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terça-feira, 18 de junho de 2013

Brasil IV

22/05/2013 - 318° dia - Belém (Folga)
Conhecendo a grandiosa Belém.
Como havia mencionado na postagem anterior, hoje o dia seria dedicado à visitação dos principais atrativos da capital de paraense. Por isso acordei cedo e pouco depois das 7 horas da manhã eu já estava na movimentada e importante avenida onde está localizada a residência do anfitrião Santos, que me orientou sobre quais ônibus pegar para chegar à região central que concentra os mais importantes pontos turísticos da cidade.
A frota de ônibus na cidade é muito grande e não precisei esperar para pegar um veículo em direção ao Ver-o-Peso, local escolhido para começar meu passeio. O mercado talvez seja o lugar mais conhecido de Belém. A passagem de ônibus custou R$ 2,20 e o que chamou a atenção foi o número de poltronas destinadas aos passageiros, muito maior do que a maioria dos ônibus com a mesma finalidade nas outras cidades. Sem dúvida isso beneficia o usuário que não fica demasiadamente espremido.
Não sei quanto custa o preço da passagem de ônibus em Boa Vista/RR, mas em Manaus/AM a tarifa absurda chega aos três reais e o serviço prestado está longe de ser compatível com o valor cobrado. Sem esquecer de mencionar que a pavimentação na capital amazonense deixa a desejar. Essas questões já são um pouco melhores em Belém, contudo, a quantidade de veículos nas ruas e avenidas causa congestionamentos frequentes e aumenta consideravelmente o tempo de deslocamento. No meu caso essa duração foi de 1h30m. Por mais de uma vez pensei que seria muito mais rápido ter ido de bicicleta, no entanto, na ausência de um lugar seguro e conhecido para tranca-la, achei melhor pegar o ônibus.
O sol aparece muito cedo nesta região e o tempo começa a ficar claro a partir das 5h30m. Duas horas depois a temperatura é extremamente elevada e a sensação térmica se torna ainda maior dentro do ônibus que custa a chegar ao destino desejado. Quando finalmente desembarco na parada do Ver-o-Peso começoi a minha jornada pelo bairro denominado Cidade Velha.
O mercado Ver-o-Peso é a maior feira ao ar livre da América Latina. Em sua enorme área é possível encontrar de tudo um pouco; frutas típicas da Amazônia, legumes, verduras, vários tipos de farinha e até um espaço destinado à alimentação, onde, talvez a maior curiosidade para nós, “forasteiros”, seja a combinação de um prato bastante popular na região; açaí com peixe frito. São várias barracas que oferecem a iguaria.

Mercado Ver-o-Peso
Travessa Boulevard Castilho Franca
Mercado Ver-o-Peso
Pessoal lavando legumes às margens do Mercado Ver-o-Peso
Cacau, castanhas, açaí, pupunhas, entre outras frutas tipicas da região norte do  país.
Frutas tipicas encontradas no Mercado Ver-o-Peso.
Castanhas e pupunhas.
Um dos setores mais tradicionais, divulgado e conhecido do Ver-o-Peso é o das ervas: “[...] nele resguardam elementos centrais da identidade da população amazônica: seus saberes e fazeres acumulados sobre os recursos naturais e também todo o sistema de crenças da região.” Sem dúvida é uma das partes mais interessantes da feira. Parei na barraca da Dona Coló que ficou famosa no local por receber várias celebridades do meio artístico. Atenciosa me apresentou seus produtos um tanto esdrúxulos.

Setor das Ervas. Barraca de produtos naturais da Dona Coló.
Setor das Ervas
As “misturas” com os produtos naturais encontrados no Setor das Ervas tem as mais diversas finalidades, desde remédios, simples aromatizadores a frascos de fragrâncias intitulados; amansa corno; chama tudo; amansa sogra; conquista; chega-te-a-mim, vai e volta, abre caminho, laço de amor, atrativo da perseguida e mais dezenas de opções a quem estiver interessado. Se a funcionalidade é realmente comprovada eu não sei, mas é quase impossível não rir (com todo respeito) com essas nomenclaturas.

Produtos naturais: remédios à fragârncias
Ao lado da feira existe o antigo prédio onde funciona o Mercado do Peixe. O local atualmente passa por um processo de restauração que deve ser finalizado em dezembro desse ano. A área, como o próprio nome sugere, abriga os mais diversos pescados da região. Tem peixe de vários tamanhos e preços. Vale conferir.

Mercado do Peixe
Mercado do Peixe
Mercado do Peixe
Os responsáveis pelos pescados ancoram suas embarcações no cais às margens da baía do Guajará onde também é possível encontrar vendedores e suas mercadorias oriundas da água doce e salgada. Essa área acaba por separar o Mercado do Peixe e o Mercado do Açaí. A fruta é muito abundante no Estado e faz parte das refeições diárias de muitos moradores locais. Normalmente o desembarque do açaí acontece no final da madrugada, período em que o mercado fica bastante movimentado. Como eu cheguei um pouco mais tarde, não presenciei a agitação, mas ainda assim registrei a chegada de uma carga ao local.

Cais na baía de Guajará. Destaque para as construções antigas ao fundo.
Ver-o-Peso de um ângulo diferente.
Extensão do comércio de pescados na região do Mercado Ver-o-Peso.
In foco.
In foco.
Descarregamento do açaí.
Vale ressaltar as construções históricas que rodeiam esses mercados, herança dos portugueses, a arquitetura chama atenção também pelos detalhes, muitas vezes acompanhados de azulejos oriundos da Europa. A marca do tempo é nítida nos prédios que, infelizmente, .apesar de tombados como patrimônio histórico, praticamente não recebem a devida preservação.


Novo registro na Praça do Relógio
Pelas ruas do bairro Cidade Velha.
Infelizmente alguns prédios estão simplesmente abandonados 
A Cidade Velha também concentra alguns museus, inclusive, o Museu do Círio que apresenta a história de uma das maiores manifestações religiosas do mundo que é o Círio de Nazaré. Não cheguei a fazer a visita, mas deve ser interessante conhecer um pouco melhor a respeito. No meu primeiro dia na cidade, o cicerone Lauro me mostrou parte do caminho que é realizado pelos fiéis e também a enorme igreja de Nazaré que, infelizmente, não foi registrada na ocasião. O que eu não deixei de fotografar hoje foi a parte externa da Catedral que fica na frente da Praça Frei Caetano Brandão.

Catedral
Homenagem a Frei Caetano Brandão.na praça que também leva seu nome.
Na frente da Catedral está o Forte do Presépio que é o marco da fundação de Belém, datado de 1616 pelos portugueses. Sua instalação tinha a pretensão de proteger o domínio da região contra a invasão dos franceses. A antiga construção ainda preserva os canhões da época que estão distribuídos tanto na parte externa e interna. A entrada no Forte custa dois reais. A visita é válida pelo panorama que se tem do Mercado Ver-o-Peso e pelo museu que expõe melhor a história que envolve a fundação da capital e costumes indígenas da região. Recomendo.

Forte do Presépio
Forte do Presépio de outro ângulo
In foco.

In foco.
Casarões do bairro Cidade Velha ao lado do Forte do Presépio.
Mais uma volta ao passado.
Parte de trás do Forte do Presépio. Fotografia realizada no Mercado Ver-o-Peso.
Literalmente na mira do canhão, rs.
Parte interna do Forte.
Detalhe na Casa de Pólvora do Forte do Presépio.
Yo!
Registro garantido na região mais conhecida de Belém.
Navio da Marinha
Acredite, isso é um posto de combustível flutuante. No Pará é assim ..
In foco.
In foco.
Após a visita ao Forte e uma caminhada pela Cidade Velha eu resolvi ir à Praça da República para registrar e conferir o interior do Teatro da Paz, maior da região norte do Brasil. Para chegar ao local não precisei andar muito, mas ainda assim foi possível conhecer uma parte do centro da cidade que não é diferente de outras capitais, muito trânsito, pessoas e um diversificado comércio.
Na agradável Praça da República fui diretamente ao teatro onde a entrada custou 4 reais. A visita é guiada e a responsável por desempenhar essa tarefa me pareceu muito capacitada. A construção que também é da época áurea do Ciclo da Borracha e um pouco anterior à realização do Teatro Amazonas em Manaus e sua capacidade é superior e suporta mais de mil pessoas. O interior também é majestoso como aquele da capital amazonense. E não poderia ser muito diferente já que ambos tinham o mesmo decorador, o artista italiano Domenico de Angelise. A maioria do material é proveniente da Europa.

Praça da República.
Coreto francês
Praça da República.
Prédio em processo de restauração.
Teatro da Paz.
Palco do Teatro da Paz
Registro garantido.
Pavimentos e seus camarotes.
Se no Teatro Amazonas o piso era alusivo ao encontro das águas, aqui em Belém o Teatro da Paz faz referência  à Vitória-régia.
Salão Nobre.
A parte externa do Teatro da Paz também é muito interessante e repleta de detalhes carregados de significados que passariam despercebidos se não fossem as informações repassadas pela guia. Aliás, no final do passeio ela questionou se eu havia efetuado o pagamento da entrada. Com a minha resposta positiva ela mencionou que nas quartas-feiras a entrada era gratuita. Com isso fui à bilheteria onde o funcionário me pediu desculpas e devolveu o dinheiro. Mais uma economia, melhor assim. De qualquer forma, recomendo a visita.
Para voltar à residência do Santos eu precisei apenas pegar um ônibus que passava na movimentada avenida onde o anfitrião mora. Gostaria de ter visitado o Bosque Rodrigues Alves que o Lauro me avisou que era imperdível. Mas o tempo no período da tarde começou a fechar e indicava que a chuva não demoraria a cair, por isso resolvi voltar para o lar.
A chuva realmente caiu no final da tarde e começo da noite e afastou os convidados que o Santos tinha chamado para o churrasco que estava sendo preparado em minha homenagem (olha só que honra). Sei que poucas pessoas compareceram, mas ainda assim foi uma excelente confraternização, onde, além de comer uma excelente carne assada, foi possível relembrar várias histórias e momentos especiais da expedição. Valeu pela companhia, camaradas. Santos, muito obrigado mesmo por essa oportunidade.
A minha pretensão era seguir viagem no dia seguinte, mas como o churrasco terminou apenas por volta das 2 horas da madrugada, ficaria muito difícil levantar às 5 horas para começar pedalar uma hora depois. Por isso, com a permissão do anfitrião, permanecerei um dia a mais na cidade e aproveitarei para descansar já que o diário de bordo está atualizado e os principais pontos turísticos visitados.
23/05/2013 - 319° dia - Belém (Folga)
Dia dedicado exclusivamente ao descanso.
24/05/2013 - 320° dia - Belém x Capanema*
Finalmente o retorno à estrada.
Ontem fui dormir cedo para acordar bem disposto para voltar ao pedal com energia total. A estratégia funcionou e às 5 horas da madrugada eu já estava levantado para arrumar as últimas coisas na bagagem. Antes de seguir viagem aproveitei para tomar o café da manhã preparado pelo Santos que fez questão de acordar cedo para auxiliar no que fosse necessário. Obrigado à toda família pela excelente hospitalidade.

Anfitrião Santos. Muito obrigado pela hospitalidade, camarada.
Com a refeição matinal reforçada, estava na hora de começar o pedal. Só existe uma saída/entrada em Belém e isso torna tudo mais fácil para um cicloturista, sobretudo, porque a saída em questão estava próxima da residência que eu deixava às 6h20m. Ainda era cedo, mas o trânsito enfurecido tomava conta das ruas e avenidas. Precisei de muita atenção para chegar à BR 316. O início da rodovia marcava a divisa entre os municípios de Belém e Ananindeua.
A pista nesta área metropolitana é duplicada e com acostamento, mas ainda assim é preciso ter muito cuidado em razão das várias entradas/saídas e o fluxo intenso de veículos, inclusive de bicicletas. Os demais ciclistas, sobretudo, trabalhadores, também pedalavam atentamente para desviar dos buracos que infelizmente estavam presentes em determinados trechos do acostamento. De qualquer forma foi muito bom ver a quantidade de pessoas que utilizam a bicicleta como meio de transporte em um cenário onde o automóvel é predominante.

BR 316 e o fluxo de veículos e ciclistas.
Essa parte mais movimentada durou aproximadamente 16 quilômetros, precisamente, até a saída da cidade de Marituba que também pertence à região metropolitana. Na sequencia a pista passou a ser simples, porém mais tranquila.
O tempo amanheceu nublado e assim permaneceu, evitando um desgaste físico maior. A paisagem não apresentava muitas novidades e se alternava entre pastagens e florestas com árvores medianas que pouco foram captadas pela lente da câmera fotográfica.
A quilometragem passou rapidamente e às 10 horas eu estava na cidade de Castanhal, uma das maiores da região. No movimentado perímetro urbano visualizei um cicloturista no sentido contrário, mas ele não ouviu meus chamados e cada um seguiu seu destino. Pela aparência deveria ser estrangeiro. Foi uma pena não ter conseguido trocar algumas idéias. Seria muito bom ter mais detalhes sobre o trecho a seguir.
O relevo após Castanhal ficou mais difícil para ser completado, principalmente por causa da montanha-russa que impedia um deslocamento mais rápido. Mas com a minha sede de pedalar, conseguia manter um ritmo razoável e por volta das 13 horas eu completava quase 90 quilômetros e com a fome anunciada aproveitei para almoçar no restaurante Bom Sabor, paralelo a um posto de combustível às margens da rodovia. O estabelecimento estava vazio e o atendimento não foi dos melhores. A refeição poderia ser servida por quilo, prato feito ou buffet, 22, 9 ou 12 reais, respectivamente. Optei por um prato feito, diga-se de passagem, muito caprichado.
Se por um lado eu era o único cliente do restaurante, por outro, parecia que todos os mosquitos do Pará estavam concentrados na minha mesa. Uma situação totalmente desagradável. A minha estratégia para não espantar o inseto indesejado o tempo todo foi simples; separar um pedaço de gordura da carne, colocar em um prato e deixar no canto isolado da mesa. A idéia funcionou e as moscas ficaram tranquilamente no espaço reservado a elas e eu consegui almoçar em paz. Coisas da vida na estrada.
Por causa dos mosquitos eu nem fiquei muito tempo parado e logo que acabei o almoço voltei à estrada para descobrir que 5 quilômetros depois tinha outro restaurante. Paciência. Fica a dica para quem passar pela região. Aliás, restaurante não falta pelo caminho, não se preocupe.
No período da tarde o céu que estava nublado ficou cada vez mais escuro e a chuva não demorou a aparecer. Assim como também surgiu a entrada para a cidade de Santa Maria do Pará e na sequencia o primeiro trevo para Salinópolis, litoral paraense que não estava no meu roteiro e por isso continuei na BR 316 em direção à Capanema, meu destino no final do dia.

Para variar, mais chuva durante a tarde.
Chegar à Capanema no mesmo dia seria uma tarefa muito complicada já que a distância desde a capital era quase de 160 quilômetros. Parece pouco, mas para quem estava sem pedalar na estrada há um bom tempo era um grande desafio, principalmente porque no final do dia as pernas começaram a ficar pesadas. O que também passou a não colaborar após esse trecho de Salinópolis foi o acostamento que começou a ter vários buracos. De qualquer forma, adelante.
Começava a escurecer quando resolvi parar em um vilarejo (pertencente ao município de Peixe-Boi) para sondar a possibilidade de ficar em uma escola, mas as pessoas que encontrei no local não me pareceram muito hospitaleiras e como a recepção não foi das melhores, minha fala ficou limitada à perguntar quantos quilômetros restavam até Capanema.
Não faltava muito para chegar ao destino desejado, contudo, de nada adiantava chegar à Capanema de noite se a pretensão era montar acampamento em alguma propriedade rural às margens da rodovia. Por isso, quando ainda faltavam dez quilômetros para a cidade eu encontrei uma fazenda que não aparentava ser simples, mas que poderia ser um local perfeito para passar a noite já que tinha uma extensa varanda que serviria de abrigo contra a chuva que muito provavelmente cairia durante a madrugada.
Mais uma vez Deus iluminou o caminho e atendendo ao meu pedido para ser guiado a um descanso seguro me direcionou àquela casa onde uma mulher me atendeu e ouviu atentamente a minha solicitação. Ela apenas pediu para eu aguardar um momento que consultaria seu pai. Rapidamente ela retornou e abriu os portões da propriedade permitindo a estadia. Para a minha surpresa eu não era o único viajante que tinha sido hospedado pela família naquele mesmo dia.
Elias é o nome do viajante que muita gente poderia chamar de andarilho, mas acho que mensageiro seja mais apropriado. Afinal, ele, que também é natural de São Paulo, viaja pelo norte do país levando a palavra de Deus, que por sua vez, está presente na maioria de suas falas. Como vivo um momento de oração não fiquei indiferente àquele sinal dos céus e prestei atenção em cada palavra proferida por aquele senhor de cabelo e barba comprida. A tez clara, porém queimada do sol, indicava o caminho difícil que ele enfrentava para cumprir seu propósito.
O mensageiro Elias tem mais de 50 anos e há 12 está na estrada com esse objetivo de levar a palavra de Deus que, segundo ele, foi um chamado que recebeu quando ainda tinha seus 16 anos. Ao ser questionado se pretendia voltar para casa, sua resposta foi negativa e também mencionou que não entrava em contato com a família porque ela não hesitaria em mandar o que ele supostamente precisava. Acho que cada um tem que seguir pelo caminho que acredita. E o Elias me pareceu muito convicto em suas escolhas e também por isso ganhou meu respeito.
A família hospitaleira que abriu as portas da casa para a gente não se importou em oferecer o banheiro para que eu pudesse tomar um banho. Como eu estava todo sujo e suado não pensei duas vezes para ficar limpo de novo. O banho foi de balde, como muitas outras vezes aconteceu na viagem e não foi agora que me importei com isso, muito pelo contrário, fiquei extremamente feliz pelo fato de poder dormir limpo.
Fomos convidados a jantar e questionado se eu comia baião-de-dois, prontamente respondi que comia de tudo, afinal, viajantes nas nossas condições não pode ter preferências. A refeição que estava acompanhada de um delicioso peixe serra (encontrei muitos no Mercado do Peixe em Belém) foi muito bem-vinda e rapidamente devorada. Claro que não deixei a mesa sem agradecer aos anfitriões.
Montei minha barraca na varanda e ainda recebi um colchonete para dormir mais confortável. Foi simplesmente uma hospitalidade fora de série. O Elias recebeu uma rede e foi descansar por algumas horas. Segundo ele, sairia durante a madrugada porque é um horário que gosta de caminhar e refletir.
Já no interior da barraca eu também fui fazer a minha reflexão sobre tudo o que tinha acontecido no final daquele dia. Agradecer a Deus foi sem dúvida a primeira coisa que me veio à cabeça. Depois fui ler a Bíblia que o sargento/pastor Dorival me presenteou antes de chegar em Corumbá/MS no ano passado. A palavra recebida me mostrou que estou no caminho certo para cumprir os meus propósitos.
Dia finalizado com 152,35 km em 10h22m e velocidade média de 14,68 km/h.
25/05/2013 - 321° dia - Capanema* x Cachoeira do Piriá
Pedalando pela montanha-russa paraense.
A noite na fazenda Santa Helena foi muito tranquila. Não me lembro de ter acordado em nenhum momento durante a madrugada. A calmaria e segurança proporcionada pelo local favoreceu um descanso mais do que necessário, afinal, o pedal do dia anterior foi superior a 150 km, distância considerável para quem estava algum tempo sem ir à estrada.
Levantei por volta das 6 horas e enquanto desmontava acampamento o senhor Edvan (responsável pela propriedade) me informou que o Elias (mensageiro) havia partido ainda de madrugada. Infelizmente não foi possível me despedir dele e muito menos fazer um registro fotográfico. Espero que ele siga seu caminho em paz.

Acampamento na Fazenda Santa Helena
O anfitrião me convidou para tomar café da manhã com direito a leite recém ordenhado da vaca. A criação de gado bovino é bastante forte na região e não à toa uma imensa área é destinada às pastagens. Enfim, a refeição matinal ajudou a reforçar o estômago para seguir viagem, não sem antes me despedir da gentil família que me recebeu da melhor forma possível. Fica meu eterno agradecimento.

Fazenda Santa Helena. Recepção inesquecível.
Na estrada a neblina estava presente, mas talvez um pouco mais dispersa do que minutos atrás na fazenda. Precisei pedalar apenas dez quilômetros para chegar à Capanema, quer dizer, ao trevo de acesso à cidade, felizmente a rodovia passa por fora e não é necessário pedalar pelo perímetro urbano.
O período da manhã foi sem muitas surpresas no que diz respeito à paisagem que continuou parecida com aquela visualizada no dia anterior, no entanto, o que marcou essa primeira parte do pedal foi a série de subidas e descidas pelo caminho, uma verdadeira montanha-russa paraense. A temperatura ambiente elevada e somada a esse relevo fez o meu corpo sentir a quilometragem de ontem e rapidamente cada giro no pedal ficou ainda mais difícil. Tentei compensar a parte física desgastada controlando a parte psicológica, mas não foi uma tarefa fácil.

Paisagem pelo caminho.
Não importa se a subida é nos Andes ou aqui no Norte do país, se tem 60 metros ou 60 quilômetros, subida é sempre subida e por mais preparado que você esteja, ela vai ser um desafio até você chegar ao topo da montanha e ver o próximo aclive no horizonte. (Risada Sacana). Nesse momento você tem que respirar fundo, não pensar muito e seguir em frente sem esquecer que: A grandeza da vitória está na dificuldade em obtê-la.
Como se não bastasse o sobe e desce, a estrada começou a apresentar inúmeros buracos, sobretudo, no acostamento que, em muitos trechos, estava tomado pelo matagal e dificultava o avanço em direção à divisa com o Maranhão que era meu destino até o final da tarde, contudo, chegar a ele seria extremamente difícil com todas aquelas condições: temperatura alta, subidas, pavimentação horrível e a canseira inevitável. De qualquer forma eu continuava pedalando.

Acostamento "perfeito" da rodovia.
Um pouco antes do meio-dia eu visualizei uma curva onde havia veículos estacionados no acostamento e imediatamente suspeitei que algum acidente tinha acontecido. Quando me aproximei do local foi possível ver que um caminhão se perdeu no trecho sinuoso e ao sair da estrada tombou e bateu em uma árvore. O veículo estava totalmente retorcido e, infelizmente, acho que os prejuízos não foram apenas materiais. Achei melhor nem parar porque a área já estava tomada por curiosos. Eu apenas continuei o pedal pensando que aquele acidente muito provavelmente era resultado de mais uma imprudência sem limites dos motoristas.
Com pouco mais de 60 quilômetros parei em um dos poucos vilarejos depois de Capanema, na verdade, acho que se tratava mesmo de um pequeno município; Santa Luzia do Pará. No final da cidade encontrei um restaurante e não pensei duas vezes em parar e almoçar. Além de faminto eu estava extremamente cansado.
No Mani Restaurante a refeição era por quilo e que, infelizmente, era muito caro e custava 22 reais. Brinquei com os funcionários dizendo que eu gastaria 50 reais com a fome que estava. Então alguém sugeriu o prato feito que certamente era mais barato, 12 reais. Eu pensei um pouco porque um PF àquela altura do campeonato não seria suficiente para saciar a fome, mas sem alternativa achei melhor comer pouco do que não comer nada.
Um cliente do restaurante ao perceber a minha chegada com a Victoria ficou todo curioso e começou a me fazer várias perguntas enquanto preparavam meu prato feito. Alex Cunha era o nome do senhor que, atônito, parecia não acreditar nas minhas respostas. O baiano que atualmente mora em São Luís estava voltando para casa, mas antes de retornar à estrada fez questão de me pagar um refrigerante e me passar o seu telefone, caso eu precisasse de hospedagem ou qualquer outra coisa na capital maranhense.
O prato feito estava bem caprichado como eu havia gentilmente solicitado. Com a minha fome, a refeição não ficou muito tempo no prato. Quando fui pagar tive mais uma surpresa. A proprietária pediu para eu deixar o dinheiro para o jantar, ou seja, eu acabava de ganhar o almoço. Imagine a felicidade do sujeito aqui. Além de agradecer, mencionei a existência do site e que faria uma pequena publicidade do estabelecimento como uma singela forma de retribuir a gentileza. Portanto, quem estiver de passagem por Santa Luzia do Pará e precisar almoçar, não deixe de conferir; Restaurante Mani.
Acho que por volta das 14h30m retornei à estrada sob um sol de castigar qualquer pessoa. A temperatura elevada na região começa desde as primeiras horas da manhã e tem o ápice entre 11 e 15 horas. E pedalar com essas condições tem sido extremamente desgastante. Para a minha sorte a situação é amenizada com a chuva certeira que despenca no período vespertino. Acho que a chuva nunca foi tão bem-vinda na estrada como agora.
O sobe e desce continuou até o vilarejo de Nazaré onde encontrei um posto de combustível e parei na pretensão de abastecer minhas garrafas de água. A mulher que me atendeu disse que para chegar à Cachoeira do Piriá, próxima cidade, tinha ainda mais subida pela frente porque o município ficava em uma parte bem alta. Misericórdia.
De Nazaré até Cachoeira do Piriá o acostamento e a pavimentação da estrada não mudaram muito e eu continuava pedalando pelos buracos que, caprichosamente, estavam distribuídos por todas as partes. Quando o movimento na rodovia ficava mais tranquilo eu não hesitava em pedalar na faixa lateral em razão do matagal que invadia o acostamento. O que inesperadamente mudou foi o relevo. Ao contrário do que me informaram, o trecho não foi marcado pela montanha-russa e somente uma pequena inclinação se fazia presente pelo caminho que foi percorrido mais rapidamente.
Nas proximidades de Cachoeira do Piriá comecei a procurar um local para montar acampamento, mas estava difícil achar uma propriedade rural adequada a um descanso seguro e tranquilo. Por isso fui obrigado a chegar ao perímetro urbano da pequena cidade que estava extremamente movimentada, afinal, era sábado. Não cogitei permanecer em nenhuma casa naquela área mais urbanizada e barulhenta. Continuei em frente e na saída do município achei um posto de combustível que poderia me proporcionar um pernoite sem desembolsar um centavo.
Conversei com os funcionários do posto sobre a existência de alguma área coberta onde eu pudesse passar a noite e argumentaram que havia uma construção paralela e pertencente ao posto, mas que não era permitida a estadia (dormida) de viajantes em situação parecida com a minha. No entanto, nem tudo estava perdido. Como era sábado e o gerente do posto já havia ido embora e não retornava no dia seguinte, minha presença foi liberada.
Com a permissão de montar acampamento, precisei apenas procurar um local mais apropriado. Estavam construindo um hotel nas dependências do posto e boa parte da obra já estava concluída. Assim, entrei em um dos quartos e levantei a minha casa. Questão resolvida.
A minha janta foi um pacote de bolacha e muita água para enganar o estômago. Eu tinha comida no bagageiro, mas àquela hora a canseira era maior do que a fome e após devorar as energéticas bolachas eu fui dormir o sono dos justos na esperança de acordar mais bem disposto no dia seguinte.
Dia finalizado com 109,93 km em 9h32m e velocidade média de 11,52 km/h.
26/05/2013 - 322° dia - Cachoeira do Piriá (Pará) a Comunidade Santo Antônio (Maranhão)
Mais uma divisa, a sexta em território nacional. Maranhão!
A noite foi tranquila na hospedagem de “luxo”. Talvez eu tenha demorado um pouco para dormir em razão das barulhentas motocicletas. Em Cachoeira do Piriá elas são maioria e parece que a diversão é andar e mostrar para a cidade quem tem o veículo mais estrondoso. Paciência.
Acordei às 5 horas da madrugada para desmontar acampamento e sair o quanto antes em direção ao Maranhão que estava a 30 quilômetros. Rapidamente arrumei a bagagem, devorei outro pacote de bolacha e às 6h15m estava na estrada, não sem antes registrar o local do pernoite e o sol nascente que despontava ao horizonte meio à neblina.

Aviso bem claro na entrada do futuro hotel
Acampamento no quarto de "luxo"
Pernoite relativamente tranquilo no acampamento.
O prédio em construção.
Amanhece, amanhece, amanhece o dia..
... um leve toque de poesia ...
... com a certeza que a luz que se derrama nos traga um pouco de alegria. Bom dia, sol.
Não esperava presenciar neblina em território nordestino, 
A neblina logo cedeu espaço a um tempo aberto, ensolarado e quase sem nuvens que deixou a temperatura extremamente elevada. Esse fator tem sido determinante para diminuir meu ritmo, ainda que o relevo não tenha se apresentado com muitas subidas.
Com exatos trinta quilômetros o acostamento horrível termina junto com a BR 316 no estado paraense. Acabava de chegar à divisa entre os estados do Pará e Maranhão. Momentos como esse sempre me deixam com a sensação de estar avançando, ainda que lentamente.

Últimos quilômetros no Pará ficam para trás.
Victoria em mais uma divisa. Prestes a entrar no Estado do Maranhão.
Todo feliz por avançar pelas estradas de um novo Estado.
No estado maranhense a rodovia continuou denominada como BR 316, mas com condições um pouco melhores, sobretudo, no acostamento. Logo após a divisa parei em um posto de combustível para passar o protetor solar, comer outro pacote de bolacha e encher as garrafas de água. O local é um excelente ponto de apoio para cicloturistas, conta com restaurante, áreas cobertas que podem servir como acampamento e ainda tem banheiros com chuveiro. Se não me engano, chama Pombal I. Fica a dica.

Acredite se quiser! Apenas R$ 0,50 a água de coco. E pensar que no sul e sudeste a mesma pode custar até 5 reais.
Depois do posto de combustível o relevo se mostrou favorável e o obstáculo ficou mesmo por conta da temperatura exorbitante, mas sem muita opção, continuei em frente observando a paisagem maranhense que, por sua vez, não se diferencia muito daquela encontrada no último trecho percorrido no Pará, talvez a mudança mais notável esteja relacionada com a presença de inúmeras palmeiras meio às pastagens.

A situação um pouco melhor da BR 316 no Maranhão.
In foco.
Uma surpresa às margens da rodovia.
Por volta das 13 horas parei no hotel e restaurante Almeida em uma comunidade que não recordo o nome. O prato feito custou 12 reais. O cardápio simples não continha nenhuma especialidade local, mas ainda assim estava caprichado. Enquanto terminava a refeição a chuva começou a cair mais uma vez. Sem poder ficar esperando ela parar, voltei a pedalar debaixo de água mesmo.
O trajeto na parte da tarde foi marcado pela minha passagem nos municípios de Maracaçumé e Governador Nunes Freire. Neste último encontrei o trevo para a cidade de Santa Helena que era uma das minhas referências para chegar à São Luís. No cruzamento sem placas encontrei o Marcos, um ciclista peruano que está pedalando pela América do Sul, mas está há um bom tempo no Brasil, inclusive não é a primeira vez que percorre essa região. Não entendi o seu objetivo de viagem e onde pretende chegar. Sua bicicleta com mais de 120 quilos carrega uma porção de coisas que encontra, pega e vende pelo caminho.

Marcos: ciclista peruano que viaja pela América Latina com mais de 120 kg de carga.
Conversei somente um pouco com Marcos porque já escurecia e tudo indicava que em poucos minutos cairia mais chuva. Ele permaneceria no posto de combustível do trevo e eu continuaria em direção à Santa Helena. Antes de continuar a viagem, o peruano ainda me falou um pouco sobre o caminho a seguir e nos despedimos.
Eu saia da BR 316 para começar a pedalar pela MA 106 em direção à Cujupe, cidade que estava  a praticamente 200 quilômetros e que seria o local onde eu pegaria o Ferry Boat que me levaria à São Luís, capital maranhense. A rodovia em questão deixou de ter acostamento e passou a apresentar muito mais buracos do que a 316 no Pará. A minha sorte é que o movimento na estrada estava tranquilo.

In foco.
Em direção à São Luis pela MA 106. Chuva em 3,2,1..
A chuva voltou a cair e por isso não demorei muito em começar a procurar um local para montar acampamento, mas a tarefa não foi simples e a busca terminou somente após a terceira tentativa na comunidade de Santo Antônio, 19 quilômetros após o entroncamento. No final do vilarejo eu avistei uma casa com varanda e não pensei duas vezes para solicitar um espaço para montar a barraca. O senhor que estava na frente do imóvel titubeou ao meu pedido, mas ele pensou que eu gostaria de dormir no interior da residência, contudo, quando deixei ainda mais claro que precisava apenas de um espaço na área, ele disse que não havia problema. A mesma opinião teve o filho que saiu da casa para saber o que acontecia.
Levantei acampamento enquanto conversava com a família que acompanhava todo o processo. Na sequencia perguntaram se eu não gostaria de tomar banho e claro que não recusei, afinal, o banho estava atrasado já que na noite anterior não encontrei um chuveiro disponível na obra do hotel em construção.
A família também me ofereceu a janta que foi mais do que bem-vinda. Tudo muito simples, mas gostoso. Fiquei com receio de não colocar muita comida para não faltar aos demais, contudo, no final, acabou sobrando na mesa e foi tudo para os cachorros e gatos. Confesso que doeu no coração ver aquela cena. Paciência. O importante é que eu estava em um lugar seguro e protegido da chuva, alimentado e limpo, graças a Deus.
Dia finalizado com 119,62 km em 9h21m e velocidade média de 12,79 km/h.
27/05/2013 - 323° dia - Comunidade Santo Antônio a Pinheiro*
Mais um dia marcado pela hospitalidade das pessoas que encontro pelo caminho.
A noite foi tranquila na Comunidade Santo Antônio; sono e descanso garantidos. Acordei por volta das 6 horas e rapidamente fui desmontar a barraca. Neste período o ciclista peruano passou na frente da casa em direção à Cujupe. Quando fui ver ele já estava longe e pensei em alcança-lo na sequencia. Isso porque não demorei quase nada na casa, apenas tomei um café preto oferecido pela hospitaleira família ao qual deixei meu sincero agradecimento.

Acampamento na Comunidade Santo Antônio. Muito obrigado à família que me recebeu em sua casa.
Às 06h45m eu começava o dia com a pretensão de chegar o mais próximo possível de Cujupe. Mas nos primeiros quilômetros eu já tinha uma idéia que não seria nada fácil, primeiro porque a rodovia ficava cada vez pior com verdadeiras crateras. Segundo; incrivelmente a temperatura já estava elevada às 7 horas da manhã. Acredite se quiser. E pensar que o Sul do país já tem geada e neve. Esse é o Brasil il il il.

Na estrada você sempre pode ser surpreendido. Olha a situação da MA 106..
Paisagem
Pedalei em um ritmo bom até os 20 primeiros quilômetros, mas mesmo assim não encontrei o peruano e pensei como ele teria conseguido empregar uma velocidade alta com aquela bicicleta extremamente carregada. Em todo caso eu encostei fora da pista que, diga-se de passagem, ainda estava deserta, e comecei a quebrar as castanhas (oriundas do Amazonas) que eu levava na bagagem. Acontece que a fome chegava a um estado critico porque eu tinha tomado apenas um café preto no início da manhã, por isso achei que a castanha seria uma excelente opção para resolver esse problema.
Enquanto devorava as castanhas, olhei para trás e notei a aproximação do ciclista peruano que me explicou que tinha parado em uma casa à beira da estrada para tomar o bendito café da manhã, por isso eu não havia conseguido encontra-lo. Passamos a pedalar juntos.

Reencontro com o ciclista peruano.
O Marcos não é um ciclista de muitas palavras e por isso conversamos pouco enquanto seguíamos pela rodovia que em determinados trechos tinha verdadeiras crateras que obrigavam os motoristas a desviar com manobras cada vez mais arriscadas. Triste realidade de descaso público com a população.
A bicicleta do Marcos não está nas melhores condições e acho que o câmbio dianteiro não funciona e por isso não consegue colocar a marcha na coroa pequena para completar as subidas, logo, a solução  encontrada por ele é empurrar a bicicleta. Eu ficava imaginando que aquela não seria uma opção nada fácil. Já pensou empurrar mais de cem quilos ladeira acima?
Acredito que pedalei na companhia do ciclista estrangeiro por aproximadamente dez quilômetros, quando ele resolveu parar em um posto de combustível. Eu continuei um pouco mais e parei em uma padaria quase em frente. No local eu comprei dois pedaços de bolo e um copo de leite porque a fome continuava “braba” mesmo após as castanhas. Estou em um período de economia extrema e por isso não gostaria de gastar aquela verba, mas infelizmente não foi possível. Ao menos eu consegui saciar um pouco daquela fome.
O Marcos ficou no posto e eu continuei a viagem observando a paisagem e as casas simples que apareciam às margens da estrada, elas são construídas com taipa (barro socado entre armações de varas) e muito me lembraram da realidade de algumas regiões andinas. Toda essa simplicidade me fez refletir também sobre o quanto é possível viver com pouco. Talvez aquelas pessoas mudassem de situação se tivessem condições. O que acontece é que muitas pessoas (de outras regiões) vivem uma realidade muito melhor, estão debaixo de uma morada que é mais do que suficiente e ainda assim não a valoriza e querem sempre mais e mais em uma ambição sem fim. Como diz o presidente uruguaio Mujica; rico é aquele que precisa de pouco para viver.


Casa de taipa, muito comum na região.
Antes da cidade de Turilândia a estrada consegue se superar e simplesmente o asfalto desaparece em um trecho de pouco mais de dois quilômetros, parece pouco, mas pedalar com uma bicicleta carregada  em um terreno como aquele é uma eternidade.

Uma total falta de respeito com os usuários da rodovia. Trecho antes de Turilândia.
Cheguei à Turilândia e após a travessia da ponte eu já estava na cidade vizinha; Santa Helena. Em ambos os municípios é possível encontrar mercados, restaurantes e hospedagens. Eu achei melhor continuar e parar em algum lugar mais a frente para almoçar.
Após a saída de Santa Helena parei e comecei a fazer uma pequena vistoria na Victoria para ver se estava tudo bem. Costumo fazer esse procedimento para não ser surpreendido na estrada, contudo, o que eu não esperava aconteceu; uma rachadura de tamanho considerável no quadro. Mal acreditava no que estava diante dos meus olhos, mas era verdade. A minha Victoria estava em um estado critico. Não sabia exatamente a gravidade do problema porque a rachadura se encontrava em um ponto final da solda original. O local não parecia crucial para uma ruptura total do quadro, mas como mencionei, não tinha certeza do que poderia realmente acontecer. Fiquei apreensivo e na torcida para que a minha companheira não me deixasse na mão.

A Victoria não resistiu aos impactos de inúmeros buracos na estrada.

Quadro trincado. Fadiga intensificada pela estrada lamentável.
O problema de continuar com o quadro naquela situação era de piorar a rachadura já que os buracos na estrada continuavam e muitas vezes era praticamente impossível não passar por eles. Aliás, sem dúvida foram eles os responsáveis pela rachadura. Não posso reclamar do quadro GTS M5 porque ele rodou mais de 30 mil quilômetros desde que foi adquirido em 2009. Passou por todos os tipos de terrenos e aguentou muitas pancadas, mas infelizmente não resistiu a essas crateras.
Continuei o pedal com mais cautela e debaixo de um calor inimaginável. Esperava ansiosamente pela chuva para poder amenizar a temperatura ambiente e corporal. Observava a fauna e flora da região quando passei por um restaurante, mas não parei porque estava lotado e não me pareceu ser barato. O motivo da quantidade de pessoas é que não existia outro estabelecimento nos próximos quilômetros e eu descobri isso após perguntar para alguns moradores dos vilarejos seguintes.

Paisagem após a passagem por Santa Helena.
Mais um fantástico flagrante.
O calor estava cada vez mais insuportável e a minha canseira beirava a exaustão por causa da temperatura. Quando descobri que faltavam mais de dez quilômetros para o próximo restaurante resolvi colocar uma estratégia em prática. Eu tinha comida na bagagem, porém, sem gás e álcool para cozinhar, por isso parei em uma casa e perguntei ao morador sobre a possibilidade de apenas cozinhar o macarrão, afinal, eu tinha a sardinha e o molho de tomate. Ele foi consultar a mulher e com a resposta positiva fui pegar a massa para ser preparada. Que maravilha, ficaria sem fome e ainda economizaria, no mínimo, dez reais.
Fui muitíssimo bem recebido pelos proprietários da residência, sobretudo, a Dona Nini Menezes que não mediu esforços para me tratar como um membro da família, inclusive, além de cozinhar o macarrão, fritou dois ovos e ainda me trouxe um prato de arroz, muito mais do que eu havia pedido. Conversamos bastante durante e também depois do almoço que estava uma delícia.
Dona Nini é uma professora aposentada e também bastante influente nas comunidades da região. Pela conversa me pareceu que é uma pessoa muito respeitada. Isso talvez seja consequência de seus princípios que ficaram evidentes no decorrer da prosa. Em um dos assuntos levantados ela me respondeu sobre os programas sociais do governo naquela região. O Bolsa Família, por exemplo, realmente beneficia muitas pessoas já que a ajuda vem complementar a renda familiar, contudo, existem casos, segundo ela, que o dinheiro extra acaba sendo a única fonte de renda de pais que se conformam em viver apenas com o beneficio e oferecem uma vida miserável a seus filhos.
Fiquei duas horas na casa da família Menezes e confesso que gostaria de ter ficado mais tempo, mas era preciso continuar a viagem, todavia, é claro que antes de partir eu fiz um registro da Dona Nini e seu filho de coração, Gustavo. Também aproveitei para agradecê-los por toda a gentileza. Eles simplesmente me receberam de uma forma incrível. Como tem sido bom esse contato com as pessoas. Essa parte do cicloturismo me surpreende a cada dia.

Dona Nini e seu filho Gustavo.
O retorno à estrada foi marcado por muita chuva que finalmente amenizou a temperatura e apesar da água a quilometragem passou e no final da tarde eu já estava com cem quilômetros pedalados quando cheguei à cidade de Pinheiro que apresentou uma imensa área alagada que eu não sei dizer se é uma lagoa, rio ou algo parecido. De qualquer forma eu continuei em direção à Cujupe, precisei continuar pedalando com atenção na ausência do acostamento.

Mais uma tarde chuvosa.
Com o começo da noite eu não tinha dúvidas de que deveria procurar um local para acampar. Na primeira fazenda a minha permanência não foi concedida, mas a mulher me indicou uma propriedade onde eu poderia ser recebido, contudo, ninguém me atendeu no local. Continuei atento na escuridão para localizar algum lugar propicio para acampar.
Quando visualizei uma fazenda em que a casa tinha varanda, não pensei duas vezes para tentar uma estadia. O proprietário (Junior) apareceu e ficou um tanto desconfiado com a minha presença naquele período, mas quando falei sobre o projeto e o que precisava no momento, ele me ouviu atentamente e pediu para eu aguardar enquanto conversava com alguém no interior da residência. No seu retorno estava acompanhado por uma senhora que autorizou a minha presença. Que maravilha. Não tem nada melhor do que poder ser recebido em um lugar seguro no final do dia para poder ter um merecido descanso.
Os proprietários me receberam muitíssimo bem e logo me perguntaram se eu gostaria de tomar um banho. Claro que não recusei a idéia e prontamente fui ficar limpo após mais um dia na estrada. Na sequencia me ofereceram também o jantar. Mais uma vez eu estava em boas mãos. Não tem erro, tenha fé, seja humilde e verdadeiro que as portas se abrem. Às vezes pode ser que isso não aconteça na primeira tentativa, mas como já mencionei em postagens anteriores, a segunda ou terceira pode ser muito melhor do que aquela porta fechada inicialmente. Acredite!
Dia finalizado com 107,34 km em 8h05m e velocidade média de 13,25 km/h.
28/05/2013 - 324° dia - Pinheiro* a São Luís
Finalmente na capital maranhense, São Luís.
Novamente a noite foi tranquila e o descanso garantido. Hoje acordei um pouco mais tarde do que os outros dias, mas nada que comprometesse minha chegada à capital. O Junior havia me informado que a distância para Cujupe era de aproximadamente 60 quilômetros. Eu pensei que teria que chegar nas proximidades de Alcântara, isso porque alguém na estrada me informou que Cujupe estava 6 quilômetros da cidade mencionada.

Mais um espaço cedido para eu poder passar a noite.
Local onde a Victoria ficou estacionada durante a noite. Segurança garantida.
Muito obrigado pela hospitalidade, família.
Com uma quilometragem menor a ser percorrida, seria possível chegar à São Luís ainda com claridade. Mas antes de seguir viagem fui tomar o café da manhã que estava bem caprichado. Destaque para a canjica que no Sul e Sudeste é conhecida como curau. Sei que a refeição matinal restabeleceu minhas energias para pedalar. Inclusive recebi uma sacola com vários pedaços de canjica para comer na estrada. Perfeito!
Agradeci aos anfitriões e pouco depois das 7 horas iniciava mais um dia de pedal. Três quilômetros após a minha saída encontrei a primeira placa que indicava o caminho para Cujupe, ou seja, acesso à São Luís via Ferry Boat. Estava na direção certa.

A fazenda que teve os portões abertos para a minha entrada.
Em direção à São Luís.
In foco.
Mais uma vez a temperatura já era elevada nas primeiras horas da manhã. Acho que terei que me acostumar com essa realidade durante toda a minha passagem pelo nordeste. Apenas espero que a condição das estradas melhore, porque esse trecho da rodovia também estava em péssimo estado de conservação. Inúmeros buracos pelo caminho.

Jumentos: eles estão por toda a América do Sul e em todas as regiões brasileiras.
Vegetação começa a mudar e o asfalto a piorar. Rimou, rs.
Esse caminho final para Cujupe tem uma vegetação um pouco diferente. É possível notar a presença de muito mais árvores do que pastagens. O que também não passa despercebido são as subidas que voltam com força total e acabam por dificultar o avanço, sobretudo, quando a temperatura ambiente quer fritar você na estrada.

As subidas sentido à Cujupe.
Agora pense subir isso com uma bike carregada e uma temperatura superior aos 35°C. 
Com pouco mais de cinquenta quilômetros encontrei com mais um cicloturista. Pedro é espanhol e está há quase três anos pedalando pelas Américas. Saiu do Canadá, desceu até o Paraguay e entrou no Brasil por Foz do Iguaçu onde foi muito bem recebido na casa de ciclistas da Associação Ciclística Cataratas do Iguaçu (ACCI). Pedro segue em direção à Belém, Manaus, Boa Vista e Caracas na Venezuela, onde finaliza seu projeto.

Pedro: cicloturista espanhol.
O cicloturista espanhol me passou algumas informações sobre o nordeste e São Luís, de onde havia saído no começo da manhã via Ferry Boat. Fiz questão de passar o contato de alguns amigos que me receberam no norte do país para também contar com  a excelente hospitalidade. Na sequencia nos despedimos e cada um seguiu seu caminho.

Pedro em direção à Belém
De onde encontrei o espanhol precisei apenas pedalar poucos metros para chegar a mais um trevo, desta vez o último antes de Cujupe que, segundo informava a placa, estava a 11 quilômetros. A rodovia agora passava a ser denominada MA 308. Foi restaurada no ano passado e se encontra em ótima condição, inclusive o acostamento. É possível completar as descidas sem se preocupar demasiadamente com um buraco surpresa.

Finalmente o trecho final para Cujupe.
Não tem como passar pelo local e não ver a referência máxima para seguir ao Ferry Boat em Cujupe.
Rodovia MA 308 em perfeitas condições.
Cheguei à Cujupe por volta das 14 horas e, só para variar, estava com uma fome extraordinária, mas antes de procurar comida fui ao guichê onde vende a passagem para São Luís via Ferry Boat. O bilhete custou oito reais e a saída estava marcada para as 14h30m. Na frente da estação portuária existe uma enorme tenda com várias barracas de comida. Fiquei com muita vontade de parar, mas achei melhor não arriscar já que estava quase na hora do Ferry zarpar. Fui para a fila dos veículos.

Chegada à Cujupe.
Para variar, mais uma vez, durante a permanência na área do guichê e também na fila para entrar no Ferry, as pessoas pararam e com certo receio se aproximavam e começavam a perguntar sobre a viagem. Muitas falavam que me encontraram em determinado trecho da estrada, outras diziam sobre a coragem de enfrentar esse tipo de viagem, sobretudo, sozinho, algumas fizeram questão de tirar uma foto comigo, outras simplesmente ofereceram suas casas, como por exemplo, o Markim de Teresina no Piauí que me passou seu endereço e telefone para o caso de precisar de hospitalidade na capital piauiense.

Ferry Boat
Na verdade o Ferry não saiu às 14h30m, nesse horário o acesso à embarcação foi liberado. Sem maiores problemas a Victoria foi uma das primeiras a entrar. Encostei ela em uma parte lateral, onde também costumam ficar as motocicletas, tirei a bolsa de guidão e fui para a área superior porque segundo me informaram, não seria permitido a presença de passageiros no local. A partida aconteceu às 15 horas.

Cenário às margens do rio em Cujupe.
Navengando em direção à capital maranhense.
In foco.
No convés principal existem dezenas de cadeiras para os passageiros. Uma pequena lanchonete me convidava para comer um salgado, afinal, já passava 15 horas e eu ainda estava sem almoço, por sorte eu tinha devorado a canjica no período da manhã. Comprei dois salgados e uma lata do refrigerante típico do Maranhão; Guaraná Jesus. A bebida tem um sabor muito peculiar e que lembra chiclete de Tutti-frutti. Apenas por curiosidade; assim como a famosa Inka Kola no Peru, Guaraná Jesus também pertence à companhia Coca-Cola. Mas ainda assim, vale a pena experimentar.

Guaraná Jesus. Bebida genuinamente do Maranhão.
No interior do Ferry, mais pessoas vieram conversar comigo, entre elas, o senhor Raimundo que já tinha me abordado na fila de entrada. Solícito começou a me falar um pouco sobre a região e até pediu autorização ao comandante para eu conhecer a cabine de controle. Com a permissão concedida fui visualizar a central da embarcação. Foi bem interessante ver os instrumentos de navegação, a maioria, modernos e que permitem um deslocamento com maior segurança.

Na cabine de controle do Ferry Boat.
Senhor Raimundo e eu. Ao fundo os responsáveis pela navegação do ferry.
Embarcação lotada.
Como eu tinha recém viajado quatro dias pelo Rio Amazonas, não fiquei muito surpreso com o deslocamento entre Cujupe e São Luís, mesmo quando a embarcação começou a balançar em razão da baía (São Marcos) em que estávamos passando. No momento apenas fiquei na torcida para a Victoria não cair em cima de algum veículo.
A viagem no Ferry Boat tem duração de 1h20m, período em que observei e registrei a paisagem, inclusive, a área portuária de Itaqui já em São Luís, o porto é um dos principais do Brasil. O local escoa, por exemplo, vários minérios da empresa Vale.

Baía de São Marcos.
Região Portuária de Itaqui.
Baía São Marcos.
Porto de Itaqui.
A embarcação ancorou às 15h30m na capital maranhense, mais especificamente no Terminal da Ponta da Espera. Fui um dos últimos a descer porque precisei esperar a maioria dos veículos sair para poder tirar a Victoria.

Entrada/saída do Terminal da Ponta da Espera.
Antes de voltar a pedalar eu liguei para o anfitrião Zedequias, ciclista que me ofereceu hospitalidade em São Luís. Avisei sobre a minha chegada e combinamos um local onde eu deveria encontra-lo. Esse ponto de referência ficava a 20 quilômetros do Terminal da Ponta da Espera, ou seja, com sorte, eu poderia chegar ainda com claridade, afinal, pedalar de noite em qualquer capital que seja não é nada recomendável, sobretudo, quando não se conhece a cidade.
O ponto onde deveria encontra-lo é bastante famoso na capital e por isso as pessoas não tinham dificuldade em me informar a melhor forma de como chegar até o local. Mas o que complicou meu deslocamento foram os buracos pelas ruas e avenidas. A situação já tinha sido alertada pelo cicloturista Pedro que encontrei antes de Cujupe. Não demorou muito e meu pneu traseiro furou. Que maravilha! Era tudo o que eu não precisava no momento.
O pneu furou justamente em um bairro violento de São Luís, por isso a estratégia foi fazer a troca da câmara furada próximo a um ponto de ônibus que concentrava algumas pessoas. Acho que eu nunca troquei uma câmara de ar tão rápido. Faltavam muitos quilômetros ainda, já escurecia e o horário de rush deixava o trânsito caótico. Trechos com engarrafamentos extensos se tornaram frequentes. Desta vez eu ficava na torcida para que o pneu não furasse novamente.
Quando entrei em uma importante e movimentada avenida, o trabalhador (Marcelo) com uma bicicleta cargueira perguntou para onde eu estava indo e disse que tinha como destino um local próximo e que poderia me acompanhar. Senti confiança naquele senhor e resolvi aceitar a ajuda. Ainda bem que encontrei esse “guia” porque o deslocamento foi muito mais fácil. Precisei apenas ter atenção com os buracos e a infinidade de veículos que não raramente passavam a poucos centímetros dos alforjes.
O Marcelo seguiria até um determinado ponto, mas resolveu me acompanhar um pouco mais adiante para eu achar com facilidade a referência combinada com o Zedequias. A essa altura o trânsito estava ainda pior. Pedalávamos em uma área periférica e perigosa. O meu guia pegou um atalho por alguns becos e chegou à casa de seu pai para trocar a cargueira por uma bicicleta simples que permitiria se locomover com mais facilidade naquele trânsito.
Eu não sei o que me impressionava mais; o trânsito caótico ou as crateras presentes em todas as ruas e avenidas que passávamos. É incrível o descaso do poder público também com essa questão da infraestrutura básica que permita o direito de ir e vir sem precisar passar por esse tipo de situação. Sei que chegamos a um local onde o Marcelo me indicou o caminho a seguir e voltou para sua casa. Claro que não deixei de agradecer sua imensa e espontânea ajuda.
Acho que pedalei mais três quilômetros sozinho e finalmente cheguei ao ponto de referência combinado com o meu anfitrião. Precisei apenas fazer uma ligação e dizer que estava à sua espera. Em poucos minutos, Zedequias e seu filho Levi chegaram e começamos o pedal em direção ao local onde eu ficaria hospedado. Descobri que minha estadia seria em um sítio (urbano) de um casal de amigos de Zedequias. Sem problemas!
Antes de ir ao sitio passamos na casa do Zedequias e posteriormente na residência de seu amigo e motociclista viajante; Lobzomem, também conhecido como Pedro, que ficou bastante interessado em saber mais sobre a viagem. Conversamos um pouco e combinamos um churrasco para o dia seguinte. Perfeito.

Recepção na casa do motociclista Lobzomem. Zedequias ao meu lado esquerdo e seu filho Levi à minha direita.
Por volta das 19h30m finalmente estávamos no sitio onde fui muito bem recebido pela família Silveira, sobretudo, a matriarca, dona Marlene que disponibilizou o quarto de visita para a minha estadia que deve ser de aproximadamente cinco dias. Acho que é o tempo suficiente para escrever o diário de bordo, consertar a Victoria e conhecer a capital histórica do Maranhão.
Mais uma vez, tudo ocorreu bem no final.
Dia finalizado com 98,32 km em 7h21m e velocidade média de 13,35 km/h.
29/05/2013 - 325° dia - São Luís (Folga)
Durante os períodos matutino e vespertino aproveitei para descansar e atualizar o diário de bordo.
De noite fui para o churrasco oferecido pelo Lobzomem. O ambiente estava bem agradável. O pessoal me recebeu muito bem e não faltou assunto enquanto a carne ficava pronta. Levi (filho do Zedequias) e Pedro Afonso (filho do Lobzomem) são ciclistas adeptos do Downhill e por isso também ficaram bem interessados em saber mais detalhes sobre a viagem. Eles também não hesitaram em falar mais sobre a modalidade em que são praticantes.
Resumindo, estávamos todos em família; viajantes e ciclistas. História não faltou durante a noite.
Muito obrigado pela companhia e a recepção de vocês.
30/05/2013 - 326° dia - São Luís (Folga)
Feriado de Corpus Christi
O que fazer em pleno feriado de quinta-feira? Pedalar, lógico.
O pessoal aproveitou a folga e marcou uma trilha. Fiquei com certo receio de participar por causa da rachadura no quadro da Victoria, contudo, como o percurso seria sem maiores dificuldades e no dia seguinte passaríamos em uma oficina para soldar o quadro, acabei aceitando o convite e fui pedalar.
A trilha foi realmente tranquila e interessante. Claro que eu moderei a velocidade para evitar a ruptura do quadro, mas ainda assim foi possível aproveitar o passeio na companhia de Zedequias, Levi e Pedro. Antes de voltarmos para casa, passamos em uma pista de Downhill para que os adeptos da modalidade treinassem um pouco. Aproveitei para registrar os saltos ousados do pessoal, inclusive, de uma galera do BMX que também mandava algumas manobras no local.
Para encerrar o dia, nada melhor que uma pizza de qualidade. A mesma foi cortesia do camarada Zedequias que não tem medido esforços para me auxiliar no que for necessário aqui na cidade. Obrigado, camarada.

Levi colocando a bicicleta para voar.
A galera do BMX mandando algumas manobras.
Levi. In foco.
A galera reunida: Pedro Afoso; eu; Zedequias e; Levi.


Mais um registro com os amigos trilheiros.
Pedro Afonso em um salto radical bem-sucedido.
Trilha de verdade é selvagem, rs.
Gostei do registro. Mais um salto ousado do Pedro Afonso.
Camarada Levi testando a suspensão em 3.2.1.
In foco.
Pedro Afonso e Levi; fanáticos por downhill.
Fauna
Flora
In foco.
Dia finalizado com 21,99 km em 2h11m e velocidade média de 10,02 km/h.
31/05/2013 - 327° dia - São Luís (Folga)
Victoria na mesa de cirurgia.
Conhecendo o centro histórico de São Luís.
O dia foi movimentado hoje. Na parte da manhã o Lobzomem apareceu no sítio como havíamos combinado. Ele se prontificou a levar a Victoria para uma oficina especializada em solda de alumínio. O local foi recomendado pelo também motociclista Belfort que estava presente para nos mostrar o caminho.

Belfort, Lobzomem e Pedro Afonso amarrando bem a Victoria para leva-la à sala de cirurgia.
O local fica distante do sitio, mas sem dúvida valeu o deslocamento. Os funcionários nos atenderam bem e a Victoria recebeu a atenção necessária. A parte da rachadura foi devidamente lixada e posteriormente soldada. Segundo o pessoal informou, não precisarei mais me preocupar com esse problema. Amém! O serviço custou 20 reais.

Parte trincada prestes a ser soldada.
Victoria com anestesia.
Processo de lixamento antes de soldar o quadro.
In foco.
Parte lixada para a solda.
Cirurgia da Victoria. Processo de solda.
Parte da solda já realizada.
Últimos ajustes antes de receber alta.
Na volta passamos na casa do Belfort para pintar a parte lixada e soldada. Na sequencia fui almoçar na residência do Lobzomem onde a sua mulher, Claudia, havia preparado uma deliciosa refeição. Aproveitei a disponibilidade da internet para verificar o e-mail e mandar notícias.

Na casa do Belfort. Victoria já com a tinta nova que seca ao sol. Guaraná Jesus no detalhe.  
No final da tarde a família do Lobzomem me levou ao centro histórico de São Luís que sem dúvida é um dos lugares mais interessantes da capital. Não à toa é considerado Patrimônio Cultural da Humanidade. As construções antigas e coloniais são heranças dos portugueses e chamam atenção de quem visita ao local. Destaque para o Palácio do Governo, prefeitura, praças, igrejas, ladeiras, escadarias e o comércio destinado ao artesanato. Ainda tivemos a oportunidade de assistir uma roda de dança de capoeira angolana. Muita história e cultura durante todo o passeio.

O esperado encontro com o Oceano Atlântico. Maravilha de paisagem.
Palácio dos Leões; sede do governo do estado.
São Luís.
Atlântico e sua imensidão.
Ponte que faz ligação com o centro histórico.
Pelas ruas centenárias da histórica São Luís.
Comércio de redes, roupas e artesanatos no movimentado centro histórico.
Centro histórico de São Luís.
Claudia e Pedro Afonso.
Vendedor maranhense.
Camarada Lobzomem sendo seduzido pelas mulheres locais.
Centro histórico de São Luís.
Centro histórico de São Luís.
Ladeiras do centro histórico.
Ladeiras do centro histórico.
Galera reunida; Levi; Pedro Afonso; Claudia e Lobzomem.
Registro garantido.
Os famosos casarões revestidos com azulejos da Europa. Sua função era impermeabilizar a fachada construída de taipa.
Praça
Igreja praticamente abandonada.
Interior da Catedral de São Luís.
Catedral de São Luís.
Registro garantido com o Palácio dos Leões ao fundo.
Palácio dos Leões.
Palácio de La Ravardière (Prefeitura)
Palácio dos Leões.
In foco.
São Luís; capital maranhense.
Parte do conjunto arquitetônico colonial português. 
Centro histórico
Privilegiando a cultura local; acompanhando a roda de dança da capoeira de Angola; 
Mandingueiros do Amanhã; orquestra de berimbaus.
Claro que não poderia deixar de registrar algo relacionado a um dos estilos musicais mais ouvidos na capital; reggae.
Passeio pela Avenida Litorânea.
01/06/2013 - 328° dia - São Luís (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
02/06/2013 - 329° dia - São Luís (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
03/06/2013 - 330° dia - São Luís a Vila Nova (Morros)
“Não vim até aqui pra desistir agora.”
Raio quebrado, velocímetro danificado e cabo do câmbio estourado. Mas apesar dos pesares, continuo fortalecido. Vivo, ou quase isso. (Risada Sacana)
Chegou a hora de partir mais uma vez. Ontem à noite consegui me despedir da família do Zedequias que fez questão de ir ao sítio para desejar boa viagem. Foi uma honra poder conhecê-los. Muito obrigado por toda ajuda e companhia. Sem dúvida fizeram a diferença durante a minha estadia na capital maranhense. Posso dizer que tenho novos amigos. Hasta luego.
Hoje eu acordei por volta das 4 horas da madrugada, pois a pretensão era sair de São Luís o mais cedo possível para pegar menos trânsito. Talvez essa seja a melhor estratégia para evitar um transtorno maior na saída de grandes cidades.
Às 6h15m eu deixava o sítio da família Silveira, mas não sem antes tomar um café da manhã preparado especialmente pela anfitriã Dona Marlene a qual sou eternamente grato por toda a hospitalidade e, sobretudo, pelas palavras de sabedoria. Espero, sinceramente, poder encontra-la em um futuro não muito distante para contar a respeito dos frutos que hoje são semeados. Obrigado pelas orações.
Sítio da família Silveira que me recebeu muito bem durante a minha estadia na cidade.
Logo no início do pedal foi possível verificar que o velocímetro não estava funcionado. Parei a bicicleta e mexi na fiação, mas não teve solução. Para não atrasar e perder a estratégia do trânsito mais tranquilo achei melhor seguir viagem sem a peça fundamental para ter conhecimento sobre distâncias, tempo e velocidades. Paciência.
A saída da cidade não seria complicada, pelo menos, conforme as informações recebidas no dia anterior. E realmente não houve problemas sobre a direção a seguir, apenas tive que ter muita atenção com as ruas e avenidas que já estavam tomadas pelos veículos. Para a minha felicidade a BR 135 estava próxima e precisei pedalar aproximadamente 6 quilômetros para finalmente encontra-la.
O tempo estava bom e o sol passou a brilhar mais forte no decorrer do pedal. No trecho em que a rodovia estava duplicada e apresentava acostamento, realizei algumas paradas na pretensão de arrumar o velocímetro. Tudo indicava que o problema estava na fiação, mas infelizmente não consegui faze-la funcionar e pela primeira vez na viagem eu precisei pedalar sem auxilio do ciclocomputador. Claro que fiquei um pouco triste por isso, mas cheguei a um ponto de desapego material que não fiquei pensando sobre isso por muito tempo e continuei a viagem normalmente.
Não me recordo exatamente quantos quilômetros de pista duplicada a BR 135 apresentou, mas não foram muitos. Depois não demorou e apareceu o “temido” Campo de Perizes, uma região perigosa em razão da ausência de acostamento e o grande fluxo de veículos, principalmente, caminhões. A pista simples e estreita não favorece em nada o pedal que é extremamente tenso em um trecho de quase 20 quilômetros. Muitas vezes fui obrigado a sair da pista para permitir a passagem das carretas que é frequente. Os amigos de São Luís já haviam alertado sobre essa situação, mas a realidade se mostrou muito pior. Fiquem espertos ao passar pelo local.
Campo de Perizes. O perigo mora aqui.
Com pouco mais de 50 quilômetros, finalmente saí da BR 135 em Bacabeira e passei a pedalar pela BR 402 em direção à Barreirinhas. A cidade que compreende a maior parte dos Lençóis Maranhenses era o meu destino para o dia seguinte. Não tinha a pretensão de conhecer o mais famoso ponto turístico do Estado em razão dos altos valores para entrada no Parque e hospedagem, contudo, o Zedequias tem um amigo ciclista (Abílio) que mora no município e que se prontificou a me receber e agilizar meus passeios pela região. Com isso não havia motivo para não visitar.
Finalmente saindo da BR 135 e seguindo para Barreirinhas.
A parada para o almoço aconteceu em Rosário onde outro amigo do Zedequias estava à minha espera. Emerson é proprietário da empresa Tem Tudo Parafusos e Ferramentas e se dispôs a me ajudar financeiramente. Pelo menos foi esse o recado passado pelo camarada de São Luís. Bastava procurar seu estabelecimento. Facilmente encontrei a loja e após as apresentações, perguntei se havia alguma bicicletaria na pequena cidade. Isso porque eu precisava trocar o cabo do câmbio dianteiro que rompeu pela segunda vez na viagem. A primeira foi em Bogotá na Colômbia. Continuar a viagem sem a utilização das marchas não seria nada agradável.
Emerson, Michel e Silvia. Muitíssimo obrigado pela colaboração.
Emerson me recomendou duas bicicletarias, mas ambas estavam fechadas para o almoço. Na pacata cidade muitos estabelecimentos fecham as portas das 11h30m (horário da minha chegada) até às 14 horas. Restava esperar, mas não sem antes aceitar o convite para almoçar na casa do Emerson e da Silvia, sua esposa. Diga-se de passagem, fui muito bem recebido pelo casal. Sinceramente, muito obrigado por toda a ajuda.
Após as 14 horas retornei às bicicletarias, mas foi uma decepção enorme com os mecânicos ignorantes que mal deixaram eu dizer o que precisava e recusaram qualquer prestação de serviço com a justificativa de que tinham muito trabalho a ser feito e que nada poderiam consertar naquele momento. Às vezes é preciso ter mais do que paciência com certas pessoas. Misericórdia. Sem o funcionamento do câmbio dianteiro, coloquei manualmente a corrente na coroa menor. Foi a única idéia que tive para seguir viagem e encarar o trajeto (com várias subidas) pela frente.
A saída de Rosário aconteceu por volta das 14h30m e o objetivo passou a ser a chegada aos cem quilômetros pedalados. E isso deveria ocorrer logo depois da passagem pela cidade de Morros, que, como o próprio nome sugere, fica em uma região mais alta e com várias inclinações. O camarada Abílio (de Barreirinhas) já tinha me avisado sobre o relevo dessa área e por isso não foi nenhuma surpresa encarar as subidas que eram moderadas.
Logo depois da saída de Rosário a chuva começou a cair e a temperatura ambiente ficou mais amena. Tem sido cada vez mais complicado pedalar debaixo desse sol. O acostamento existe, mas a pavimentação não é das melhores e dificulta o deslocamento, uma vez que é preciso voltar várias vezes para a pista e sair da mesma na presença de veículos. Em um desses momentos ouvi o famoso som oriundo da roda traseira. Adivinha? Mais um raio quebrado. Já perdi as contas de quantos se partiram desde o começo da viagem. Pelo menos dessa vez demorou mais tempo para romper. Desde a Venezuela que eu não tinha problemas com eles.
Chuva anunciada logo após a saída de Rosário.
Sentido Barreirinhas.
In foco.
Chegada à cidade de Morros. A subida logo na entrada faz jus ao nome do local.
Por volta das 18 horas parei no povoado de Vila Nova, pouco mais de 10 quilômetros depois de Morros. Na primeira casa da vila expliquei sobre a viagem para alguns moradores que conversavam na frente da residência. Sem pensar muito, um vizinho (Juarez) que estava no local se dispôs a me receber. Poderia comemorar; mais um dia difícil que ficava para trás.
Na simples casa de taipa fui apresentado à grande família do Juarez. Um pessoal muito simples, mas extremamente hospitaleiro e que me recebeu muito bem. Em um primeiro momento cogitei montar a barraca na sala de chão batido, contudo, o anfitrião me mostrou sua outra casa no fundo do terreno. Ela estava quase terminada. De alvenaria, a nova morada é proveniente de uma conquista da associação de moradores com ajuda do governo federal.
Foi na casa nova que me concederam um quarto para passar a noite e permitiram o meu banho. Devidamente limpo eu estava pronto para descansar, contudo, estava com fome, mas como sempre faço, não peço nada além de um simples espaço para dormir, todavia, como acontece na maioria das vezes, as pessoas oferecem um prato de comida. A Dona Moça, mulher do Juarez, no entanto, mencionou que, infelizmente, não tinha muita comida para oferecer. Sem pensar duas vezes, lhe dei o pacote de macarrão e o molho de tomate que estavam na minha bagagem. Não era muita coisa, mas poderia ser um complemento para a família de oito pessoas. Minutos depois a janta estava servida; macarronada com legumes e arroz. Perfeito.
Conversei muito com a família que, sem ser exceção, não deixou de me fazer uma série de perguntas sobre a vida de um viajante. Eu também aproveitei a oportunidade para saber mais sobre a região e o modo de vida da população local. Juarez, por exemplo, tem um açude onde cria peixes e uma pequena plantação em que diversifica o cultivo conforme o clima. E essa dependência climática muitas vezes não favorece a colheita e, consequentemente, o sustento da família. Neste sentido, Juarez mencionou a importância do auxilio do programa Bolsa Família no complemento financeiro da casa. São exemplos como este que me fazem pensar o nível de estupidez daqueles que criticam (negativamente) os programas sociais como o mencionado, sem nem ter conhecimento sobre a realidade daqueles que precisam da ajuda.
Quando fui levar o prato vazio para a casa de taipa, acabei surpreendido por um dos cachorros que não pensou em avançar e tascar uma mordida no meu joelho. Estou quase um ano viajando e apesar dos inúmeros cães que encontro na estrada, nada me ocorreu. Agora fui mordido justamente quando estava parado. Paciência. Para variar, o animal atrevido latiu e chamou os “amigos” que vieram com “sangue nos olhos” para também me atacar. Quando vi a turma reunida não hesitei em chamar pelos moradores que rapidamente apareceram e acabaram com a festa dos caninos. Para a minha sorte a mordida não foi lá aquelas coisas e não passou de um grande susto. Ficarei mais esperto daqui pra frente.
No quarto destinado ao meu descanso, apenas estirei o saco de dormir no chão e fui tentar ter o sono dos justos.
Com ajuda do Google Maps e o meu mapa impresso do Guia Quatro Rodas foi possível saber a quilometragem percorrida. O dia foi finalizado com 103 km. Infelizmente não sei precisar em quantas horas e qual a velocidade média.
04/06/2013 - 331° dia - Vila Nova (Morros) a Barreirinhas
Dia extremamente longo e cansativo.
A noite sinceramente não foi das melhores. O quarto estava infestado de pernilongos e eu simplesmente não consegui dormir. O repelente estava na Victoria, que por sua vez, ficou guardada na casa de taipa, ou seja, não tinha muito o que fazer a não ser entrar no saco de dormir e ficar todo empacotado. O único detalhe é que a peça foi projetada para -25°C e não para o calor nordestino que acontece o ano inteiro. Em lugares quentes eu sempre aproveito para utilizar o saco de dormir como colchão. Mas dessa vez o mesmo se transformou em uma verdadeira sauna. Foi simplesmente impossível dormir.
A madrugada finalmente passou e o dia clareou às 5 horas mais uma vez. Acordei, arrumei as coisas e na sequencia fui tomar um café que a família me serviu antes de voltar à estrada. Aproveitei a presença de parte do pessoal para agradecê-los e fazer um registro para a posteridade. Novamente o povo humilde também se mostra hospitaleiro e deixa um enorme aprendizado e exemplo a ser seguido.
Juarez e família na simples casa de taipa no povoado Vila Nova.
Por volta das 7 horas já estou na estrada e o sol brilha demasiadamente forte. Meu protetor solar está nas últimas gotas e não vai demorar muito para eu ter que desembolsar mais verba na aquisição de um novo. Está complicado, ao mesmo tempo em que economizo com hospedagem e alimentação, tenho gastos com manutenção da bicicleta e outros itens indispensáveis e caros.
O sol anuncia que o dia será quente, muito quente.
Eu estava com fome logo no começo do pedal e por isso parei poucos quilômetros depois da saída de Vila Nova para comer a energética bolacha recheada e tomar uma água de coco que foi gentilmente cedida pelo anfitrião Juarez. Nas atuais circunstâncias eu estava diante de um banquete.
Uma água de coco para iniciar bem o dia.
A cara de quem não dormiu por causa das muriçocas.
Complemento no café da manhã.
Continuei a viagem na pretensão de chegar à Barreirinhas no final do dia. Não seria uma tarefa nada fácil, pois a distância beirava os 150 quilômetros. Mas a determinação ajudava a encarar o calor, subidas, acostamento nada favorável e a provável escuridão  no fim do dia para conseguir completar o objetivo.
Finalmente na área dos Lençóis Maranhenses.
Victoria 
Registro garantido, ainda que a iluminação não tenha favorecido o clique automático.
Enquanto tem sombra, beleza. Agora o complicado é enfrentar o solzão.
In foco.
Realmente não existe cidade entre Morros e Barreirinhas, contudo, há vários povoados que podem ser facilmente encontrados a cada 10-12 quilômetros. Não tem muita infraestrutura nestes lugares, mas com certeza pode ser um ponto para abastecimento de água ou utilização de um fogão emprestado para cozinhar a comida. O único restaurante fica no trevo para Humberto de Campos, mas como ainda era cedo quando passei pelo local, achei melhor seguir em frente.
O que mudou na paisagem foi a área alagada nos dois lados da rodovia. Acho que permanece assim somente na época das chuvas, mas de qualquer forma muda o ambiente e deixa a vegetação de restinga mais atraente. Os pássaros estão por todos os lados, mas apenas ouço a cantoria e nada de flagrante pela lente da câmera fotográfica.
Quando se aproximou do meio dia eu fritava no asfalto e torcia para aparecer algum estabelecimento no caminho onde eu pudesse fazer uma parada estratégica, mas apenas pequenos povoados surgiam na área inóspita. Essa é a hora que seu moral precisa te ajudar a não sucumbir diante da primeira sombra. Aqui na região tem mais urubu do que pardal, então é melhor não marcar bobeira. (Risada Sacana)
Eu não tinha mais comida na bagagem. A última provisão foi deixada na casa da família que me recebeu na noite anterior. O almoço muito provavelmente seria as inseparáveis bolachas. Mas me avisaram que num vilarejo chamado Matões tinha um restaurante. Isso me animou bastante e com aproximadamente 80 quilômetros cheguei ao local, contudo, não servia mais a refeição em razão da pouca procura. Mas nem tudo estava perdido. Tinha um bolo oferecido em pedaços e que logo foi solicitado. Não digo que fiquei satisfeito, mas serviu para acalmar as lombrigas.
Por volta das 14h30m eu já retornava à estrada para enfrentar a mesma situação da parte da manhã. O que me surpreendeu foi um jumento no meio da estrada e que não saia do lugar mesmo com as buzinas dos automóveis. Quando me aproximei notei que o animal mal conseguia se locomover em razão de uma corda curta amarrada entre as patas do mesmo lado. Tudo isso para o bicho não ir muito longe. Simplesmente inacreditável ver a que ponto o ser humano chegou. Não aguentei ver aquilo e sem ter onde apoiar a Victoria, deitei ela no chão (algo que nunca faço), afastei o animal para o acostamento e tirei a corda. O coitado não soube nem o que fazer depois que ficou em liberdade. Muito triste.
O jumento em liberdade no acostamento.
Esse curto pedaço de corda estava amarrado com a perna da frente. Crueldade humana.
A situação com o jumento me levou a refletir que: assim somos nós em muitas situações do agitado dia-a-dia, reclamamos pela sonhada liberdade e quando a temos em mãos, simplesmente não sabemos o que fazer. Acho muito triste, por exemplo, aquela pessoa que trabalha a vida inteira e depois que aposenta não sabe fazer outra coisa a não ser trabalhar. Que eu nunca chegue a esse ponto.
A noite se aproximava, mas nada de aparecer Barreirinhas no horizonte. Estava cansado e com fome, mas meu moral ainda estava bom e permitia a continuação tranquila pela escuridão. Meu farol ajudava a iluminar o caminho. Seguia com o pensamento de que a cidade teria uma boa bicicletaria para resolver meus problemas com a Victoria e que no final do dia eu ainda poderia descansar tranquilamente e, finalmente, atualizar o diário de bordo.
A nova pavimentação terminou no trevo para Urbano Santos. Desse ponto em diante foi preciso seguir pela mesma BR 402, todavia, com uma situação bem diferente do trecho anterior. O acostamento é praticamente inexistente e muitos buracos também se fazem presente na pista que passou a ter um fluxo maior de veículos. Vou colocar um mapa da região aqui no site porque se você procurar no Google Mapas, por exemplo, verá que não existe estrada (satélite desatualizado?) na região e que a ferramenta online vai traçar um roteiro muito maior. Portanto não tem erro; Saiu de São Luís, siga para Rosário, Morros e Barreirinhas pela 402. Pode confiar.


Mapa São Luís x Barreirinhas (Lençóis Maranhenses)
Paisagem pelo caminho.
Cheguei por volta das 19 horas em Barreirinhas e na entrada da cidade liguei para o anfitrião Abílio que confirmou estar à minha espera no local combinado. O município é pequeno e foi fácil chegar à região central e encontrar com o camarada que é ciclista, cicloturista e também professor (Química).
Na residência do Abílio pude tomar um banho, jantar e descansar. Claro que conversamos muito sobre viagens, projetos e os próximos dias na cidade. Devo permanecer mais dois ou três dias para conhecer os pontos turísticos.
Dia finalizado com aproximadamente 150 km.
05/06/2013 - 332° dia - Barreirinhas (Folga)
Dia dedicado à conhecer a cidade e atualizar o diário de bordo.
O camarada Abílio aproveitou a folga pela manhã e me apresentou uma parte da pacata cidade que revela muitas belezas naturais que, por vezes, são passadas despercebidas pelo turista que está interessado somente pela visita ao famoso e mundialmente conhecido; Lençóis Maranhenses.
O primeiro lugar a ser conhecido foi a região da Beira-Rio onde é possível se deparar com o Rio Preguiças: um importante e extenso rio maranhense que termina nas proximidades de Barreirinhas. Seu nome é alusivo aos animais (Preguiças) que hoje raramente são encontrados pelas matas que margeiam o rio, no entanto, a nomenclatura poderia muito bem estar relacionada ao seu curso natural que caprichosamente faz várias voltas e circunda toda a cidade e deságua no oceano atlântico poucos quilômetros da área urbana.
A região da Beira Rio em Barreirinhas é um lugar agradável para caminhar, refletir, fazer uma fotografia ou simplesmente observar a natureza ao redor e a cultura local que também tira seu sustento das riquezas naturais oriundas do rio no quintal de casa. Recomendo o passeio.
Calçadão na beira-rio.
Artesanato regional
Rio Preguiças e a famosa duna na entrada da cidade.
Rio Preguiças
In foco.
Pousada básica às margens do Preguiças.
Rio Preguiças
Rio Preguiças e as embarcações ancoradas na Beira-Rio.
In foco.
Rio Preguiças em uma área utilizada para fazer a travessia à outra margem.
Travessia de balsa na região do bairro Carnaubal
In foco.
Na sequencia fui levar a Victoria na bicicletaria para trocar o cabo do câmbio dianteiro e o raio quebrado da roda traseira. Infelizmente não tinha um velocímetro confiável e achei melhor fazer apenas a manutenção na minha companheira. O serviço saiu por 20 reais porque além do que foi mencionado, trocaram ainda uma peça do cubo traseiro que deixou a roda sem nenhuma folga.
No período da tarde estava combinado de ir conhecer os Lençóis Maranhenses. Não pagaria nada pelo passeio por que seria uma cortesia do amigo Abílio que tem parcerias com agências de turismo da cidade. No entanto, a visita foi cancelada e marcada para o dia seguinte. Dessa forma fiquei a parte da tarde e noite somente selecionando as fotografias para o site. Não tem sido uma tarefa nada fácil mantê-lo atualizado. 
06/06/2013 - 333° dia - Barreirinhas (Folga)
Finalmente chegou o dia de conhecer os Lençóis Maranhenses.
De manhã, Abílio e eu fomos pedalar pela cidade, mas não sem antes tomar o café da manhã que também acompanhava o famoso e reforçado cuscuz. Saímos em direção ao povoado São Domingos que fica aproximadamente 8 km da casa do anfitrião. Para variar, o caminho margeia o Rio Preguiças que se revela cada vez mais interessante em suas curvas.
Cuscuz para reforçar o café da manhã.
Encontro com o Ivan, amigo do Abílio, antes de seguir ao povoado São Domingos.
O pedal seguiu por ruas, muitas vezes, de terra, areia e pedras. Para não abusar da Victoria fui com uma das bicicletas do Abílio, a Jacques Yves Consteau que me acompanhou aos belos cenários da região. Vale destacar que Abílio administra uma agência de passeios de bicicleta pela região. Hoje você pode visitar Barreirinhas, Lençóis Maranhenses e ainda curtir um pedal por lugares extremamente interessantes na companhia da: Dunas Bike: Aventura e Turismo. Contato: ((98) 8822 - 5250 ou 8130 - 6386). E-mail: dunasbikeaventuraeturismo@hotmail.com.
Mapa muito bom da região dos Lençóis Maranhenses.
Um dos resorts mais renomados de Barreirinhas
Em direção à São Domingos. Parada em um restaurante às margens Rio Preguiças.
Propriedade bem sofisticada às margens do rio.
Lugar convidativo para um descanso e, claro, registro fotográfico.
Destaque para o coqueiro-de-dendê à esquerda.
O famoso dendê.
In foco.
Yo!
Em busca do melhor ângulo.
Camarada Abílio.
In foco.
Duna da entrada da cidade vista da região do São Domingos.
Pedalando por Barreirinhas
Finalmente em São Domingos.
Na companhia da Jacques-Yves Cousteau
São Domingos, simplesmente magnifico.
Olho no laaaance.
São Domingos: o lugar mais convidativo a um mergulho no Rio Preguiças.
In foco.
Rio Preguiças e suas belezas na região do povoado São Domingos.
In foco.
In foco.
Casa de farinha às margens do Rio Preguiças em São Domingos.
Casa de farinha também utilizada para guardar equipamentos de pesca.
In foco.
In foco.
In foco.
In foco.
In foco.
In foco.
Abraço para o meu irmão André.
O passeio aos Lençóis Maranhenses estava marcado para às 14 horas e justamente por isso estávamos em casa ao meio-dia. O Abílio conseguiu a cortesia com a agência Vale dos Lençóis do senhor Alex. A visita ao ponto turístico mais conhecido do Estado acontece por meio de um veículo 4 x 4, ou seja, com tração em todas as rodas para poder andar pelas dunas. Aqui em Barreirinhas, a maioria desses veículos é da marca Toyota. O modelo Bandeirante é o preferido dos motoristas. O valor da visita aos Lençóis costuma ficar na faixa dos 60 reais por pessoa.
Às 13h45m o guia da agência apareceu na residência do Abílio com a Toyota para iniciarmos o passeio. O veículo já estava quase completo e foi preciso fazer apenas mais uma parada no centro da cidade para encontrar com os demais turistas. O Bandeirante é adaptado para receber até doze pessoas. Se não me engano, nosso veículo estava com nove “forasteiros” mais o guia Gustavo.
No centro de Barreirinhas é comum encontrar veículos 4 x 4 que realizam o passeio para os Lençóis Maranhenses.
Turistas em direção aos Lençóis.Maranhenses
Quadriciclo é um dos veículos mais utilizados na cidade que, por sua vez,  criou uma lei permitindo sua circulação.
Antes de seguir em direção às dunas é realizada uma parada num estabelecimento para comprar água. A mesma pode ser armazenada em uma caixa térmica que é levada no veículo. Se eu soubesse tinha levado as minhas garrafas. Em todo caso, comprei o liquido sagrado para fazer a devida reposição durante o passeio. Fica a dica.
Para chegar ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses é preciso atravessar o Rio Preguiças em uma área onde não existe ponte e a tarefa é realizada por uma pequena balsa que suporta dois veículos por vez.
Carnaúbas no caminho aos Lençóis
Espera pela balsa para a travessia do Rio Preguiças.
Toyota Bandeirante da agência Vale dos Lençóis.
A pequena balsa responsável pela travessia.
Veículos entrando na embarcação.
Na outra margem do rio você já consegue perceber a diferença dos terrenos. A areia está por todos os lados e então é possível compreender porque somente um veículo tracionado consegue andar pela região. O caminho é marcado por uma “estrada” arenosa onde a passagem frequente dos veículos licenciados deixa um trilho que indica a melhor rota a seguir.
Chegada à outra margem do rio Daqui pra frente somente areia pelo caminho.
Estrada em direção aos Lençóis.
Somente veículos tracionados para andar por essas areias.
In foco.
In foco.
Não demorou muito e o caminho começou a ficar ainda mais emocionante. Muitas poças d’água passam a ser encontradas no meio da estrada. Estamos no período das chuvas e por isso a presença desses “obstáculos”. Nosso motorista (conhecido como Miau) já está acostumado com a situação e passa por meio das águas sem nenhuma dificuldade. O balanço no 4 x 4 é inevitável para a alegria geral do pessoal que filma e fotografa toda a aventura. O sacolejo no veículo foi imediatamente equiparado àquele enfrentado para conhecer Cabo Polônio no Uruguay. A emoção foi quase a mesma. Faltou a parceria dos amigos.
A continuação da estrada. Aventura garantida.
Molhando os pés e a máquina fotográfica em 3, 2, 1 ..
Passagem dos 4 x 4 pelas "lagoas" formadas pelo caminho.
Adrenalina pura.
In foco.
Parece, mas não é um rio. Obstáculo? Nenhum!
Acho que a aventura motorizada tem duração aproximada de 45 minutos. Neste período, além de sentir toda a emoção do caminho, somos informados sobre a flora e fauna da região. A presença do guia foi importante para conhecermos melhor o que estava ao nosso redor.
Quando finalmente chegamos às maiores dunas dos Grandes Lençóis, outros veículos e turistas já estavam no local. Fomos orientados a deixar os calçados no veículo para facilitar a caminhada. Apesar da alta temperatura ambiente, acredite, a areia não esquenta e consequentemente não queima os pés e por isso caminhar descalço é a melhor forma de se deslocar a partir do ponto onde o passeio continua a pé.
Chegada aos Lençóis Maranhenses.
Deste ponto em diante o passeio continua a pé.
Simbora começar a caminhada, povo.
As turistas do Rio Grande do Sul que também estavam no veículo da Vale dos Lençóis.
Já era quase 15 horas quando começamos a caminhar pelas dunas com a ajuda do guia que nos indicava a direção. Segundo ele, nosso retorno estava programado para pouco depois das 17 horas, ou seja, teríamos mais de 2 horas para desfrutar de toda aquela paisagem ímpar.
Deixando a restinga para trás.
O oceano não estava muito distante. Farol de Caburé.
Assim como acontece no Salar de Uyuni (Bolívia), o que impressiona aqui é a imensidão. Os Lençóis Maranhenses tem uma área equivalente à cidade de São Paulo. São 155 mil hectares, onde mais de 50% desse território pertence à cidade de Barreirinhas que acabou por se tornar a “sede” turística para conhecer o local. A outra parcela dos Lençóis está distribuída entre os municípios de Santo Amaro do Maranhão e Primeira Cruz.
Caminhando pelo deserto.
Imensidão
Contraste de cores e formas que visualizados do alto lembram a peça (lençol) que denomina o local.
Caminhar pelos Lençóis significa "escalar" as dunas.
As formas caprichosamente resultantes dos ventos constantes.
Os contrastes de outro ângulo.
Uma pequena homenagem para o meu amor.
Se por um lado a equiparação com o maior deserto de sal do mundo está relacionada com a dimensão, por outro, a beleza em terras brasileiras é muito maior, sobretudo, em razão das lagoas presentes neste “deserto” nacional. Elas se formam e intensificam com a quantidade de precipitação da região. As chuvas do período proporcionaram um cenário inesquecível aos olhos de quem caminhava e se deslumbrava com aquela inesperada surpresa de verificar uma miragem em pleno deserto.
Chegada à Lagoa dos Toyoteiros. Espetáculo no meio do deserto.
Algumas lagoas tem nome; Toyoteiro; Azul; Esmeralda; Paz; Preguiçosos; entre outros. Como elas são originárias da precipitação, a água é doce e o fato de estarem isoladas proporciona um ambiente límpido  e perfeito para um mergulho que acontece em três ou quatro ocasiões. A sensação é de sentir-se no paraíso. Impossível não ficar fascinado com as cores, contrastes e dimensões. Uma maravilha de natureza.
Uma das primeiras lagoas visualizadas durante a caminhada.
Simplesmente incrível.
Registro imperdível.
Maravilhosa Lagoa dos Toyoteiros. Segundo nosso guia, o nome se refere ao antigo costume dos condutores se refrescarem no local.
Registro garantido mais uma vez.
Mergulho em pleno Lençóis Maranhenses.
Pausa para o mergulho.
Uma das várias lagoas pelo caminho.
Lençóis Maranhenses
Efeito dos ventos constantes da região.
As fantásticas cores das lagoas.
Preciso dizer alguma coisa?
Vegetação aquática
Lençóis Maranhenses
Surpreso com toda essa beleza de natureza dos Lençóis.
Caminhada entre dunas e lagoas.
Lençóis Maranhenses
Lençóis Maranhenses
Lençóis Maranhenses
Lençóis Maranhenses
Lençóis Maranhenses a perder de vista.
Lençóis Maranhenses
Lençóis Maranhenses
Lagoa da Paz
Lagoa da Paz
Lagoa da Paz
Travessia do nosso grupo pela Lagoa da Paz.
Lagoa Azul.
Restinga
Restinga
Depois de caminhar pelas dunas e refrescar nas lagoas, a visita termina de forma magnifica com o pôr-do-sol nos Lençóis Maranhenses. Muitas pessoas decidem conhecer o local na parte da tarde justamente para acompanhar o sol se esconder por trás das montanhas de areia. A energia positiva do local é muito boa. O pessoal todo se dirige a um ponto demarcado por uma bandeira e cada pessoa ou grupo escolhe seu lugar para observar toda essa beleza natural. Eu aproveitei para compartilhar o momento com a minha amada Fabiane que, mesmo longe, está sempre comigo. O sinal da TIM surpreendentemente funcionou nos Lençóis e assim podemos conversar.
Ponto demarcado para acompanhar o pôr-do-sol.
Restinga
Lagoa dos Preguiçosos.
Lagoa Azul.
"Estacionamento" dos veículos licenciados para realizarem o passeio.
A galera começa a se reunir para observar o pôr-do-sol.
O local fica movimentado e com um clima muito bom.
Todos à espera do momento mágico.
Positive vibes.
Pôr-do-sol nos Lençóis Maranhenses.
Pôr-do-sol nos Lençóis Maranhenses.
"O que se leva da vida é a vida que se leva."
Pôr-do-sol nos Lençóis Maranhenses.
Pôr-do-sol nos Lençóis Maranhenses.
Pôr-do-sol nos Lençóis Maranhenses.
Pôr-do-sol nos Lençóis Maranhenses.
Assim que termina o pôr-do-sol todos voltam para seus devidos veículos e começam o caminho de volta que, por sua vez, não é menos emocionante e também tem muita adrenalina. Quando chegamos ao Rio Preguiças tivemos que aguardar a balsa já que o horário concentra muitos veículos e a embarcação comporta apenas dois carros por travessia. O período de espera pode passar despercebido por aqueles que aproveitam para saciar a fome com a tapioca feita na hora. A delícia regional é preparada em uma barraca que além do quitute, tem artesanato e vestimentas locais. Para não gastar dinheiro fiquei apenas observando o movimento.
Hora de voltar para a região central de Barreirinhas. Passeio inesquecível
Toyota Bandeirante da agência Vale dos Lençóis. Recomendo.
Valeeeeeu!
Realizada a travessia pela balsa, estava na hora de retornar para casa. Fui o primeiro a ser deixado na residência. Estava um pouco cansado, mas extremamente feliz. Foi sem dúvida um dos passeios mais interessantes que realizei em toda a viagem e não seria exagero dizer que em toda minha vida de viajante. Recomendo demais.
07/06/2013 - 334° dia - Barreirinhas (Folga)
Circuito das Águas.
Hoje, parte do dia foi dedicada, mais uma vez, ao pedal. O camarada Abílio traçou um roteiro turístico para ser realizado de bicicleta, denominado por ele como Circuito das Águas. O traçado compreende povoados da região onde a natureza se exibe das melhores formas possíveis.
O trajeto consistiu em passar por quatro ou cinco comunidades. Em Sobradinho para além da magnifica natureza, podemos conferir o processo rústico de fazer a farinha. O professor Abílio foi reconhecido por um ex-aluno que, junto com a sua família, realizava o complexo e interessante método para se aproveitar a mandioca em sua totalidade. Esse tipo de surpresa é o que nos motiva a conhecer os lugares através desse fantástico meio de transporte.

Povoado Passagem do Canto
Deslocamento para os povoados da região.
Em outro ponto às margens do Preguiças.
Rio Preguiças
Rio Preguiças.
Rio Preguiças.

Interior do povoado Sobradinho. Uma das partes mais bonitas do passeio.
Maravilha de natureza

As belezas do interior.
Em um dos afluentes do Rio Preguiças.
In foco.
Vai pedalar na água, abestado? Risada Sacana.
Que eu tenha forças para conhecer, de bicicleta, os lugares mais longínquos. 
In foco.
Professor Abílio
In foco.
Conhecendo melhor o processo de produção da farinha e outros derivados da mandioca.
Atenção máxima na aula..
Secagem..
Trabalha.. trabalha.. rs
Olha a cara de felicidade do mestre Abílio.
In foco.
In foco.
In foco.
In foco.
Tucupi separado nas garrafas.
Um dos processos iniciais; moer a mandioca.
In foco.
In foco.
Fase para separar o tucupi.
In foco.
In foco.
Registro para posteridade.
Para fechar o passeio da melhor forma possível.
08/06/2013 - 335° dia - Barreirinhas a Cana Brava
Em direção ao Piauí.
Chegou a hora de voltar à estrada.
A saída de Barreirinhas aconteceu com um veículo 4 x 4. A utilização da Toyota se fez necessária para seguir viagem, pois eu deveria chegar até o município de Paulino Neves, contudo, não existe uma estrada entre as duas cidades. Há somente um caminho extremamente arenoso e que impede qualquer possibilidade de completa-lo pedalando. Não sei exatamente qual a distância, mas deve ser em torno de 25-30 quilômetros. Como mencionei em postagens anteriores, o objetivo é pedalar sempre que possível, mas em determinados trechos a utilização de outro meio de transporte se torna inevitável. Paciência.
O veículo partiria de Barreirinhas às 8h30m e com a ajuda do Abílio já tinha reservado meu lugar dois dias atrás. O motorista cobrou 20 reais da passagem e mais 15 pelo transporte da Victoria. Uma facada para quem tem procurado economizar, mas infelizmente são os gastos da viagem.
Como a saída estava programada para a parte da manhã, não deixei de acordar cedo, arrumar a bagagem, tomar um café da manhã e seguir ao ponto onde o veículo estava à minha espera e também dos demais passageiros. O camarada Abílio mais uma vez se mostrou solícito e me ajudou no que foi preciso. Deixo meu sincero agradecimento por toda sua hospitalidade. Valeu mesmo, mestre Abílio.
Saída do residencial do camarada Abílio.
Às 08 horas estava colocando os alforjes debaixo dos bancos da Toyota e amarrando a Victoria na traseira do veículo. A viagem deveria durar pouco mais de duas horas e começou por volta das 8h30m, contudo, um passageiro foi esquecido e como suas malas estavam a bordo, tivemos que retornar quando estávamos na saída da cidade. Isso custou alguns minutos e a paciência de determinadas pessoas no carro.
Verificando se a Victoria tinha sido bem presa no veículo.
Saída de Barreirinha em direção à Paulino Neves.
Saída de Barreirinha em direção à Paulino Neves.
Quadriciclo não falta pelas ruas de Barreirinhas.
O percurso é em meio à vegetação de restinga e muita areia. Realmente é impossível pedalar pela região. No meio do caminho, um e outro vilarejo aparece para destoar a paisagem desértica. Em determinadas partes há o desembarque e embarque de passageiros. Esse processo somado à velocidade lenta sobre a areia é o que deixa a viagem demorada. Mas eu estava tranquilo e registrava tudo que estava na minha frente, sobretudo, quando chegamos à área denominada Pequenos Lençóis, uma faixa de dunas um pouco menor que aquela mais conhecida e já visitada.
Começo da "estrada" para Paulino Neves.
Embarque/desembarque de passageiros nos outros veículos que também fazem o trajeto arenoso.
Chegada aos Pequenos Lençóis.
Pequenos Lençóis.
Pequenos Lençóis.
Muitos caprinos na região.
Caprinos por todos os lados.
Paisagem pelo caminho.
In foco.
Chegada à Paulino Neves.
No famoso Delta das Américas.
Por volta das 11h15m estávamos em Paulino Neves e após descer do veículo comecei a colocar os alforjes para seguir o pedal até Tutóia e consequentemente em direção ao Estado do Piauí pela rodovia MA - 315, pavimentada em 2011. Antigamente o trecho de aproximadamente 30 quilômetros era muito parecido com esse de Barreirinhas à Paulino Neves, mas ainda bem que atualmente a nova estrada permite o deslocamento mais fácil. Assim foi possível colocar a Victoria para andar.
Saída de Paulino Neves.
Rodovia MA 315 que liga Paulino Neves à Tutóia.
Já estava próximo do meio-dia e a fome começava a se manifestar através das gritantes lombrigas que se revoltaram por eu não ter almoçado em Paulino Neves. Mas para a minha felicidade logo na saída da cidade, em um povoado chamado Tingidor, encontrei um restaurante que quase passou despercebido pela ausência de cliente. A refeição custava 10 reais e contava com camarão e carne de sol. Estava simplesmente divino e valeu cada centavo investido. Delícia de almoço.
Almoço caprichado com direito a camarão e carne de sol.
Delícia de camarão.
Devidamente alimentado voltei à estrada que, apesar de carecer de acostamento, é tranquila em razão do tráfego baixo de veículos. O relevo também não dificulta o deslocamento que apenas não aconteceu mais rápido por causa vento contra e o calor que novamente é de “pirar o cabeção”.
Vale destacar que o trecho entre Paulino Neves e Tutóia é repleto de povoados onde a maioria conta com pequenas mercearias e restaurante. Não me lembro de ter visto hospedagem, mas conseguir um local para acampar ou atar a rede por essas bandas não deve ser difícil. O povo nordestino tem sido muito hospitaleiro em todas as partes.
Passagem por Tutóia Velha.
Apesar da temperatura, infelizmente não era miragem, subidas pelo trajeto.
A rodovia MA 315 termina na chegada ao trevo para Tutóia, que deste ponto, fica distante apenas dois quilômetros. A cidade é litorânea, mas achei melhor reencontrar o mar em outra ocasião. Naquele momento peguei a MA 034 em direção à Cana Brava, distante 40 quilômetros. É mais uma rodovia restaurada e que está em excelente estado, contudo, o acostamento não é dos mais propícios para pedalar e muitas vezes foi preciso seguir sobre a faixa lateral. Novamente o fluxo de veículos proporcionou um pedal tranquilo neste sentido. O que dificultou foi o relevo com a sua verdadeira montanha-russa.
Essa imagem resume uma estrada montanha-russa.
Pouco antes de Cana Brava eu estava parado no acostamento para comer algumas bolachas quando um motociclista passou no sentido contrário da rodovia e posteriormente retornou para conversar comigo. O rapaz, meio estranho, chegou perguntando se eu fumava cigarro ou maconha. E antes mesmo que eu pudesse responder que não fumava, ele tirou um cigarro da carteira e me ofereceu. Claro que recusei veemente dizendo, novamente, que não fumava. O cara ficou surpreso com a minha resposta, tentou argumentar alguma coisa, mas eu encurtei a conversa e disse que precisava seguir. Ele então esboçou questionar o motivo da minha pressa, mas insisti na justificativa que necessitava chegar o quanto antes na próxima comunidade. Recebi um vai com Deus e cada um seguiu seu caminho. Não quero nem saber quais eram as intenções daquele jovem.
O planejamento era parar em Cana Brava onde cheguei por volta das 18 horas. A primeira tentativa de conseguir um lugar para passar a noite foi sem sucesso. Mas isso não me abalou e fui procurar outro local no final do perímetro urbano. Quando já estava praticamente fora da cidade passei por uma casa à beira da estrada em que havia uma enorme área coberta e um senhor numa rede. Não pensei duas vezes para solicitar a permissão para montar acampamento.
Chegada à Cana Brava.
Quem me atendeu na casa foi o senhor João que é baiano, mora no Ceará e também está de viagem (de moto e a trabalho) pelo Maranhão. Ele estava na mesma situação do que eu, contudo, chegara antes na casa e já tinha conseguido o aval para permanecer no local. Depois que expliquei a minha situação ele foi conversar com a proprietária que não pensou muito em permitir a minha estadia.
A área coberta era na verdade um espaço (idêntico àquele de Sobradinho) para o preparo da farinha. O senhor João já tinha atado sua rede no local e eu fiz o mesmo. Assim evitava montar a barraca e ganharia tempo no dia seguinte já que precisaria apenas desatar a rede e guarda-la no alforje.
Enquanto estava sentado e tirava meu tênis, a dona da casa apareceu inesperadamente com um prato de comida extremamente caprichado. Baião-de-dois com frango assado. Pensa na surpresa e felicidade do sujeito que devorou a comida rapidamente. Para a sobremesa, o senhor João ainda me ofereceu duas bananas e uma maça. Mais uma vez eu tinha sido guiado para permanecer no local certo.
As portas da casa também foram abertas para eu tomar um banho que foi muito bem-vindo depois de um dia demasiadamente quente. Na sequencia comecei a conversar com o senhor João que hoje vende remédios naturais pela região. Viajante há muitos anos, conhece bem essa parte do nordeste e me deu várias informações sobre as estradas no Maranhão, Piauí e Ceará. Neste último me ajudou a decidir por qual rodovia seguir para chegar à Fortaleza.
Alimentado, limpo e com o trajeto a seguir traçado, restou deitar na rede e dormir.
Dia finalizado com setenta quilômetros pedalados.

09/06/2013 - 336° dia - Cana Brava (Maranhão) a Camurupim (Piauí)
Chegada a mais um Estado brasileiro: Piauí.
A noite foi sem dúvida a mais fria desde que retornei ao Brasil. A temperatura baixa tinha explicação. A casa estava localizada em uma região alta e às margens de um rio. Para a minha felicidade eu estava com o saco de dormir que acabou por servir como cobertor. A devida proteção proporcionou uma das melhores noites em rede dessa viagem. O conforto e a segurança do local, aliada à canseira permitiram um descanso merecido.
Pernoite em rede na antiga casa de farinha.
Sem dúvida, atar a rede é mais simples do que montar a barraca. 
Acordei por volta das 6 horas e rapidamente estava pronto para seguir viagem, não sem antes me despedir dos proprietários e também do sábio e prestativo senhor João. Pessoas que tem meu eterno agradecimento pela acolhida.
Senhor João. Viajante de muitos anos pelo nordeste.
Logo após a saída encontrei um trevo onde a placa informava a direção para a divisa entre Maranhão e Piauí. Era exatamente o caminho pelo qual eu deveria continuar. Segundo a placa, a distância para chegar ao estado vizinho era de 42 quilômetros.
Trevo para a divisa entre Maranhão e Piauí
Não sei a denominação da nova rodovia, mas não é muito diferente da MA 135 e MA 034. Talvez seja um pouco mais deserta já que poucos povoados aparecem pelo caminho. Um deles surge justamente no trevo para Araioses. Existe restaurante no local, mas ainda era cedo e resolvi seguir em direção à Pirangi que é a última comunidade maranhense antes da divisa, onde eu estava por volta do meio-dia.
Nas proximidades de Araioses.
Em Pirangi parei em uma casa para completar minhas garrafas de água que já estavam vazias. Aqui na região para o “motor” não ferver é preciso no mínimo 5 litros de água/dia. Não é brincadeira não.
Últimos quilômetros no Maranhão.
Hasta luego, território maranhense.
Para chegar ao Piauí precisei apenas atravessar a ponte sobre o famoso rio Parnaíba. Na outra margem, em solo piauiense fiz o devido registro e continuei por uma estrada que logo me deixou na BR 343 que faz a ligação com a capital Teresina. No entanto, meu destino era o norte do estado; Parnaíba.
Ponte sobre o Rio Parnaíba.
Rio Parnaíba. Divisa entre Maranhão e Piauí.
Solo piauiense.
Muito obrigado.
Piauí, sétimo estado brasileiro a ser pedalado nesta expedição.
Registro garantido.
Acostamento excelente na BR 343 em direção à Parnaíba;
O amigo Lauro (de Belém/PA) fez recentemente esse trecho na viagem de bicicleta para o Rio de Janeiro e me informou que em Parnaíba tinha uma enorme loja de bicicleta caso eu precisasse de algo. E na ocasião eu procurava um velocímetro, mas o “cabeçudo” aqui esqueceu que era domingo e certamente nada estaria aberto. E não seria nada interessante esperar um dia para fazer a reposição da peça, por isso, ao entrar na BR 343 eu tinha a pretensão apenas de passar por Parnaíba e seguir na direção da divisa com o Ceará.
Próximo destino; Ceará.
O objetivo era passar pelo Piauí em apenas um dia. O Estado tem o menor litoral do país e era estrategicamente por essa região que eu pedalava em direção ao Ceará. O caminho para chegar à Parnaíba contou com a excelente condição da BR 343 com acostamento parecido com aquele de muitas rodovias do Sul/Sudeste. Mas sabe como é, ciclista não tem vida fácil. A temperatura deixou tudo mais complicado. Subidas moderadas eram completadas com muita dificuldade e, para variar, não aparecia nenhum restaurante para saciar a fome. Afinal já passava do meio-dia.
Fui encontrar um restaurante somente na chegada à Parnaíba. O estabelecimento, paralelo ao primeiro posto de combustível que aparece na entrada da cidade oferecia um menu com algumas opções. A mais barata era a panelada, prato que no Maranhão é conhecido como carne cozida com legumes, contudo, aqui eu descobri que se tratava de buchada de boi, dobradinha, mocotó, como quiser chamar. Confesso que isso me deixava com o estômago todo embrulhado quando era criança e chegava a ponto de quase vomitar. O tempo passou e as circunstâncias mudaram. Não digo que hoje sou apreciador dessa gastronomia nordestina, mas que é melhor comer a tal panelada do que ficar com fome, isso eu não tenho dúvida. Não sobrou nada sobre a mesa. (Risada Sacana).
Depois do almoço voltei à estrada ainda com a vontade de chegar à divisa (via Camurupim), contudo, não seria uma tarefa fácil e implicaria em atravessar para o território cearense durante a noite. Algo que não me animava muito por questões de segurança e até mesmo do registro da passagem por mais uma divisa. Dessa forma, aqueles 66 quilômetros que separavam Parnaíba da divisa com o Ceará não seriam completados até o final do dia, mas pelo menos boa parte deles.
Na entrada de Parnaíba.
In foco.
Somente mais 66 quilômetros para chegar ao Ceará.
Com a mudança dos planos, a parada no final do dia estava programada para acontecer em Camurupim. Para chegar ao povoado precisei pedalar na escuridão por alguns quilômetros. A rodovia é simples, porém um pouco movimentada e com acostamento relativamente moderado. Bastou seguir com calma para chegar ao destino desejado.
Por volta das 19 horas estava em Camurupim. A estratégia de procurar um local para montar acampamento tem sido sempre perguntar nas casas que ficam no começo ou final do perímetro urbano. Lugares mais afastados e consequentemente calmos e longe dos olhares de muitas pessoas. É preciso pensar em todos os detalhes. Foi difícil achar uma casa com varanda que possibilitasse o pernoite. Somente na saída encontrei uma casa grande, bonita e que dificilmente o proprietário permitiria a minha presença, mas eu não tinha muitas opções e o “não” já estava ganho mesmo, então o que custava tentar? Para a minha alegria meu pedido foi aceito sem maiores questionamentos e a entrada foi permitida pelo senhor Carlos que me recebeu com toda atenção.
Mais uma vez atei a rede na pretensão de economizar tempo. Essa é a principal vantagem de substituir a barraca pela rede. Na sequencia fui tomar um banho já que a opção foi sugerida pelo proprietário que não se importou com a minha entrada na residência. Acho isso simplesmente incrível; aceitar um “estranho” dentro da sua casa. Essa hospitalidade no norte e nordeste tem me surpreendido.
Com o banho tomado e novamente limpo, ainda ganhei o jantar que foi exclusivamente esquentado para mim. Detalhe que vale a pena ser repetido. Eu nunca peço nada mais do que um espaço para dormir, montar a barraca ou atar a rede. As demais gentilezas partem sempre dos proprietários. E isso tem acontecido em pelo menos 95% dos lugares por onde passo. Sem dúvida, receber essa hospitalidade eleva o moral e fortalece o espirito para poder seguir viagem. Não esquecendo que também ajuda a equilibrar as finanças. Não sei se funciona em uma viagem com mais pessoas, sozinho tenho tido uma recepção excelente.
Dia finalizado com aproximadamente 110 quilômetros.

10/06/2013 - 337° dia - Camurupim (Piauí) a Granja (Ceará)
Ceará! Oitavo Estado brasileiro a ser pedalado na Expedição Cicloturismo Selvagem – Pedal pela América Latina.
A noite foi tranquila e também confortável na rede. Acho que começo a me acostumar a dormir neste tipo de leito. Também já estava mais do que na hora. Acordei por volta das 5h30m e rapidamente arrumei minhas coisas para retornar à estrada. Mas antes de partir aceitei o café da manhã preparado pelo Carlos. Claro que não retornei à rodovia sem agradecê-lo imensamente pela hospitalidade. Toda essa ajuda reforça ainda mais a filosofia em que acredito; gentileza gera gentileza. Sem dúvida colocarei ainda mais em prática todo esse aprendizado.
Pernoite na garagem da casa do senhor Carlos.
Pronto para mais um dia de viagem;
O objetivo do dia era simples; começar a pedalar em território cearense e terminar na cidade de Granja passando pela cidade litorânea de Camocim. Muitas pessoas me disseram que o município praiano era bonito e por isso achei que merecia uma visita, ainda que rápida. Mas para chegar neste local, primeiro foi necessário sair do Piauí.
Nas primeiras horas da manhã o sol já brilhava forte e, para variar, a temperatura alta e a falta de acostamento me castigavam e impediam um avanço mais rápido. Cada dia me convenço mais que um praticante de cicloturismo não é nada, repito, nada, sem paciência. Foi preciso muita calma para vencer os quase 30 quilômetros até chegar à divisa com o Ceará.
Acostamento inexistente e a placa indicando acesso ao litoral do Piauí.
Sentido à Cajueiro da Praia que não foi meu destino.
Obviamente que eu não poderia deixar de registrar a passagem por mais uma divisa. E a entrada em solo cearense foi flagrada de forma muito emblemática e que expressa o cotidiano de muitas famílias que vivem na região. A fotografia mostra duas mulheres carregando um balde de água em suas cabeças. Não sei com qual finalidade o liquido sagrado foi retirado do rio que faz a divisa entre os estados. Mas o que fica claro é que mesmo no período das chuvas, ainda existe toda essa questão relacionada com a falta de água.
Mais uma divisa em território nacional.
Na divisa entre Piauí e Ceará.
Rio que demarca a divisa dos estados.
Flagrante na chegada ao Ceará.
Em território cearense.
 Oitavo estado brasileiro a ser pedalado na viagem.
Distâncias a partir da divisa.
Após a entrada no Ceará precisei pedalar poucos quilômetros para finalmente chegar à Chaval, primeira cidade cearense do caminho traçado no meu roteiro. A pacata cidade apresenta as típicas casas baixas, pequenas e suas ruas com pedra tosca que definitivamente não é a melhor opção para quem pedala. De qualquer forma, aproveitei a entrada do município e parei em um posto de combustível para calibrar os pneus. Tem sido difícil achar um calibrador moderno pelo caminho.
CE 085 em direção à Chaval. 
Primeira cidade cearense do meu trajeto pelo Estado.
Chaval: Destaque para as casas baixas e calçamento com pedras toscas.
A rodovia CE 085 se transforma em rua no perímetro urbano de Chaval e o trânsito corta parte da pequena cidade. Na sequencia a estrada volta ao normal, contudo, sem acostamento, mas com um pequeno espaço ao lado da faixa lateral que permite uma estreita zona de segurança em casos mais extremos. O baixo movimento na estrada não oferecia muito desconforto e o pedal seguiu sem maiores dificuldades.
A temperatura alta mais uma vez estava presente e a sensação é de que, quanto mais eu adentro no nordeste, maior é sensação térmica. Brinco com o pessoal dizendo que a minha família não vai nem me reconhecer quando eu voltar para casa devido ao bronzeado. Estou literalmente moreno, mas faz parte.
Camocim estava a quase 60 quilômetros da divisa, ou seja, eu chegaria na cidade com aproximadamente 90 quilômetros pedalados, marca que eu gostaria de atingir até por volta do meio-dia, mas o vento contra prejudicou o planejamento, pelo menos no que diz respeito ao horário que era atrasado em razão das condições climáticas.
Entre Chaval e Camocim existem poucos povoados e somente a cidade de Barroquinha que oferece uma estrutura mais completa com pousadas, restaurante e comércio de modo geral. A minha parada no local foi apenas para reabastecer as garrafas de água. Ainda era cedo e o almoço não foi cogitado.
Na estrada vou observando a paisagem com muitas palmeiras; coqueiros e carnaúbas em meio a pastagens com gados, jumentos e algumas cabras. O relevo é sem muita dificuldade e poucas subidas exigem um esforço maior. Foi complicado somente encontrar um lugar para almoçar. Isso aconteceu 3 quilômetros antes de Camocim e apenas por volta das 14 horas apareceu uma churrascaria na beira da estrada. Maravilha.
Muitos coqueiros pela região.
Pedalando, ou melhor, fritando em direção à Camocim.
Gostaria de saber a história que originou esse nome.
Chácara Vaca Morta.
Casa de taipa, realidade também no Ceará;
CE 085
A refeição custou dez reais. Esse tem sido o preço padrão de um almoço aqui no nordeste. Não era buffet, mas nem por isso deixou de vir bastante comida. Vale destacar que muitos restaurantes oferecem um diferencial para os clientes; redes. Isso mesmo, em vários estabelecimentos é possível verificar as redes atadas para que as pessoas possam tirar as sestas. Não raramente elas estão ocupadas. Após a refeição eu fiquei tentado a deitar, mas achei melhor ficar na cadeira mesmo, caso contrário a preguiça seria cruel e voltar a pedalar se tornaria um sacrifício.
Na saída do restaurante segui para o trevo que possibilitava o direcionamento à Camocim ou Granja. Peguei o sentido para a primeira cidade. Aproximadamente cinco quilômetros depois eu estava na beira-mar e de frente para o Oceano Atlântico em toda sua dimensão. E pensar que meses atrás eu me deparava com o Pacífico e posteriormente o Mar do Caribe. É muito, mas muito bom sentir esse avanço. Ainda falta muito para chegar à Foz do Iguaçu, mas eu já estive bem mais longe.
Sentido à Camocim para conhecer o litoral cearense.
Camocim é uma típica cidade do interior com pouca população. É conhecida mesmo em razão do litoral, que por sua vez, não me pareceu muito distinto e interessante como mencionaram inúmeras pessoas pelo caminho. Ao menos eu não achei as praias convidativas para um banho de mar. O que despertou a atenção foi verificar as várias embarcações que chegavam à Praia dos Barcos onde a maioria fica ancorada. O diferencial fica por conta da utilização das velas nos barcos. A peça serve para movimentar as embarcações com a ajuda dos ventos que sopram constantemente na região. Não me lembro de ter presenciado algo parecido durante a viagem. Registro garantido.
Litoral cearense
Praias em Camocim.
Oceano Atlântico.
Utilização de vela nas embarcações.
Minha companheira sentindo a brisa do mar.
Região portuária de Camocim.
Praia dos barcos.
Ambiente marítimo.
Destaque para o praticante de windsurf ao fundo.
Windsurf em Camocim
Praia da Barrinha.
Nada como uma pastagem de frente para o mar.
Finalmente um registro com a Victoria no Oceano Atlântico.
Praia da Barrinha. Farol ao fundo.
Praia da Barrinha.
In foco.
A chegada e saída de Camocim é muito fácil. A cidade tem placas informativas por todos os lados. Pedir informação é quase desnecessário. Achei um ponto extremamente positivo. Recomendo uma visita, ainda que rápida, ao local.
De volta à rodovia CE 085 o objetivo era continuar em direção à Granja que estava a 22 quilômetros de distância. O deslocamento até a cidade foi normal já que o sol estava baixo e a temperatura muito mais amena. O relevo não apresentou muitas inclinações e no final da tarde eu chegava ao perímetro urbano.
Em direção à Granja, Sobral e Fortaleza.
Granja tem um nome peculiar, mas nada relacionado com a criação de galinhas e tampouco quem nasce na cidade tem haver com algum nome pejorativo que o termo possa erroneamente indicar. De qualquer forma, acho que a cidade é a maior que passei até o momento em território cearense. O movimento de pessoas e veículos no perímetro urbano me deixou atento em questão à segurança e também a um local para pernoitar.
Como mencionei anteriormente, a estratégia tem sido pedir um espaço para dormir somente na entrada ou saída dos municípios. No início de Granja nenhum local me pareceu propicio e continuei em frente pelo extenso perímetro urbano. Na saída da cidade também não encontrei nada e enquanto pedalava pela nova rodovia, CE 382, um carro passou buzinando e logo no final da subida parou fora da pista e aguardou minha aproximação.
O motorista do veículo era o Mário Jordany que também é ciclista, mora em Granja e se mostrou interessado em saber mais sobre a minha passagem pelo local. Expliquei o projeto pra ele e conversamos por vários minutos. Mencionei que solicitaria um espaço para dormir na casa paralela ao posto de combustível que ficava na frente de onde estávamos. Nos despedimos e fui conversar com o proprietário da residência.
 Mário Jordany. Obrigado pela ajuda, camarada.
A primeira tentativa de pernoite não funcionou e a senhora que me atendeu argumentou que diante de tantas coisas que acontece no mundo ela não poderia me aceitar. Compreendi seu posicionamento, fiz apenas algumas colocações, agradeci pela atenção e voltei para a estrada, mas não fui longe. Resolvi parar no posto e perguntar se havia um local para montar a barraca. Para a minha surpresa o Jordany estava abastecendo seu veículo e perguntou o que tinha ocorrido. Com a maior naturalidade (depois destacada por ele) expliquei a situação e disse sobre a próxima estratégia. Foi então que ele afirmou que pagaria uma pousada para o meu descanso em Granja. Questionou se eu aceitaria e simplesmente não tive como recusar. Estava cansado e desejava procurar um local para tomar banho e ter um descanso merecido.
Fiquei muito feliz e agradecido com a hospitalidade do Jordany que disse que apenas não me convidava à sua casa pela ausência de espaço. Enquanto nos dirigíamos ao centro da cidade encontramos com alguns amigos ciclistas dele. Claro que paramos e conversamos, sobretudo, a respeito da expedição que passou a ganhar mais admiradores.
Seguimos até a Pousada Casa Grande, agradeci o camarada pela ajuda de extrema importância e minutos depois eu estava em uma das melhores hospedagens dessa viagem. Instalações novas na habitação que contava com televisão, ar-condicionado, ventilador e, sobretudo, wi-fi. Não pude deixar de conferir o e-mail e mandar notícias para os familiares. Também não hesitei em colocar algumas fotos da próxima atualização no diário de bordo. Aproveitei para enviar mais de 1GB de registros fotográficos. Com a tarefa fui dormir somente por volta das 2 horas da madrugada.
Dia finalizado com 120 quilômetros.

11/06/2013 - 338° dia - Granja (Folga)
Apesar de dormir tarde, levantei bem cedo porque tinha a pretensão de continuar a viagem, mas quando vi o tempo chuvoso, não pensei duas vezes em permanecer na hospedagem e tentar definitivamente acabar a atualização do diário de bordo e realizar a postagem atrasada e aguardada pelos leitores.
Às 7 horas o café da manhã começou a ser servido e fui um dos primeiros a sentar à mesa. Estava com muita fome já que a janta da noite anterior foi somente baseada nas energéticas bolachas. Aproveitei a refeição matinal para saciar um pouca a fome.
Na recepção o proprietário (Teixeira) informou que o preço da diária era de 25 reais. Para o padrão Brasil, um valor baixo para o que era oferecido e justamente por isso paguei para ficar mais um dia. Assim teria tempo para fazer o que precisava. Poderia fazer essa atualização em Fortaleza, mas não queria dar margem a imprevistos e deixar a atualização se atrasar ainda mais.
Com o resto do dia definido, não demorei em voltar ao quarto e começar a fazer a atualização dos últimos dias. Tem sido uma tarefa muito desgastante manter o diário de bordo atualizado. Espero continuar com forças para mantê-lo até o final do projeto, ainda que isso ocorra com menos frequência do que gostaria.
Na hora do almoço aproveitei para fazer a refeição (por 8 reais) no restaurante da pousada. O período da tarde foi exclusivamente voltado à atualização do diário. No começo da noite o Jordany apareceu na hospedagem na companhia da Ana Luiza, sua namorada. Ele ficou sabendo que eu ainda estava na cidade e apareceu para conversar mais um pouco e saber se estava tudo certo. Acabei sendo presenteado com a camiseta de um importante evento da cidade e que o camarada ciclista faz a cobertura.
No final do dia ainda não havia terminado a atualização, mas boa parte estava finalizada. No entanto, a postagem deve acontecer somente em Fortaleza daqui três dias. Paciência.
12/06/2013 - 339° dia - Granja a Forquilha.
Retorno à estrada.
A noite mais uma vez foi curta em razão do tempo investido na atualização do diário de bordo. Acordei cedo para seguir viagem, precisava voltar a pedalar o quanto antes, mas o café da manhã começava a ser servido somente a partir das 7 horas e eu não poderia sair sem reforçar as energias.
Enquanto esperava o horário da refeição matinal, aproveitei a data (dia dos namorados) para fazer uma declaração à minha amada Fabiane que, apesar da distância, continua no meu coração, pensamentos e sonhos. É difícil expressar sentimentos em palavras e por isso levei mais tempo do que imaginava para conseguir escrever uma parte de todo esse amor. Resultado é que fui sair da pousada apenas às 9 horas da manhã. Mas pelo menos consegui enviar a mensagem para meu amor.
A pretensão era chegar em Fortaleza na quinta-feira, mas com a “folga” em Granja isso se tornava difícil, porém não impossível. Dessa forma eu teria que finalizar o pedal de hoje com no mínimo 150 quilômetro para poder tirar um pouco a diferença do dia anterior. Assim eu terminaria o dia em algum lugar depois de Sobral.
Ao contrário da manhã de ontem, hoje o sol brilhava forte mais uma vez e a temperatura prometia derreter cérebro e pneus nas próximas horas. Estava preparado para enfrentar qualquer coisa e por isso saí da pousada para mais um dia de pedal. Ao deixar a hospedagem registrei um antigo casarão onde o Conde D'eu ficou hospedado por uma noite, segundo informação do camarada Jordany. Também aproveitei para registrar a Ponte Metálica que é um dos cartões postais da cidade.
Prédio em que Conde D'eu permaneceu por uma noite na campanha contra a Proclamação da República.
Pousada Casa Grande. Recomendo.
A antiga Ponte Metálica.
In foco.
Assim que voltei para a CE 362 um veículo buzinou e novamente era o camarada Jordany que veio fazer um registro da minha saída e mais uma vez se despedir. Aproveitei para agradecê-lo novamente.
Viagem continua pela CE 362
Na estrada a novidade foi a fauna um pouco mais exuberante e a presença de muitas montanhas no horizonte, mas que felizmente ficaram a uma certa distância da rodovia. As inclinações pelo caminho não eram absurdas, mas visualmente assustavam um pouco, sobretudo, entre as pequenas cidades de Martinópole, Uruoca, Senador Sá e Massapê. Nesta segunda eu aproveitei para almoçar no restaurante Toca da Raposa onde a refeição custava oito reais. No cardápio carne de sol acompanhada de arroz, feijão, macarrão e salada. Estava tudo muito bom, porém com uma quantidade um pouco menor do que nos demais estabelecimentos.
Mais um flagrante para a coleção.
Região montanhosa.
Se os animais estão assim, imagina o sujeito que pedala debaixo desse sol.
In foco.
In foco.
Montanha-russa cearense.
In foco.
Na sequencia continuei em direção à Sobral, mas logo no retorno à estrada tive uma grande surpresa. Outro veículo buzina ao passar por mim e a Victoria. Notei que o carro parou fora da pista e que o motorista esperava a minha aproximação. Curioso, me fez uma série de perguntas, entre elas, se eu tinha idéia de que estava pedalando em uma das regiões mais quentes do planeta. Fez a comparação com o Deserto do Saara que fica no mesmo sentido se atravessarmos o oceano. Depois fiquei pensando sobre isso e realmente ele tinha razão. Mas o que também surpreendeu foi quando ele perguntou se poderia fazer uma pequena contribuição. Não pensei uma vez para dizer que toda ajuda era bem-vinda e na sequencia ganhei vinte reais. Conversamos mais um pouco, agradeci pela colaboração e cada um seguiu seu rumo. Ele se direcionava à Fortaleza para pegar o voo à Brasília para ver o jogo entre Brasil e Japão pela Copa das Confederações.
Cheguei à Sobral no final da tarde. A cidade é a segunda maior do Ceará e sem dúvida foi complicado passar pelo perímetro urbano extremamente movimentado. Peguei muitos atalhos indicados pela população e várias vezes fui parar em lugares nada convidativos para passar de bicicleta naquele horário. Mas no final consegui achar a avenida principal que saía novamente na rodovia.

Chegada à Sobral
A escuridão chegou e o pedal passou a acontecer pela rodovia BR 222 que surpreendentemente não é duplicada como eu imaginava. Para a minha infelicidade o acostamento depois de Sobral é horrível e como o movimento de veículos é intenso, sem chance de pedalar na faixa lateral. Tive que encarar os buracos do acostamento.
Para conseguir atingir o objetivo traçado no começo do dia eu teria que parar na cidade de Patos, contudo, o trânsito e a situação do acostamento me fizeram finalizar o dia na cidade de Forquilha. Achei mais prudente não me arriscar naquelas condições. A Pousada São Francisco estava localizada ao lado de um posto de combustível e a diária custava 25 reais, mas a minha proposta de 20 reais foi aceita e o desconto garantido. Assim gastei o dinheiro que ganhei no começo da tarde e o pouso acabou saindo de graça.
O quarto da pousada era razoável. O banheiro deixou um pouco a desejar na higiene, mas de modo geral valeu o investimento. O importante é que estava prestes a ter o sono dos justos, pelo menos eu esperava.
Dia finalizado com 120 quilômetros.
13/06/2013 - 340° dia - Forquilha a Umirim
Chegada à Fortaleza?
A noite na pousada só não foi das melhores porque os pernilongos estavam à solta e foi difícil dormir mesmo depois de passar o repelente. Paciência.
Como eu não tinha completado o pedal do dia anterior como havia previsto, hoje a quilometragem aumentou consideravelmente para poder chegar à Fortaleza no final do dia. Para, pelo menos, tentar a audácia eu acordei às 4h15m, mas o sono me deixou levantar apenas uma hora depois. Resultado: saí da hospedagem somente às 6 horas da manhã. A situação que já era difícil ficou ainda mais complicada com o horário tardio em que o pedal começou.
Apesar de todas as dificuldades para terminar o dia na capital cearense, não deixei o objetivo de lado e comecei o pedal assim mesmo. Iniciei em um ritmo muito forte. Estava determinado de verdade e por isso as primeiras horas foram de força total para chegar o quanto antes em Itapajé onde tinha conhecimento de que uma região montanhosa me esperava na companhia de inclinações em direção ao céu. Todavia, depois da cidade mencionada o trecho seria de descida e teoricamente mais fácil.
O ritmo do começo do pedal somente não foi mais forte porque a BR 222 estava em obras nos 20 primeiros quilômetros e melhorou apenas antes de Patos. Deste ponto até Itapajé a situação estava diferente em razão da restauração realizada recentemente na rodovia. Apesar das subidas e das condições climáticas consegui chegar à cidade de Itapajé por volta das 14 horas e parei em um restaurante onde o buffet custava apenas oito reais. Claro que meu prato parecia um prédio com vários andares. (Risada Sacana).
Uma parte com a pavimentação nova da BR 222.
E a região montanhosa prevalece.
Cisternas presentes em algumas residências.
BR 222
In foco.
Depois do almoço enfrentei mais um pouco de subida até chegar à parte mais íngreme do trajeto. A essa altura do campeonato eu estava sem muita força e o ritmo já não era mais o mesmo, no entanto, ainda alimentava o desejo de chegar em Fortaleza no final do dia, mas logo essa vontade foi, infelizmente, adiada. Isso porque o momento esperado (da descida) chegou junto com uma triste realidade; vento contra; temperatura alta e; pavimentação extremamente ruim com inúmeras crateras que custaram a desaparecer. Com todas essas circunstâncias a alternativa foi terminar o pedal na cidade de Umirim quando ainda faltavam aproximadamente 90 quilômetros para chegar na capital.
Situação da BR 222 após a cidade de Itapajé.
Simplesmente lamentável.
Mais um pôr-do-sol fantástico na estrada.
Cheguei em Umirim quase às 18h30m e novamente tive dificuldade para encontrar uma casa para montar acampamento. Acontece que mais uma vez o perímetro urbano extenso dificultou a busca por um local mais propicio para o pernoite. Por isso seguia em direção à saída da cidade quando um ciclista (Emerson) com uma bicicleta cargueira começou a pedalar do meu lado e a perguntar mais sobre a viagem. Quando mencionei que procurava um local para dormir, ele indicou a pousada que ficava ao lado de um posto de combustível, que por sua vez, estava na frente da sua casa e por isso conhecia o proprietário que eventualmente poderia conseguir um desconto.
O Emerson seguiu comigo até o restaurante onde o proprietário (Luís) da pousada também trabalhava. Infelizmente a hospedagem estava em reforma e não poderia receber ninguém, contudo, fui autorizado a atar a rede depois que o restaurante fechasse. Não vi nenhum problema em esperar e aceitei a sugestão. Neste intervalo fui à casa da família do Emerson que gentilmente cedeu a sua residência para eu poder tomar banho. O local era extremamente simples e o banho foi de balde no fundo do quintal. Como aquilo não era novidade, encarei a situação normalmente.
Após o banho eu tive uma surpresa inesperada. O Emerson apareceu com um caderno, caneta e pediu para eu deixar uma mensagem sobre a minha passagem pela a casa dele. Fiquei um pouco sem saber o que fazer, mas claro que não deixei de escrever, sobretudo, a respeito da gentileza de me receber em sua casa. O camarada ainda me presenteou com um jogo de chaves (ferramenta) que não pôde ser recusado. Depois dos agradecimentos fiz um registro da família para poder guardar de recordação. Muito obrigado por toda a ajuda.
Emerson e sua família. Obrigado pela ajuda, camarada.
De volta ao restaurante eu fiquei sentado, escrevendo minhas anotações do dia enquanto as lombrigas estavam atiçadas pelo cheiro da comida. Acho que naturalmente a minha cara era de quem não escondia a fome. O senhor Luís ao verificar a situação perguntou se eu gostaria de jantar e claro que a resposta foi positiva. Então ele me autorizou a servir à vontade. Detalhe; o buffet era basicamente de uma deliciosa gastronomia mineira. Pensa num caboclo que ficou satisfeito e com a barriga cheia. Multiplica por três e esse sujeito sou eu. (Risada Sacana).
Depois do jantar o sono bateu violentamente e eu estava cochilando na mesa e lutando para não desmaiar de vez. Foi quando por volta das 21h30m o proprietário começou a tirar as redes do local e autorizou a colocação da minha. Em poucos minutos eu estava pronto para dormir, não sem antes trancar a Victoria do meu lado, afinal, eu me encontrava em uma área coberta e aberta do restaurante. Apesar de o senhor Luís garantir que o local era seguro, achei melhor não marcar bobeira. Assim poderia ter um sono mais tranquilo.
Dia finalizado com 120 quilômetros pedalados.
14/06/2013 - 341° dia - Umirim a Fortaleza
Finalmente na capital cearense.
A noite no restaurante não foi das melhores. Primeiro por causa da "onda" de pernilongos que invadiu a “praia” e “quebrou” justamente dentro da rede e fez daquele meu espaço uma moradia própria. Resultado: mesmo com repelente foi difícil espantar aqueles seres indesejados. E olha que eu estava com meu saco de dormir que fazia papel de um cobertor. Paciência!
Segundo: a chuva não foi apenas de mosquitos e sim de muita água. Resolveu cair uma verdadeira tempestade com vento que molhou até mesmo uma parte da rede. Neste momento eu lembrava feliz sobre a decisão de não ter montado a barraca em uma área descoberta que o senhor Luís também tinha me oferecido.
Com a chuva foi difícil dormir e por isso eu estava atento ao pouco movimento ao redor do restaurante e que era limitado aos caminhoneiros que estacionavam seus veículos para passar a noite. Acontece que eu comecei a ouvir uma voz feminina e quando olhei tinha uma mulher no outro lado da área. Ela aparentava estar molhada da chuva e falava sozinha pelos cantos. Notei que ela viu a minha rede e imediatamente veio a meu encontro. Quando ela se aproximou da rede eu perguntei três vezes; O que tu queres? Ela, surpresa, ao me ver acordado, resmungou alguma coisa e foi embora dizendo; não se pode fazer programa na chuva. Foi quando ela confirmou a minha suspeita; era uma garota de programa. Se ela queria algo comigo, quebrou a cara. Sou fiel à minha mulher.
A presença da garota de programa me deixou ainda mais alerta com relação à minhas coisas na Victoria. Eu não poderia simplesmente dormir sem saber o que poderia acontecer. Fiquei tranquilo somente depois que a mulher saiu do local após ser chamada por um caminhoneiro. Foi a última vez que a vi.
No restante da noite a chuva parou, mas o mesmo não aconteceu com os pernilongos. Ainda bem que amanheceu logo e a claridade espantou esses mosquitos indesejados. Como restavam apenas 90 quilômetros para chegar à Fortaleza eu não precisava começar a pedalar cedo, sobretudo, porque o meu anfitrião na capital me encontraria em um determinado ponto na entrada da cidade somente após às 18h30, horário que sairia do serviço. Por isso comecei a pedalar às 7 horas da manhã e num ritmo bem tranquilo.
A Victoria começou a fazer uns estalos bem sinistros e que eu não soube identificar a origem. Uma coisa é certa, em Fortaleza ela terá que passar por uma boa manutenção. Até porque o pessoal de Barreirinhas fez um péssimo trabalho e as marchas foram muito mal reguladas. Não sei por que, mas acho que terei que trocar o grupo (catraca, corrente e coroa) que já evidenciam um desgaste compreensível.
Mesmo com o barulho estranho eu continuava pedalando pela BR 222 que tinha uma condição melhor em relação ao acostamento. Sei que pouco depois de São Luís do Curu encontrei um estabelecimento que vendia caldo de cana e pastel, combinação que boa parte dos paulistanos está acostumada a degustar nas feiras da cidade. Aproveitei que tinha comido apenas meio pacote de bolacha e parei na intenção de reforçar as energias.
No estabelecimento do caldo de cana, a proprietária, dona Solange, era do interior de São Paulo, mas vive há algum tempo no Ceará. Conversamos bastante sobre viagens e diversos outros assuntos, inclusive, sobre a diferença de vida no nordeste e sudeste do país. Como estava sem pressa de seguir viagem, acho que fiquei mais de uma hora no local. Vale lembrar que o caldo de cana gelado estava uma delícia e o pastel não ficou para trás.
A sequencia do pedal foi tranquila. A única constatação diferente em relação aos trechos anteriores esteve relacionada à quantidade de veículos que não era surpresa nenhuma se considerada a proximidade com a capital.
Ao meio-dia parei em um restaurante às margens da estrada e no cardápio duas opções; panelada e galinhada. Não sei por que eu insisti em pedir a primeira opção. A buchada estava difícil de descer. Acho que se depender de mim foi o último prato que peço com a iguaria nordestina. Deixo ela para os moradores locais. O almoço saiu por dez reais.
Terminei o almoço, mas ainda aguardei um tempo no restaurante porque a chuva voltou a cair e como eu continuava sem pressa, achei melhor ter um tempo para observar toda aquela água. Mas isso foi por poucos minutos, logo depois, ainda com um pouco de chuva, voltei à estrada para finalizar a última parte dessa fase da viagem.
Com a chegada da região metropolitana, leia-se, Caucaia e Macaranaú, o trânsito ficou pesado com a presença de muitos caminhões. Mas bastou ter calma e avançar com cuidado para tudo ocorrer bem. A estrada para Caucaia passa por fora da cidade e o acesso principal a ela e posteriormente Fortaleza não estava em nenhuma placa, por isso acabei seguindo involuntariamente para Macaranaú. Resultado: saí, ou melhor, entrei por um outro lado da cidade e que ficava muito mais longe do ponto de referência para encontrar o Daniel Ribeiro, meu anfitrião.
Pedreira e usina de asfalto antes de Caucaia. 
Movimento intenso na região metropolitana de Fortaleza.
Na direção certa para Fortaleza.
Sei que passei na divisa entre os municípios de Macaranaú e Fortaleza às 17h45m e o trânsito estava enfurecido na cidade. Afinal era final de sexta-feira e o pessoal doido para voltar logo para a casa. Para chegar ao local desejado fui pedindo informações que não tiveram nenhum equivoco. Acho que pedalei mais dez quilômetros para encontrar o ponto combinado com o Daniel. No local tive apenas que esperar pela chegada do camarada que é meu conhecido de longa data. Conversamos sobre cicloturismo desde a época do Orkut, ou seja, anos atrás.
O Daniel chegou ao local e pouco depois o amigo Fernando que também se prontificou a ajudar no que eu precisasse durante minha estadia na cidade. Após registrar a chegada na cidade, seguimos direto para a casa do anfitrião que ficava a mais de 10 quilômetros de onde estávamos. Conversando o pedal passa mais rápido e logo chegamos na residência do Daniel onde devo permanecer quatro ou cinco dias. Tempo para atualizar o site, arrumar a Victoria e ceder entrevistas já marcadas para os jornais locais.
Em Fortaleza com o amigo e anfitrião, Daniel Ribeiro.
Conversando com o Fernando sobre a expedição.
Solícito camarada Fernando.
No final da noite, Daniel, Raquel (sua mulher) e eu, fomos jantar em um restaurante com um cardápio típico da região. Destaque para o baião-de-dois e o purê de macaxeira. Simplesmente uma delícia. Muito obrigado pela excelente recepção meus amigos.
Jantar de boas vindas concedido pelo anfitrião Daniel. Delícia de gastronomia tipica da região.
Dia finalizado com 110 quilômetros pedalados.
15/06/2013 - 342° dia - Fortaleza (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
16/06/2013 - 343° dia - Fortaleza (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do site.
Nos próximos dias pretendo conhecer as praias de Fortaleza, revisar a Victoria na Savana Bike, loja onde o Daniel trabalha, conceder as entrevistas marcadas, terminar o que estiver pendente (responder os tópicos Brasil II e III) e então retornar para a estrada em direção à Natal no Rio Grande do Norte que não fica muito longe daqui. Se tudo ocorrer bem é de lá que devo fazer a próxima atualização com as últimas novidades, inclusive, a passagem pela capital cearense.
No mais, meus amigos, quero lembra-los que neste momento toda ajuda é mais do que bem-vinda para a sequencia da viagem. Qualquer contribuição pode ser realizada nos seguintes endereços: Vakinha online ou depósito bancário. Desde já agradeço pela compreensão.
Pode ter certeza de que cada centavo será revertido da melhor forma possível. O estilo da viagem em território nacional, como vocês observaram no diário de bordo, continua sem nenhum luxo. A parte financeira tem sido investida principalmente na alimentação e manutenção da Victoria. Aguardo a colaboração de vocês.
Grande abraço a todos. 
"Hasta la Victoria Siempre"

17/06/2013 - 344° dia - Fortaleza (Folga)

Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.

Na parte da noite fui pedalar pela cidade na companhia do Daniel e da Raquel. Nos juntamos a um dos vários grupos ciclisticos que realizam passeios pela capital. Esses encontros reúnem dezenas e dezenas de ciclistas. Hoje, por exemplo, certamente tinha mais de cem ciclistas que são acompanhados por um carro de apoio e também pela presença de "batedores" de bicicleta que ajudam a controlar o trânsito para a passagem do pessoal. Ver a quantidade de pessoas reunidas simplesmente foi emocionante. Viva a bicicleta!

É simplesmente emocionante ver toda essa gente reunida.
Uma das paradas no sinal de trânsito. Daniel à esquerda.
Registro garantido.
Valeu pela companhia, casal.
O trajeto do passeio teve aproximadamente 30 quilômetros onde foi possível conhecer um pouco melhor a capital cearense que é sem dúvida a mais moderna (em território nacional) visitada nesta expedição. Entre outros lugares, o pedal passou na frente do estádio Castelão que daqui dois dias recebe o jogo da seleção brasileira pela Copa das Confederações. No local muitas pessoas estavam envolvidas para o acontecimento da partida.

Na frente do Castelão.

18/06/2013 - 345° dia - Fortaleza (Folga)

Finalmente dia de realizar a atualização do site.

Tenham uma boa leitura do diário de bordo e não esqueçam de deixar seus comentários que são sempre muito bem-vindos.

Grande abraço.

Hasta luego!
19/06/2013 - 346° dia - Fortaleza (Folga)
As encantadoras surpresas de Fortaleza.
Para minha felicidade, a cada dia a expedição – e todos aqueles que estão envolvidos – consegue me presentear com momentos simplesmente mágicos e inesquecíveis. Hoje certamente foi mais um deles.
Na verdade, os espetáculos presenciados na capital cearense começaram a ser literalmente assistidos desde a noite de ontem, quando, em companhia do casal Daniel e Raquel, fui à região mais famosa de Fortaleza; a Beira-Mar. A pretensão dos anfitriões era me apresentar a movimentada noite do local que conta com inúmeros hotéis, restaurantes e barracas que oferecem desde comidas típicas à artesanatos regionais encontrados em uma conhecida feira do calçadão. Tudo às margens do imenso oceano atlântico.

Beira-Mar de Fortaleza
Beira-Mar de Fortaleza
A homenagem à Iracema e Martim, personagens do romance de José de Alencar, natural de Fortaleza.
Aprenda Iracema, é assim .. a la Usain Bolt, ou quase isso, rs.
Anfiteatro Flávio Ponte
Praça dos Estressados na Beira-Mar.
Calçadão
Barraca especializada em produtos de Caju.
Livraria espirita itinerante.
In foco.
Aproveitamos a calmaria do horário e caminhamos tranquilamente pela orla sem deixar de registrar o passeio. Caminhar significa gastar calorias e que, na medida do possível, devem ser recuperadas. Por isso não hesitamos em parar e atender as necessidades vitais do nosso organismo. (Risada Sacana).
Nossa parada na intenção de restabelecer as energias não foi em qualquer lugar, aconteceu justamente no “tabuleiro da baiana” que oferece o melhor acarajé de Fortaleza;  Acarajé da Tia Lucia. Os anfitriões tinham conhecimento que eu ainda não havia degustado a iguaria e por isso fizeram questão de me levar ao local para provar a “especialidade gastronômica da culinária afro-brasileira feita de massa de feijão-fradinho, cebola e sal, frita em azeite-de-dendê. O acarajé pode ser servido com pimenta, camarão seco, vatapá, caruru.”
Os componentes do acarajé são típicos da cozinha baiana onde é muito mais conhecido e, consequentemente. apreciado, contudo, isso não significa que sua presença esteja limitada ao estado da Bahia, muito pelo contrário, hoje em dia pode ser encontrado Brasil afora. Aqui em Fortaleza eu tive a oportunidade de comê-lo e entender porque é muito conhecido. Não sei se a senhora responsável por essa delícia é procedente da Bahia, mas estava caracterizada como uma típica baiana. Destaque para sua simpatia e atenção com seus clientes. Em nenhum momento se importou que registrássemos seu tabuleiro (recipiente utilizado para expor os alimentos).

Responsável pelo saboroso acarajé.
No tabuleiro da baiana. Acarajé da Tia Lucia.
Vai um acarajé?
O acarajé é muito bom e a soma dos ingredientes proporciona um sabor peculiar que pode ser acrescentado de pimenta a gosto. Para provar a especialidade em sua totalidade, fiz meu pedido com somente um pouco de pimenta. Mas o pouco desse povo aqui significa muito. E o resultado foi apenas um; fogo saindo pela boca. (Risada Sacana). Só uma água de coco gelada para voltar à normalidade. Mas esse é apenas um detalhe que não tira a preciosidade do acarajé que certamente será pedido em outras oportunidades. O preço? Os anfitriões não me deixaram saber. Foram eles que pagaram a conta. Mais uma cortesia. Muito obrigado meus amigos.

Quer mais um pouco?
Camarada Daniel.
Anfitriões.
E teve gente que não se contentou somente com o acarajé. Não é verdade Raquel? (Risada sacana)
O calçadão da Beira-Mar não estava cheio e talvez o horário tenha sido o principal responsável pela tranquilidade. Afinal já se aproximava das 22 horas de uma segunda-feira. Mas ainda assim foi possível presenciar muitos turistas que provavelmente estivessem a passear com a mesma pretensão que a minha; conhecer a cidade que é um dos destinos mais procurados no país, sobretudo, por causa de suas praias. Porém, dessa vez a movimentação na capital também se justifica pelo jogo da seleção brasileira que acontece no dia 19 de junho. A partida é válida pela Copa das Confederações e ocorre no estádio do Castelão.
Em função do horário não foi possível ver a imensidão e beleza do mar, mas outra atração se fez presente e que de modo surpreendente me fascinou pela grandiosidade e forma como foi apresentada. Refiro-me à festa junina de São João. Sim, para a minha felicidade, cheguei ao nordeste na época que concentra uma das festividades mais conhecidas e populares da região.

Festa junina de São João.
A apresentação fazia parte do Circuito de Quadrilhas Juninas promovido pelo SESC. Tivemos a oportunidade de acompanhar duas quadrilhas que proporcionaram um momento mágico. Eu simplesmente fiquei emocionando em presenciar uma das expressões da cultura popular mais fantástica dessa viagem. Algo com essa magnitude foi verificado somente nas festividades da Bolívia.

Uma pequena parte dos participantes da festa junina antes de começarem a apresentação.
Vai começar o espetáculo. 
A festa junina do nordeste é extremamente mais bem realizada do que em outras partes do Brasil. Não estou desqualificando as quadrilhas das outras regiões, mas aqui tem algo diferente que dá um brilho maior à festa. A começar pela importância atribuída ao evento que é executado com alegria pelos participantes e recebido com entusiasmo e admiração pela população que acompanha o ritmo das músicas (ao vivo) através das danças dos pares que caprichosamente demonstram muito ensaio para realizarem a exibição que é assistida também por jurados que definem a melhor quadrilha.

Legitima festa junina.
As quadrilhas se apresentavam em uma quadra de esportes em que as arquibancadas estavam lotadas. Nós e muitas outras pessoas acompanhávamos de um lugar não muito privilegiado na parte de trás da quadra e por isso o registro não ficou com a qualidade que merecia, mas ainda assim foi possível clicar toda aquela beleza das roupas e os passos em sincronia entre as dezenas de pares que fazem um verdadeiro espetáculo. Lindo demais.

Simplesmente mágico.
Tradicional casamento.
Festa junina de São João.
Festa junina de São João.
Festa junina de São João.
Festa junina de São João.
Festa junina de São João.
A segunda quadrilha em uma apresentação diferente fez parecer que estávamos diante de uma peça de teatro.
Além de tudo com um verdadeiro show de iluminação.
Casamento..
Sotaque e expressões locais. Risada garantida.
Festa junina de São João.
Festa junina de São João.
Festa junina de São João.
Sincronia dos passos..
Alegria..
Muito ensaio..
Muita gente reunida para acompanhar.
Ainda na limpa e agradável Beira-Mar também visitamos o Jardim Japonês, um lugar bacana que se assemelha a uma simpática praça. A localização permite uma vista privilegiada da avenida. No momento também possibilitou um ângulo diferente para acompanharmos a festa junina, que sem dúvida foi a maior surpresa da noite.

Jardim japonês.
Presença garantida no Jardim Japonês.
Jardim Japonês.
In foco.
Avenida Beira-Mar
Isso tudo mencionado acima foi na noite de ontem, após a atualização da última postagem do diário de bordo. Mas as surpresas não pararam e hoje o dia foi ainda mais movimentado, porém não menos interessante.
Hoje acordei cedo mais uma vez, mas não foi para retornar à estrada e seguir viagem. Tinha uma entrevista marcada para o jornal Diário do Nordeste, um dos mais importantes da capital cearense. O contato com a mídia impressa aconteceu por meio do Fernando que estava junto com o Daniel na minha chegada à cidade. O local escolhido para falar a respeito da expedição foi a loja Savana Bike Shop que é onde o anfitrião Daniel trabalha.
A Savana Bike Shop fica próxima à Beira-Mar e por isso aproveitamos para passar pela famosa avenida antes de seguirmos ao local combinado com o pessoal do jornal. Sem dúvida a orla fica ainda mais bonita na parte da manhã, sobretudo, pela visualização das cores deslumbrantes do mar.

Avenida Beira-Mar
Registro garantido com a Victoria na Beira-Mar de Fortaleza.
Fortaleza tem um litoral de 34 quilômetros distribuídos em 15 praias, as mais conhecidas são Iracema e Futuro, a primeira fica localizada na região da Beira-Mar e foi parcialmente visualizada durante o pedal. Se por um lado a avenida concentra os imóveis mais caros da cidade e tem toda uma estrutura para receber os turistas, por outro peca lamentavelmente por não ter uma ciclovia que permita o tráfego de ciclistas pela região. Não é nada interessante disputar espaço com pedestre na calçada ou pedalar na contramão. Pelo que o Fernando me disse, existe um projeto de revitalização que será executado em breve e que prevê a construção de ciclovias. Espero que realmente isso se concretize.
Por volta das 9h30m chegamos à Savana e minutos depois o jornalista e fotógrafo do jornal compareceram ao local e começaram a entrevista que durou aproximadamente 30-45 minutos. A conversa foi toda gravada e anotações eram escritas para não deixar nenhuma informação passar despercebida ou equivocada na matéria finalizada e impressa. Certamente não consegui mencionar toda a viagem, mas acho que os fragmentos colocados foram importantes para ter uma pequena idéia do que é uma viagem de bicicleta e, sobretudo, o que ela proporciona. O jornal com a entrevista deve sair nos próximos dias. Ficarei na espera.

Entrevista para o jornal Diário do Nordeste.

Entrevista para o jornal Diário do Nordeste.
Victoria para mais uma entrevista.
Na lente do jornal Diário do Nordeste.
Na lente do jornal Diário do Nordeste.
Como o Daniel ficou no trabalho, Fernando se dispôs a me apresentar um pouco melhor a cidade. O passeio aconteceu de carro porque a Victoria permaneceu na Savana que se prontificou a fazer uma revisão sem custo. Uma avaliação na minha companheira mostrou que terei que realizar a troca do grupo Shimano Alivio, como eu suspeitava. Não posso reclamar, desta vez a coroa aguentou 16 mil quilômetros, catraca e corrente 9 mil quilômetros. A loja vai realizar um desconto nas peças repostas e isso sem dúvida vai tornar a conta mais barata. Certamente que é um investimento que precisa ser realizado, mas sinceramente esse não era o momento para gastar minhas últimas economias. Mas com pensamento positivo e muita fé, vai dar tudo certo na sequencia da viagem.
Nossa primeira visita foi à linda Praia de Iracema em sua totalidade. O nome da praia é originário da personagem homônima do romance de José de Alencar e que a maioria deve ter lido na escola. O local é um dos mais conhecidos de Fortaleza. O mar é calmo, verde e muito bonito. Sem dúvida seria o local perfeito para um mergulho, contudo, a água é imprópria para banho. Mas engana-se quem pensa que isso afasta os banhistas. Eles estavam presentes por todos os lados e não pareciam se importar com a condição apresentada.

Praia de Iracema
Banhistas na Praia de Iracema
Banhistas na Praia de Iracema
Aqui em Fortaleza existe o chamado espigão; dique marginal que corta e desvia uma corrente. Na Praia de Iracema essa construção busca evitar um maior impacto do mar sobre a faixa de areia e o calçadão. Ele possibilita uma caminhada para “dentro” do mar. Esta área foi a única que apresentou, naquele momento, algumas pequenas ondas que transformou o local no pico dos surfistas, sobretudo, de bodyboard que se arriscavam em pegar uma wave numa área repleta de pedras.

Espigão.
Surfistas
Tribo dos surfistas, tudo gente fina.
Bodyboard na veia.
Pescadores no Espigão.
Pescador com arpão.
Praia Mansa vista do Espigão.
Praia Mansa in foco.
Mara Hope, navio petroleiro espanhol que está encalhado há quase trinta anos na costa de Fortaleza.
Mara Hope, navio petroleiro espanhol que está encalhado há quase trinta anos na costa de Fortaleza.
Viva a liberdade!
Fortaleza
Yo!
Pescadores
Acrobacias no céu de Fortaleza.
Todo esse ambiente praiano me fascina e deixa com saudade da época que morava em Florianópolis. É simplesmente impossível ser apaixonado pelo mar e não ter a vontade de poder desfrutar de sua agradável companhia. Eu ainda voltarei a morar em alguma parte desse nosso imenso litoral, podem escrever.
Encontramos muitos turistas no espigão, inclusive, estrangeiros de várias nacionalidades, entre eles, mexicanos que certamente vieram assistir o jogo contra o Brasil. Apesar da temperatura elevada, a maioria dos visitantes demonstrava gostar de toda aquela natureza. E realmente é muito difícil ficar indiferente a um cenário paradisíaco como aquele.

"Invasão" mexicana.
Ainda da área do espigão foi possível visualizar o hotel em que a seleção brasileira estava hospedada e também a catedral metropolitana. Mas o que realmente chamou a atenção foi a jangada ao lado da entrada do molhe. A pequena embarcação é muito utilizada pelos pescadores locais que aproveitam o vento para se deslocarem mar adentro. O proprietário daquela jangada presente na areia nos deu uma aula sobre os materiais utilizados para a construção da embarcação e também sobre a vida de pescador/janguadeiro. Tudo muito interessante.

Hotel em que a seleção ficou hospedado.
Catedral Metropolitana.
Jangada em um cenário paradisíaco. 
In foco.
Jangada na companhia das bicicletas. Registro perfeito.
In foco.
Com o proprietário da jangada, Marcelo.
Na sequencia voltamos para a Beira-Mar e pelo calçadão da Praia de Iracema continuamos a caminhada por uma área que estava caprichosamente preparada para receber outras festas juninas. A decoração estava muito bonita de ser observada e registrada, claro. O espetáculo das quadrilhas certamente vai encantar, mais uma vez, o público que comparecer ao local.

Fortaleza Junina
Presente na Fortaleza Junina
Fortaleza Junina
Fortaleza Junina
Fortaleza Junina
O famoso Pirata Bar. Vale o registro pela decoração.
No caminho de volta à região do espigão, onde o carro estava estacionado, também foi possível observar e registrar um pouco da arquitetura dos poucos prédios antigos ainda restantes na cidade que está cada vez mais moderna.

Estoril: Aqui funcionava um cassino para oficiais norte-americanos na Segunda Guerra Mundial.
Estoril de outro ângulo.
Arquitetura paisagista
Estilo das antigas casas. Destaque para a forma peculiar do telhado.
Ainda bem que as poucas construções antigas estão conservadas.
Deixamos a Beira-Mar e seguimos em direção à Praia da Barra do Ceará, local histórico que “faz o limite de Fortaleza com a cidade de Caucaia localizada ao norte. Tem esse nome por ser a foz do rio Ceará. O local tem muita importância para a história da cidade porque foi o primeiro lugar onde o açoriano Pero Coelho de Sousa fez uma incursão em 1603, construindo o Fortim São Tiago.” A beleza dessa área é simplesmente encantadora, principalmente por ser encontro entre rio e mar que, na maioria das vezes, é muito interessante.

Barra do Ceará
Barra do Ceará.
Barra do Ceará.
Na foz do Rio Ceará.
No caminho da Barra do Ceará para o centro é comum encontrar muitas favelas. E elas não estão distribuídas apenas nesta região da cidade. Entre os mais de 2,5 milhões de habitantes, pelo menos um terço vive nas favelas que são facilmente visualizadas por toda a área urbana. E não é difícil entender o motivo de tantas pessoas morando em situações precárias.
A cidade mais populosa do Ceará (quinta do Brasil) recebe inúmeros imigrantes oriundos do interior do Estado onde a seca é cada vez mais implacável. Essas pessoas que realizam o conhecido êxodo rural acabam por encontrar uma cidade que não consegue proporcionar condições dignas de moradia, trabalho e educação, problemas sociais de responsabilidade governamental que também se espalham por tantas outras cidades brasileiras. Sem opção eles (retirantes) acabam por aumentar o número de favelas.
Fortaleza é realmente uma cidade muito bonita, moderna e interessante. Tem muito mais para apresentar do que somente as belezas naturais; museus, parques, teatros, e etc. Talvez o PIB da cidade, que é o maior do nordeste, permita uma infraestrutura aparentemente melhor do que aquelas das grandes cidades que visitei em território brasileiro nesta viagem, contudo, não posso deixar de mencionar essas questões sociais que também fazem parte do cotidiano da cidade e que necessariamente deve ser considerado pelas autoridades ditas responsáveis.
Hoje é feriado na cidade em razão do jogo do Brasil. Acontece que o fato proporcionou uma cena que raramente ocorre; centro vazio. Ocasião perfeita para quem deseja conhecer e passear pelas ruas, avenidas e praças com mais calma.

Avenida do centro
Catedral Metropolitana ao fundo.
Catedral
Praça Luíza Távora
Praça Luíza Távora
Praça Luíza Távora. Em destaque um vagão de trem histórico. De origem belga, operava  entre as regiões norte e sul do  Estado. Entre seus ilustres passageiros; Padre Cícero e Getúlio Vargas.
Praça Luíza Távora
Mausoléu do ex-presidente Castelo Branco, natural de Fortaleza.
Arte nas ruas.
Nossa passagem pela região central também consistiu em conhecer o modesto, porém agradável e histórico Passeio Público que “é um dos patrimônios culturais e paisagísticos da cidade, praça onde foram fuzilados os revolucionários cearenses da Confederação do Equador.” Não muito longe deste local está localizada a Catedral Metropolitana que impressiona pelo tamanho.

Árvore Baobá de origem africana. Aqui foram executados os revolucionários.
Passeio Público.
Passeio Público. Antigamente os pobres ficavam à esquerda e os ricos à direita.
Passeio Público.
Flagrante da Lavadeira ou Noivinha.
Não sei qual o nome, mas gostei do clique.
In foco.
A hora do almoçou chegou e o camarada Fernando me convidou para fazer a refeição em um restaurante próximo de onde estávamos. Mais uma vez a carne de sol foi a preferência, contudo, preparada exclusivamente na chapa. Para acompanhar; baião-de-dois com queijo e macaxeira frita. Que delícia. Obrigado pela cortesia, Fernando.

Hora do almoço na companhia do camarada Fernando.
Iago, filho do Fernando, apareceu no almoço para trocar algumas idéias.
Após o almoço o passeio continuou e novamente voltamos à Beira-Mar para prosseguirmos para a Volta da Jurema – onde muitas embarcações ficam ancoradas – e consequentemente à Praia do Futuro, a preferida por moradores e turistas para um mergulho no mar que é um pouco mais agitado do que na área de Iracema. A presença de ondas também é convidativa para a prática de surf. Como estava sem roupa apropriada e prancha, fiquei apenas na vontade.

Em direção à Beira-Mar.
Embarcações na região da Volta da Jurema.
In foco.
Praia da Volta da Jurema.
Reparo em pequenas embarcações na Volta da Jurema.
Praia do Futuro
Praia do Futuro
Praia do Futuro
Praia do Futuro
Um registro também em uma das praias mais famosas da capital.
Fabi, cade você?
...
Foz do Rio Cocó
Foz do Rio Cocó
Uma das características marcantes da Praia do Futuro são as inúmeras barracas à beira da praia. E não me refiro às barracas de bebidas, alimentos ou coisa parecida. Trata-se de construções puramente comerciais que muito bem poderiam ser chamadas de restaurantes, bares, e etc. A irregularidade (praticamente dentro da água) em que muitas se encontram fez com que novas construções fossem embargadas e outras simplesmente abandonadas. Situação que deixa a praia com um ar meio estranho e que, às vezes, compromete a beleza natural ainda existente, apesar dos pesares.
Por volta das 16 horas eu estava de volta à casa do Daniel. Camarada Fernando, muito obrigado pela gentileza de me apresentar a cidade. Valeu mesmo pela companhia.

20/06/2013 - 347° dia - Fortaleza (Folga)

Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.

Como mencionei na postagem anterior, tinha a pretensão de atualizar o site somente em Natal, contudo, achei melhor escrever e já disponibilizar o material sobre a minha passagem por Fortaleza, assim, terei menos tarefa para fazer quando chegar à capital do Rio Grande do Norte no final deste mês. 

21/06/2013 - 348° dia - Fortaleza (Folga)

Dia dedicado exclusivamente ao descanso. Sem passeios, atualizações, pedaladas ou qualquer outra coisa. Hoje o descanso merecido prevalece. 

Abraço a todos.

Hasta luego!