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domingo, 18 de novembro de 2012

Equador

17/11/2012 - 132° dia - Suyo (Peru) a Macará (Equador)

Uhuuu! Finalmente Equador!

Mais uma fronteira da América do Sul atravessada sobre duas rodas. É o sétimo país a ser conhecido de bicicleta. O terceiro desta expedição. É muita emoção!

Embora a noite tenha sido tranquila, meu dia não começou como eu esperava. Acordei sem despertador antes das 6 horas da manhã e rapidamente tratei de organizar minhas coisas. Quando fui colocar a bagagem no alforje traseiro, surpresa. Pneu furado! Ninguém merece.

Tirei os alforjes, a roda traseira e remendei a câmara de ar porque a reserva também estava furada. Confesso que não realizei o trabalho com a devida atenção por que o calor dentro do quarto já estava insuportável e eu queria sair logo daquele lugar. Após quase uma hora estava tudo pronto. Será? O café da manhã já estava tomado e então fui escovar meus dentes. Quando voltei o bendito pneu já estava um pouco murcho. Que tristeza!

Eu não estava disposto a gastar mais uma hora para realizar todo o processo novamente, então enchi o pneu e às 8h05m finalmente consegui sair da hospedagem. Claro que fui obrigado a encher o pneu uma porção de vezes. A sorte é que encontrava sombra facilmente à beira da estrada porque o sol queimava sem piedade. Está muito quente na região.

Foram 14 quilômetros para chegar ao distrito de Suyo, mais do que eu imaginava. Sobe e desce constante. Os aclives estão cada vez mais íngremes e as montanhas no horizonte começam a peregrinação para conversar com Deus. A paisagem continua interessante, muitas árvores (inclusive a do Incrível Hulk), pássaros, os bodes malucos que atravessam a estrada a todo instante e mais plantações de frutas. Povoados também aparecem aos montes.

Árvore verde do Hulk. Havia encontrado a mesma em algumas regiões da Bolívia.

In foco.

Uma série de sobe e desce com montanhas ao fundo.

No perimetro urbano de Suyo.

Últimos quilometros na Panamericana em território peruano.

Conforme me próximo da fronteira mais as pessoas à beira da rodovia voltam a me chamam de Mister e/ou Gringo. Acho que esses chamados estão mais associados às áreas fronteiriças onde frequentemente viajantes são encontrados, pelo menos no que diz respeito ao Peru. Porque foi justamente na região de Puno que começaram estes tipos de cumprimentos.

Com 30 quilômetros pedalados e por volta das 11 horas eu estava na Ponte Internacional de Macará que faz a divisa entre Peru e Equador. No lado peruano fui à imigração para registrar minha saída do país. Tudo rápido e sem burocracia.

Na ponte a divisa é marcada pelas bandeiras de ambos os países. O movimento era tranquilo e comecei a fazer os imperdíveis registros fotográficos. Algumas pessoas atravessavam a pé e fizeram a gentileza de sacar algumas fotos minhas. Durante a tentativa de obter um ângulo melhor do momento histórico, deitei no corredor de pedestres para arrumar a câmera sobre  o tripé e ligar a opção automática. Não ficou excelente, mas valeu a tentativa.

Equador! Mais uma fronteira atravessada no pedal. Muita emoção! 

Ecuador!

Na ponte internacional de Macará.

Logo após atravessar para o lado equatoriano perguntei a dois policiais onde ficava a imigração. Antes de responder eles me questionaram se eu havia desmaiado na ponte. Eu não entendi em um primeiro momento e então eles disseram que motoristas avisaram que tinha um ciclista desmaiado. Então argumentei que apenas procurava um ângulo melhor para a foto. (Risada sacana). Tudo bem esclarecido fui em direção ao local indicado para registrar minha entrada.

A imigração fica praticamente ao lado da ponte. Ao me ver o policial atendente perguntou se era eu que estava desmaiado. Então tive que explicar tudo de novo. Ele disse que por pouco a ambulância não foi acionada. Fiquei “chateado” pelo mal entendido, mas por outro lado foi bom saber que há auxílios em casos de emergência. O policial registrou minha entrada no país, carimbou o passaporte e me concedeu permissão de 90 dias, mais do que o suficiente. Acho que não ficarei mais do que um mês no Equador.

Voltei à estrada e perguntei aos policiais se poderia seguir. Com a resposta positiva, comecei meus primeiros quilômetros em território equatoriano. A Victoria não foi revistada e assim ganhei tempo para seguir logo para Macará que fica há dois quilômetros da ponte. Resolvi que pedalaria somente até esse primeiro município. Assim seria possível almoçar, encontrar uma hospedagem, arrumar as câmaras furadas e ainda observar como as coisas funcionam no Equador.

Daqui em diante é montanha até a fronteira com a Colombia.

Chegada à Macará.

Na entrada da pequena cidade perguntei o sentido para o centro e quando me direcionava ao mesmo, encontrei o hostal Luz de America. Para ter uma idéia de preço, parei e perguntei a respeito do quarto mais barato. Cinco dólares. Sim, a moeda corrente no Equador é o dólar americano. Nos saques realizados no exterior a conversão é sempre pela cotação do dólar comercial. Na última transação a moeda americana valia 2,12 reais.

A hospedagem é simples, quarto pequeno e pouco ventilado. O banheiro é compartilhado e não muito limpo. A Victoria poderia me acompanhar ao dormitório. Já estive em tantos lugares nesses últimos anos que o simples do simples é mais do que suficiente. Não pensei duas vezes e nem fui procurar outro estabelecimento. Pelo preço (equivalente a 10,60 reais), dificilmente encontraria algo mais econômico. Inclusive a proprietária mencionou que outros ciclistas já estiveram no local por ser mais em conta.

Perguntei para a proprietária onde poderia cambiar meu dinheiro (estava com poucos soles) e então fui orientado a procurar a praça do centro e no local, identificar os homens com maleta preta (não sei por que, mas me veio à cabeça a imagem dos gangsters estadunidenses). São os cambistas da cidade. Na mesma área também fica o mercado municipal onde eu poderia encontrar restaurantes econômicos. Agradeci as informações e fui tomar um banho antes de sair.

Tomei uma ducha extremamente gelada (não tem água quente) e logo depois fui caminhar pelas ruas. Andar pela primeira vez em um lugar é sempre interessante. Então observei tudo atentamente. Como a cidade é pequena, duas quadras depois eu estava no centro e encontrei um local na frente do mercado público que servia refeição por 2 dólares. O almoço não estava bom, pouco arroz com mandioca e uma carne de porco que tinha mais osso do que carne. Mas valeu a conversa com os idosos proprietários.

Após o almoço andei pelo tal mercado público. Infelizmente não fiz muito isso no Peru porque simplesmente o acesso não era fácil, geralmente estavam longe de onde eu estava hospedado. Aqui em Macará o local é grande, bem organizado e com muitos produtos, mas ainda não tem a alma dos mercados centrais da Bolívia. No local comprei apenas pão. Não encontrei geléia, mas fui indicado a procurar em um mercado próximo.

No mercado comum aproveitei para comprar bolachas recheadas, entre várias opções, a mais barata era a peruana GN, não pensei muito para levar uma boa quantia. Na cestinha, além da geléia, também coloquei macarrão instantâneo e uma garrafa de suco gelado (Tampico made in Equador) de dois litros. Aqui é mais do que essencial manter-se bem hidratado. De modo geral o preço das mercadoriaas não é dois mais baixos, mas não me pareceu ser um absurdo. Como sempre é preciso pesquisar. Conforme tiver maiores detalhes, relato aqui no diário de bordo.


Supermercado onde a bolacha peruana era mais barata que as equatorianas, rs.

A praça do centro é bem singela, mas muito agradável. Várias pessoas descansam nas sombras do local. Encontrei o homem da maleta preta e consegui uma boa cotação para os soles que me restavam. Esse cambista ainda confirmou a minha suspeita de que os veículos estacionados na praça eram realmente taxis. O destaque é que são caminhonetes novas. Bem diferente do taxi que estamos acostumados a encontrar nas cidades. Uma corrida (sem taxímetro) custa 25 centavos de dólar. Dificilmente os taxistas ficam mais de três minutos parados. Pareceu-me que é um dos principais meios de transporte. Acho que não encontrarei mais a típica e barulhenta, moto-taxi peruana, ainda bem.

O homem da maleta preta, rs.

Taxi em Macará. Mercado municipal ao fundo.

Macará

Na volta para a hospedagem passei em uma loja de ferramentas para ver se encontrava um adaptador para carregar pilhas e baterias dos eletrônicos. Isso porque aqui no Equador a tomada é de três pinos, um redondo e dois retangulares. Para a minha felicidade encontrei o que precisava e me custou apenas um real. Assim posso continuar meus relatos sem problema.

Com toda essa minha andança no período da tarde regressei ao hostal repleto de moedas em dólar. Elas são novidades para mim, ao menos não me recordo de tê-las manuseado anteriormente. Existem moedas cunhadas nos Estados Unidos e também aqui no Equador. O mesmo não ocorre com as cédulas que são oriundas do país norte-americano. Algumas moedas não têm o número correspondente ao seu valor e isso, por enquanto, me dificulta a diferencia-las, mas em pouco tempo estarei habituado com essa questão.

Disseram-me que a partir da cidade de Loja, já na Cordilheira dos Andes, o clima é frio. Espero que seja pelo menos ameno. Porque se o calor continuar desse jeito vai ser uma longa e difícil jornada para atravessar o Equador. Aliás, aqui meus principais destinos são; Loja, Cuenca, Ambato, Quito e Otavalo. Todos na cordilheira com altitude à beira dos três mil metros.

Não sei o que aconteceu, mas o pneu que eu precisei encher constantemente entre Suyo e Macará, não murchou mais. E já faz cinco horas que a Victoria está encostada aqui no quarto. Coisa mais estranha. Em todo caso, vou remendar a câmara reserva, trocar pela misteriosa e verificar qual é seu problema. Não quero ser surpreendido na estrada.

Por volta das 20 horas fui jantar. Na região do mercado público estava tudo “morto”, nenhum estabelecimento encontrava-se aberto. Então resolvi caminhar na área próxima da igreja e foi justamente onde achei um restaurante aberto. Havia somente uma opção no cardápio: Macarronada acompanhada de um frango diferente, parecia assado e a sua carne tinha a cor escura. A atendente disse o nome, mas não recordo. O mesmo aconteceu com a bebida que foi servida. Ambos são típicos do país. Pelo jeito vou ter muita coisa diferente para comer e beber no Equador. A refeição custou 3,50 dólares. Apesar das peculiaridades a “cena” foi aprovada.

A passagem por esse restaurante também trouxe a velha questão do desperdício. Muitas pessoas deixavam o prato repleto de comida. Isso me parece algo inadmissível. É como saber o preço das coisas e não o seu devido valor, infelizmente.

Beleza. Em quatro meses de viagem ainda não mencionei sobre essa característica dos povos das regiões por onde passei. Isso porque acho que é uma questão muito relativa e pessoal. O que pode ser bonito para mim talvez não tenha o mesmo sentido para você. Aqui no Equador é notável a diferença na fisionomia das pessoas e não é raro encontrar indivíduos com a pele branca e olhos um pouco mais claros. A descendência indígena parece não ser tão forte como na Bolívia e Peru.

No mais, quero agradecer àqueles que colaboraram para a vakinha chegar aos 50% de arrecadações. Vocês são os patrocinadores desta expedição, muito obrigado. O objetivo agora é alcançar a parte restante até o final do ano para garantir as refeições completas (café da manhã, almoço e janta) aqui no exterior. A vakinha recebe contribuições a partir de 5 reais. Colabore Aqui!

Já a minha conta corrente (veja aqui!) recebe depósitos de qualquer valor. Com um real eu consigo comprar algumas bolachas ou pagar a internet para realizar parte das atualizações do diário de bordo, ou seja, independente do valor, sua contribuição é sempre bem-vinda.

Espero que continuem a bordo da viagem. Mesmo à distância é um prazer tê-los como companhia, isso sem dúvida ameniza a solidão da estrada e me deixa cada vez mais animado para continuar os relatos. E se você acompanha a expedição não hesite em escrever seu comentário. Estou no aguardo de novas mensagens. Gracias!

PS: O relato do último dia em território peruano está atualizado no tópico Peru IV. Inclusive consta a quilometragem total e os gastos financeiros naquele país. Todos os comentários do tópico em questão também foram respondidos.

Grande abraço a todos.

Dia finalizado com 33,01 km em 2h29m e velocidade média de 13,26 km/h.

18/11/2012 - 133° dia - Macará (Folga)

Ontem antes de dormir resolvi que ficaria esse domingo aqui na cidade. Aproveitaria para remendar as câmaras de ar, atualizar o site, responder os e-mails pendentes e analisar o roteiro dos próximos dias.

A noite foi tranquila. O quarto é bem escuro e quase não se ouve barulho no hostal. Excelente para descansar. Mesmo sem precisar pedalar acordei antes das 6 horas da manhã e fui preparar meu desayuno. O pão aqui é um pouco parecido com aquele encontrado na Bolívia e em algumas partes do Peru. A unidade custa dez centavos de dólar. Ontem comprei dez para experimentar e gostei. Aprovado!

Assim que degustei o café da manhã comecei a mexer na Victoria. Primeiro resolvi remendar a câmara reserva e depois fui fazer o mesmo com aquela que estava na roda traseira. O pneu misterioso amanheceu murcho, sinal que o furo era minúsculo. Isso foi comprovado logo na sequencia. Certamente na manhã de ontem em Suyo, esse furo passou despercebido e por isso o ar vazava lentamente durante o caminho para Macará. Desta vez arrumei tudo com calma e muita atenção.

A situação do quarto durante a troca das camaras de ar.

A Victoria está pronta para seguir viagem. Amanhã quero sair bem cedo para aproveitar a temperatura mais amena nas primeiras horas do dia. Hoje de tarde vou para a lan house atualizar o site pela primeira vez em terras equatorianas. A internet aqui custa $ 0,70 a hora e a velocidade é razoável. Como são relatos e fotos de apenas três dias não devo demorar para concluir a postagem.

A próxima parada e atualização devem ocorrer somente em Cuenca que está a quase 400 km de Macará. Como o trajeto é de muita subida, devo conclui-lo em cinco dias.

Para quem estiver interessado em saber mais sobre o Equador, recomendo o excelente filme “Qué tan Lejos”. Uma produção equatoriana e que muito me agradou quando tive a oportunidade de assisti-la no ano passado. Está disponível na internet. Fica a dica.

Hasta luego!

19/11/2012 - 134° dia - Macará a Catacocha

Dia cansativo! O trajeto foi uma verdadeira montanha-russa.


Ontem fiquei pelas ruas de Macará das 10 às 19 horas. Consegui responder quase todos os e-mails e mensagens pendentes. Quando voltei para a hospedagem, uma surpresa nada agradável. O pneu traseiro da Victoria estava murcho. Falei a mim mesmo: Que vergonha Neto, não sabe mais remendar um pneu? Sem argumentos, fiquei quieto, era o melhor a fazer. 


Fixava os olhos na Victoria para ver se ela dava uma piscada e me animava a trocar o pneu àquela hora da noite. O silêncio da minha companheira foi mais significativo e resolvi deixa-la arrumada. Quando tirei a roda e a câmara de ar descobri que havia um vazamento no remendo feito pela manhã. Devo estar cego, não é possível que tenha colado no lugar errado. (Risada sacana).


Coloquei a câmara reserva, arrumei a que vazava pelo furo do remendo e fiquei na torcida para não ter mais nenhuma surpresa. Em todo caso, ativei o despertador do celular para tocar às 4h30m da madrugada no dia seguinte. Se por ventura eu encontrasse algo anormal na Victoria, principalmente nos pneus, teria tempo suficiente para consertar e ainda assim partir cedo da hospedagem.


Madruguei. Hoje o celular tocou na hora esperada. O sono era algo incrível. A única coisa que tive coragem de fazer foi verificar a Victoria. O pneu estava cheio, finalmente o problema com as câmaras estava resolvido. Voltei para a cama e fiquei deitado mais uma hora. Levantei e comecei arrumar as coisas e depois tomei meu café da manhã. Fui sair do hostal somente às 6h30m. 


O tempo estava nublado, mas a temperatura já estava elevada. Para começar bem minha jornada pelo Equador, nada melhor do que iniciar pelas montanhas. E elas apareceram logo após a saída da hospedagem. Foram onze quilômetros que me levaram a quase mil metros de altitude. 


A rodovia não tem acostamento, mas o movimento é tranquilo e os motoristas equatorianos são sossegados. As poucas buzinas foram para me cumprimentar. Meu avanço aconteceu sem maiores problemas. No começo estranhei as cantadas de pneus dos veículos pelas várias curvas existentes pelas montanhas. Aliás, a caminhonete parece ser a preferência regional. Quase não se vê carros. Incrível. 


A primeira subida com onze quilômetros demorou a ser concluída. O aclive é muito íngreme e a estrada repleta de curvas. Registrava a evolução do trajeto e finalmente no topo da montanha foi possível visualizar a cidade de Macará de um ângulo diferente e não menos bonito. Neste local o asfalto cede espaço à terra, mas felizmente o trecho não passa de 50 metros. Eu já estava todo encharcado de suor. O dia prometia.


 A primeira parte da subida fica para trás.

 Montanha acima.

 Macará já estava bem longe.

Pequeno trecho sem asfalto.

Ainda bem que foram apenas cinquenta metros.

Após a primeira ascensão forte, o que prevalece são os vários sobe e desce. Nos declives foi preciso ter muito cuidado. Em diversos momentos as curvas eram realizadas com uma velocidade de 50-60 km/h. Mesmo com a pista em perfeitas condições, não deveria esquecer que a bicicleta estava carregada e qualquer mudança mais brusca na direção poderia ocasionar um grave acidente. Mas com a devida cautela ocorreu tudo normalmente e aproveitei a adrenalina proporcionada pelas “bajadas”.


A montanha-russa.

A paisagem é encantadora. Muitas árvores e pássaros. Fico fascinado com o canto desses animais em liberdade. Uma ave amarela e preta muito bonita atravessou a minha frente duas vezes e depois se escondeu na mata. Fiquei atento para ver se conseguia encontra-la e fazer seu devido registro. Segundo o guia Viajante Independente, o Equador apesar de ser 30 vezes menor que o Brasil, abriga aproximadamente o mesmo número de aves que o nosso país. Que tal?


Na parte da manhã encontrei poucos povoados pelo caminho. Mas ainda continuei a ouvir os chamados de gringo, sobretudo, de crianças bem pequenas que também acenavam e tinham os gestos retribuídos. Que elas cresçam com uma imagem positiva dos cicloturistas e que as nossas viagens estimulem as mais variadas reflexões. 


O sol demora a aparecer, mas em contrapartida a temperatura se eleva na mesma proporção das subidas, ou seja, estava nas alturas. O suor era demais e por vezes tinha que parar e limpar o rosto, principalmente a região dos olhos. Nas subidas não utilizo óculos porque fica tudo embaçado, no entanto, assim que aparece a descida já trato de coloca-los novamente para protegê-los contra o vento (que faz lacrimejar) e insetos indesejáveis.


O objetivo é chegar à Cuenca na quinta-feira. Logo, a pretensão é fazer 100 quilômetros por dia. Com isso, minha parada hoje deveria acontecer em Catacocha. Por volta do meio-dia fiquei atento e na expectativa para encontrar um restaurante, mas com os poucos povoados, já cogitava parar debaixo de uma sombra e degustar os pães que havia preparado para casos como este. 


O restaurante eu realmente não encontrei, mas consegui registrar o pássaro amarelo. E ao que tudo indica, fotografei um casal. Eles estavam em uma área onde havia uma verdadeira sinfonia, coisa mais linda. Inclusive também identifiquei um casal de pássaros na cor verde no meio das árvores. Fiquei surpreso de encontra-los porque estavam praticamente camuflados. No mesmo local encontrei uma ave vermelha, mas infelizmente não foi possível registra-la, ainda.


Finalmente um registro desse pássaro.

In foco.

Casais por toda a parte.

Árvore do Hulk no Equador.

Logo após os flagrantes com os pássaros, apareceu um povoado com pouquíssimas casas. Mas nenhuma me pareceu convidativa para descansar e “almoçar”. Continuei mais um pouco e finalmente achei um lugar bacana. Na verdade era debaixo da cobertura de uma casa ou salão, não sei precisar. Como não havia portão, cerca ou cachorros, aproveitei e parei (com 60 km pedalados) na intenção de devorar meus pães. 


Atrás do local do almoço havia mais algumas casas, em uma delas fui abastecer minhas garrafas de água. A mulher que me atendeu foi muito gentil e não hesitou em completa-las. Desde Trujillo não compro mais esse liquido precioso. Os moradores dizem que a água é potável e de boa qualidade. Parece que não desembolsarei mais dinheiro com isso. Será uma economia e tanto.


Descansei por volta de uma hora e às 13h30m retornei à estrada para completar os 40 quilômetros restantes. Apareceu uma subida e na seguida a maior descida do dia. Durante o declive e quinze quilômetros após meu almoço surgiu uma vila com alguns restaurantes. Já estava tarde e resolvi continuar em frente. Havia analisado a altimetria e estava ciente que após essa descida monstruosa encontrava-se o maior aclive do dia. 


Olha quem apareceu em território equatoriano.

Não é fácil pedalar na Cordilheira dos Andes com a temperatura elevada.

Para aliviar um pouco: descida.

Estudar o trajeto anteriormente evita surpresas desagradáveis pelo caminho e possibilita preparar o psicológico para encarar situações como essa de hoje em que o relevo oscila o tempo todo entre subida e descida. E a minha parte psicológica esteve muito bem o dia inteiro. Quando apareceu essa última ascensão, bastou ter paciência e força nas pernas, porque sem dúvidas o local exige um bom condicionamento físico.


A subida final começou aos 80 km e terminou somente em Catacocha com 96 km pedalados, ou seja, foram mais 16 quilômetros de subida de uma vez. Somente com muita determinação e música boa para completar o trecho sem estressar. O asfalto que era perfeito acabou na metade desta última parte, mas ainda assim foi tranquilo, inclusive, com relação aos veículos que continuaram a me respeitar.


Aqui começa a longa subida de 16 quilômetros. Tenso!

Da série: Coisas que a gente encontra pelo caminho.

Que meu caminho seja sempre iluminado. Quase no final da subida.

Catacocha e seu prefeito com vários anos no poder.

Cheguei bem cansado em Catacocha. Fui logo procurar uma hospedagem barata, parece-me que há apenas duas na cidade. Fui naquela onde o preço era menor, claro. No hotel Ejecutivo a diária custou 8 dólares. Achei razoável e resolvi ficar mesmo sem ver o quarto. Também não perguntei nada sobre banheiro e chuveiro. Há dias tomo banho gelado que já nem me importo com isso. Queria apenas ficar limpo e descansar.


Quando entrei no dormitório, quase não acreditei. Parecia quarto de hotel sofisticado. Cama de casal bem confortável, ambiente limpo e instalações novas, televisão a cabo, várias tomadas (há dormitórios que não tem) e por fim, banheiro privado. E para a minha surpresa, chuveiro com água quente. 


Merecido descanso no confortável Hotel Ejecutivo.

Há tempos não tomava um banho tão caprichado. Desde Virú (antes de Trujillo) que não tinha água quente nos chuveiros. Devidamente limpo fui procurar um local para jantar, afinal meu almoço foi à base de pão e suco, precisava me alimentar melhor. No restaurante, aqui perto do hotel, a refeição custou 2 dólares. Arroz, salada, farofa e bisteca. Tive que repetir para reforçar minhas energias. Depois passei em uma mercearia e comprei pão de forma que deve durar dois dias.


Voltei para a hospedagem e antes de começar a escrever o diário de bordo, liguei a televisão e no canal Destinos TV passava uma matéria sobre os patrimônios culturais da humanidade e os locais onde estão localizados. O episódio abordava os patrimônios no Peru. Falaram sobre Chan-Chan, Trujillo e Huanchaco. Cusco, Machu Picchu e Valle Sagrado. Lugares que recentemente tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. Não tem comparação, ao vivo e a cores é muito melhor do que através da televisão.


Amanhã o trajeto até Loja tem quase cem quilômetros, novamente de subidas e descidas. Meu psicológico já está preparado. Tem um declive longo pelo caminho e o aclive mais assustador tem exatos 17 quilômetros. Então acho que não preciso madrugar. Acredito que a temperatura esteja amena, afinal estou a 1800 metros de altitude e amanhã supero a marca dos 2 mil metros.


Dia finalizado com 96,18 km em 9h03m e velocidade média de 10,62 km/h.


Hasta luego!


20/11/2012 - 135° dia - Catacocha a Catamayo


Salve-se quem puder!


Está difícil, extremamente difícil.


Conforme mencionado no relato anterior, eu não precisava madrugar hoje em razão do trajeto aparentemente mais tranquilo. Mesmo assim coloquei o celular para despertar às 5h30m. Ele tocou e eu simplesmente ignorei. Fui levantar somente uma hora depois. Preparei meu café da manhã e tardiamente me direcionei à estrada às 7h50m. 


Ainda nas ruas da pequena Catacocha havia sinal que durante a noite a chuva não deu trégua. Entretanto, pela manhã o tempo estava aberto, céu azul com poucas nuvens e um sol que já queimava logo cedo. Não demorei em passar meu protetor solar que infelizmente está no “bico do corvo” como diria meu avô. 


Catacocha fica para trás.

Na Panamericana, também chamada de E-35, tive que encarar a estrada ruim por exatos vinte quilômetros até o povoado de Velacruz. Esse trajeto foi muito mais difícil do que todas as subidas de ontem. A maior parte da distância referida foi de subidas íngremes em estrada de terra com lama em razão da chuva ocorrida de noite. Para dificultar ainda mais, o calor beirava o insuportável. Suava demais e para não desidratar tomava água frequentemente. 


Estrada em obras entre Catacocha e Velacruz.

Além da subida é preciso encarar situações como esta.

A paisagem praticamente foi a mesma de ontem, muitas árvores, pássaros e vales que ficaram cada vez mais profundos. Visual de tirar o fôlego. Nos vinte primeiros quilômetros as subidas prevaleceram. Quando surgia uma declive não tinha 1/10 do tamanho do aclive. É muita injustiça. 


Uma das poucas descidas pelo caminho. Detalhe para o carro diferente na placa.

Montanhas e mais montanhas.

Em Velacruz o asfalto voltou e as subidas continuaram. Mesmo com a análise da altimetria eu realmente fui surpreendido com o relevo e, sobretudo, com a condição da estrada nos primeiros quilômetros. Eu sabia que teria uma descida monstruosa pelo caminho, mas não lembrava em qual momento ela apareceria para aliviar a situação. Para chegar no esperado declive eu tive que pedalar muito em direção aos céus. Em determinada parte as nuvens começaram a encobrir a estrada. Sinistro!


 Finalmente a chegada em Velacruz. Término da estrada ruim.

Cada vez mais alto.

Paisagem


Pedalando nas nuvens.

Os motoristas que ontem estavam sossegados não tiveram o mesmo comportamento hoje. Muitos veículos em alta velocidade me fizeram ter ainda mais cuidado já que a estrada não tem acostamento. Determinados condutores jamais deveriam dirigir. Como a rodovia é sinuosa, é preciso reduzir a velocidade, no entanto, um motorista por pouco não capota sua caminhonete ao entrar voando em uma curva. Não é de estranhar que hoje começaram a aparecer as cruzes à beira da estrada.


Com 36 quilômetros pedalados finalmente apareceu a placa que informava a distância para San Pedro de la Bendita e Catamayo. Um senhor na estrada me avisou que deste ponto em diante seria somente descida. Era a monstruosa que eu esperava. Maravilha! Poucos metros depois consegui visualizar os municípios em questão no horizonte. 


É cada nome: Las Chinchas.

No final da subida. Ao fundo, San Pedro e Catamayo

Será que precisei subir muito para chegar neste ponto?

A descida foi sensacional. Após doze quilômetros de montanha abaixo eu já estava em San Pedro onde parei em um restaurante às 13 horas. Eu precisava almoçar e, sobretudo, descansar um pouco. A refeição custou 2,50 dólares. O cardápio era simples, no entanto, a surpresa ficou por conta da sopa, um caldo grosso com batatas e ervilhas. O segundo prato havia arroz, cebola, batata, banana e um pedaço enorme de bisteca. 


Ainda no restaurante passei o restante do protetor solar australiano comprado no Paraguay. Aproveitei e também completei minhas garrafas com a água da torneira do estabelecimento. Com essa temperatura exorbitante não é possível nem sonhar em ficar sem hidratação. Que diferença pedalar nos Andes no inverno e verão. Sinto que vai ser muito mais sofrido do que eu imaginava. Mesmo aos 2 mil metros de altitude está demasiadamente quente.


Quando voltei à estrada às 13h40m ainda havia mais 12 quilômetros de descida até Catamayo. A surpresa foi a pavimentação de concreto que apareceu do nada. O sol literalmente queimava minha pele e eu começava a pensar seriamente se valeria a pena encarar a subida de quase vinte quilômetros para Loja. Isso porque a temperatura estava fora do comum. Não sou de fazer corpo mole e encaro as mais diversas situações desde que eu acredite nas minhas decisões. E neste momento eu não estava seguro de que seguir viagem era uma boa estratégia.


Caminho para Catamayo.

É minha querida Victoria, eu sei que a coisa tá feia. Calor insuportável!

Quando apareceu o perímetro urbano de Catamayo fiquei atento para ver se aparecia alguma hospedagem. Se eu encontrasse não pensaria duas vezes em parar o pedal antes das 3 horas da tarde. No entanto, não apareceu nada pelo caminho a não ser o começo da subida, contudo, a situação chegou a um ponto que resolvi entrar na última entrada da pequena cidade. Não havia condições nenhuma de continuar o pedal debaixo daquele sol e com um aclive quilométrico e íngreme pela frente. 


Perimetro urbano de Catamayo.

Parar o pedal às 15 horas, essa foi a estratégia. A quilometragem restante eu poderia completar amanhã com a saída ainda de madrugada. Na entrada da cidade fui recomendado a ir ao centro. Ao redor da praça principal achei uma variedade de hospedagens. O Hostal San Francisco me pareceu simples e ao perguntar o preço, não hesitei em permanecer no local. A diária custava 5 dólares. Quarto simples e confortável. Já o banheiro compartilhado é lastimável e peca na higiene, mas como vou ficar somente uma noite, não me importei com isso. 


A Victoria ficou no pátio e eu levei as principais coisas para o quarto no piso superior. Peguei minhas roupas e fui direto tomar um banho. No local a surpresa é que não tinha nem chuveiro e muito menos ducha. Apenas um cano em que mal jorrava água. Ainda assim foi possível ficar limpo.


Aproveitei que ainda era cedo e fui às ruas para comprar o protetor solar, item fundamental na bagagem. Estava consciente que desembolsaria uma boa verba, esse produto nunca foi barato. Pesquisei em algumas farmácias e o mais barato que achei foi o Sundown (fator 30 e 120 ml) made in Brasil ao preço de 10 dólares. Paciência! 


Como eu estava na rua fui comprar mantimentos e depois entrei na internet para ver se o membro (warmshowers) de Cuenca havia respondido meu contato. Nada! Então fui estudar o roteiro. Misericórdia! É desanimador. Sobe e desce o tempo inteiro. Vou ter que preparar meu psicológico a um nível ainda não alcançado na viagem. 


Antes de voltar à hospedagem, comprei mais pães, ainda tinha na bagagem, mas achei melhor completar o estoque, afinal, não sei como será o dia amanhã. Com esse clima e relevo é difícil estipular um local para pernoitar. Em todo caso, continuo em direção à Cuenca, quatro, cinco, seis dias, não sei. Mas uma hora eu chego no destino. 


Neste momento termino de escrever no diário de bordo e volto às ruas para procurar um lugar para jantar e na sequencia retorno e vou direto ter o sono dos justos. Amanhã de qualquer maneira eu tenho que acordar cedo e estar na estrada às 5h30m. 


Dia finalizado com 63,69 km em 5h19m e velocidade média de 11,98 km/h.


21/11/2012 - 136° dia - Catamayo a Santiago


Salve-se quem puder! (parte II)


Porrada! Porrada? Sim, porrada! 


Baixaria durante a madrugada no Hostal San Francisco.


Ontem fui dormir antes das 21 horas com a pretensão de acordar bem cedo hoje. Até então estava tudo em ordem. Naturalmente acordei às 23h30m e pensei que já estava na hora de levantar, mas quando verifiquei o celular notei que tinha muito tempo para descansar. Tentei dormir novamente, no entanto, foi difícil em razão das vozes que ecoavam pelo pátio da hospedagem.


Quando eu finalmente voltei a pegar no sono, fui acordado com uma gritaria à 00h30m. Era uma discussão que pelo tom das vozes parecia não terminar bem. Abri a porta do quarto e fui ver o que acontecia. Um homem e uma mulher batiam boca na recepção do hostal. Outras pessoas estavam ao redor e repentinamente começou a briga. Essas duas pessoas trocaram insultos, socos e tapas. 


Não sei por que, mas aqueles que estavam ao lado nada fizeram para separar a briga. Estanhei, afinal uma mulher estava no meio da briga. No segundo piso eu assistia a cena de camarote e não sabia se chorava ou ria com aquele episódio que mais parecia a versão equatoriana do Programa do Ratinho. Misericórdia! Isso eu não esperava encontrar, muito menos no Equador que tem a fama de ser um país tranquilo e com pessoas amáveis.


Eu sinceramente não entendi o motivo de toda aquela confusão. Sei que o homem saiu correndo do hostal e a mulher foi atrás dele, mas apenas para dizer algumas palavras de baixo calão. Claro que a essa altura todos os hóspedes estavam nas portas e janelas de seus quartos para ver que tumulto era aquele. 


Quando a mulher voltou da rua eu fechei a porta e tornei a deitar para ver se conseguia dormir, afinal, eu havia colocado meu celular para despertar às 4h30m na intenção de sair da hospedagem uma hora depois. Mas quem disse que eu consegui dormir. No hostal o barulho era geral. A tal mulher da briga estava bem e minutos depois já caia na gargalhada. A conversa em tom nada propício para a hora e o local, realmente não me deixou descansar.


No quarto escuro eu começo a ouvir barulhos que não eram de pessoas mal educadas. Prestei atenção e notei que o som era originário do meu alforje. Em um primeiro momento me pareceu que baratas andavam pelas sacolas da minha bagagem. Acordei e iluminei o local com a lanterna do celular, mas não enxerguei nada. Pensei que as cucarachas tinham se assustado com meu movimento e felizmente ido embora.


Mais uma vez eu tento dormir e novamente ouço o tal barulho que ficou cada vez mais alto. Diacho! O que era aquilo? Levantei e resolvi acender a luz do quarto. Foi quando tive a surpresa. Do meu alforje saiu um rato que foi direto para baixo da cama. Desgraciado! Fui atrás dele, mas não consegui encontra-lo. Lembrei que aquele alforje era onde estavam os pães reservas que eu havia comprado horas antes. Quando peguei a sacola, adivinhe. O roedor já havia furado as duas embalagens e devorado parte de dois pães. Isso me deixou mais irado do que ver um rato no quarto. Onde já se viu, roubar meu alimento sagrado. Maldito!


O estrago causado no meu alimento sagrado.

  In foco.

O pior de tudo é que eu deveria eliminar boa parte dos pães. As surpresas não haviam terminado. Meu café da manhã, pães com geléia, estava em uma sacola em cima da cama ao lado. Quando fui ver, também estava furada e com um buraco em um dos pães. O ladrãozinho parou de comer quando chegou na geléia, vai ver o sabor não agradou seu paladar. Atrevido!


Fui obrigado a descartar boa parte do meu desayuno e comecei a contabilizar o prejuízo que não era somente financeiro. A essa hora da noite meu sono já estava prejudicado para encarar um dia de pedal que prometia ser extremamente difícil. O que sobrou dos pães eu coloquei quase no teto do dormitório, queria ver o safado escalar as paredes. 


Apaguei a luz e tentei dormir outra vez. Não demorou dois minutos e ouvi o som do rato se mexendo bem debaixo da minha cama. Levantei no mesmo instante e ao acender a luz, pude visualizar o bicho correndo em direção à outra cama. Fui atrás dele, novamente. Parecia desenho do Tom & Jerry, mas como eu não era o rato esperto da situação, não achava nada engraçado. Procurei o esconderijo, mas não encontrei nem vestígios. 


Isso tudo já era quase 3 horas da madrugada. Suspeitei que se deixasse a luz acesa o rato não voltaria. Então a mesma ficou ligada. O ruim é que não estou acostumado a dormir com claridade e muito menos com gritaria, que ainda ecoava pela hospedagem. Por que o responsável pelo local não chamou atenção dos baderneiros (as)? Acho que o povo sem noção foi dormir por volta das 03h30m e então que consegui dormir, finalmente.


Que noite! Não descansei quase nada. O despertador tocou às 4h30m e não pensei em ficar deitado porque se não eu ficaria muito tempo naquela cama. Levantei e notei que havia começado a chuva. Paciência! Melhor ficar encharcado do que conviver mais um dia naquele ambiente.


Arrumei minhas coisas, tomei meu café da manhã (aquilo que sobrou dele) e às 6 horas eu felizmente deixava aquele lugar para não voltar mais. O senhor que cuida do local não estava com uma cara muito boa, provavelmente não tinha dormido por causa daquelas conversas. Então nem resolvi falar do rato. Isso se ele já não estivesse ciente. Entreguei a chave e voltei para a estrada.


Quando saí da hospedagem já não chovia, quer dizer, caia apenas uma leve garoa. O tempo estava nublado e a temperatura amena. Uma condição climática favorável para encarar a subida que havia em direção à Loja. Ainda assim, não pedalei um quilômetro e a transpiração começou, não por menos, o aclive era muito íngreme. Pouco tempo depois já era possível ver a cidade de Catamayo entre as nuvens. 


O começo da subida.

Propaganda do governo.

Se não reduzir agora é caixão, rs. Na verdade era apenas uma depressão na estrada.

Adios Catamayo.

E aos poucos a subida fica para trás.

Pelas minhas contas, a subida deveria ter aproximadamente 15 quilômetros. Uma distância que parece interminável quando se pedala a uma velocidade de 5 a 7 km/h. Empurrar? De jeito nenhum. Sou membro do grupo DAP (do Atlântico ao Pacífico) e para nós é questão de honra passar por todos os lugares no pedal. Eu também não seria maluco de empurrar uma bicicleta com 40-50 quilos de carga em uma subida com um ângulo daquele. Sem dúvida a melhor opção era enfrentar o trajeto pedalando com muita paciência.


Paciência! Foi a forma que encontrei para continuar o pedal no Equador. Pela análise da altimetria, essa não será a última e nem a maior subida do caminho que tem pela frente. Não será possível determinar uma quilometragem diária em razão desses sobe e desce. Então o jeito é ter calma e avançar conforme é possível. Mesmo que isso implique em curtas distâncias e comprometa os dias estipulados para ficar em território equatoriano. Afinal, mais tempo significa mais dinheiro. E o mesmo não está sobrando no bolso.


De volta à subida. Pedalava lentamente ao som dos pássaros. Agora a estrada tem acostamento e ameniza a situação. Conforme a altitude aumenta, mais próximo das nuvens eu ficava. Aliás, elas encobrem quase todas as montanhas nas primeiras horas da manhã. Sinal que a chuva poderia voltar a qualquer momento.


Com muito esforço a quilometragem aumenta e com ela a neblina. A visibilidade fica comprometida e não penso duas vezes em ligar a lanterna traseira. Mesmo com a existência do acostamento não me sentia seguro com aquele tanto de curva. Isso porque muitos motoristas costumam utilizar esse espaço para conclui-las. 



O aumento da neblina.

Durante a subida quase vejo um desastre. Um boi muito louco resolveu caminhar no meio da pista. E como se tratava de um trecho com curvas, a situação era realmente agravante. Isso porque um animal deste porte pode proporcionar um grande acidente. O boi “corajoso” da cara preta seguiu por mais de um quilômetro (mais rápido do que eu) pela rodovia e do nada, escalou um morro e sumiu pela densa vegetação. 


Olha o corajoso!

A neblina aumentou na mesma proporção da subida. Em muitos trechos eu não enxergava nada a mais de 30 metros à minha frente. Ainda assim consegui visualizar a placa que alertava para mais um desmoronamento. No local uma extensa área da encosta havia parado na pista. Quando passei a rodovia estava praticamente toda liberada e boa parte do pavimento comprometido. Situação que não é difícil de encontrar pelas estradas equatorianas. 


Quanto mais alto ficava, menos se enxegava alguma coisa no horizonte.

Derrumbes. Aqui nos Andes eles não são raros.

Passaram dez, quinze quilômetros e nem sinal do término da subida. Ainda bem que eu estava tranquilo. Mas é claro que eu também esperava pelo começo da descida. Todavia, a única coisa que eu enxergava era mais neblina. Chegou um ponto em que eu mal visualizava o que tinha na minha frente. Os motoristas também estavam mais cautelosos.


Essa era a realidade no topo da montanha.

Vinte quilômetros de subida. O tempo começou a abrir e nem sinal da cidade de Loja no horizonte. Isso é o que eu chamo de um grande desafio. Minha parte física está muito boa, mas esforço é sempre esforço. Ainda assim, as pernas estão ótimas e não sinto nada a mudança da altitude. Respiração ocorre normalmente. Com 22 km de aclives pedalados em 3h25m, finalmente um pouco de alivio. Mas infelizmente a descida não foi como eu esperava. Ainda tive que pedalar mais 3 km antes de realmente começar a descer para valer. 


Ainda existe uma esperança, rs.

Com o tempo aberto é possível ver a flora local.

Ainda bem que ontem eu parei em Catamayo, não imagino como seria completar todo esse trecho de subida com aquela temperatura. Sem falar, que esse trecho não tem casa, fazenda ou qualquer coisa que ofereça o básico. Fiquei feliz em saber que estava certo na minha decisão. 


Descida alucinante pelas curvas. Foram nove quilômetros de montanha abaixo até chegar à Loja. Na entrada da cidade uma placa indica a distância e a direção de alguns municípios, entre eles, Cuenca, meu próximo destino. No entanto, a estrada é de terra e com muitas pedras. Pergunto a uma pessoa se aquele era mesmo o caminho para Cuenca. A resposta não é animadora. Era a direção correta.


Finalmente o começo da descida. Loja no horizonte.

Em direção à Cuenca. Será?

Pedalo vinte metros pela estrada de terra e observo onde ela vai parar. Não vejo nada a não ser algumas torres de energia eólica no alto de uma montanha. Espero alguém passar para confirmar (de novo) se eu estava no sentido certo. Esperei mais de cinco minutos e ninguém apareceu. Algo estava errado. Loja é uma cidade grande e Cuenca é a terceira maior do país. Como a ligação entre elas poderia ser realizada por uma estrada daquela? E porque não havia movimento. Não avancei antes de saber o que acontecia.


Afinal, que estrada é essa?

Finalmente apareceu um veículo na estrada suspeita e o motorista me informou que aquele caminho era na verdade um atalho para evitar uma longa volta pela cidade. A distância deste trecho ruim não passava de três quilômetros. Fiquei aliviado com a resposta. Depois de tantos caminhos equivocados na Bolívia, não quero ficar perdido pelas montanhas do Equador. 


Apesar da indicação da placa, poucos são os veículos que passam por esse atalho, que por sua vez, está péssimo. Verdadeira estrada de rípio. Para variar, começou a chover. A sorte é que eu estava quase no final do atalho. Pedalei um pouco mais rápido para evitar a lama e cheguei ao trevo de acesso para Cuenca. 


Aproveitei que havia um restaurante na saída de Loja e parei na pretensão de almoçar, apesar do horário, ainda era 11h30m, a refeição já estava pronta e custava dois dólares. Pelo jeito é o preço padrão aqui no país. No cardápio a sopa que era parecida com aquela do almoço de ontem, no entanto, com um pedaço de abacate e banana picada. Descobri que é a sopa é típica da gastronomia equatoriana. No segundo prato, arroz, banana frita, carne de porco e salada. 


Não fiquei muito tempo parado no restaurante, talvez 45 minutos, mas foi o suficiente para a chuva passar e o sol voltar a brilhar. Passei o protetor solar e retornei à estrada. Não sabia muito bem onde pararia no final do dia, mas o importante naquele momento era seguir. 


O caminho depois de Loja tem algumas mudanças, o pavimento volta a ser de concreto e a paisagem é deslumbrante para quem gosta de observar ambientes bucólicos. O céu azul, a vegetação verde e a presença dos animais e casas rurais deixou o pedal mais agradável apesar das subidas. Por falar nelas, depois do almoço tive que encarar outra ascensão pelas montanhas, desta vez com 10 quilômetros de extensão. Haja perna, paciência e uma boa seleção musical. 


Ambiente bucólico pelo caminho. Que maravilha!

In foco.

Ótima iniciativa governamental. Se não respeitar o ciclista, basta denunciar.

In foco.

Flora!

Levei alguns minutos para decifrar a placa, rs.

Loja já ficava bem distante.

O trajeto após essa subida volta a ser de montanha-russa, ou seja, constante sobe e desce. Foi assim até chegar à Santiago, um pequeno povoado no meio das montanhas. No caminho me informaram que não havia hospedagem no local. Realmente não existia nenhum lugar para passar a noite. Ainda era cedo, mas eu estava cansado após tantas subidas e uma noite que não foi das melhores. Resolvi seguir ao distrito/cidade de San Lucas, onde possivelmente eu poderia tomar um banho e descansar.


Agora faltam apenas 900 quilômetros para chegar na Colombia.

Da série: Coisas que a gente encontra pelo caminho.

Chegada à Santiago.

Desmatamento. Lamentável.

Sentido ao norte do país.

Aquela estrada foi a descida para chegar em Santiago. Tive que subir tudo de novo.

O tempo fechou novamente e durante o caminho para San Lucas, a chuva voltou a cair. Confiro se toda a bagagem está bem protegida e sigo atento para localizar alguma casa à beira da rodovia que pudesse me ceder um espaço para acampar. Isso aconteceu quando eu quase chegava à San Lucas, onde não era certo que havia hospedagem.


Um senhor estava na frente de sua casa à beira da estrada e então resolvi explicar sobre a minha viagem e que sob aquelas condições eu necessitava de um local para montar acampamento. Ele compreendeu e logo disse que eu poderia ficar na pequena área da casa. Era às margens da rodovia, mas pelo menos era seguro me garantiu o senhor Antônio, proprietário da humilde residência.


São quase 5 horas da tarde quando termino outro dia de pedal. Antes de montar minha casa, converso bastante com Antônio, um senhor de 75 anos que vive desde criança no local. Sua mulher e os filhos moram em Loja. Ele disse que gosta de morar na tranquilidade do campo, por isso prefere viver na sua terra, criar seus animais e cuidar da sua plantação. Assim está em paz, me disse.


Quando começo a levantar acampamento, o senhor Antônio fica surpreso e admirado com a modernidade dos equipamentos. A facilidade de montar uma barraca; colchão e travesseiro infláveis; e a praticidade da cozinha. Muitos cicloturistas já passaram na frente de sua casa, mas sou o primeiro a parar no local, por isso é compreensivo que tudo aquilo parecesse novidade para quem não está habituado aos itens de camping. 


Por volta das 18h20m cada um entrou na sua casa. Eu preparei minha janta com dois macarrões instantâneos e na sequencia fui dormir. Mais um dia sem tomar banho. Quer dizer, vale banho de chuva? Pelo menos a economia hoje foi enorme, gastei apenas $ 2,50 no almoço. 


Antes de dormir tranquei a bicicleta apenas para ficar com a consciência tranquila, afinal o senhor Antônio me garantiu que o lugar era seguro e as pessoas da região eram “honradas”. Segundo ele, eu poderia descansar em paz. Uma boa noite de sono era tudo o que eu precisava. 


Fui deitar sem paranóias com a segurança. Também não me importei com o barulho da estrada. O que poderia ser pior que a gritaria da noite anterior e a visita de roedores ladrões de comida? Não responda. Melhor não pensar em nada para não atrair coisas desagradáveis. (Risada sacana)

 
Dia finalizado com 73,20 km em 7h58m e velocidade média de 9,17 km/h.


22/11/2012 - 137° dia - Santiago a Saraguro


Cada dia uma surpresa. Hoje a natureza não estava de brincadeira.


A noite no acampamento foi relativamente tranquila. Dormir ao lado da rodovia não é um dos lugares mais recomendáveis para descansar, sobretudo, quando sua casa é uma barraca. Acordei algumas vezes durante a madrugada, mas sem dúvida foi mais tranquila que a noite anterior. 


Acampamento na casa do senhor Antonio.

Levantei às 6 horas, tomei meu desayuno que estava preparado desde a noite anterior e logo depois comecei a desmontar acampamento. Cinquenta minutos depois eu me despedia do senhor Antônio, não sem antes agradecê-lo por ceder espaço em seu terreno. 


Senhor Antonio e a Victoria.

Durante a madrugada choveu bastante, mas pela manhã apenas uma densa névoa encobria as montanhas. A temperatura é agradável, embora um pouco baixa, fator que fez o senhor Antônio mencionar que estava frio. Eu passei tanto tempo nos Andes bolivianos e peruanos com temperaturas negativas que para mim estava normal nas primeiras horas do dia.


Finalmente não precisei começar o dia com subidas. Até chegar à San Lucas foram praticamente sete quilômetros de “bajada”. Pelo caminho algumas cascatas embelezavam a paisagem entre as montanhas. Durante a descida a sensação térmica despencou, a sorte é que eu estava com a segunda pele, justamente por imaginar que isso poderia acontecer nos declives.


Descida para começar bem o dia.

Cascatas para deixar a região mais bonita.

Nas alturas da Cordilheira dos Andes no Equador.

Subidaaaa!

Victoria, você é uma guerreira!

Em todo o perímetro urbano de San Lucas muitas crianças e adolescentes caminhavam uniformizados em direção à escola. Destaque para os pequenos chapéus pretos utilizados por meninos e meninas. Ambos também estavam bem agasalhados, assim como os adultos que se protegiam contra o “frio” até com poncho. 


Em San Lucas. Estudantes uniformizados em direção à escola.

 In foco.

In foco.

Ainda em San Lucas começou a subida. Aqui não tem meio termo, se você desce tem que estar preparado porque na sequencia a subida é certa. Neste caso, comecei a suar nos primeiros metros e tratei de tirar a segunda-pele. Em uma casa na beira da estrada aproveitei para completar minhas garrafas de água e continue a encarar o aclive.


A subida teve extensão de dez quilômetros. O trecho foi bem íngreme e quando eu estava na metade a chuva começou. Pelo jeito minha passagem pelo Equador será assim, com muita subida e chuva. Ambas aumentavam enquanto eu não desanimava e seguia, ainda que lentamente. Após o final do aclive mais sobe e desce, entretanto, a chuva que era tranquila e gostosa para pedalar, ficou cada vez mais forte e repentinamente tornou-se uma tempestade. 


Com a chuva torrencial tudo ficou mais complicado. O corpo começou a esfriar nas subidas e, sobretudo, nas descidas, que também exigiram uma cautela maior porque os freios não funcionaram como deveriam. Isso porque as borrachas estão bem desgastadas. São quase 8 mil quilômetros e ainda não foram trocadas, afinal com mais de 4 meses de viagem, houve poucos dias com chuva e isso aumentou o tempo útil das sapatas, que agora precisam ser repostas. Essa troca necessita ser realizada o quanto antes, pois a frenagem ficou muito comprometida durante a descida. Atenção foi triplicada.


Antes de Saraguro há um declive bem acentuado que intensificou o frio que somado com a chuva deixou um ambiente nada agradável para pedalar. Era tanta água que não adiantava parar e colocar a jaqueta impermeável, primeiro porque eu estava todo molhado e segundo; não havia local coberto às margens da rodovia e molharia toda minha bagagem. 


Quando cheguei à Saraguro, por volta das 11h30m, não pensei muito em procurar uma hospedagem. Fui ao centro da cidade encontrar o Hostal San Pedro. Havia uma placa na estrada com a publicidade do estabelecimento. No local eu perguntei o preço da diária. Com banheiro compartilhado, custava cinco dólares. Resolvi ficar e rapidamente deixei a Victoria na garagem e a bagagem no quarto e fui tomar um banho quente. Eu tremia de frio. 


Devidamente limpo e aquecido, fui procurar um local para almoçar, estava com fome. No cardápio; sopa e segundo; arroz, lentilha, salada e camarão. Surpreendi-me com esse pescado no menu, mas estava uma delícia. E tudo custou apenas 2,50 dólares e ainda teve um copo de suco e sobremesa que não soube identificar do que se tratava. Mas de modo geral, estava tudo aprovado.


A cidade é pequena e bonita. A região central é a de maior movimento, sobretudo, ao redor da praça principal. A chuva parou um pouco de tarde e foi possível ver mais pessoas nas ruas. Em Macará, na fronteira, mencionei que havia poucos vestígios da descendência indígena na população da cidade. Essa realidade é diferente em Saraguro. Na verdade, desde Catamayo, traços indígenas são facilmente encontrados nos habitantes. Segundo o guia Viajante Independente, cerca de 40% da população equatoriana tem ascendência indígena; 40% mestiços; 15% brancos e; 5% negros. Isso explica a notória diferença entre uma cidade e outra.


Antes de voltar à hospedagem, passei em um pequeno mercado e comprei pão, leite fortificado e bolachas. No hostal comecei a escrever o diário de bordo. E quando resolvi fazer uma pausa e ligar a televisão, tive uma surpresa, passava (na Fox) o jogo do tricolor paulista. O São Paulo jogava com a Universidade do Chile pela semifinal da Copa Sul-americana. Não vejo um jogo do meu time há mais de quatro meses. Foi interessante saber das novidades e como o time está jogando. Empatamos, mas no jogo de volta em casa, o time chileno não terá chances. 


Apesar da forte chuva, toda a minha bagagem está seca, inclusive, os eletrônicos. Separei minha roupa para amanhã e se por acaso amanhecer com chuva, vou para a estrada do mesmo jeito. A jaqueta impermeável está pronta para ser utilizada. É verdade que devo ficar encharcado de suor nas subidas, mas pelo menos, não passarei frio em razão do vento. Espero sair bem cedo para avançar o máximo possível em direção à Cuenca que está a 120 quilômetros daqui. Vamos que vamos.


Dia finalizado com 30,40 km em 3h02m e velocidade média de 10,01 km/h.


23/11/2012 - 138° dia - Saraguro a La Jarata


Depois da tempestade vem a bonança e a Cordilheira dos Andes com suas subidas intermináveis. (Risada sacana)


Choveu praticamente a noite inteira. Levantei às 5h30m e fui verificar o tempo, felizmente não caia mais água e tudo indicava que o sol brilharia sem maiores problemas. Voltei ao quarto, preparei meu café da manhã e logo depois eu já estava de saída. Para a minha felicidade o caminho para retornar à Panamericana (E-35) estava mais próximo do que eu imaginava. Às 6h45m estou novamente na estrada.


Apesar do tempo bom, a temperatura é baixa e por isso resolvi sair com a segunda pele. Foi uma boa decisão, uma vez que os primeiros sete quilômetros foram marcados por uma forte descida que fez a sensação térmica despencar, mesmo que a velocidade não estivesse muito alta, afinal, continuo com pouca frenagem e preciso controlar o máximo possível o deslocamento nos declives.


Após a descida inicial, como era de se esperar, surgiu a primeira longa subida do dia. Começou em Urdaneta onde uma placa desejava boas-vindas e indicava a altitude. Eu estava a 2.480 metros sem nível do mar. Não demorou muito e saquei a segunda-pele em razão da transpiração, muito embora a temperatura continuasse baixa. No pequeno povoado de Urdaneta, seus moradores estavam empacotados de roupas.



Começo de mais um subida.

Saraguro entre as montanhas.

Mais um derrumbe pelo caminho.

Urdaneta pareceu-me um lugar onde a agricultura familiar ganha espaço e deixa a paisagem diferente com as pequenas plantações. As áreas cultivadas ficaram para trás na medida em que eu avançava pela subida que parecia não terminar nunca. O trajeto continua repleto de curvas. A estrada permanece com pavimentação de concreto, mas dessa vez a pista “tomou” o acostamento e justificava o comentário de alguns peruanos que mencionavam que as rodovias equatorianas eram mais largas do que o comum. 


Agricultura familiar e as pequenas produções

In foco.

Conseguiram resumir vários esportes em apenas uma placa. Fantástico!

Paisagem nas alturas.

Da série: Coisas que a gente encontra pelo caminho.

Sem acostamento e também com o trânsito moderado, continuava sem problema pela subida pedalando sobre a faixa lateral. Apenas nas curvas à direita eu passava para a valeta, uma vez que os veículos tendem a utilizar faixa para completa a curva. É preciso estar atento para todos os detalhes. 


Curva à direita: Atenção!

Com o passar das horas e da quilometragem a subida não terminava, mas o horizonte já apontava que o tempo não permaneceria “bonito”. Muitas nuvens começaram a se formar e parecia que novamente eu teria que enfrentar a chuva. Consegui terminar o aclive de 12 quilômetros em pouco mais de duas horas. Não é fácil pedalar a 6 km/h por tanto tempo, mas faz parte do desafio na Cordilheira dos Andes.


Alivio: Descida!

Após suar a camisa, literalmente, estava na hora de começar a descida. Foram 14 quilômetros de montanha abaixo. Mas minha velocidade não passava dos 45 km/h porque eu necessitava puxar os dois freios o tempo inteiro, caso contrário, em uma emergência seria impossível parar a bicicleta a 50-60 km/h. As curvas estão em todas as partes e sempre surge alguma coisa na estrada que surpreende. Uma das coisas que você aprende em uma viagem longa é que tudo pode acontecer. 


Na “bajada” tive apenas que cuidar com alguns trechos em obras. No mais, foi tudo tranquilo. Cheguei ao povoado de Tablon e visualizei o grande vale esverdeado com a pequena cidade de San Felipe de Onã. Quer dizer, eu acho que é uma cidade, aqui no Equador eu não consigo distinguir muito bem o que é cidade (pequena) e distrito. 


San Felipe de Oña

Continuei a descida em direção à San Felipe e deparei-me com a divisa de estado, aqui chamado de província. O pedal seguiria pelas estradas de Azuay, cuja capital é Cuenca. No rio que marca a divisa também indica o término do declive de 14 quilômetros. O lugar é muito bonito com cachoeiras pelas encostas e o rio que corta as montanhas. 


Divisa de provincias.

Rio que marca a divisa dos "estados".

Há uma pequena subida antes de San Felipe, que muitas vezes é chamado apenas de Onã, no pequeno município eu não achei nenhuma hospedagem, mas existem vários restaurantes e lugares possíveis de acampar. Então, fica a dica para quem um dia pedalar pela região. De Saraguro à Onã são aproximadamente 40 quilômetros.


Na saída de Onã tive uma surpresa, encontrei o primeiro cicloturista pelas estradas equatorianas. Era um japonês bem simples, mas com um nome complicado demais para a minha memória guardar. Viajava há dois meses desde Caracas na Venezuela e se direcionava à Ushuaia. 


Japonês pelas estradas da América do Sul.

O japonês não tem velocímetro, mas calculava que eu teria 12 quilômetros de descida até chegar a uma ponte e depois a subida seria de 25 quilômetros. Minha surpresa não foi maior porque eu já esperava algo parecido, uma vez que eu havia analisado a altimetria em Catamayo. A notícia boa é que 5 km após a ponte teria um povoado onde eu encontraria um restaurante. Já estava próximo do meio dia e eu precisava me alimentar.


Descida de 9 km e subida de 25 km. O aclive segue até o topo daquela montanha ao fundo.

Conversei mais um pouco com o japonês, inclusive, também passei algumas informações do trajeto e o endereço da casa de ciclistas em Trujillo/Peru que ele desconhecia. Depois cada um seguiu seu destino. O meu era ficar cada vez mais perto de Cuenca. 


A descida depois de Onã teve 9 quilômetros, o japa errou por três. Na hora eu pensei; bem que ele poderia ter se equivocado na distância da subida, que começou logo após a passagem pela ponte. Eu estava com fome e esperava ansioso a chegada do restaurante, que apareceu apenas 7 quilômetros após a ponte no povoado de Susudel (2375 metros de altitude). 


Susudel!

No restaurante a refeição continua barata, 2 dólares. Dessa vez eu mudei minha estratégia. Ao invés de pedir o prato “bem servido”, perguntei com elegância se era possível caprichar no arroz para ter energia e encarar a subida a seguir. Acontece que nos restaurantes anteriores, eu percebi que (através do meu pedido) eles caprichavam bastante, mas somente na carne. Então fiquei na expectativa de como estaria meu prato.


A sopa típica estava muito boa. Quando a principal refeição apareceu eu tive uma boa surpresa. Meu pedido foi atendido e o prato estava repleto de arroz. Maravilha! Havia também lentilha, salada, banana frita e carne de porco. Tudo muito bom.


Fique aproximadamente 45 minutos no restaurante e voltei à estrada, não sem antes passar o protetor solar. Não enxergava o sol, mas seus raios continuavam a queimar a pele, por isso é melhor prevenir do que remediar. 


Se a subida tinha 25 quilômetros e eu havia pedalado 7 até o restaurante, me restavam apenas 18 quilômetros. Coisa básica! O trecho é íngreme e extenso. Resumindo: é brabo! No alto eu visualizava a pequena Onã do outro lado do vale. Às margens da rodovia eu encontrava diversas olarias com tamanhos bem modestos, é verdade.


Pequenas e simples olarias.

A sensação de subir essas montanhas é sempre de estar indo aos céus sem precisar morrer (há controvérsias) ou voar. Você fica próximo das nuvens e passa a ver tudo pequeno lá embaixo. É simplesmente incrível, mas não é nada fácil. Em determinados trechos eu avançava menos de trinta metros e parava para restabelecer as energias à base de água e bolacha, claro. 


Literalmente nas alturas.

Em uma olaria perguntei qual era o próximo povoado e me responderam que La Paz estava há 10 quilômetros. Metade ainda seria de subida. A estrada faz umas curvas bizarras o tempo todo e uma hora contornou a montanha e o que era íngreme ficou pior. Sim, aqui tudo pode ficar pior. 


Como eu já mencionei várias vezes, se você não tem um objetivo bem definido na sua cicloviagem, você provavelmente ficará pelo caminho, sobretudo, se a Cordilheira dos Andes estiver presente no trajeto. Ela é imperdoável com quem não está preparado. Eu felizmente tenho conseguido avançar, mas não tem sido nada fácil e a luta só tem terminado após cinco rounds e com a decisão (nem sempre unânime) dos juízes. Espero manter meu cinturão contra essa temida e respeitada Cordilheira até voltar ao Brasil.


Por volta das 16 horas o tempo começou a fechar violentamente. A neblina apareceu e trouxe a temperatura baixa com ela. Felizmente a subida terminou com exatos 20 quilômetros. Pensei que desceria até La Paz, mas foi preciso encarar um sobe e desce até chegar ao povoado. No início do perímetro urbano apareceu um “paradero” com restaurante e mercado. Pensei em perguntar se poderia montar acampamento em algum local, mas o estabelecimento sofisticado me fez seguir em frente.


Começa a fechar o tempo.

Ainda em La Paz, uma cena curiosa. Várias barracas à beira da estrada preparam e vendem porções de carne de porco. O detalhe é para a forma como isso ocorre. O animal é exposto inteiro em um suporte e então passa a ser pré-assado(?) com a utilização de um maçarico e na sequencia cortam um pedaço que posteriormente é picado e frito na panela. Depois servem a porção com mandioca e mais alguma coisa que não soube identificar. Muitas pessoas param e degustam o prato típico da região.


Tradição local.

In foco.

Eu parei em um desses estabelecimentos para perguntar sobre a existência de alguma hospedagem no povoado. Disseram que o tal “paradero” também oferece pouso. Mas eu não estava disposto a voltar alguns quilômetros, mesmo que nos próximos vilarejos também não houvesse nada, conforme me informaram. Isso significava que eu teria que acampar novamente, sem problema. Antes de avançar, gentilmente pedi para completarem minhas garrafas de água, afinal, eu necessitaria dela para cozinhar e me hidratar até o dia seguinte.


Na saída de La Paz perguntei a um homem se havia muita subida pelo caminho. Mais seis quilômetros de subida foi a informação recebida. Misericórdia! A essa altura estava tudo branco e quase não era possível enxergar o horizonte em razão da neblina. O próximo povoado (La Jarata) estava a menos dez quilômetros. Segui em sua direção.


Em direção à La Jarata.

Visibilidade "perfeita".

No caminho para La Jarata fiquei atento para ver se encontrava algum lugar coberto para montar acampamento. Aqui tem chovido toda noite, então é preciso ter um local coberto. Mas a única coisa que achei no caminho foram as subidas. Praticamente mais dez quilômetros de montanha acima. Eu estava muito cansado, já totalizava mais de quarenta quilômetros de aclives no dia. Imagina a situação. 


Em uma pequena descida finalmente apareceu (às 18 horas) a pequena vila de La Jarata. Parei em um restaurante (que também tinha o porco exibido na entrada) e perguntei sobre a possibilidade de montar acampamento em algum lugar atrás do estabelecimento. Então me falaram sobre a existência de uma casa no outro lado da rodovia onde eu poderia passar a noite. Todavia, eu necessitava pedir a chave para a senhora que era proprietária de uma tenda à beira da estrada.


Fui à tal tenda e lá encontrei uma senhora de poucas palavras. Pensei que não estava sendo compreendido quando comecei a explicar o que precisava. Mas ela balançou a cabeça positivamente e saiu para pegar a chave. Minutos depois ela apareceu e pediu que eu a acompanhasse.


O local é na verdade um salão comunitário. Havia um espaço enorme para montar minha barraca. Pareceu-me bem seguro e protegido contra chuva e vento. Antes de ir embora a senhora me informa que é preciso uma contribuição pela hospedagem. Questiono o valor e ela repete é que apenas uma contribuição voluntária. Achei justo e disse que depois do jantar eu faria minha colaboração.


Montei acampamento rapidamente e fui ao restaurante jantar. Menu tradicional. No segundo prato, novamente carne de porco. Pelo jeito é bem apreciada na região. Eu como sem problema. Acho uma carne saborosa. A refeição custou $ 2,50. Na sequencia fui até à mercearia e fiz minha colaboração com 2,50 dólares pela hospedagem. É a metade do que costumo pagar nos hotéis econômicos. Já que não havia banheiro, cama e etc. achei que estava de bom tamanho. 


Regressei ao salão comunitário e fui direto para o saco de dormir que já me esperava dentro da barraca. Estava bem frio e com a minha canseira, nada melhor do que descansar. Fui dormir às 19 horas. Era bem cedo e provavelmente eu acordaria de madrugada, já que meu sono tem durado em torno de 7 horas, isso quando ninguém briga ou não aparece um rato para incomodar. Em todo caso, eu estava bem alojado e tinha superado mais um dia complicado. Não havia o que me queixar. Por isso agradeci aos deuses e fui descansar.


Dia finalizado com 84,23 km em 8h19m e velocidade média de 10,12 km/h.


24/11/2012 - 139° dia - La Jarata a Cuenca


Mais um desafio superado!


A noite foi chuvosa e como eu suspeitava, acordei naturalmente à 1h00m. Já estava descansado. Mas eu é que não sairia para pedalar a esse horário. Então fiquei quieto na barraca e comecei a pensar na vida, sobretudo, nas amizades. Engraçado como as pessoas que outrora eram melhores amigos (as), hoje simplesmente não tem a coragem de perguntar como você está. Acho isso um absurdo enorme. Minha mãe me lembrou pouco tempo atrás que as pessoas são diferentes e nem sempre agem como gostaríamos. Tudo bem. Mas acho uma pena!


Um dos maiores aprendizados dessa viagem “solitária” é que você é o maior responsável pelo caminho que percorre e, sobretudo, a forma como faz isso. Então, acho incrível como as pessoas hoje em dia procuram desculpas para tudo, família, trabalho, isso e aquilo. Tudo para não se manterem distantes e fechadas em seus mundos particulares. 


Apenas para efeito de comparação, tenho “amigos” que desde o começo desta expedição, jamais desejaram “boa viagem”. Geralmente são essas pessoas que te procuram somente quando precisam de alguma coisa. Não é da minha natureza ignorar esses indivíduos. Mas que estejamos mais atentos para aquilo que acontece com nossos familiares, amigos e colegas. A vida passa rápida demais. Saiba valorizar àqueles que estão contigo, mesmo à distância.


Após as reflexões da madrugada, procurei dormir, mas o máximo que consegui foi tirar um e outro cochilo. Por volta das 5h30m levantei e comecei a desmontar o acampamento e uma hora mais tarde eu estava na estrada para encarar os 55 quilômetros restantes até Cuenca. Pelo menos era essa a distância informada na placa em La Jarata.


Acampamento no salão comunitário.


Salão comunitário

Falta pouco.

Não chovia e o sol buscava aparecer entre as nuvens, mas estava difícil. A temperatura estava um pouco baixa e resolvi sair com a minha segunda-pele que sempre quebra o maior “galho” em situações em que o frio é moderado. 


Para começar bem o dia, adivinha? Subida! Foram quase dez quilômetros praticamente em direção ao céu. Acho que foi neste trecho que a altitude chegou a quase 3.500 metros de altitude. E pensar que a menos de dez dias eu estava quase no nível do mar. Hoje liguei o mp3 bem cedo para amenizar os efeitos da subida. Música boa é sempre uma ajuda extra. 


Cada vez mais alto. 3 mil metros de altitude.

Uma das curiosidades da manhã foi uma placa equivocada que indicava descida e também a direção para Machala e Cuenca. Fiquei todo animado quando visualizei a placa. Pensei que desse ponto em diante seria apenas declive. Mas para a minha surpresa, não havia nenhuma “bajada” e muito menos cruzamento para as cidades mencionadas. O que apareceu foi um bom trecho de sobe e desce entre a paisagem nas alturas.


A placa equivocada!

Paisagem.

Com 23 quilômetros pedalados começou a esperada descida. Alivio para as pernas e trabalho para as mãos que puxavam os dois freios a todo instante. Mas a descida foi tranquila. Pelo caminho alguns vilarejos e a cidade/distrito de Cumbe que pode oferecer certa estrutura para quem viaja pela região. 


O declive continuou até o trevo de acesso para Machala (litoral) e/ou Cuenca. Foram exatamente 20 quilômetros de descida. Que maravilha! Depois segui pela E-35 em direção ao meu destino. O acostamento voltou e se tornou uma ciclovia com várias placas que alertavam os motoristas sobre a presença de ciclistas.


Chegada ao trevo de acesso para Cuenca.

Criação de gado na região.

O acostamento que virou ciclovia.

Sinceramente eu não soube identificar e decifrar essa placa. O que será?

Placas indicam frequentemente a presença de ciclistas.

A “ciclovia” está bastante suja, muitas pedras e cacos de vidro. Fiquei atento para desviar de objetos cortantes. Meu pneu dianteiro está cada vez mais gasto. Acho que ainda não furou por causa da fita anti-furo porque as costuras estão cada vez mais à mostra. O trajeto também apresenta outra novidade, terreno plano. Fácil de manter 15/20 km/h.



Embora cada vez mais próximo da cidade, o cenário bucólico intensificava-se e a paisagem é agradável, pelo menos para mim. Assim é muito mais gostoso de pedalar. Nos campos o destaque é a criação de gado. A produção de leite parece ser um ponto forte da economia local. 


Ambiente bucólico.

Ambiente bucólico.

Chancho a la Barbosa.

In foco.

Panamericana - (E-35)

Finalmente Cuenca. São praticamente 14 quilômetros entre o trevo e a entrada da cidade, que por sinal é a terceira maior do país com mais de 300 mil habitantes. Apesar do tráfego maior de veículos, a chegada foi tranquila. Uma coisa é preciso mencionar. Que diferença o trânsito equatoriano do peruano e boliviano. Aqui não existe aquele barulho constante das buzinas e olha que muitos taxis também estão presentes pelas ruas. É outro cultura atrás do volante, ainda bem.


Finalmente em Cuenca.

Na entrada de Cuenca peço informações para chegar ao centro. Sou informado que fica a menos de três quilômetros. Fui conferir. O caminho é fácil de achar e durante o percurso vejo duas bicicletarias. Na segunda parei na intenção de pedir recomendações sobre hospedagem. O proprietário perguntou se a diária de 15 dólares era muito para mim. Certamente respondi que sim. Desde que atravessei a fronteira a média tem sido de 5 dólares. No entanto, ele disse que esse valor em Cuenca era apenas para lugares frequentados por prostitutas e que não havia segurança.


Em direção ao centro da cidade.

O dono da bicicletaria me recomendou um hotel mais ao centro. Quando cheguei em uma das referencias havia esquecido o nome do lugar (cabeçudo!). Então segui o fluxo dos veículos. Era como na música do Raul Seixas: Não sei onde estou indo, mas sei que estou no meu caminho. Apareceu um hostal e fui perguntar a diária. Dez dólares, mas eu teria que descarregar toda a Victoria para leva-la ao quarto. O recepcionista (não muito receptivo) me indicou um lugar com hospedagens mais econômicas. Lá fui eu conferir.


Na região onde o preço era mais barato, a diária no hostal verificado custava 25 dólares. Que facada! Claro que agradeci as informações e me mandei. Logo depois encontrei o Hostal Siberia. A diária também era de 10 dólares. Banheiro privado e televisão. A Victoria poderia permanecer na recepção. Como achei que não encontraria algo mais em conta, resolvi ficar. O prédio da hospedagem é enorme e me pareceu ser seguro. Terminava meu pedal às 11h30m.


Após levar parte da bagagem para o quarto, tomei um banho (quente!) e fui procurar um lugar para almoçar. Caminhei algumas quadras e descobri que estou mais próximo da praça principal do que imaginava. Andei bastante para encontrar um restaurante compatível com meu bolso. Acontece que Cuenca concentra boa parte dos afortunados do Equador. E como a cidade também é turística, a região central tem vários estabelecimentos sofisticados voltados a esses públicos. 


Enquanto procuro um local para comer compreendo o porquê a cidade é patrimônio cultural da humanidade. Cuenca foi o município equatoriano que mais preservou a arquitetura colonial, herança dos espanhóis. E sinceramente, é algo extraordinário. Não é possível comparar com nenhuma cidade que eu tenha visitado nesta expedição. O centro histórico é enorme (de verdade) e por todas as ruas há prédios e casas coloniais com os mais belos traços e detalhes em suas fachadas. Não é à toa que é considerada a cidade mais bonita do país.


Após uma longa caminhada, finalmente encontrei um lugar para almoçar. Um restaurante bem simpático e com preço acessível. A refeição custou apenas 2 dólares, sopa típica e carne de gado no segundo prato. Um refresco bem gelado estava incluido. A refeição simplesmente uma delícia. 


Aproveitei que estava na rua e procurei me informar sobre a localização de algum mercado. Precisava reforçar meu estoque de frutas, pães e bolachas. Uma mulher me orientou onde poderia encontrar o que procurava. Durante a caminhada continuei me surpreendendo com a dimensão e a preservação dos prédios históricos. A catedral, por exemplo, é simplesmente uma das maiores que eu já vi na vida. Não por menos é considerada uma das mais largas da América do Sul.


O mercado que a mulher me indicou era na verdade o mercado municipal. Caminhei pouco pelo imenso local porque pretendia voltar outra hora com mais tranquilidade. No momento estive apenas na seção de frutas onde comprei banana, laranja e mexerica. Há uma diversidade enorme de frutas, mas não posso me dar o luxo de comprar todas àquelas que gostaria. 


No lado de fora do mercado encontrei uma mercearia e então comprei pão de forma, geléia e água (6 litros por 2,50 reais). Voltei para a hospedagem com as mãos cheias de sacola. Não tirei nenhuma foto do centro porque pretendo voltar amanhã ou depois para registrar o local com a devida atenção. 


No final da tarde começou a chover e permaneceu assim de noite. Aproveitei e preparei minha janta e depois fui ver um pouco de televisão que apesar de milhões de canais, não tinha nada de muito interessante. O legal para aprender o idioma é ver os filmes legendados em espanhol. Isso sim vale a pena. Depois fui dormir o sono dos justos. Merecido descanso! 


Dia finalizado com 64,15 km em 4h31m e velocidade média de 14,17 km/h.


25/11/2012 - 140° dia - Cuenca (Folga)


Estava com saudade de escrever (Folga) aqui no diário de bordo. 


O que fazer na manhã livre de domingo? O que? O que? Lavar roupa! Aproveitei o banheiro no quarto e fui lavar minhas roupas sujas que começavam a se acumular mais do que deveriam. Claro que antes de começar a limpeza tomei meu desayuno reforçado, isso às 6h30m.


A última bolacha peruana.

Demorei um tempo para deixar tudo limpo, o espaço não era muito adequado, mas ficou tudo novo, de novo. Quer dizer, minha camisa de ciclismo do Brasil está limpa, mas inutilizada. O zíper quebrou e vou ter que levar em alguma costureira para consertar. Não posso nem reclamar, a peça adquirida em 2007 foi a primeira do meu vestuário ciclístico. 


As roupas secando no "varal", rs.

Depois da lavação comecei a atualizar o diário de bordo. Pretendia sacar as fotos do centro histórico hoje de manhã, já que não teria muita gente pelas ruas. Mas o tempo estava extremamente fechado e o registro não ficaria legal. Então resolvi escrever. Fiquei na função até a hora do almoço quando decidi procurar um lugar para comer.


Atualização do diário de bordo.

Hoje resolvi encontrar um restaurante mais próximo do hostal. Achei, mas foi uma decepção. A sopa demorou quase meia hora para aparecer na mesa e não era das melhores. O segundo prato com arroz, carne e salada também levou vários minutos para chegar. A minha fome era tanta que em poucos minutos a comida desapareceu do prato. Paguei os 2,50 dólares e voltei para a hospedagem a fim de terminar o relato.


Devo permanecer em Cuenca até terça-feira de manhã. Depois sigo para Ambato e na sequencia Quito. Para variar, o caminho é repleto de subida. Vamos que vamos!


Hasta luego!


26/11/2012 - 141° dia - Cuenca (Folga)


Acordei exatamente às 6 horas sem precisar de despertador. Olhei na janela e confirmei a suspeita, chuva para começar bem o dia. Que maravilha! Acontece que eu queria aproveitar as primeiras horas da manhã para registrar o centro histórico, mas com chuva fica meio difícil. Restou-me preparar o desayuno e esperar o tempo melhorar.


Aqui nas montanhas tudo muda o tempo todo. Meia hora após o café da manhã o sol já desponta tímido entre as nuvens que começam a se dispersar. Fiquei animado e logo troquei de roupa para sair às ruas.


Por volta das 7 horas da manhã eu saia da hospedagem para caminhar pelas maravilhosas ruas de Cuenca. Primeiramente fui em direção do Parque Calderón, como é chamada a principal praça da cidade que ao redor concentra a Iglesia del Sagrario (Catedral Vieja); Catedral de la Inmaculada Concepción (Catedral Nueva); Governo de Azuay e; vários outros prédios históricos.


Em direção do Parque Calderón.

Catedral Vieja

 
Parque Calderón e a Catedral Nueva ao fundo.

 
Parque Calderón e a Catedral Nueva ao fundo.

Parque Calderón e a Catedral Nueva ao fundo.

In foco.

De outro ângulo.

 
Região central.

 
Calle Bolívar e a sede do governo de Azuay.

 
As charmosas construções.

Como ainda era cedo, a região do Parque Calderón estava bem tranquila e poucas pessoas encontravam-se pelas ruas. O centro, como disse na postagem anterior, é enorme e por todos os lados existem construções antigas, seja da época colonial ou republicana. Então resolvi seguir pela Calle Bolívar para admirar as peculiaridades da arquitetura que concedeu à cidade o titulo de Patrimônio Cultural da Humanidade.


Pela extensa Calle Bolívar encontrei a Iglesia de San Alfonso e também a prefeitura de Cuenca, uma obra impressionante da época republicana. Nas proximidades dessa área é possível visualizar centenas de casarões de distintas épocas e estilos. Chama atenção os detalhes, as sacadas e o charme de modo geral. Quisera eu que essa nossa arquitetura dita “moderna” tivesse um pouco da “vida” dessas construções históricas. 


"Alcadia" de Cuenca.

Prefeitura. Arquitetura republicana.

Andar por Cuenca é simplesmente uma volta ao passado. Suas ruas de pedras, calçadas pequenas e prédios antigos nos remetem a uma época que apenas conhecemos pelos livros. Sou suspeito para dizer algo, mas tudo isso me fascina. Na mesma Calle Bolivar encontrei a Casa del Coco, uma indicação do guia/livro que dizia ser outra obra republicana imperdível para conhecer. Sem dúvida é o local é bem interessante, mais uma beleza do centro histórico. 


Aqui os onibus são parecidos com aqueles existentes no Brasil.

Detalhe para as pequenas e bonitas sacadas.

Detalhes que fazem a diferença

Casa del Coco.

Pelas ruas históricas de Cuenca.

A imensa Calle Bolívar.

Próximo da Casa del Coco está localizada a Iglesia San Sebastian e ao lado o parque que leva o mesmo nome. A essa altura o tempo já estava mais aberto e foi possível registrar melhor todas essas particularidades de uma cidade que soube preservar sua arquitetura, monumentos e histórias.


Iglesia San Sebastian

Parque San Sebastian

Andei bastante pelas ruas do centro e então resolvi voltar ao Mercado Municipal, chamado de Mercado 10 de Agosto. Com mais tranquilidade foi possível observar melhor toda a movimentação do local, que por sinal, é moderno, limpo e com uma variedade enorme de frutas, legumes, verduras, carnes e pescados. Também é possível encontrar roupas, calçados e diversos outros artigos. Há ainda três praças de alimentação no piso superior, uma delas dedicada apenas aos desayunos. Vale a pena conferir.


Vista da parte "baixa" de Cuenca.

In foco.

 
Mercado Municipal.

 
Muitas frutas.

In foco.

In foco.

In foco.

 
Carnes.

 
Corredor das carnes

In foco.

In foco.

 
Pescados.

 
Praça de alimentação

 
Praça de alimentação

Grãos

Legumes e verduras.

Legumes e verduras.

Legumes e verduras.

Legumes e verduras.

Legumes e verduras.

Doces.

O mercado público me agradou bastante, um dos mais interessantes visitados até agora, sem dúvida. No local, além dos diversos produtos e serviços, é possível ver todo o tipo de gente, um ambiente verdadeiramente cosmopolita. E acho que resume um pouco o que é a cidade de Cuenca. 


São inúmeras as igrejas presentes na cidade. Na volta para a hospedagem passei pelo templo San Francisco e posteriormente no Santuário Mariano que está localizado na Praça das Flores, onde é possível comprar as mais variadas flores. Não faltam opções e muito menos barracas para atender o público que movimenta o lugar. 


Centro histórico.

Vai dizer que não é uma volta ao passado?

Iglesia San Francisco.

Plaza das Flores.

Plaza das Flores.

Plaza das Flores.

In foco.

Plaza das Flores.

A Praça das Flores está próxima da Catedral Nueva, então aproveitei para conferir se a mesma estava aberta. Segundo o guia Viajante Independente o interior da igreja abusa da utilização do mármore. Para a minha felicidade as portas estavam aberta e foi possível observar a fantástica construção e assistir um pouco da missa que acontecia naquele horário. Vale mencionar que o Papa João Paulo II esteve neste local em 1985. 


A Catedral Nueva é imensa e além do mármore presente no interior da obra, destaca também o altar que é um espetáculo à parte. O que eu gosto de apreciar em monumentos religiosos são esses detalhes e acabamentos. Fico a imaginar a criatividade e habilidade de quem projetou e realizou cada obra presente. Essas pessoas são verdadeiros artistas que, independente da religião, deveriam ter suas obras de arte respeitadas e admiradas. No Brasil, o estado de Minas Gerais, sobretudo, a cidade de Ouro Preto, é um lugar excelente para essa prática. Fica a dica.


Altar da Catedral Nueva.

Interior da Catedral.

Interior da Catedral.

Voltei para a hospedagem, lavei mais um pouco de roupa e comecei a escrever o diário de bordo. No período da tarde quero fazer a atualização do site. Talvez eu fique mais um dia na cidade, quero conhecer uma área ao lado do Rio Tomebamba que concentra alguns museus em suas margens. Ainda tenho que passar na bicicletaria para comprar as borrachas do freio e verificar se encontro o pneu Pirelli ou qualquer outro para colocar na roda dianteira. 


Hostal Siberia.

No mais, devo fazer a próxima atualização do site em Quito. Há um trecho nada fácil para chegar à capital equatoriana, então não sei quando isso deve acontecer. Em todo caso, estou bem, feliz e cada vez mais próximo da metade do mundo. Quem diria, heim? Não sei quantas pessoas acreditavam que eu poderia ir tão longe de bicicleta. Mas o importante é que eu nunca deixei de acreditar que seria possível. Com esse pensamento continuo firme e forte para seguir viagem.


Abraços, meus amigos.


27/11/2012 - 142° dia - Cuenca (Folga)

Dia dedicado à atualização do site, manutenção da Victoria e também para conhecer um pouco mais a cidade de Cuenca.

PS: Receba todas as atualizações do diário de bordo diretamente no seu e-mail. Basta registrar seu endereço eletrônico no feed Cicloturismo Selvagem. Na parte superior direita do site há um espaço para colocar seu e-mail. Em seguida, confira sua caixa de mensagem e confirme sua participação. Tudo muito fácil e rápido. Toda vez que houver uma postagem nova, você será notificado. Fica a dica.

Hasta luego!