água (os mais audaciosos, claro!) que não estava tão gelada para o padrão “Pacífico”, o problema era o frio fora d’agua, eu mesmo não arrisquei. Almocei na companhia das espanholas Paula e Beatriz que estão de férias no Peru após trabalharem mais de um ano nos Estados Unidos. Companhia excelente, conversamos e rimos bastante. A refeição, como não poderia ser diferente, custou o dobro do normal, 15 soles no restaurante mais barato. O menu tinha a tradicional sopa e o segundo prato era arroz com marisco. Estava razoável.

Lagunilla.

Lagunilla.

Lagunilla.

Playa de Lagunilla.

Playa de Lagunilla.

Viva el Che.

Arroz com mariscos.

Às 15 horas, retornamos para Paracas onde algumas pessoas desembarcaram e depois seguimos para Pisco aonde chegamos uma hora depois. Passeio imperdível. Mais uma vez, recomendo a todos que passarem pela região, sobretudo, uma visita para as Islas Ballestas. Dificilmente você encontrará um lugar parecido pela América do Sul, quiçá do mundo, sem exagero. Fica a dica.

22/10/2012 - 106° dia - Pisco (Folga)

Feliz aniversário! Parabéns para mim! 

Mais um ano de vida, agora já são 27 anos muito bem vividos, ainda bem.

Eu até fiquei na dúvida se passava o dia especial na estrada ou tranquilo em Pisco. Optei pela segunda alternativa e resolvi aproveitar meu aniversário, mesmo sozinho, aqui na pacata cidade à beira do Oceano Pacífico.

Na parte da manhã me dediquei ao diário de bordo e quando chegou próximo ao meio dia resolvi arrumar minhas coisas e mudar de hotel. Fui para a Pousado do Gino onde escolhi um quarto compartilhado, contudo, fiquei sozinho já que nenhum outro hóspede apareceu, melhor assim, maior privacidade por um menor preço, a diária custou 15 soles e a hospedagem ainda oferece wi-fi. Assim aproveito para atualizar o site.

Na hora do almoço experimentei um dos mais famosos pratos da gastronomia peruana; Ceviche/Cebiche, constituído basicamente de pedaços de peixe (cru), cebola, sal, limão e pimenta. Não é ruim, mas não agradou muito meu paladar, sem falar que não sou muito fã de comida apimentada. Ainda assim valeu pela oportunidade em conhecer melhor a culinária local. Infelizmente não levei a câmera fotográfica e fico devendo o registro.

O Ceviche foi servido como prato de entrada, no lugar da sopa. O segundo prato tinha arroz, salada, batata frita e bisteca. O valor da refeição aqui em Pisco é mais caro e o almoço saiu por 7,50 soles. Mas foi uma alimentação diferente e gostosa, digna de um aniversário. Para a sobremesa, passei em supermercado e comprei um pedaço de rocambole. Acho que mereço algo diferente, pelo menos, hoje.

No período da tarde voltei a escrever no diário de bordo enquanto recebia os parabéns pela internet. Obrigado a todos que lembraram da data e fizeram questão de me mandar uma mensagem de felicidades. Valeu mesmo galera. 

Esse é o primeiro aniversário que passo no exterior e a experiência não é das melhores. Afinal a família e os amigos estão longe e não ganhei nenhum abraço ou parabéns ao vivo e a cores. Nessas horas a saudade bate ainda mais forte. Para ficar mais perto das pessoas amadas, liguei para minha avó, com quem não falava a mais de quatro meses e dela recebi as sábias e carinhosas palavras de sempre. Na sequencia telefonei para a mãe querida, sempre é bom receber amor de mãe, mesmo à distância. Com meu pai eu havia conversado e recebido os desejos de felicidade pelo Skype (mais barato). Meu irmão me deixou uma mensagem na internet, simples, mas de coração. Sei que falar com a família foi um baita presente.

De noite, para comemorar, fui à pizzaria, mas a pizza (que seria presente do meu pai) estava muito cara e achei melhor ir novamente à lanchonete e pedir dois lanches para degustar no quarto da pousada. Foi mais econômico e estava bem gostoso. 

Assim passei meu aniversário. Ano passado eu estava em Florianópolis, Oceano Atlântico, hoje aqui no Pacífico, só quero ver onde estarei no próximo ano. Em todo caso, estou feliz por criar as oportunidades e aproveita-las ao máximo.

23/10/2012 - 107° dia - Pisco (Folga)

Ontem eu não consegui acabar a atualização site e por isso resolvi ficar em Pisco para finalizar essa tarefa. Às vezes, permanecer mais um dia na cidade para realizar novas postagens e compartilhar a viagem faz parte da expedição. 

Pessoal, não hesite em deixar seus comentários  aqui no site. Meu fôlego para escrever não é o mesmo após cem dias de viagem. Portanto, seria bom receber um incentivo para recarregar as energias e continuar a todo vapor com o diário de bordo; relatos e fotos da viagem.

Amanhã retorno à estrada e na quinta-feira devo chegar à Lima, capital peruana.

Aproveito a oportunidade e agradeço aqueles que têm colaborado com a minha vaquinha virtual, ela já está com quase 50% de arrecadação. Se você quer ajudar, basta clicar aqui!

Abraço, camaradas.


24/10/2012 - 108° dia - Pisco a Cerro Azul


Finalmente a Victoria foi apresentada ao Oceano Pacífico.

Antes de começar a relatar os acontecimentos de hoje tenho que voltar à tarde de ontem. Eu mal havia finalizado a atualização no site quando alguém bateu na porta do quarto. Na mesma hora suspeitei que seriam novos hóspedes, afinal, o dormitório era compartilhado. Quando fui abrir a porta, surpresa. Eram três holandesas, cicloturistas. Quase não acreditei, mas era verdade. 

As holandesas desembarcaram em Lima onde ficaram algum tempo e depois pegaram um ônibus até Paracas e finalmente começaram a viagem de bicicleta pela Reserva Nacional de Paracas, seguiram para Pisco e acabaram no quarto onde eu estava hospedado. Fiquei muito bem acompanhado, diga-se de passagem. (risada sacana!) 

Como não poderia ser diferente, as três amigas de Amsterdã seguem à Cusco para conhecer Machu Picchu via Inca Trail, depois Copacabana, La Paz, Uyuni e Sucre (Bolívia). Na sequencia descem para a Argentina. Logo, passei todas as informações disponíveis a respeito do trajeto da região que é basicamente a mesma pela qual pedalei. 

Conversamos bastante e recebi algumas dicas sobre Lima. Infelizmente as notícias sobre a capital peruana não foram as melhores. Não é a primeira vez que ouço relatos de cicloturistas que não gostaram da cidade em razão da grandiosidade urbana, seu trânsito caótico e a terrível poluição. É quase a mesma descrição que eu tinha sobre La Paz, no entanto, a realidade da “capital” boliviana foi bem diferente quando tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente. Desse modo, após visitar Lima, ao vivo e a cores, poderei ter minhas próprias conclusões que certamente serão compartilhadas aqui no diário de bordo.

Acabei por ganhar um presente das holandesas, algo que certamente me ajudará muito. Não sei exatamente como se chama, mas é um “corta-vento” para fogareiro, excelente para ser utilizado em lugares abertos, sobretudo, quando a ventania estiver presente. É uma peça bem prática e leve, perfeita para levar na bagagem. Claro que não deixei de agradecer.

Não demorou muito e o quarto estava virado de ponta cabeça, alforjes para todos os lados, capacetes, roupas, toalhas e tudo que você pode imaginar na bagagem de um(a) viajante sobre duas rodas. Em todo caso, não me importei, o clima estava bem legal, sobretudo, as conversas empolgadas a respeito da região. Também foi interessante saber a(s) história(s) delas: trabalharam muito por quase um ano em um restaurante na capital holandesa e agora tem tempo indeterminado de “férias” aqui na América do Sul. Assim elas investem suas economias. Viajam e conhecem o mundo. Felizmente não tenho feito algo muito diferente nos últimos anos.

Durante a noite de ontem resolvemos sair para jantar. Elas também são econômicas e não se importaram de fazer a refeição no restaurante simples que eu recomendei. No local foi engraçado ver a mulherada devorando a comida. Disseram que há dias não se alimentavam direito. Eu compreendia muito bem todo aquele “desespero” para comer, lembrei-me de quando cheguei à Oruro (Bolívia), faminto, após passar o dia à base de banana, pão e água. (Episódio da ajuda recebida pela Heide, aposto que vocês lembram).

O jantar foi o famoso Lomo Saltado com carne, cebola, batata frita e arroz, uma delícia. Após a refeição as meninas queriam de qualquer forma tomar cerveja. Perguntaram-me sobre a indicação de algum lugar, mas eu desconhecia totalmente. Nos restaurantes mais econômicos dificilmente eles vendem cerveja, pelo menos eu não me recordo de ver bebida alcoólica sobre as mesas. Em todo caso, começamos a busca por algum estabelecimento com cerveja peruana. Caminhamos bastante e finalmente encontramos um restaurante mais sofisticado onde elas fizeram o pedido da esperada bebida. Para acompanhar, solicitei um suco de abacaxi, que por sua vez, estava muito bom. 

Conversamos, rimos um monte e depois retornamos à pousada. Já passava das dez horas da noite e todo mundo estava embriagado de sono. Assim que chegamos cada um capotou em sua cama, afinal, no dia seguinte pedalaríamos logo nas primeiras horas da manhã. 

A noite foi bem tranquila. Hoje, exatamente às 5 horas da manhã o despertador do meu celular tocou e na sequencia me levantei e comecei a arrumar minhas coisas em silêncio já que as holandesas ainda dormiam. Levei toda a bagagem para o térreo, onde estava a Victoria e as outras bicicletas. Aproveitei uma mesa no local e preparei meu desayuno com pão, geléia e suco. Infelizmente descartei o leche evaporada das minhas refeições em razão das temperaturas mais elevadas. Não quero passar mal (de novo) por causa de um leite estragado.

Enquanto eu tomava o café da manhã as meninas começaram a acordar e logo em seguida a arrumarem suas coisas para seguirem para Ica e posteriormente Nasca. Eu já estava adiantado e assim que terminei minha refeição, despedi-me das simpáticas cicloturistas e às 7 horas da manhã deixava a Posada Gino em direção à Rodovia Panamericana, sentido à Lima.

Cicloturistas pela América do Sul.

O tempo estava bem fechado e a temperatura baixa me fez sair com a segunda-pele. Não pensei que choveria porque na região é bem comum o dia começar nublado e melhorar com o passar das horas. 

Demorei cinco quilômetros para chegar novamente à Panamericana. No trevo de Pisco o trânsito estava bem movimentado, uma verdadeira loucura. Incrível como logo cedo as buzinas já ecoam por todos os lados. Haja paciência! Na estrada uma surpresa não muito agradável. O acostamento não está em sua melhor condição e diferente dos dias anteriores, existe a presença de buracos, pedras e areia por alguns quilômetros. Para variar, o fluxo de veículos na rodovia era grande e por isso a situação exigia muita cautela.
Existem vários povoados pequenos pelo caminho, muitos são apenas vilas de distritos, contudo, a produção de frutas continua como uma das principais fontes de renda dos moradores. Muitos hectares dedicados ao cultivo das mais diferentes frutas são encontrados até à cidade de Chincha, uma das maiores da região. Seu perímetro urbano é bem extenso e movimentado. Atenção redobrada na estrada. 

Chegada à Chincha. Sim, esse é o nome da cidade, rs.

Trabalhadores em direção à colheita da alcachofra.

 Alcachofra na região de Chincha.

 Alcachofra.

Em Chincha resolvi fazer algo pela primeira vez na viagem, calibrar os pneus em um posto de combustível. Não deveria ter tomado essa decisão. Não há calibrador digital e assim os pneus foram cheios até eu perceber (manualmente) que estava bom. No pneu dianteiro (Pirelli) foi tudo tranquilo. Mas quando chegou a hora do Kenda, uma desagradável surpresa. Parte do pneu saiu do aro e a câmara de ar começou a aparecer. Com isso a roda travou e tive que desapertar o V-Brake. Pedalei poucos metros para ver como o pneu se comportava e repentinamente um baita estouro. Minha câmera de ar foi para o espaço. 

Parei na frente de um estabelecimento fechado e comecei a tirar todos os alforjes (algo que é sempre trabalhoso) para virar a bicicleta e poder sacar a roda traseira. Felizmente não demorei muito e logo a câmara estava trocada e o pneu bem encaixado e cheio com a minha bomba de ar para evitar novas surpresas.

Terminei o conserto já era quase meio dia e mal tinha completado cinquenta quilômetros, pensei em almoçar, todavia, resolvi esperar um pouco mais e segui em frente. O acostamento continuava sem o padrão excelente dos dias anteriores. Minha torcida era para não furar mais nenhum pneu, duas trocas no mesmo dia é demais para um ciclista. 

Sei que após muito sacrifício finalmente consegui sair da conturbada Chincha, quando isso aconteceu aproveitei um restaurante paralelo a um posto de combustível na beira da rodovia e parei na pretensão de almoçar. Eu era o segundo cliente e apesar do horário, tive que escutar o atendente dizer que a refeição ficaria pronta em 10 minutos. Tudo bem, esperei. Entretanto, esses dez minutos foram quase meia hora. Haja paciência! 

Depois de muita espera a sopa apareceu e foi degustada com calma. Após “limpar” o prato tive que aguardar mais meia hora para receber a segunda parte da refeição (arroz, salada e peixe). E isso só aconteceu porque reclamei da demora, afinal, estava quase uma hora no local que a essa altura encontrava-se lotado. Paciência tem limite. 

Enquanto aguardava o segundo prato, vejo um cicloturista pedalando na Panamericana em direção à Lima, pensei em chama-lo, mas acabei sem fazer nada porque rapidamente sumiu no horizonte. Seria interessante trocar algumas palavras e quem sabe poder pedalar junto. Em todo caso, ele seguiu pela rodovia e eu esperei meu prato que com muito custou chegou à mesa. A comida estava boa e custou 6 soles, mas em razão da demora demasiada, não recomendo.

Almocei e logo em seguida voltei a pedalar, havia perdido um tempo precioso no restaurante. Assim que regressei à estrada tive a surpreendente paisagem do oceano no horizonte que não estava distante. Neste momento apresentei a minha companheira Victoria ao Pacífico, afinal em 2008 no Chile eu estava com a Magrela Guerreira (primeira bicicleta utilizada no cicloturismo). Com as devidas apresentações e registros fotográficos realizados, avante.

Pedalando ao lado do mar.

A Victoria finalmente conheceu o Oceano Pacífico.

Logo após reencontrar o mar e com 50 quilômetros pedalados surge a autopista e finalmente a Panamericana Sul se torna duplicada e o trânsito consegue fluir com mais tranquilidade. O acostamento volta a ficar em excelente estado e com um tamanho fora do comum. Melhor assim, segurança garantida.

Cada vez falta menos para chegar na capital.

Chegar ao Oceano Pacífico pedalando, pela segunda vez, é uma emoção indescritível. Muitas coisas passam pela cabeça. Afinal foram quase 6 mil quilômetros de muito esforço para chegar aqui. Comemorei sozinho. Quer dizer, a Victoria acompanhou meu momento de loucura vibrante. 

Yo e o Pacífico.

 Registro garantido na Panamericana Sul.

 Oceano Pacífico e a Panamericana.

Essa região inicial da autopista é caracterizada por uma peculiaridade, a avicultura. As criações de galinhas estão espalhadas entre a Panamericana e o Oceano Pacífico, algo que deixa a paisagem e o ambiente no mínimo curioso e com um cheiro que lembra algumas partes do oeste paranaense. 

Aviários ao lado do mar.

Após o início da pista duplicada foram dez quilômetros em um trecho plano antes de começarem as subidas, que por sua vez, não chegam a ser aterrorizantes. Na sequencia voltou a ficar “pampa” e bastou pedalar e observar o Pacífico e as várias plantações pelo caminho, milho, frutas, alho, verduras e mais uma variedade de produtos.

Plantações pelo caminho.

 A simplicidade extrema das casas na região do povoado Treból del Pacifico.

 
 In foco.

 Na direção correta.

 Yo e a minha companheira fiel.

Plantações e aviários às margens da rodovia.

 In foco.

Cultivo de alho.

In foco.

O vento estava presente na parte da tarde, mas hoje não era tão forte como nos dias anteriores, isso aliviou bastante e o pedal seguiu tranquilo sem maiores problemas. Resolvi encerrar o dia com cem quilômetros pedalados. Isso aconteceu por volta das 17 horas. Aproveitei o distrito de Cerro Azul pelo caminho e decidi conferir as hospedagens. Logo na avenida principal, próximo da praça, encontrei a Hospedaje Las Gaivotas. Para minha surpresa, a diária custou apenas 15 soles. Com o preço baixo nem precisei olhar o quarto para decidir ficar. Porém, quando fui ao dormitório tive outra surpresa, banheiro privado, televisão a cabo e tudo bem organizado, limpo e novo. 

Autopista e a perseguição contra os ciclistas.

Devidamente alojado, fui tomar um banho e a surpresa desta vez não foi boa, não havia água quente, tive que encarar uma ducha gelada mesmo. Mas nem reclamei, afinal, eu acabara de completar com sucesso mais um dia de pedal, estava bem hospedado, ainda era relativamente cedo e de qualquer forma eu ficaria limpo. 

Após o banho fui procurar um restaurante para jantar. Agora, sempre que possível, faço as três refeições, café da manhã, almoço e janta. Não sei qual é meu peso atual, mas acho que pelo menos eu parei de emagrecer e isso é um ótimo sinal. Achei um local que servia a “cena” por 8,50 soles pelo “Lomo Saltado”, uma das opções do menu. Não estava barato, mas em compensação, bem saboroso. 

Comprei pão em uma mercearia, voltei para a hospedagem e comecei a escrever o diário de bordo. Agora, com a finalização de mais um relato, vou escovar os dentes e dormir. Amanhã quero fazer mais cem quilômetros e na sexta-feira completar o restante para chegar à Lima na parte da manhã.

Hoje o dia foi finalizado com 106,77 km em 7h20m e velocidade média de 14,55 km/h.

25/10/2012 - 109° dia - Cerro Azul a Lima

Dia de fortes emoções.

Nos últimos tempos eu tenho acordado naturalmente por volta das 5 horas da manhã, portanto, achei que hoje meu corpo continuaria a seguir seu relógio biológico e então não ativei o despertador do celular, afinal, não precisava levantar cedo, uma vez que a distância a percorrer seria apenas de cem quilômetros. 

Com todo esse contexto mencionado acima, acordei somente às 6h30m e fiquei surpreso pelo horário tardio, não pretendia dormir tanto, porém, estava bem disposto para encarar outro dia de pedal na Panamericana.

Assim que levantei fui logo arrumar minhas coisas e por último, tomar meu café da manhã que agora é geralmente pão com geléia e suco. Tem sido uma boa combinação, embora eu sinta falta do leite com chocolate, mas na ausência deste, contento-me com o que tenho à disposição, melhor que passar fome. Vários foram os dias que iniciei o pedal apenas com bolachas recheadas, logo, não ouso reclamar.

Fui para a estrada já era quase 8 horas da manhã, dificilmente começo a pedalar neste horário, mas a distância hoje não seria das maiores já que eu havia planejado chegar à Lima somente na manhã do dia seguinte por questões de segurança. 

Diferente de ontem, o tempo não estava nublado e o sol aparecia forte desde as primeiras horas da manhã, consequentemente a temperatura já elevada me obrigou a tirar a segunda pele nos primeiros quilômetros. O trajeto após Cerro Azul foi tranquilo somente nos cinco quilômetros iniciais, depois surgiu uma série de sobe e desce que fez o corpo transpirar mais do que o normal. Acho que esse trecho durou aproximadamente mais 25 km.  

A Rodovia Panamericana continua movimentada, sobretudo, com a presença demasiada de ônibus e caminhões, estes últimos, por exemplo, muitas vezes são acompanhados por batedores em razão das enormes cargas transportadas, algumas delas, no mínimo, curiosas, como pneus de tamanho nada comum e certamente destinados à mineração.

Cargas largas pelo caminho.

 Da série: Coisas que a gente vê pelo caminho.

Ainda neste sobe e desce dos primeiros quilômetros surge novamente o Oceano Pacífico no horizonte, por vezes ele desaparece em razão das montanhas de areia que escondem o infinito azul do mar e transformam a paisagem que volta a ser toda desértica. Mesmo com muita areia e poucas árvores, vários povoados são encontrados pelo caminho. Acredito que a qualidade de vida destas pessoas não seja das melhores. Habitações extremamente pequenas e muito provavelmente sem energia elétrica e água encanada. Um cenário bem parecido com aquele encontrado ontem nas proximidades da vila Trébol del Pacifico. Infelizmente é a realidade local.

 
 Pacífico.

Panamericana sem a visão do mar.

 Lixão à ceu aberto. Vergonha!

 In foco.

A região dos distritos de Ásia e Mala é bastante movimentada às margens da Panamericana. Cogitei almoçar em Mala, mas ainda era cedo e resolvi avançar um pouco mais. No entanto, não encontrei nenhum restaurante nos quilômetros posteriores, em compensação, a paisagem se encarregou de me apresentar uma belíssima formação rochosa ao lado do oceano. Coisa linda de ver.

Ásia.

Formação curiosa em Mala.

No velocímetro o relógio marcava meio dia e meu estômago já mandava um alerta que precisava de comida. Fiquei na esperança de encontrar um restaurante, mas os estabelecimentos encontrados vendiam apenas torresmo. Paciência e avante! 

Eu continuava a me surpreender pelo caminho. A cena inusitada desta vez foi por conta de uma área destinada à plantação de roseiras. Na hora que passei pelo local, trabalhadores faziam a colheita das rosas que independente do seu destino, certamente despertará grandes emoções em muitas pessoas. Claro que registrei o momento, afinal, foi a primeira vez que encontrei algo deste tipo em toda minha vida.

Plantação de roseiras.

In foco.

In foco.

In foco.

Continue em frente e por volta das 13h30m na cidade de Chilca, finalmente achei um restaurante à beira da estrada. Para variar, a refeição não é barata, parece-me que quanto mais para o norte eu vou, maior é o preço da alimentação, infelizmente. O almoço aqui me custou 8 soles, menu tradicional. No segundo prato: arroz, batata, um pouco de salada e peixe frito. Estava bom, tenho que admitir. No final ainda ganhei uma jarra de suco de maracujá bem gelado, uma delícia.

Às 14 horas voltei para estrada, já havia pedalado 70 quilômetros e pelas minhas contas restavam somente mais 30 para encerrar a pedalada em algum povoado às margens do Pacífico. Tudo indicava que meu pernoite seria em Punta Negra, mas cheguei ao local muito cedo, acho que passava um pouco das três horas da tarde e eu não havia atingido nem mesmo 100 quilômetros. O povoado também não me chamou atenção e resolvi tomar uma decisão ousada, seguir para Lima.

Rider presente em território peruano.

E.T

Pedágio na região de Punta Negra.

Colheita de cebola.

A capital peruana estava há quase 50 quilômetros de Punta Negra e então comecei a fazer mais cálculos para saber a possibilidade de chegar ainda com claridade na cidade. Mesmo com a pedalada em um ritmo razoável, na casa dos 20 km/h, eu teria que enfrentar dois obstáculos: a escuridão e o horário de maior movimento no caótico trânsito de Lima, um dos mais conturbados da América do Sul.

O que fazer diante do assustador cenário que me aguardava nas ruas da capital? Manter e calma e seguir em frente com muita atenção. Avançava sem maiores dificuldades. Na beira da estrada havia uma marcação decrescente da quilometragem, deduzi que seria a distância restante para chegar à Lima. Deste modo, continuava o pedal em um ritmo bem maior do que estou acostumado. Na verdade, meu maior receio era com a escuridão. Não queria pedalar muito de noite pela ausência da minha lanterna traseira, quebrada antes de chegar à Nasca. 

Conforme a quilometragem aumenta no velocímetro, maior é o fluxo de veículos pela região metropolitana de Lima. A autopista que havia duas vias em cada lado da estrada passou a ter três e não demorou muito, quatro faixas para suportar o trânsito. Eu seguia tranquilo e em segurança pelo acostamento até começarem as perigosas entradas/saídas da Panamericana. Nestas ocasiões termina o acostamento e qualquer ciclista se vê totalmente desprotegido com veículos em alta velocidade por todos os lados. Mantive a paciência e utilizei toda minha experiência para superar a situação. 

Região Metropolitana de Lima.

 Trânsito cada vez mais "pesado".

E o acostamento sumiu!

Entre os veículos eu sinalizava com os braços, minha passagem, mudança de faixa ou volta para o acostamento. Na maioria das vezes os motoristas respeitavam e diminuíam a velocidade para meu avanço. Uma vez ou outra eu era obrigado a esperar uma brecha para realizar alguma travessia mais arriscada. Com aquela antiga frase; sorrir para não chorar, eu dava risada em meio ao caos sempre que algum carro, ônibus ou caminhão tirava uma fina da Victoria. Comemorava sozinho quando passava por uma situação mais tensa.

No ápice da hora do “rush”, o cenário na Panamericana era realmente assustador. Eu procurava manter a calma, mas não conseguia mais rir da situação que ficou extremamente tensa para um ciclista. Quando percebi estava diante de um trânsito bem parecido com aquele de São Paulo. Pelo caminho, eu perguntava constantemente para pedestres e motoristas sobre a direção correta para o centro de Lima. A informação que eu recebia era para continuar na Panamericana e seguir até o distrito de Acho onde deveria pegar a Avenida Abancay para chegar ao meu destino.

Aquela distância decrescente à beira da rodovia estava relacionada ao final da Panamericana Sul e consequentemente com o começo da parte Norte por onde pedalei mais de cinco quilômetros antes de chegar ao trevo de Acho. Já estava totalmente escuro e confiava nas faixas refletivas do alforje traseiro para ser visualizado pelos veículos, sobretudo, nas entradas e saídas que apareciam frequentemente pelo caminho.

Uma das maiores dificuldades era passar pelas paradas de ônibus, onde não raramente a bagunça é generalizada, principalmente por causa das vans que disputam espaço e passageiros com os ônibus. Nestes locais eu tinha que ficar espremido entre os veículos até desafogar o trânsito. Não havia muita alternativa. 

Manter a calma é fundamental para não cometer pequenos erros que podem ocasionar em grandes problemas. Apesar de todo o caos, mantive o controle para avançar com uma relativa segurança. Ciclista e motorista não são adivinhas, portanto, sempre sinalizava minha passagem que era respeitada em meio de milhares de veículos. 

Finalmente cheguei ao trevo de Acho e consegui sair da Panamericana. Claro que eu tive que perguntar dezenas de vezes sobre o caminho correto, pegar uma direção errada a essa altura seria um erro gravíssimo. Quando não aparecia pedestre eu pedia informação aos motoristas parados pelo trânsito congestionado. Fui sempre bem informado na medida do possível.

Após a saída da Panamericana eu já estava na Avenida Abancay, não menos movimentada do que a rodovia anterior. Mas por sorte eu não precisei pedalar muito por ela e logo estava na região do Centro Histórico de Lima. Como eu não havia cogitado chegar hoje na capital, não tinha idéia de onde ficaria hospedado. Em todo caso, pedi informação sobre como chegar à Plaza de Armas, a principal da cidade. Fui em sua direção e não encontrei hospedagem barata pelas movimentadas ruas e avenidas. O que fazer?

Resolvi parar e recorrer ao meu guia/livro. A hospedagem mais econômica indicada pelo guia custava 28 soles, maior valor em território peruano até o momento. Sem muita opção, fui procurar o local que se ficava próximo à Plaza San Martin, que por sua vez, não era muito perto de onde eu estava. Novamente, pergunto dezenas de vezes para encontrar a tal praça. Sigo por algumas ruas estreitas, porém não menos movimentadas e pelo seu tamanho tenho que me espremer ainda mais entre os carros.

Na Plaza San Martin (referência que eu tinha) pergunto sobre como chegar na Avenida Nicolás de Pierola, local onde ficava a Pensión Familia Rodriguez. Para a minha felicidade achei facilmente a hospedagem (às 20h00m), mas somente por causa da numeração, não há letreiros ou qualquer coisa parecida. Agora eu tinha que torcer para ter uma cama disponível. No guia dizia que o lugar era bastante agradável e limpo, ambiente familiar, mas tinha apenas 4 dormitórios. Fiquei na expectativa.

A pensão fica no primeiro andar de um dos prédios históricos da avenida. Com a porta principal aberta, entrei e pelas escadas fui em direção ao apartamento. Toquei a campainha e esperei alguém me atender. Uma senhora apareceu e disse que havia apenas dormitórios compartilhados e o preço da diária era de 30 soles. Quando perguntei onde poderia deixar a bicicleta surgiu a dúvida cruel. A senhora pediu para eu descarregar e subir minha bagagem que logo depois o proprietário chegaria ao local e diria onde eu poderia deixar a bicicleta em segurança.

Fui obrigado a tirar todos os alforjes. E para a minha surpresa, quando levei a última bagagem para o quarto, a senhora pediu para subir a bicicleta também. Não entendi a mudança repentina de decisão, mas definitivamente era melhor do que deixar, ainda que trancada, no saguão do prédio.

Na pensão deixei a Victoria em um corredor ao lado do quarto, este, por sua vez, tinha mais três hóspedes, um japonês, um cubano e um belga. Cumprimentei o pessoal, deixei minhas coisas na cama e fui direto para o banho. O banheiro é realmente bem limpo e com água quente disponível. Que maravilha! 

Na hospedagem há ainda wi-fi e café da manhã disponível. Logo, apesar do preço, vale a pena já que economizo com a refeição matinal e aproveito a internet para realizar a atualização do site sem precisar gastar com lan house. A senhora Margarita que me atendeu inicialmente, entregou-me um mapa do centro da cidade com suas principais atrações e informou onde havia restaurantes e supermercados. Atendimento de primeira. Gostei!

Questionei à dona Margarita sobre a existência de bicicletaria nas redondezas, ela pensou, pensou e não soube me responder, mas pediu para aguardar o proprietário, o senhor Rodriguez, que provavelmente saberia me indicar um local. Eu precisava trocar os raios da roda traseira e também a corrente que aguentaria mais seis mil quilômetros, contudo, o pessoal da bicicletaria do Lírio em Marechal C. Rondon me recomendou troca-la para fazer o restante do grupo aguentar mais do que 15 mil quilômetros, marca alcançada pelo meu antigo grupo Alivio.

Eu estava com fome e após tomar banho fui procurar um lugar para jantar. No prédio ao lado há um restaurante onde a janta saiu por 7,50 soles. A média do preço da refeição nesta região do país. Cardápio parecido com aquele do almoço, filé de peixe. Estava muito bom.

De volta à hospedagem, encontrei o proprietário e perguntei sobre as bicicletarias da região. Ele não lembrou de nenhuma, mas prometeu informar-se melhor e me dar uma resposta na manhã seguinte. Desse modo, fui ao quarto para finalmente descansar, o dia foi extremamente longo. 

Dia finalizado com 147,39 km em 9h25m e velocidade média de 15,62 km/h.

26/10/2012 - 110° dia - Lima (Folga)

Dia dedicado a conhecer o centro histórico da capital peruana.

Também aproveitei para trocar algumas peças da Victoria.

Noite tranquila. Acho que aos poucos consigo lidar melhor com essa situação de compartilhar o dormitório com mais pessoas. Desta vez não tenho nenhuma queixa com roncos e/ou conversas durante a madrugada. Realmente ocorreu tudo bem.

Acordei às 6h30m e fiquei na cama. O corpo estava um pouco cansado, afinal, o dia de ontem não foi fácil. Uma hora depois o desayuno começou a ser servido na copa da pensão. Dois pães franceses, geléia e margarina. Para acompanhar, suco natural de mamão e chá. Um café da manhã bastante caprichado. Aprovado. 

No quarto eu verificava meu e-mail quando o senhor Rodriguez me chamou e no mapa da região apontou onde eu poderia encontrar as bicicletarias para fazer a reposição das peças. Agradeci pela atenção e na sequencia fui conferir se o local realmente realizava o serviço que eu desejava. Saí a pé e sem a Victoria, o lugar não ficava muito longe da pensão caso eu tivesse que voltar para buscar minha companheira.

Com o mapa em mãos, encontrei facilmente o lugar recomendado, na verdade trata-se de uma enorme área destinada somente para lojas e oficinas de bicicleta. Lugar que todo ciclista gosta de estar, mesmo que seja apenas para observar as novidades do mundo do pedal. No entanto, meu objetivo era outro, primeiramente arrumar um lugar para trocar os raios. Felizmente aqui são várias as opções e combinei com um mecânico para realizar o serviço na Victoria. Em outra loja verifiquei o preço da corrente e fiquei na dúvida se realmente fazia a troca ou esperava mais um pouco, afinal custava 35 soles. Procurei pelo pneu Pirelli, mas não encontrei em nenhum lugar. Fiquei tentado a comprar um par de Kenda 1.75, por 40 soles, mas achei muito dinheiro e resolvi esperar os pneus atuais ficarem mais gastos. 

Mercadão das bicicletas.

Oficinas.

Voltei à hospedagem, peguei a minha companheira e retornei à bicicletaria na Avenida Emancipación. O mecânico com quem havia combinado o serviço estava ocupado e delegou o trabalho ao mecânico Luiz de uma oficina ao lado. Achei legal esse companheirismo, em outro lugar o atendente pegaria o serviço mesmo que entregasse horas mais tarde. 

A Victoria ficaria pronta em uma hora. Aproveitei esse tempo para almoçar. No galpão onde as bicicletarias estão instaladas também existe um restaurante. Fiz a refeição neste local por 6 soles. Sopa e pescado no segundo prato, comida simples, mas gostosa. 

Um marisco perdido na sopa, rs.

Após o almoço fui ver se a bicicleta estava pronta, mas ainda faltava centrar a roda. Aproveitei o tempo livre para andar mais um pouco pelo local. Encontrei uma lanterna traseira por 8 soles, achei melhor comprar uma nova e garantir maior segurança em um possível pedal noturno. O suporte da minha antiga lanterna está quebrado e a cola para fazer a gambiarra custa 5 soles, por isso achei melhor adquirir um produto novo. 

Na oficina o Luiz termina de centrar a roda traseira, faz a troca da corrente e me avisa que eu teria problemas com algumas marchas porque a catraca estava bem gasta em determinadas partes. Então aproveitei a ocasião e com muita dor no coração, desembolsei mais 40 soles e comprei uma peça nova que logo substituiu a antiga. Pelo menos a Victoria está novamente preparada para encarar mais um bom trecho de estrada. A mão de obra custou 12 soles. Toda a brincadeira me saiu por 95 soles, equivalente a 80 reais. Espero ter sido um bom investimento. 

Voltei para a pensão, guardei a bicicleta e logo em seguida retornei às ruas para conhecer melhor o centro da cidade. Lima é enorme e com todas as características de uma capital. Muitos carros, milhares de pessoas e as mais variadas lojas por todas as partes. Também têm suas particularidades, a região do centro histórico tem uma arquitetura que é herança dos espanhóis. Os prédios coloniais são belíssimos e muito bem preservados e sem dúvidas encantam aqueles que gostam e admiram construções antigas. 

Como estou hospedado no centro histórico, não precisei caminhar muito para chegar à Plaza San Martin e na sequencia andar pelo extenso calçadão Jirón de la Unión que segue para a Plaza de Armas. Muitas lojas, restaurantes, cassinos, hotéis, e tudo o que você imaginar é possível encontrar nesta parte da cidade. Infelizmente aqui também existem as drogas. Por mais de uma vez me ofereceram a tal “marijuana” durante a caminhada pelo calçadão. Às vezes a abordagem começa com a simples oferta de algum serviço e na sequencia perguntam se você procura a droga. Quando descobriam que eu era brasileiro, faziam questão de mencionar a palavra maconha. Mas não adiantava nada exibir tamanho “conhecimento” a respeito do idioma, uma vez que eu seguia sem conceder atenção quando sabia do que se tratava. 

Avenida Nicolas de Pierola. Foto tirada na sacada da pensão.

Av. Nicolas de Pierola. Centro histórico de Lima.

Plaza San Martin.

Plaza San Martin.

Calçadão Jirón de la Unión

Calçadão Jirón de la Unión

Calçadão Jirón de la Unión

Ônibus articulado em via exclusiva para sua passagem.

Plaza de Armas. Aqui aconteceu a fundação de Lima em 1535, pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro. Sem dúvidas um lugar charmoso, seja em razão da praça extremamente bem cuidada ou pelos prédios históricos ao seu redor. Encontram-se no local o Palácio do Governo, Prefeitura de Lima e a Catedral, ambos com seus belos traços arquitetônicos. 

Catedral

Palácio do Governo

Prefeitura de Lima

Plaza de Armas

Plaza de Armas

Registro na Plaza de Armas.
 
Na praça há alguns serviços oferecidos exclusivamente para os turistas, uma das opções é o "Trem de Lima" que faz um passeio de 20 minutos pelo centro histórico ao preço de 5 soles. Achei mais conveniente caminhar pelas ruas e não embarquei no veículo. Existe também uma opção mais excêntrica, realizar a volta pela Plaza de Armas em uma carruagem puxada por um diferente e bonito cavalo francês ao preço de 4 soles. Acredite, tem pessoas que fazem o passeio. 

Trem de Lima

In foco.

Passeio em carruagem. Que tal?

 In foco.

De modo geral, gostei muito de Lima, tem um estilo parecido com São Paulo e Santiago, no entanto, se equipara à capital chilena no que diz respeito à “limpeza” de seu centro histórico, onde as construções estão bem preservadas e dificilmente há pichações nos prédios antigos. A limpeza pelas ruas e calçadões é algo que também se destaca. O ponto negativo sem dúvida é a poluição. O céu aqui é frequentemente cinzento e com certeza respirar por essas bandas não deve ser muito saudável. Não poderia ser diferente, o trânsito aqui é repleto de veículos por todos os lados. O barulho das buzinas não raramente está relacionado com os taxistas que a todo instante buscam por passageiros.

Na frente do Palácio do Governo, tive a oportunidade de presenciar a troca de guardas. Assim como muitas outras pessoas, também registrei o momento. Policiais fazem a segurança na parte de fora do Palácio, contudo, são bem acessíveis e, inclusive, vi uma cena rara, um policial perguntava-nos se havia alguma dúvida sobre o prédio e suas atividades. Atitude que surpreendeu a mim e as turistas da Europa que estavam do meu lado. 

 Troca de guardas no Palácio do Governo.

 In foco.

 In foco.

Transição

Ficam 1h30m nesta posição.

Após um período na Plaza de Armas, fui caminhar às margens do Rio Rímac que fica atrás do Palácio do Governo. Há um calçadão no local que muito me agradou. Aqui existe artesanato e vendedoras ambulantes que vendem guloseimas em seus carrinhos padronizados. Resolvi provar o famoso arroz con leche e mazamorra morada. É o nosso conhecido arroz doce, mas com pedaços de maça em uma espécie de geléia. Um pequeno prato custou 2 soles. É bem gostoso. 

 
 Carrinho de Mazamorra Morada

Arroz dulce con Mazamorra Morada

In foco.

 Construções antigas.

O que mais me chamou atenção neste calçadão atrás do Palácio do Governo foi o espaço construído para os artistas de ruas. Achei uma idéia excelente. O local conta com uma pequena arquibancada e  ainda oferece tomadas para que os artistas possam fazer uso de equipamentos sonoros. Não diferente de outras cidades, aqui o público também para e prestigia aqueles que utilizam a arte para ganhar a vida. 

Espaço exclusivo para artistas de rua.

In foco.

Público prestígia o artista.

Agradecimento.

Ao lado deste calçadão é possível ver a imensa construção de um túnel que vai passar por baixo do Rio Rímac. Para realizar a obra, simplesmente mudaram o curso do rio em uma manobra um tanto curiosa. Pelas placas no local, as obras vão desafogar o trânsito em várias regiões e encurtar o período entre determinadas localidades.

Obras!

Rio Rímac e a construção do túnel.

In foco.

Das margens do Rímac também visualiza-se o Cerro San Cristóbal, um dos pontos turísticos da capital. Visitas são realizadas ao topo para poder ter um panorama da cidade. Eu preferi continuar minha caminhada pela região central. Ainda nas proximidades do Palácio do Governo, ouço alguém falar história! Olhei para trás e era um dos policias que fazem a segurança do prédio. Perguntou-me se eu era professor e então começamos uma longa conversa após seu interesse na minha viagem. Ele ficou bem surpreso ao saber detalhes da expedição. Aliás, poucas são as pessoas que tem uma reação diferente ao ter maiores conhecimentos do projeto Cicloturismo Selvagem: Pedal pela América Latina.

Cerro San Cristóbal

Pelo calçadão Jirón de la Unión me pesei pela segunda vez no dia. A primeira foi na parte da manhã em uma balança Made in China que estava na calçada (Av. Emancipación) onde uma mulher cobrava 20 centavos para eu ter conhecimento do peso. Aliás, tive uma desagradável surpresa, por esse equipamento estou cinco quilos mais magro. Por isso de tarde fui verificar o peso novamente, agora em uma máquina toda estranha que havia numa galeria no Jirón. Através dela estou apenas 3,5 kg abaixo do peso que comecei a viagem. Qual balança está certa eu não sei, mas de qualquer forma o jeito é me alimentar bem. 

Pelas ruas do centro histórico.

No meu retorno à pousada aproveitei para jantar. Ainda não era nem 18 horas, mas o restaurante na rua da hospedagem já servia a refeição. Então aproveitei e mais uma vez degustei o conhecido ceviche (prato de entrada). Estava bem melhor que aquele provado em Pisco. A “cena” custou 6 soles e no segundo prato havia filé de peixe com arroz e feijão. Delícia.

Hoje aconteceu um conflito bem violento em Lima, com mortes e centenas de feridos. O episódio, amplamente explorado pela mídia, aconteceu em uma região conhecida como Gamarra (longe do centro) onde existe um mercado enorme chamado La Parada, pelo que soube, trata-se de um imenso e importante centro de distribuição de alimentos para toda a região metropolitana. Acontece que a estrutura local é antiga e um novo mercado totalmente moderno foi construído para substitui-lo. Contudo, os moradores de Gamarra, que por sua vez, trabalham em La Parada, não querem sair do local atual e como protesto houve uma série de saques e inúmeras lojas foram destruídas por aqueles que a imprensa chamou de vândalos e selvagens. O conflito com a polícia foi inevitável e a região se transformou em um verdadeiro campo de batalha. As imagens exibidas na televisão e jornais são sinistras.

Voltei para a hospedagem e comecei a atualizar o diário de bordo. No dormitório somente o turista belga permanece hospedado. Inclusive, ele deve ficar por mais dois meses na capital em razão do seu trabalho voluntário na cozinha de um restaurante para pessoas carentes. Cada vez encontro mais histórias interessantes de viajantes pela América do Sul. 

Infelizmente não escrevi muito no diário porque o sono chegou mais cedo que o normal, afinal, meu dia foi bastante movimentado e de muita caminhada. Então o corpo necessitava de descanso. Fui dormir.

27/10/2012 - 111° dia - Lima (Folga)

Mais uma noite tranquila na pousada.

Acordei cedo, tomei meu café da manhã que mais uma vez estava caprichado e então comecei a escrever o diário de bordo. Fiquei nesta função até a hora do almoço quando fiz uma pausa e fui procurar um lugar para comer. Achei um restaurante mais barato aqui próximo da hospedagem. Apenas cinco soles. Menu econômico e tradicional, inclusive, novamente degustei filé de peixe. É gostoso e não me importo que esteja frequentemente no cardápio. 

No final da tarde fui me encontrar com o casal alemão Anne e Anselm na Plaza de Armas. Na verdade fui me despedir dos amigos que me acompanharam na Isla del Sol (Copacabana/Bolívia) e Machu Picchu (Cusco/Peru). Infelizmente eles retornam para a Alemanha antes da data prevista por causa de uma fratura no pé do Anselm. 

Começo da noite na Plaza de Armas.

Camarada Anselm e seu pé engessado. Boa recuperação, papito.

Nosso reencontro foi bem legal e não poderia ser diferente, pessoas extremamente simpáticas e animadas. Fomos jantar em um restaurante chinês onde a sopa era bem estranha, mas o prato complementar, Tortilla de Pollo con Arroz Blanco, estava apetitoso. O casal fez questão de pagar minha refeição, um presente “atrasado” de aniversário. Agradeci muito, sobretudo, a companhia agradável de sempre. 

Tortilla de Pollo. Presente de aniversário.

Após a janta caminhamos até a pensão e nos despedimos, eles pegaram um taxi para Miraflores onde estão hospedados. Combinamos de nos encontrar um dia em alguma parte desse mundão. Sinceramente não duvido que isso não demore a acontecer novamente. 

Companhia excelente.

Com a economia do jantar resolvi permanecer mais um dia em Lima, agora volto para a estrada somente na segunda-feira, assim tenho maior tempo para atualizar com calma o site e quem sabe poder conhecer um pouco melhor a capital. Agora o Equador está cada vez mais perto. Faltam apenas mil quilômetros para atravessar mais uma fronteira.

“Hasta la Victoria Siempre”

28/10/2012 - 112° dia - Lima (Folga)

Dia dedicado à atualização do site.

Ao meio dia aproveitei a saída para almoçar e passei em um supermercado para comprar água, bolachas, pães e itens de higiene para seguir viagem amanhã. 

Na região de Trujillo devo mandar notícias e fazer uma nova atualização. Aguardem!

PS: Tudo indica que ainda hoje eu consiga responder todos os comentários pendentes. Desculpem a demora. Novas mensagens são bem-vindas. 

Obrigado a todos pelo apoio de sempre.

Abraços.