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domingo, 28 de julho de 2013

Brasil VI

12/07/2013 - 369° dia - Recife (Folga)
Reencontro com o grande amigo Aramis Junior.
Há poucos dias o camarada Aramis, que me acompanhou na Expedição do Atlântico ao Pacífico em 2007/2008, comentou em uma rede social sobre a possibilidade de pegar um voo (Curitiba) para o Nordeste e pedalar pela região onde, muito provavelmente, me encontraria. Aproveitou a ocasião e deixou um convite aberto para outros amigos também realizarem o pedal. Não faltaram interessados, contudo, diversos fatores impediram a confirmação dos demais cicloturistas.
Aramis, que atualmente mora em Paranaguá, também esteve presente na viagem realizada entre Curitiba e o Rio de Janeiro em 2009, quando pedalamos juntos pela última vez. Naquela ocasião ele concluiu a expedição em Salvador na Bahia.
Para quem acompanha o diário de bordo desde as primeiras viagens deve se lembrar do companheirismo do Aramis nas expedições que realizamos juntos, sobretudo, naquela para o Chile, quando passei a chama-lo de “referencial” porque comecei a pedalar no mesmo ritmo que ele para não terminar, sozinho, a viagem ao exterior.
O camarada paranaense, que é professor de matemática, tem o privilégio de ter duas férias por ano. Nos últimos tempos têm aproveitado elas para pedalar por diversos lugares, inclusive, foi recentemente para a Europa conhecer o velho continente. Suas aventuras podem ser visualizadas no site: http://pedalandosemfronteiras.blogspot.com.br. E toda essa bagagem, adquirida em cada viagem, vai ficar ainda mais pesada, porque agora mais um trecho do nordeste está prestes a entrar no currículo. Aramis decidiu fazer Natal x Salvador.
Quando soube sobre o trajeto definido pelo Aramis, eu estava há pouco tempo em Recife. Assim, tudo indicava que nos encontraríamos em alguma parte do litoral sul de Pernambuco, entretanto, com a minha permanência maior na capital pernambucana, foi com surpresa que hoje recebi uma mensagem do amigo paranaense dizendo que já estava Olinda.
Comuniquei ao João Almeida sobre a chegada do Aramis e o anfitrião não hesitou em também recebê-lo em sua casa, esta, por sua vez, foi encontrada sem dificuldades pelo Aramis que por volta das 15 horas estava na porta da residência pedindo pão seco. (Risada Sacana).
O hóspede mais recente também foi muito bem recebido pela família do João Almeida, contudo, o anfitrião foi encontra-lo somente no período da noite, após chegar do trabalho. Na sequencia saímos para aproveitar o momento histórico e paramos em uma pizzaria onde os três ciclistas não pensaram duas vezes para devorar a especialidade da casa. Nosso amigo pernambucano não nos deixou arcar com as despesas e a janta foi mais uma cortesia. Obrigado camarada.

Confraternização no último dia em Recife. Aramis, João Almeida e eu.
Na volta para casa acertamos os últimos detalhes para a partida do dia seguinte. João Almeida ficou de nos acompanhar por um trecho e depois seguiríamos em direção à Salvador. O camarada paranaense precisava chegar dia 22 de julho na capital baiana para pegar o voo de volta ao Sul, por isso, a quilometragem diária deverá aumentar. Pode ser que consiga acompanha-lo até seu destino final. Veremos.
A princípio também ficou combinado que amanhã nosso objetivo será chegar à conhecida praia de Porto de Galinhas, ainda em território pernambucano. Eu não passaria pelo local, mas o mesmo é parte do roteiro elaborado pelo Aramis que pretende fazer essa “descida” para Salvador pelo litoral.
13/07/2013 - 370° dia - Recife a Porto de Galinhas
Porto de Galinhas. Simplesmente uma das praias mais paradisíacas da América do Sul.
Acordei por volta das 4h30m para não atrasar a saída que havia sido combinada para às 6 horas da manhã. Levantei rapidamente e a primeira constatação foi que continuava chovendo e tudo indicava que não iria parar até o momento da partida. Nada melhor que voltar à estrada debaixo de muita água. Que maravilha!
Enquanto arrumávamos a bagagem, o anfitrião preparava um caprichado café da manhã aos hóspedes sulistas que rapidamente acabaram com a refeição matinal. Na sequencia registramos o início do pedal e nos direcionamos às ruas e avenidas da capital pernambucana.

Preparação para a partida. Foto: João Almeida
Registro histórico com o amigo João Almeida.
Simbora para a estrada meu irmão.
O Aramis ainda não tinha passado pela praia da Boa Viagem e por isso incluímos a mesma no roteiro para sairmos da cidade. Não demorou muito e estávamos diante do local desejado. Bastou registrar o momento e a chuva voltou a cair com mais intensidade. Seguimos pela ciclovia que apresentou alagamento em alguns pontos. Não diferente estava a Avenida Boa Viagem. Mas ainda assim avançamos sentido à PE 028.

Aramis na Praia de Boa Viagem.
Avenida Boa Viagem alagada. A ciclovia também não ficou imune a tanta água. Foto: Aramis Junior.
Para chegarmos à rodovia estadual PE 028 precisamos deixar a ciclovia da beira-mar e nos direcionamos, mais uma vez, às vias urbanas que nos levou à divisa entre Recife e Jaboatão dos Guararapes que pertence à região metropolitana. A cidade é conhecida por compreender o Morro dos Guararapes onde aconteceu ,no século XVII, a Batalha dos Guararapes, entre holandeses e portugueses que saíram vitoriosos do conflito. A história é mais complexa, mas por enquanto vale ressaltar a importância histórica do local.

Pelas ruas de Jaboatão dos Guararapes. Foto: Aramis Junior.
Em Jaboatão nos deparamos, novamente, com determinados trechos alagados e muitos buracos. Na sequencia chegamos à ponte de acesso à Reserva do Paiva no município de Cabo de Santo Agostinho. A Reserva nos proporcionou um pedal muito agradável com direito a belas paisagens e uma ciclovia que contorna as mansões que predominam na região. Talvez as construções de luxo justifiquem o investimento (público ou privado?) dos espaços reservados à bicicleta.

Ponte do Paiva, acesso para a Reserva do Paiva.
Ponte do Paiva de outro ângulo.
A ponte marca o início da ciclovia na Reserva do Paiva. Foto: João Almeida
Observando a foz do Jaboatão. Foto: João Almeida
Na ponte do Paiva sobre o Rio Jaboatão. Foto: João Almeida
Ciclistas da região que treinavam na Reserva do Paiva. Foto: João Almeida
Registro garantido dos cicloturistas.
Rio Jaboatão.
Foz do Jaboatão. Foto: Aramis Junior.
Rio Jaboatão. Foto: Aramis Junior.
Chegada à Cabo de Santo Agostinho. Foto: Aramis Junior.
Pedal tranquilo na ciclovia da Reserva do Paiva.
Passar pela Reserva do Paiva foi uma excelente sugestão do João Almeida. O lugar estava completamente tranquilo e com tráfego de veículos praticamente inexistente. O avanço aconteceu normalmente e foi interrompido apenas em razão de um furo na câmera de ar do pneu traseiro do nosso guia. A troca foi realizada na área de uma mercearia onde aproveitamos para fazer mais um lanche antes de continuar a pedalada.
O caminho ficou ainda mais surpreendente e bonito quando pedalamos em direção ao Mirante de Itapuama que nos apresentou um panorama fantástico da praia homônima e seu mar com cores intensas e ondas que permitiam a prática do surfe.

Mirante de Itapuama
Praia de Itapuama ao fundo.
Praia de Itapuama
Ondas na praia de Itapuama
Tribo dos surfistas.
Registrando o local. Foto: Aramis Junior.
Praia de Itapuama.
Adivinha de quem é a bicicleta no chão e perto dos sacos de lixo? Claro que só poderia ser do Aramis, mendigo.
Após o mirante chegamos à Praia do Xaréu onde encontramos a entrada da rodovia PE 028 que significava a despedida do nosso anfitrião. Agradecemos toda a ajuda e hospitalidade prestadas pelo João Almeida que hoje, mais uma vez, não hesitou em nos acompanhar até uma boa parte do trajeto. Abraço, amigo.

Despedida do amigo João Almeida. Até a próxima, camarada. Foto: Aramis Junior.
Havíamos sido alertados sobre os perigos da PE 028 em razão da ausência de acostamento e significativo fluxo de veículos, sobretudo, caminhões que se direcionavam à PE 060 que também estava no nosso itinerário para chegar à Porto de Galinhas. Realmente o trecho necessitou de mais atenção, todavia, com os cuidados necessários não houve incidentes e o deslocamento para a estrada desejada foi realizado normalmente.

Rodovia PE 028
Atenção redobrada pela PE 028;
Apesar de movimentada e com acostamento precário, a PE 028 é bastante arborizada.
Em direção à PE 060, sentido Porto de Galinhas.
Cabo de Santo Agostinho.
Na PE 060 tivemos uma grande surpresa, a rodovia estava duplicada e com excelente acostamento. O deslocamento também foi favorecido pelo relevo. Havia poucas subidas até as proximidades de Ipojuca onde a pista voltou a ficar simples, contudo, ainda com acostamento. A cidade pode ser desconhecida, mas Porto de Galinhas pertence à Ipojuca, todavia, a famosa praia ainda estava há alguns quilômetros.

No excelente trecho duplicado da PE 060 em direção à Porto de Galinhas.
Após Ipojuca saímos da PE 060 e começamos a pedalar pela PE 038 e PE 009. Ambas as rodovias continuaram com uma pavimentação relativamente boa, no entanto, as subidas passaram a ser mais frequentes e inclinadas. Destaque para a área destinada ao cultivo de cana-de-açúcar, presente a séculos na região.
As boas vindas de uma certa rede de televisão à PE 038.
Parabéns ao artista. Mentirosa!
Poucos quilômetros antes de Porto de Galinhas. Aqui o tempo ainda estava fechado.
Por volta das 13 horas chegamos ao perímetro urbano de Porto de Galinhas onde voltamos a pedalar pelas ciclovias. A essa altura não chovia mais e as nuvens carregadas se dissiparam para ceder lugar ao céu azul e um sol que brilhava forte. Era o que precisávamos para conhecer ainda melhor a badalada praia pernambucana.
Porto de Galinhas nada tem a ver com a criação de aves. Existem duas hipóteses relacionadas ao nome. Uma delas estaria associada ao tráfego ilegal de escravos oriundos da África que desembarcavam no porto. Pela forma como eram alocados (escondidos nos porões e encobertos por engradados) passaram a ser denominados galinhas d’angola. A tripulação divulgava a chegada da “mercadoria” dizendo; tem galinha nova no porto.
A segunda hipótese remete a um período mais antigo, contudo, ainda relacionado aos escravos. Diz-se que desde o século XVII mapas mencionam a “Vila de Porto de Galinhas” alusivo a nativos de uma região africana, denominados “galinhas”, que desembarcaram no litoral pernambucano como escravos.
Logo na chegada à Porto de Galinhas nota-se a presença dos turistas. Muitos ônibus e veículos de passeio de outras cidades e estados estavam estacionados próximos da placa de boas vindas onde registramos a nossa passagem. No local, um “guia” nos orientou sobre pousadas mais baratas. Sabíamos que não seria uma tarefa fácil encontra-las, mas não custava tentar.

Finalmente em Porto de Galinhas. Repentinamente o tempo melhorou. Obrigado Deus.
Porto de Galinhas é um vilarejo pequeno que se transformou em prol do turismo que talvez seja a principal atividade econômica do local. São diversas hospedagens, bares, restaurantes, lojas e serviços destinados aos turistas que estão presentes em grande número pelas pequenas e agradáveis ruas. Inclusive, há uma via exclusiva (calçadão) para pedestres que garante um deslocamento mais tranquilo para observar o comércio que fica bastante movimentado, sobretudo, na alta temporada e finais de semana.
Seguíamos pelo centrinho quando fomos abordados por outro “guia” que nos sugeriu a Pousada Rosa. Ele nos garantiu que não encontraríamos preço mais baixo em Porto de Galinhas.  Antes de nos direcionarmos à hospedagem recomendada, decidimos conferir a praia com suas belezas naturais. A mesma estava a poucos metros e por isso aproveitamos para registrar o local na companhia das bicicletas.

Parte do centrinho de Porto de Galinhas.
A chegada à praia foi simplesmente inesquecível. Primeiro pela beleza do lugar; a(s) cor(es) da água é um espetáculo à parte dentro de um conjunto que inclui corais, jangadas, ondas e todo um ambiente praiano marcado por muitas pessoas que aproveitavam o final de semana para conhecer a região.

A fascinante praia de Porto de Galinhas.
Porto de Galinhas.
Mais um lugar fantástico conhecido na companhia da minha querida Victoria.
Resolvemos realizar um registro para a posteridade e seguimos pelas areias da praia para chegar o mais próximo possível das jangadas, sobretudo, daquela que tinha o nome do local estampado na vela. Seu proprietário, Messias, não se importou com a nossa presença e além de permitir o registro, nos surpreendeu dizendo que realizaria o passeio até as piscinas naturais sem custo nenhum para gente.

Registro para a posteridade.
Do sul para o nordeste.
Descobrimos que as várias jangadas atracadas na praia realizavam passeios à maior atração de Porto de Galinhas, as piscinas naturais. Elas são formadas em decorrência dos corais existentes naquela área. As piscinas ficam um pouco distante da praia e por isso muitas pessoas realizam o deslocamento até elas por meio das jangadas. Cada embarcação cobra 20 reais por pessoa. A permanência nas piscinas é de aproximadamente meia hora.

Jangadas ancoradas ao redor das piscinas naturais.
Movimento intenso nas piscinas naturais.
In foco.
O deslocamento para as piscinas naturais também pode ser realizado a pé ou a nado, mas isso vai depender do fluxo e refluxo das águas. Com a maré baixa a caminhada se torna mais fácil, inclusive, com essa mesma condição as piscinas se tornam ainda mais evidentes.
Como estávamos com as bicicletas, perguntamos ao senhor Messias se era possível deixa-las na pousada para realizar o passeio na sequencia. Ele nos disse que não teria problema, contudo, permaneceria no local até às 14 horas. Tínhamos pouco mais de 45 minutos para procurar a hospedagem, conseguir um quarto realmente barato, deixar as bicicletas em segurança, pegar a máquina fotográfica e retornar à praia.
Enquanto conversávamos com o Messias, uma surpresa incrível. Repentinamente um homem se aproxima e pergunta: Você é o Nelson Neto? Atônito, respondo positivamente e então descubro que a pessoa que me reconheceu é um leitor deste diário de bordo. Wilson Silva é de Macapá no Amapá e há um bom tempo acompanha a expedição, inclusive, havia oferecido hospitalidade se a sua cidade estivesse no roteiro.

Inesperado encontro com o leitor do diário de bordo, Wilson Silva de Macapá no Amapá.
Viver no sul do país e ser reconhecido por um morador do norte em pleno nordeste é algo simplesmente indescritível. Fiquei muito tempo pensando sobre isso depois que registrei o momento, conversei e me despedi do Wilson e sua família que passavam as férias na região. Para mim este acontecimento é resultado de um projeto que vem sendo executado com sucesso. O diário de bordo, que relata a expedição, chegou a uma propagação inimaginável graças a essa recepção e identificação das pessoas com o estilo da viagem. Atualmente o site recebe visitas de mais de 70 países e de todos os estados brasileiros. Particularmente é uma felicidade enorme poder compartilhar tudo isso com milhares de pessoas. Obrigado a todos que estão a bordo desta maravilhosa jornada.
Após o encontro inesperado nos dirigimos à pousada indicada onde, felizmente, ainda havia um quarto disponível. O dormitório saiu por 70 reais, ou seja, 35 para cada pessoa. O valor é um pouco maior do que estou acostumado a pagar, mas considerando a localização (50 metros da praia) e toda a badalação em torno de Praia de Galinhas, achamos a hospedagem uma verdadeira barbada, sobretudo, porque o café da manhã estaria disponível no dia seguinte. Maravilha.
Como o quarto era pequeno, as bicicletas precisaram ficar em uma sala. O funcionário garantiu que não havia problema com relação à segurança e por isso nem retiramos os alforjes, apenas os itens de maior valor. Na sequencia regressamos à praia para realizar o passeio de jangada, contudo, quando chegamos ao local, o Messias estava nas piscinas naturais e voltaria em cerca de 20-30 minutos.
Enquanto aguardávamos pelo Messias, fomos andar na praia que estava completamente lotada. Difícil realizar algum registro do local sem a presença de uma pessoa na fotografia. Paciência. De qualquer forma o movimento não tira a beleza do lugar. Em uma simples caminhada é possível observar corais, caranguejos, siris e peixes nas límpidas águas.

Observe a cor dessa água. Incrível.
Porto de Galinhas
Sábado agitado em Porto de Galinhas.
Tranquilidade para toda a família. 
Mais um paraíso conquistado.
Porto de Galinhas.
Praia lotada. Destaque para os corais.
Piscinas naturais de outro ângulo.
Coral
Observar e absorver, sempre. Foto: Aramis Junior.
A variação na cor da água indica a presença dos corais.
Porto de Galinhas.
Porto de Galinhas.
Privilégio para poucos.
Tráfego intenso de jangadas.
Vendedores dos mais diversos produtos na praia.
Quando notamos que a jangada do Messias retornava à praia, não pensamos duas vezes em voltar correndo para começarmos nosso passeio. O jangadeiro, mais uma vez, se mostrou prestativo e muito atencioso com a gente. A embarcação partiu com mais uma mulher e um menino. Rapidamente chegamos às piscinas naturais. O trajeto com duração de pouco mais de cinco minutos proporciona, além da experiência de navegar em uma embarcação típica, todo um visual diferente da praia. Ângulo privilegiado, sem dúvida.

Jangadas à espera de mais turistas.
Começo do nosso deslocamento para as piscinas naturais.
A visão privilegiada na frente da jangada.
É fácil identificar as piscinas naturais, a área é cercada de jangadas e, sobretudo, turistas que caminham pelas águas. Olha que coisa, estávamos na companhia de um Messias que andava sobre a água. Aqui, este fato é proporcionado pela existência dos corais e por isso é recomendado caminhar de chinelo sobre eles.

Cada vez mais próximo das piscinas naturais.
In foco.
À procura de um lugar para ancorar a embarcação sobre os corais. Foto: Aramis Junior.
Os "musculosos" prestes a mergulhar com os peixes.
Finalmente nas disputadas piscinas naturais.
Quando nos aproximamos das pessoas que já desfrutavam das piscinas, deparamos com um verdadeiro paraíso. Que natureza esplendida. A água transparente das piscinas permitia a visualização de inúmeros peixes. Com uma máscara especial cedida pelo Messias, foi possível mergulhar na companhia daqueles animais aquáticos. Simplesmente incrível. Pela primeira vez na minha vida tive a oportunidade de realizar esse tipo de mergulho. A sensação é maravilhosa, principalmente por causa da nitidez com a qual se vê os peixes a poucos centímetros de você. E eles são coloridos, algo que chama ainda mais a atenção. Talvez pelo hábito de dar-lhes comida (ração), eles não têm medo da nossa aproximação e isso torna o momento inesquecível.

Uma imagem vale mais do que mil palavras. Piscina natural em Porto de Galinhas.
Alimentando os peixes antes do mergulho. Água extremamente límpida.
In foco.
Simplesmente não tenho palavras.
In foco.
Extremamente feliz após o mergulho com peixes.
Não disse que encontramos um Messias que andava sobre as águas. Muito obrigado pela cortesia,
Retornamos e agradecemos o Messias pela cortesia. Na sequencia fomos procurar um restaurante para almoçar, afinal, já passava das 15 horas e ainda estávamos sem a refeição mais importante do dia, pelo menos para mim. Mais uma vez procuramos um lugar econômico e encontramos um restaurante com self-serice a dez reais. Estava tudo muito bom e caprichado.
Após o almoço fomos caminhar mais um pouco pelas ruas para verificar o movimento e curtir o ambiente. No final da tarde retornamos à praia e a surpresa foi ver a maré cheia cobrir boa parte da areia. A essa altura as piscinas naturais somem completamente. O que voltou a aparecer foi a chuva que nos obrigou a retornar à pousada para encerrarmos mais um dia de viagem.

Pelas vias destinadas ao pedestre em Porto de Galinhas.
In foco.
In foco.
Final de tarde..
Maré cheia.
Porto de Galinhas com a maré cheia.
Acho que está faltando alguma coisa, rs.
Foto de uma imagem aérea de Porto de Galinhas.
Centrinho
In foco.
Dia finalizado com 76,47 km em 4h47m e velocidade média de 15,9 km/h.
14/07/2013 - 371° dia - Porto de Galinhas (Pernambuco) a Maragogi (Alagoas)
Chegada à Alagoas!
Mais um dia repleto de surpresa. E hoje elas começaram cedo.
A noite na pousada foi tranquila. A chuva que começou no final da tarde de ontem continuou durante a madrugada, mas isso até então não era nenhum problema, imaginávamos. O café da manhã começaria a ser servido a partir das 7h30m e por isso não adiantava levantar muito cedo. Acho que fiquei na cama até às 6 horas e na sequencia comecei a arrumar minhas coisas.
O café da manhã estava completamente caprichado com tudo que se possa imaginar. Os “mendigos” aqui fizeram a festa. (Risada Sacana). Cada um repetiu, pelo menos, três vezes. Impossível não provar aqueles bolos, pães, frutas, sucos e demais guloseimas. Energia totalmente carregada. Alguns gramas menos magro, sem dúvida.
Uma chuva moderada ainda caia quando começamos a pedalar, isso por volta das 8h30m. Tínhamos que retornar à PE 060 para chegar ao estado de Alagoas. Se você pegar um mapa físico ou digital, notará que, aparentemente, a primeira impressão é que há necessidade de voltar pelas rodovias PE 009 e 038, contudo, existe, na continuação da PE 009, sentido à Praia de Serrambi, uma estrada que vai terminar na 060, todavia, esse trecho, nos mapas aparece sem pavimentação, porém, nos informaram que o local estava asfaltado, com exceção de três partes onde as pontes sobre os rios foram arrancadas com as chuvas, fato que impedia, temporariamente, o tráfego de veículos motorizados.
As pessoas na saída de Porto de Galinhas que nos alertaram sobre a queda das pontes disseram que talvez a passagem fosse possível de bicicleta, mas não garantiram nada. Ressaltaram que estavam avisando os motoristas que a passagem de carro não era possível. A primeira ponte, ficava a três quilômetros, portanto, caso não conseguíssemos passar, não precisaríamos voltar muito para realizar outro trajeto.
A estrada, sem denominação, começou sem muitas surpresas, a princípio apenas um e outro trecho sem asfalto e muita lama em razão da chuva, mas nada comparado com o alerta emitido pelos moradores. Seguíamos sem maiores dificuldades e debaixo de muita água, já que a chuva ficou mais intensa. Repentinamente nos deparamos com um trecho onde a lama era infinitamente maior do que aquela constatada metros atrás. Dessa vez um rio estava pelo caminho. O único detalhe é que não havia nenhum tipo de ponte, nem mesmo aquelas improvisadas com madeira. Se quiséssemos passar, seria preciso enfrentar a lama e a água.
Nos aproximamos do rio e enquanto o Aramis segurava a Victoria, fui fazer um reconhecimento da área. Não demorou muito e meu tênis estava todo com lama. Entrei no rio para saber se o mesmo era muito fundo. Em algumas partes a água chegava na canela, contudo, em outras passava do joelho, ou seja, foi preciso estudar um local exato para concluirmos a passagem. Expectativa e certa tensão no ar e também na água.

A realidade em uma viagem onde tudo pode acontecer. Foto: Aramis Junior.
Era preciso ter muito cuidado para não cair, afinal, o leito do rio estava repleto de pedras e não seria nada interessante tombar a bicicleta toda carregada. Seguíamos com cautela também para não afundar nas áreas mais barrentas. Em determinados pontos foi preciso levantar a Victoria e suas dezenas de quilos. No final, conseguimos, com sucesso, passar por esse trecho. Mas tínhamos conhecimento que mais duas "pontes" nos esperavam. Adelante.

Travessia realizada com sucesso. Foto: Aramis Junior.
Resultado da "brincadeira". Essa é a Raptor, bicicletada do Aramis. Foto: Aramis Junior.
In foco. Foto: Aramis Junior
Encontramos os dois trechos onde tinha muita água, pedra, lama e nada de ponte. O procedimento foi o mesmo, assim como o sucesso da empreitada. Também enfrentamos mais outras duas partes com muita lama, contudo, sem a presença de água. O resultado não poderia ser diferente; Victoria quase irreconhecível. Minhas pernas não ficaram muito diferentes.
Esse trecho lamentável simboliza, mais uma vez, o descaso do governo com os cidadãos. E não me refiro à importância da rota para o turismo, mas o isolamento que causa aos moradores rurais da região. É algo simplesmente vergonhoso.
Após essa parte radical da estrada a pavimentação mostrou-se razoável e o relevo com algumas subidas. Não demorou muito e chegamos a um trevo que não existia sinalização, por sorte apareceu um veículo que nos orientou a seguir pela direita porque a outra direção era sentido à Praia de Serrambi que não estava nos nossos planos.
A distância entre o trevo e a PE 060 foi aproximadamente de dez quilômetros. Na rodovia em questão a pista simples passou a apresentar um acostamento nada favorável para pedalar em direção à São José da Coroa Grande, divisa entre os estados de Pernambuco e Alagoas. O fluxo de veículos exigiu atenção redobrada para avançar sem problemas. Por volta do meio-dia chegamos à Rio Formoso, cidade conhecida por seus manguezais. No entanto, nossa parada no local aconteceu em razão do restaurante às margens da rodovia. Self-service caprichado por oito reais.


Em direção à PE 060. Foto: Aramis Junior.
Chegou a hora de voltar para a PE 060 e seguir ao litoral sul de Pernambuco.
Determinados trechos da PE 060 o acostamento é simplesmente lamentável. Foto: Aramis Junior.
Rio Formoso.
Primeira placa indicando o meu destino; Sul, contudo, sigo por outra direção.
Nossa pretensão era chegar à Maragogi em Alagoas, por isso a pausa no almoço não foi muito demorada. A divisa apareceu logo após a passagem pelo município de Barreiros. Estava mais uma vez em outro estado brasileiro, o décimo segundo desta expedição. Pela segunda vez o momento não foi registrado pela opção automática da máquina. O camarada Aramis ficou encarregado de fotografar o ingresso no Estado de Alagoas.

Divisa entre Pernambuco e Alagoas. Mais uma etapa concluída.
Alagoas é conhecido, sobretudo, por suas praias paradisíacas que estávamos prestes a visitar. Nosso roteiro no estado estava programado para passar por todo o litoral. A primeira parada: Maragogi, praticamente 20 quilômetros depois da divisa. Mas antes, ainda passaríamos pelos vilarejos de Peroba, Ponta do Mangue e Barra Grande onde conseguimos observar, pela primeira vez, entre os coqueiros, o mar esverdeado do litoral alagoano.
Em Alagoas passamos a pedalar pela rodovia estadual AL 101 que margeia todo o litoral. A estrada nos surpreendeu porque ao contrário do último trecho na PE 060, ela tem um acostamento muito bom e que permite um deslocamento seguro também para apreciar a paisagem.
No final da tarde chegamos à Maragogi que é uma das cidades praianas mais conhecidas do estado. Havíamos conseguido hospedagem com Henrique, um tio do João Almeida. Bastava seguir em direção ao endereço da pessoa responsável pela chave da residência. Mas antes resolvemos passar na praia para conferir pessoalmente suas belezas naturais. A principal atração também está relacionada às piscinas naturais, contudo, aqui elas estão mais afastadas da costa do que em Porto de Galinhas, portanto, não conseguimos avistar nada de extraordinário. Particularmente pareceu uma praia simples, contrário ao que tinha visualizado na internet.

Maragogi.
Entardecer em Maragogi.
À procura da casa de praia. Demoramos um pouco, mas encontramos não somente a residência, mas o próprio tio Henrique que estava quase retornando à Recife. Conversamos um pouco, agradecemos a hospitalidade e na sequencia fomos descansar em uma simples, porém confortável habitação. Na verdade eu ainda fui lavar a Victoria por causa da lama e toda a chuva do período da manhã que havia deixado ela toda suja. A tarefa levou um bom tempo, mas ainda assim, valeu a pena, minha companheira ficou limpíssima. Depois lavei algumas roupas, tomei um banho e fui dormir.
Dia finalizado com 93,42 km em 6h58m e velocidade média de 13,3 km/h.
15/07/2013 - 372° dia - Maragogi a Paripueira.
Dia marcado por caminhos errados e praias paradisíacas.
Mais uma noite tranquila e descanso garantido. Às 6h30m começávamos mais um dia de viagem. O tempo estava nublado e praticamente indecifrável. Não sabíamos se a chuva cairia em poucos minutos ou se o sol viria nos fazer companhia. Eu sinceramente estava na torcida para não pedalar com chuva, afinal, a Victoria estava literalmente brilhando. (Risada Sacana).
Antes de voltar para a rodovia AL 101, resolvemos regressar à praia e conferir se a paisagem estava um pouco diferente daquela presenciada no final da tarde de ontem. Não tinha mudado muito. Registramos o local e seguimos para a estrada. Vale ressaltar que Maragogi é uma cidade pequena e apesar de turística e oferecer infraestrutura para os visitantes, está longe da badalação encontrada em Porto de Galinhas, no estado vizinho. Talvez seja uma opção para quem procura um lugar mais tranquilo para descansar, contudo, não espere pela beleza encontrada na praia pernambucana.

Começo de mais um dia em Maragogi.
Tempo indecifrável em Maragogi.
In foco.
Regressamos à estrada e seguimos em direção à capital alagoana. Chegar à Maceió no final do dia dependeria de uma série de fatores, sobretudo, relacionados ao relevo. A princípio estava tudo tranquilo e a paisagem não poderia ser melhor, principalmente porque a rodovia seguia paralela ao mar.

Pedalando ao lado do mar na AL 101.
Camarada Aramis.
Primeiros raios solares. Foto: Aramis Junior.
Quando chegamos à Japaratinga pegamos um caminho errado que ao invés de seguir para Porto de Pedras nos levava à Porto Calvo. O Aramis estranhou que o mar não estava mais no nosso campo de visão e ao verificar o mapa notou que havíamos saído 3 km do roteiro programado. Voltamos à Japaratinga e nos informaram a direção correta para o local desejado. A estrada, no entanto, passou a ser de calçamento, porém, com um cenário pitoresco. A começar pela praia de Japaratinga que, sem dúvida, impressiona pelo ambiente desértico e encantador. Durante a nossa passagem, visualizamos apenas embarcações ancoradas nas proximidades da praia.

Paisagem durante o caminho errado.
A tranquila e bela praia de Japaratinga.
Click!
Jangadas presentes também no litoral de Alagoas.
O flagrante do registro. Foto: Aramis Junior.
Japaratinga: uma das maravilhas do litoral norte de Alagoas.
In foco.
In foco.
Praia de Japaratinga.
In foco.
In foco.
A estrada de calçamento nos apresentava uma paisagem fora do comum a cada quilometro. Eu passava a entender o motivo de o litoral alagoano ser reconhecido como um dos mais bonitos do Brasil. O deslocamento era mais lento em razão da pavimentação, mas longe de ser um obstáculo, a redução da velocidade nos permitia um olhar mais atento a toda aquela natureza exuberante. Somente no vilarejo de Boqueirão que a ausência do calçamento deu lugar a um trecho com lama. Passei com cuidado para não sujar a companheira Victoria. A essa altura o sol indicava que a chuva havia ficado para trás. Ainda bem.

Na direção certa para Porto de Pedras.
In foco.
Uma das estradas mais charmosas de toda a viagem.
AL 101 entre Japaratinga e Porto de Pedras. Foto: Aramis Junior.
AL 101 entre Japaratinga e Porto de Pedras. Foto: Aramis Junior.
As paradas para fotografar são inevitáveis.
Litoral norte de Alagoas.
In foco
In foco.
Trecho antes de chegar no vilarejo de Boqueirão.
Única parte do trajeto em que o calçamento é inexistente.
O caminho até Porto de Pedras é marcado também pelos pequenos vilarejos de Bitingui e Barreiras, ambos pacatos com casas simples e pequenas que deixam tudo ainda mais interessante. Para chegar à Porto de Pedras pegamos uma balsa que atravessou rapidamente o Rio Manguaba e nos deixou na outra margem. A travessia pela balsa não custa nada para ciclistas, contudo, é preciso esperar o embarque de um veículo motorizado. Como esse é o único caminho da estrada, não é difícil aparecer um carro. Esperamos menos de cinco minutos. Quem não tem paciência pode escolher um barco pequeno que cobra dois reais por pessoa. Os veículos motorizados pagam dez reais.

Balsa para atravessar o Rio Manguaba em direção à Porto de Pedras.
Rio Manguaba.
Á esquerda, a pequena embarcação que realiza a travessia por 2 reais. Ao lado, a balsa que não cobra* a passagem de ciclistas. Foto:Aramis Junior.
Foz do Manguaba.
Rio de Pedras.
Farol em Rio de Pedras.
Em Rio de Pedras paramos em uma pequena mercearia para comprar bolachas. Acabamos adquirindo alguns pães e devorando no mesmo instante. Na sequencia a pretensão era passar por Tatuamunha, São Miguel dos Milagres e Barra do Camaragibe, neste último deveríamos pegar uma balsa e seguir à Barra de Santo Antônio por uma estrada de terra. Mas a pavimentação não chegou a ser um problema porque pegamos, mais uma vez, o caminho errado. A princípio ficamos bem chateados pelo “amadorismo” em cometer novamente um erro desses, mas depois analisamos que apenas seguimos o único caminho existente e não havia placa nenhuma que apontava para esse caminho para Santo Antônio. Infelizmente descobrimos o equivoco quando estávamos em Passo de Camaragibe, 15 km distante de Barra do Camaragibe.

Pelas ruas estreitas de Rio de Pedras.
Trecho da AL 101 em Rio de Pedras. Foto: Aramis Junior.
Vilarejo entre Rio de Pedras e São Miguel dos Milagres. Foto: Aramis Junior
Trecho entre Rio de Pedras e São Miguel dos Milagres. Foto: Aramis Junior
São Miguel dos Milagres.
Igreja em São Miguel dos Milagres.
Casas em São Miguel dos Milagres.
O Aramis fez questão de sentar no trono e registrar a façanha. Por questão de ética não vou postar a foto. Sorte sua, camarada. (Risada Sacana).
Em direção à Barra do Camaragibe
Litoral após São Miguel dos Milagres.
In foco.
O caminho para Passo de Camaragibe foi com uma série de sobe e desce com uma paisagem bucólica muito bonita, no entanto, esse trajeto aumentou em 30 quilômetros a distância para Maceió. Como já estava na hora do almoço aproveitamos a passagem por Passo de Camaragibe para repor as energias. O self-service custou dez reais e a refeição não estava das melhores. E olha que não sou de reclamar. Mas, enfim, foi suficiente para matar a fome.

Paisagem bucólica durante o caminho para Passo de Camaragibe.
A nova rota para chegar à Barra de Santo Antônio consistia em passar pela cidade de São Luís do Quitunde. O trajeto foi marcado por mais subidas e descidas acentuadas. A paisagem continuou com pastagens e plantações de cana-de-açúcar.
Na entrada de Barra de Santo Antônio tentamos obter informações sobre a entrada da estrada de terra que não encontramos em Barra de Camaragibe, mas ninguém soube dar maiores detalhes e por isso não posso dizer se esse caminho existe e/ou se as balsas ainda funcionam. Se por acaso, alguém tenha percorrido esse trajeto e tem notícias sobre ele, por favor, deixe-nos um comentário para que interessados possam estar atualizados.
Pouco depois de Barra de Santo Antônio voltamos a visualizar o mar esverdeado. Muitos condomínios fechados se destacam às margens da rodovia, que por sua vez, fica mais movimentada, contudo, o acostamento em boas condições e o relevo nos permitiu chegar rapidamente em Paripueira, onde nos dirigimos ao centro para procurar hospedagens mais econômicas. Fomos informados de que a pousada mais barata estava na AL 101, ainda no perímetro urbano de Paripueira. Antes de retornarmos à estrada, resolvemos passar na praia que estava próxima. A mesma é muito parecida com Maragogi.

Praia de Paripueira
In foco.
A pousada indicada chamava Pantanal, cujo valor do pernoite era de 30 reais, ou seja, cada um teve que desembolsar apenas 15 reais. Essa é mais uma vantagem de viajar com companhia. Nestes casos, geralmente o preço é cobrado pelo quarto e não por pessoa. As habitações da pousada eram simples, porém limpas, com ventilador e televisão. Recomendo.
Devidamente alojados, nos dirigimos a um mercado nas proximidades da pousada para garantir a janta e o café da manhã do dia seguinte. Na sequencia retornamos ao local de descanso para finalizar mais um dia.
Dia finalizado com 116,21 km em 8h09m e velocidade média de 14,0 km/h.
16/07/2013 - 373° dia - Paripueira a Lagoa do Pau
Passagem pela capital alagoana.
Após uma noite tranquila, estava na hora de voltar à estrada e seguir em direção à divisa com o estado de Sergipe, mas não sem antes passar por Maceió, um dos destinos turísticos mais cobiçados do litoral nordestino.
A saída de Paripueira aconteceu novamente às 6h30m. Com o tempo aberto começamos o pedal sentido aos povoados de Saúde, Riacho Doce e Garça Torta, ambos beira-mar, privilégio para seus poucos moradores que podem contemplar diariamente toda a natureza que o local oferece.

Praia nas proximidades do vilarejo de Garça Torta.
In foco.
In foco.
Como estávamos próximos da capital, não demorou muito para chegarmos ao seu perímetro urbano caótico. A entrada em Maceió pela AL 101 é sem dúvida uma alternativa que está longe de ser a melhor. O trecho é marcado por um tráfego intenso de veículos, pavimentação precária com inúmeros buracos e um saneamento básico que parece não existir, já que é possível verificar o esgoto a céu aberto que sai das casas à beira da rodovia e invade a mesma, deixando a situação muito desagradável. Nós ainda estávamos apenas de passagem, mas imagina enfrentar aquela realidade cotidianamente?
Ainda nesta entrada da cidade encontramos uma placa que direcionava para a orla. Aramis confirmou o caminho e não hesitamos em seguir por ele. Deixamos o trânsito pesado para trás e rapidamente estávamos diante de uma das praias mais bonitas de Maceió: Jatiúca. Claro que não deixamos de registra-la.

Praia de Jatiúca. Finalmente na capital alagoana.
Chegada à Maceió.
Praia de Jatiúca. Foto: Aramis Junior.
Não demorou muito e começamos a pedalar em uma ciclovia na beira-mar. O espaço favoreceu uma segurança melhor não apenas no deslocamento, mas também para deixar gravado cada trecho da praia que naquele momento apresentava um mar azul e calmo com poucas ondas, perfeito para um mergulho tranquilo. Não à toa famílias já se encontravam no local. Muito provavelmente turistas de outras regiões.

Ciclovia na Praia de Jatiúca.
Tranquilidade e segurança para observar o belo litoral da capital.
Ciclovia com localização privilegiada.
Pedalando pela orla de Maceió. Foto: Aramis Junior.
Aramis.
A orla de Maceió sem dúvidas é muito bonita, entre as capitais nordestinas é uma das mais agradáveis. Pela ciclovia seguimos em direção ao litoral sul, mas especificadamente para a Praia do Francês no município de Marechal Deodoro. Mas, ainda em Maceió, passamos pela famosa Praia da Ponta Verde, onde o nome é alusivo à cor da água. A calmaria consegue ser maior do que em Jatiúca. A movimentação, no entanto, estava relacionada às embarcações ancoradas, sobretudo, jangadas.

Praia de Ponta Verde
Ponta Verde
Ponta Verde.
Típicas embarcações na Ponta Verde
Jangadas
Com toda essa beleza pelo caminho e uma ciclovia que garantia nossa segurança, rapidamente passamos por essa extensão da orla que deve ter aproximadamente dez quilômetros. O tempo incrivelmente passou sem que percebêssemos. Na sequencia estávamos na praia de Jaraguá que concentra uma favela no local, que por sua vez, fica próxima da região portuária. Não tivemos nenhum problema e particularmente não senti nenhuma insegurança no momento.
Na Avenida Assis Chateaubriand a ciclovia não permaneceu por muito tempo e novamente dividimos espaço com os veículos. O trânsito é típico de capital e por isso todo cuidado é pouco. No dia anterior um jovem ciclista em treinamento foi atropelado e morto por um ônibus, cujo motorista alegou não ter visualizado o rapaz ao fazer uma curva. Soubemos da notícia na noite passada através de um telejornal.
Antes de sairmos da Chateaubriand paramos em uma barraca que tinha caldo de cana. Havia alguns dias que eu estava querendo repor as energias com essa bebida. Aproveitei para, também, comer um salgado. Tudo para não perder mais peso. Posso até não recuperar os quilos perdidos, mas não vou deixar nenhum grama se despedir facilmente.
De volta ao pedal, ainda registramos o Pontal da Barra antes de retornar à AL 101 que passou a ser duplicada, excelente para aumentar o ritmo do pedal. Quando escrevo isso, leia-se 2 a 3 km/h a mais. (Risada Sacana). Aproximadamente vinte quilômetros depois estávamos no cruzamento que dá acesso à também conhecida Praia do Francês. O Aramis sugeriu conhece-la já que não ficava muito distante, cerca de 2-3 km da rodovia.

AL 101, duplicada e com acostamento.
Anote aí. Praia do Francês, a melhor praia de Alagoas. Pelo menos é a minha humilde opinião. O lugar é simplesmente completo e satisfaz todos os gostos. A começar pelo mar que tem áreas com ondas para a alegria dos surfistas que, por sinal, eram muitos naquele momento; áreas com piscinas naturais, perfeitas para famílias; areia branca e fofa; e toda a estrutura necessária para descansar alguns dias e aproveitar essa magnifica natureza. Recomendo.

Praia do Francês, a melhor de Alagoas.
Praia do Francês.
Ótimas ondas
Praia do Francês.
Yo!
Após os devidos registros na Praia do Francês, retornamos à rodovia e paramos em Barra de São Miguel para almoçar. A refeição estava muito cara e o local quase foi descartado, afinal, o buffet saia por 20 reais e o prejuízo pela opção por quilo também seria enorme. Mas a funcionária surgiu com uma terceira alternativa; prato feito (preparado pela gente) por 15 reais. Com um cardápio sofisticado meu prato ficou mais do que caprichado. Almoço estava simplesmente uma delícia. Valeu cada centavo investido.
Depois do almoço a temperatura alta voltou a fazer companhia e o pedal começou a ficar em um ritmo mais lento também por causa das subidas que se tornaram mais acentuadas na chegada ao Mirante da Praia do Gunga. O camarada Guylherme de Aracaju havia recomendado, através de um comentário aqui no diário de bordo, uma parada no local, pois o mesmo possibilitava um panorama interessante da praia. Vale ressaltar que um pouco antes da Praia do Gunga a AL 101 passa a ser simples com a pavimentação longe de ser comparada com aquela do trecho anterior.

No topo de mais uma subida. Barra de São Miguel ao fundo.
Descida antes da ponte sobre a Lagoa do Roteiro.
A subida ao mirante custou dois reais, mas ainda assim valeu a pena. Do alto é possível ter uma vista privilegiada não somente da praia, mas de toda a plantação de coqueiros que se estende por uma enorme área. Recomendo a visita.

Praia do Gunga visualizada do Mirante.
Coqueiros não faltam por essas bandas.
Barra de São Miguel na outra margem.
In foco.
O caminho entre o Mirante do Gunga e Coruripe foi marcado por uma montanha-russa litorânea que sem dúvida nos surpreendeu. Quem estiver de passagem pelo local se prepare porque as subidas têm inclinações fortes e as descidas merecem atenção redobrada em razão dos buracos na pista.
A situação da estrada atrasou nosso avanço e logo após as 17h30m já estava tudo escuro. Sem muita opção, nossa estratégia foi continuar até Coruripe, contudo, pouco depois das 18 horas chegamos à praia denominada Lagoa do Pau. No local, surpreendentemente, encontramos uma pousada à beira da estrada onde o pernoite custava 20 reais por pessoa. Tentamos negociar, mas o preço acabou sendo este mesmo. Instalações simples, porém limpas e suficientes para um descanso tranquilo. Algo que tem sido levado em consideração para que eu possa me recuperar completamente da moléstia dos últimos dias.
Dia finalizado com 122,06 km em 8h25m e velocidade média de 14,4 km/h.
17/07/2013 - 374° dia - Lagoa do Pau (Alagoas) a Malhada dos Bois (Sergipe)
Chegada à Sergipe após a travessia histórica pelo Rio São Francisco.
Felizmente a noite foi tranquila e mais uma vez o descanso garantido. Por volta das 6h30m estávamos na estrada para pedalar o último trecho pelas estradas alagoanas. Nosso objetivo era chegar à BR 101 no Estado de Sergipe. Não seria uma tarefa fácil, mas estávamos determinados e isso é sempre um fator muito importante.
Logo após a saída da pousada fomos até à praia para registrar o local que estava deserto. Na sequencia seguimos em direção à Coruripe e Barreiras onde pegamos o acesso em direção à foz do São Francisco que faz a divisa entre os estados de Alagoas e Sergipe. Essa nova estrada não tem acostamento, contudo, o pouco tráfego de veículos ameniza a ausência de um espaço seguro para pedalar.

Lagoa do Pau
Praia de Lagoa do Pau
Trevo de acesso à Sergipe via litoral;
Prestes a conhecer o Rio São Francisco.
Aracaju e Salvador, aí vou eu.
A paisagem continuava marcada pelas plantações de cana-de-açúcar e os coqueiros que deixavam um ambiente muito agradável para pedalar. Rapidamente chegamos à Feliz Deserto e à entrada para Pontal do Peba que não foi visitado porque nosso objetivo era atravessar a divisa por volta do meio-dia.

Imagem maravilhosa da AL 101 entre Barreiras e Miaí de Cima. Foto: Aramis Junior.
Plantação não identificada à beira da estrada. Foto: Aramis Junior.
Que beleza de estrada. Foto: Aramis Junior.
AL 101 em sua parte no sul do estado. Foto: Aramis Junior
Mais um ângulo da rodovia estadual perfeita para pedalar. Foto: Aramis Junior.
Feliz Deserto.
Apesar de ter um nome estranho, Piaçabuçu é a cidade alagoana que faz divisa com Sergipe nessa região. Chegamos ao município pouco antes das 12 horas e logo fomos informados que havia mesmo embarcações que realizavam a travessia pelo Rio São Francisco. O amigo Guylherme tinha nos avisado sobre essa possibilidade, contudo, algumas pessoas pelo caminho nos disseram que isso seria possível apenas em Penedo.

Na entrada de Piaçabuçu.
Com a certeza de que a travessia poderia ser realizada em Piaçabuçu, paramos em um restaurante para almoçar. A refeição custou 8-10 reais, não me recordo direito, todavia, estava muito boa e caprichada. O cardápio não tinha nenhum prato típico, mas o importante é que ajudou a matar a fome mais uma vez.
Depois de restabelecer parte das energias, estava na hora de seguir até às margens de um dos rios mais importantes do Brasil: São Francisco. Pelas ruas históricas (D. Pedro II visitou a cidade no século XIX) da pacata Piaçabuçu chegamos ao local que haviam nos indicado. Aramis foi conversar com um pessoal para ter mais detalhes sobre a travessia e logo um senhor se dispôs a realiza-la por 3 reais cada um. Não pensamos duas vezes em aceitar o serviço porque o Guylherme, que fez o trecho recentemente, pagou 7,50 após ter um desconto de 50% na passagem.

Ruas históricas de Piaçabuçu. Foto: Aramis Junior.
Piaçabuçu. Foto: Aramis Junior.
Piaçabuçu a última cidade alagoana do nosso trajeto.
Piaçabuçu recebeu o Imperador D. Pedro II em uma expedição que ele realizava pelo Rio São Francisco.
Caminhos do Imperador.
Mais um encontro histórico: Rio São Francisco.
Às margens do "Velho Chico", uma honra.
Rio São Francisco.
Antes do embarque para a travessia do São Francisco. 
A embarcação era pequena, mas ainda assim tinha espaço para transportar as bicicletas. Carrega-las ao interior do barco não foi fácil, sobretudo, em razão do peso, mas no final ocorreu tudo bem. Outra passageira embarcou e em poucos minutos estávamos navegando pelo Velho Chico, como também é conhecido o São Francisco.

Cuidando das "magrelas" para começar a travessia para o Estado de Sergipe. Foto: Aramis Junior.
Navegando pelo São Francisco.
Piaçabuçu e o Estado de Alagoas ficam para trás.
Piaçabuçu - Alagoas
Pelas margens sergipanas do Rio São Francisco.
A travessia teve duração aproximada de 15-20 minutos e, sem nenhum problema, desembarcamos na cidade de Brejo Grande no estado sergipano, o menor do Brasil. Infelizmente não tinha placa de boas vindas ao estado, mas como lembrou o Aramis, o Rio São Francisco realizava muito bem essa tarefa.

Área portuária de Brejo Grande.
Chegada à Brejo Grande - Sergipe.
Em Brejo Alegre liguei para o Guylherme de Aracaju avisando que chegaria na cidade no dia seguinte. Ficou combinado que ele me recepcionaria em Barra dos Coqueiros, cidade vizinha da capital sergipana. O camarada me acompanharia até a casa dos anfitriões Fernando e Sandra.

Brejo Grande, território sergipano.
Brejo Grande. Foto: Aramis Junior.
Peculiaridades do município sergipano. 
Seguimos pela tranquila SE 202 em direção à BR 101. O movimento na rodovia estadual era muito baixo e por isso nosso deslocamento ocorreu sem dificuldades se considerarmos a falta do acostamento. Um pouco antes de Pacatuba apareceu o trevo para a SE 100 que é um caminho alternativo para chegar à Japaratuba. A distância se torna menor em aproximadamente 40 quilômetros, contudo, a estrada é de terra e nada recomendada para o cicloturismo, portanto, continuamos pela SE 202.

SE 202
Tranquilidade na estrada SE 202. Foto: Aramis Junior.
Da série: coisas que a gente encontra pelo caminho. Foto: Aramis Junior.
Em direção à Aracaju. Foto: Aramis Junior.
Entre Pacatuba e o trevo de acesso à Japoatã, a maior parte do caminho é marcada por subidas extremamente íngremes, todavia, para aliviar um pouco os músculos, na sequencia, uma longa reta facilita o deslocamento, momento perfeito para empregar mais velocidade e compensar o tempo gasto nos aclives. Mesmo com essa “ajuda” seria muito difícil chegar à BR 101 ainda com claridade.

Trecho plano para aliviar um pouco os músculos trabalhados nas subidas. Foto: Aramis Junior.
Após esse trecho para Japoatã a rodovia passou a ser denominada como SE 304, entretanto, o nome não foi a única coisa que mudou, o fluxo de veículos que aumentava desde Pacatuba ficou ainda maior e com um acostamento praticamente inexistente, pedalamos com muito cuidado na escuridão. Nessa hora entra a experiência de anos na estrada para não dar nenhuma margem para acontecer algum tipo de acidente, pelo menos que seja de nossa responsabilidade.

Fantástico pôr-do-sol. Foto: Aramis Junior.
Apesar da quilometragem acumulada durante o dia, o pedal noturno foi relativamente tranquilo e até mesmo rápido, isso porque passamos o tempo todo conversando. Histórias não faltam nunca. Recordamos dos vários lugares que conhecemos neste período em que nos dedicamos ao cicloturismo. É muito mais do que contabilizar carimbos no passaporte, países visitados, quilômetros pedalados, é todo um estilo de vida que se adquire com o aprendizado de todas essas viagens.
Passamos por dois vilarejos após o trevo de Japoatã, contudo, em nenhum delas havia hospedagem e a solução era mesmo continuar o pedal em direção à rodovia federal, onde nos informaram que havia um posto de combustível e provavelmente uma pousada. Seguimos confiantes.
Pouco depois das 19 horas chegamos na BR 101 e visualizamos luzes que indicavam posto de combustível tanto do lado esquerdo (sentido Aracaju) quanto no lado direito (sentido Pernambuco). Resolvemos conferir o que tinha nesta segunda opção e então os funcionários do posto nos informaram que a 500 metros à frente havia uma pousada. Dito e feito. Para a nossa felicidade poderíamos descansar tranquilamente. A diária cobrada pelo quarto e não por pessoa fez com que cada um desembolsasse 15 reais. Quarto simples com ventilador e televisão, tudo muito limpo. Mais um dia concluído com sucesso.
Dia finalizado com 130,25 km em 9h20m e velocidade média de 13,9 km/h.
18/07/2013 - 375° dia - Malhada dos Bois a Aracaju
Capital sergipana e a despedida do camarada Aramis.
Voltamos à estrada por volta das 6h30m e desta vez o tempo não estava como nos últimos dois dias e a chuva começava a cair. Antes de sair da pousada a recepcionista nos desejou boa viagem e mostrou-se bastante surpresa com a nossa “coragem” ao realizar algo deste tipo. Questionada se outros cicloturistas haviam passado pelo local, ela mencionou que em 12 anos de trabalho é a primeira vez que se depara com hóspedes como a gente. Estamos fazendo história. (Risada Sacana).
Hoje os objetivos eram diferentes, enquanto a minha pretensão era terminar o dia em Aracaju, Aramis seguiria viagem em direção à Bahia. O camarada chegou a cogitar ficar na capital sergipana, contudo, para não correr o risco de perder o avião de volta para o sul, achou melhor adiantar a viagem.
De Malhada dos Bois para Aracaju existem dois caminhos, um deles é seguir direto pela BR 101, contudo, esse trecho, segundo nos avisou Guylherme, não era recomendável em razão do enorme fluxo de veículos, ausência de acostamento e as obras de duplicação em andamento. A segunda opção seria avançar até Japaratuba e depois seguir em direção à Pirambu que fica no litoral sergipano. Achamos mais prudente seguir a sugestão do Guylherme.
O trecho entre Malhada dos Bois e o trevo de acesso à Japaratuba foi marcado por uma série de sobe e desce, muita chuva e vários trechos em obras. Em determinadas partes a pista duplicada ainda estava interditada para veículos motorizados e aproveitamos para pedalar com um pouco mais de segurança por elas, já que na pista normal a falta de acostamento nos deixava em uma situação muito critica, sobretudo, ao dividir espaço com caminhões que não reduziam a velocidade ao realizarem a ultrapassagem.
Felizmente não demoramos muito para chegar à Japaratuba. Vale a ressalva que no trevo de acesso à cidade, ainda na BR 101, existe apenas uma placa que indica a direção para Pirambu e não Japaratuba, portanto, fiquem atentos. O caminho a seguir é muito mais tranquilo.
Em Japaratuba perguntamos o caminho para o litoral e rapidamente estávamos, novamente, na estrada, enfrentando, mais uma vez, o sobe e desce que nos levou à Pirambu onde voltamos a visualizar o mar, pela primeira vez, no Sergipe. Mas a novidade não ficou restrita ao “quintal de casa” dos moradores locais. Um veículo estacionado no acostamento estava à nossa espera. Quando nos aproximamos, o motorista nos cumprimentou e disse que tinha um estabelecimento alguns quilômetros à frente onde poderíamos tomar água de coco sem nenhum custo. Agradecemos pela gentileza e combinamos de aparecer minutos depois.
Além do oceano, a passagem por Pirambu nos trouxe uma estrada muito melhor, pavimentação mais nova e com acostamento. Sem falar que o relevo favorável proporcionou um ritmo maior ao pedal, apenas o vento contra moderado impedia um deslocamento mais rápido. De qualquer forma paramos no Restaurante Tempero Caseiro (http://restaurantetemperocaseiro.com/) no povoado Canal - Barra dos Coqueiros, onde fomos muitíssimo bem recebidos pelo sábio senhor Augusto que nos ofereceu uma gelada água de coco e um doce de leite local com sabor muito peculiar. Ambos foram mais do que bem-vindos. Conversamos por alguns minutos, agradecemos a cortesia e seguimos viagem.

Pirambu; litoral sergipano.
Litoral de Sergipe.
Em direção à capital, Aracaju.
In foco.
Na estrada a surpresa ficou por conta da usina eólica com várias torres em pleno funcionamento que indicava nitidamente a presença do vento, mas este não prejudicou nosso avanço até Barra dos Coqueiros, onde parei no posto de combustível que era o ponto de referência combinado para encontrar com o Guylherme. Estava na hora de me despedir do grande amigo Aramis que mais uma vez se mostrou um verdadeiro companheiro de viagem. Ele estava com menos peso na bagagem e um ritmo melhor em toda a viagem, contudo, sempre esperou minha aproximação e evitou pedalar sozinho por muito tempo. Como disse a ele; mais uma expedição para a história. Se tudo ocorrer bem, voltamos a nos encontrar em breve no Paraná durante a confraternização do grupo Do Atlântico ao Pacífico.

Usina eólica.
In foco.
Valeu pela parceria, camarada.
O Guylherme apareceu no posto de combustível por volta das 14h30m. Conhecê-lo pessoalmente foi uma grande surpresa. O camarada tem acompanhado a expedição desde o começo da aventura, inclusive, tem deixado mensagens de apoio com frequência no diário de bordo, contudo, não tinha idéia se ele era jovem, velho, enfim, não havia referências para reconhecê-lo, tampouco, sabia como ele chegaria ao local. Mas as dúvidas logo acabaram, pois ele surgiu pedalando e com as vestimentas de ciclista foi impossível não identificá-lo.
Guylherme estava com a chave da residência de Fernando e Sandra, casal que me receberia em Aracaju. A capital estava próxima, bastava atravessar a Ponte Construtor João Alves sobre o Rio Sergipe. Seguimos pedalando e não demorou muito para a chuva voltar a cair com intensidade. Por sorte ainda foi possível tirar algumas fotos da chegada à cidade.

Ponte Construtor João Alves que faz a divisa entre Barra dos Coqueiros e Aracaju.
Ponte sobre o Rio Sergipe
Chegada à Aracaju.
Rio Sergipe

Margens do Rio Sergipe em Aracaju.
Construções antigas.
Aracaju
Barra dos Coqueiros.
Aracaju
Guylherme. Muito obrigado pela ajuda, camarada.
Aracaju é uma das menores capitais do país, atualmente tem aproximadamente 600 mil habitantes. Esse índice mais baixo é notado nas vias urbanas e também na distribuição das casas e prédios. Os edifícios, por exemplo, tem sua concentração quase limitada à orla do Rio Sergipe e na beira-mar. E ainda assim esse crescimento vertical está longe de ser parecido com aquele de Fortaleza e Recife.
O cicerone Guylherme não deixou de me explicar sobre as peculiaridades dos lugares por onde passávamos. E mesmo com chuva a primeira impressão de Aracaju foi muito boa. Como ficarei alguns dias na cidade, terei a oportunidade de poder conhecê-la melhor. Hoje também passei por alguns prédios históricos que estão distribuídos na orla do mar, que por sua vez, é uma das mais agradáveis e bem estruturadas do nordeste, inclusive, tem ciclovia em grande parte de sua extensão.
Para a minha surpresa, o apartamento dos anfitriões fica apenas duas quadras da orla. Fernando estava no trabalho e a Sandra (amiga historiadora da época da universidade) passa as férias no Paraná, por isso a chave estava com o Guylherme (soube da expedição através do casal) que abriu a porta e na sequencia foi para a sua casa, pois tinha que começar a trabalhar. Claro que não deixei de agradece-lo pela disponibilidade em me acompanhar desde a entrada da cidade.
A localização do imóvel dos anfitriões impressiona, mas eu estava mesmo surpreso com a confiança depositada na minha pessoa ao me deixarem sozinho na residência. Acho que isso a gente vai conquistando aos poucos, ainda que à distância. O histórico também é importante nesse processo. Como lembrou meu irmão André, estou colhendo aquilo que plantei, portanto, apesar de toda essa confiança parecer “estranha”, ela é apenas reflexo do que tenho realizado durante esses meses de viagem. Afinal, não é a primeira vez que tenho essa liberdade na casa dos anfitriões. Procuro deixar, por onde passo, minhas histórias, aprendizados e meu estilo de vida. E essa minha bagagem tem aberto outras inúmeras portas.
A primeira coisa que fiz quando cheguei foi tomar um banho. Para completar minha felicidade, chuveiro elétrico e água quente para relaxar os músculos. Enquanto ficava limpo, o interfone tocou várias vezes e fui obrigado a sair para ver quem era. Quando fui atender, surpresa: o Guylherme estava de volta com uma sacola repleta de pães de queijo, sonho e refrigerante. Agradeci bastante ao camarada que trouxe essas guloseimas mesmo debaixo de chuva. Em seguida nem voltei para o banho, fui direto devorar as massas. Estava morto de fome porque ainda não tinha almoçado.
No período da noite o anfitrião Fernando chegou e fez questão de frisar que eu poderia ficar à vontade em sua casa pelo tempo necessário. Agradeci pela hospitalidade e conversamos bastante sobre a viagem. Como já mencionei, histórias nunca faltam. Logo depois fui conhecer seus familiares que também me receberam muito bem.
Quando voltamos para casa, tive mais uma surpresa quando o anfitrião disse que dormiria na casa dos pais e cederia seu quarto durante a minha estadia. Tentei argumentar dizendo que não precisava, mas não teve jeito. São atitudes como essa que continuam me surpreendendo e me fazem refletir a respeito. Uma das formas de retribuir essa gentileza é fazendo o mesmo cotidianamente.
Dia finalizado com 100,29 km em 7h23m e velocidade média de 13,5 km/h.
19/07/2013 - 376° dia - Aracaju (Folga)
Dia dedicado exclusivamente ao descanso.
20/07/2013 - 377° dia - Aracaju (Folga)
Hoje fui convidado a almoçar na casa da família do Fernando. Digamos que foi o início do meu período para ganhar peso. Afinal, preciso recuperar cada grama que vem sido perdido desde Fortaleza.
Durante o almoço caprichado, o destaque ficou por conta do Sarapatel, preparado exclusivamente em minha homenagem. Ontem o Fernando perguntou se eu conhecia a iguaria típica do nordeste e com a minha resposta negativa, questionou se eu provaria. Respondi que poderia até não gostar, mas com certeza não deixaria de degustar.
O Sarapatel é uma “iguaria preparada com sangue, fígado, rim, pulmão e coração de porco ou carneiro, com caldo.” A princípio a descrição dos ingredientes parece um prato estranho, no entanto, se o seu preparado é bem feito, o resultado é literalmente saboroso. Gostei demais e fiz questão de repetir. Aprovado!
Sarapatel.
No final da tarde começamos um churrasco de primeira que terminou apenas por volta da meia-noite. O camarada Guylherme e o irmão do Fernando, André, também estavam presentes e não faltou companhia boa para a conversa e a risada. Valeu pela recepção, pessoal.
21/07/2013 - 378° dia - Aracaju (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
Destaque para o aniversário do meu pai. Claro que não deixei de ligar para parabeniza-lo e desejar vida longa e muito sucesso. Parece que foi ontem que eu lhe parabenizava enquanto pedalava pelo Pantanal no Mato Grosso do Sul. Realmente o tempo não para. Feliz aniversário, pai.
22/07/2013 - 379° dia - Aracaju (Folga)
A surpreendente capital sergipana.
Parte do dia foi dedicada para conhecer a cidade. Meu guia, novamente, foi o camarada Guylherme que passou na casa do Fernando no começo da tarde. O passeio aconteceu de moto já que a Victoria está em repouso total.
A primeira visita foi à Orla de Atalaia que infelizmente não foi registrada naquele momento. Sem dúvida é um dos lugares mais interessante da cidade. Destaque para a Passarela do Caranguejo, um espaço que concentra bares e restaurantes que oferecem comidas típicas da região.
Na sequencia nos direcionamos ao Parque da Cidade onde o anfitrião Fernando disse que valia a pena conhecer, sobretudo, pela vista que se tem da cidade. O local fica em um ponto alto de Aracaju e a existência de um teleférico ajuda a ter um ângulo privilegiado da capital.
Durante o deslocamento ao Parque da Cidade foi possível observar uma capital que se moderniza na medida do possível e que ainda não enfrenta problemas acentuados inerentes à grandes regiões metropolitanas, pelo menos eu não observei, por exemplo, um trânsito caótico pelas vias urbanas, que por sua vez, tem sua pavimentação muito melhor do que outras capitais nordestinas.
O Parque da Cidade infelizmente estava fechado para manutenção. A mesma acontece durante a segunda-feira. Ficamos de voltar outro dia e ainda aproveitamos para conhecer a Igreja de Santo Antônio na Colina que também leva o nome do santo. O lugar que outrora era um povoado se transformou em vila e posteriormente em cidade, que por sua vez, passava a ser a capital do estado em meados do século XIX. Estava diante de muita história.

Colina de Santo Antônio.
Ângulo diferente da ponte sobre o Rio Sergipe.
Visão da capital sergipana no alto da Colina de Santo Antônio.
Igreja de Santo Antônio.
Caju. A fruta presente no nome da capital.
Após a passagem pelo local onde surgiu a capital, seguimos em direção à região central cujo comércio não se diferencia muito de outras localidades. No Parque Teófilo Dantas está localizada a Catedral e não distante dela está o histórico Palácio Olímpio Campos, antigo Palácio do Governo e atualmente um museu (que estava fechado por ser segunda-feira). A construção do século XIX é simplesmente uma das mais charmosas da cidade.

Catedral.
Parque Teófilo Dantas.
Parque Teófilo Dantas.
Antiga construção que hoje abriga o Centro de Turismo - Comercialização Artesanal.
Centro movimentado.
Palácio Olímpio Campos.
Agradável Praça Fausto Cardoso.
Praça Fausto Cardoso.
Praça Fausto Cardoso.
Coreto em destaque.
Coreto.
Palácio Olímpio Campos.
Palácio Fausto Cardoso - Assembléia Legislativa
Na frente do Palácio Olímpio Campos é possível caminhar tranquilamente pela Praça Fausto Cardoso, onde se visualiza a Ponte do Imperador, construída para servir de ancoradouro na passagem de D. Pedro II em 1860.
Ponte do Imperador.
Antes de finalizar o passeio ainda visitamos o antigo farol da capital que recentemente foi restaurado e continua bem preservado. Parece uma coisa simples, mas apenas para efeito de comparação, em Fortaleza, o antigo farol está completamente abandonado e destruído. Ponto positivo para Aracaju.

Antigo farol.
Uma das coisas que o Guylherme prometeu quando eu cheguei na cidade é que eu provaria o Açaí Sergipano que hoje foi degustado e aprovado. Com amendoim, granola, banana e leite condensado, o delicioso açaí garantiu muita energia e alguns gramas a mais. O meu guia não me deixou arcar com as despesas. Obrigado por tudo, camarada.

Açaí Sergipano.
Energia extra.
23/07/2013 - 380° dia - Aracaju (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do site.

24/07/2013 - 381° dia - Aracaju (Folga)
Hoje finalmente foi possível visitar o Parque da Cidade. Mais uma vez o Guylherme se prontificou a me acompanhar. O lugar, sem dúvida, vale uma visita. Como está localizado em uma parte alta da cidade, proporciona uma vista incrível, sobretudo, se você chegar ao Morro do Urubu através de um passeio de teleférico cujo ingresso custa 14 reais, contudo, não precisei desembolsar um centavo porque mais uma vez meu guia não permitiu. Mais uma colaboração para finalizar a viagem.

Sagui caminhando sobre os fios é algo comum na cidade. Flagrante na frente da residência onde estou hospedado.
Entrada do Parque da Cidade.
Teleférico
Teleférico que permite acesso ao Morro do Urubu.
No Morro do Urubu é possível visualizar um ângulo diferenciado da cidade, do Rio Sergipe e a Ponte Construtor João Alves, Barra dos Coqueiros, assim como da área de manguezais e a usina eólica pela qual passei ao lado no dia que cheguei na capital.
Morro do Urubu. Acesso à rampa de voo livre.
Paisagem no alto do Morro do Urubu.
Outro panorama da capital sergipana.
Usina eólica nas proximidades de Pirambu.
Aracaju
Ponte Construtor João Alves.
Região portuária da Barra dos Coqueiros.
Margens do Rio Sergipe, área de manguezal.
Registro garantido.
Inseto não identificado no Morro do Urubu.
In foco.
Vai cutucar?
O tempo do deslocamento entre a estação base do teleférico e a estação do Morro do Urubu depende do número de visitantes. Quanto maior o número de pessoas, mais paradas para subir e descer, consequentemente o período suspenso no ar é maior, algo que não deve ser muito ruim porque o visual é incrível e permite contemplar a extensa área que envolve o parque que também tem um zoológico, onde os animais podem ser vistos e ouvidos do teleférico. Destaque para o rugido do leão. Como tinha poucas pessoas no teleférico no momento em que chegamos, a distância foi vencida em poucos minutos.

Passagem do teleférico sobre o espaço reservado aos leões.
Após voltar à base do teleférico fomos ao zoológico do Parque onde a entrada é franca. O lugar é simples, porém preservado, limpo e com um número razoável de animais, a maioria aves e macacos. Os primatas, em minha opinião, é a maior atração ao lado do leão e sua companheira que estava grávida. A onça pintada também merece ser lembrada, inclusive, mesmo com as grades, consegui um excelente registro do felino.

Estação do teleférico no Morro do Urubu.
Hora de voltar para a estação base.
Aracaju de outro ângulo.
In foco.
Preparados para o retorno.
Saída em 3, 2, 1..
Teleférico no meio da mata.
In foco.
In foco.
In foco.
Yo!
Na companhia do camarada Guylherme.
Estação base.
In foco.
Zoológico. Área dos primatas.
In foco.
In foco.
In foco.
In foco.
In foco.
In foco.
Mãe e filho.
In foco.
Hora da refeição.
In foco.
In foco.
Descascando um ovo cozido.
Melancia para a sobremesa.
Eita que deve estar bom demais.
Casa dos macacos.
Urubu-rei
In foco.
In foco.
Excelente registro da onça pintada.
Carcará.
Fica a dica. Passeio imperdível ao Parque da Cidade em Aracaju. Mais uma vez, valeu pela companhia, Guylherme.
25/07/2013 - 382° dia - Aracaju (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
26/07/2013 - 383° dia - Aracaju (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
Parabéns à minha amada mãe que hoje completa mais um ano de vida. Sempre em frente, querida. Muita força para continuar a luta do dia-a-dia. Grande abraço.
27/07/2013 - 384° dia - Aracaju (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
28/07/2013 - 385° dia - Aracaju (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do site.
Finalmente consegui terminar mais uma atualização. Agora vou aproveitar o tempo livre de amanhã para visitar a Orla de Atalaia que vai ser devidamente registrada.
Partiria nesta segunda-feira para Salvador, mas voltarei à estrada somente na terça-feira, afinal, quatro dias serão suficientes para chegar à capital baiana onde meus anfitriões me esperam na sexta-feira (02/09). Devo permanecer apenas 2-3 dias por lá e depois sigo pela BR 101 em direção ao Espirito Santo e Rio de Janeiro, onde farei a próxima atualização no diário de bordo.
No mais, estou cada dia mais próximo de finalizar a expedição. Falta pouco, muito pouco. Avante.
Grande abraço a todos.
“Hasta la Victoria Siempre”
29/07/2013 - 386° dia - Aracaju (Folga)
Passeio à orla da surpreendente Aracaju e o encontro cara-a-cara com o temido tubarão.
Ontem a pretensão era terminar a atualização do site por volta do meio-dia e na parte da tarde visitar a orla para fazer seu devido registro, contudo, para variar, mais uma vez, o diário de bordo custou a ser atualizado. Parece que essa tarefa fica cada vez mais árdua. Paciência. De qualquer forma a postagem foi realizada apenas no período da noite e o passeio ficou adiado para o dia seguinte.
Hoje, quando acordei, fui surpreendido pela chuva que, insistentemente, continuou por toda a manhã e me obrigou a cancelar o passeio à orla. A condição climática também me fez cancelar a ida à praia com o camarada Guylherme. Tínhamos combinado de pegar umas ondas às 14 horas. Como minha partida de Aracaju estava marcada para amanhã, tudo indicava que, infelizmente, eu voltaria à estrada sem poder fotografar essa bonita parte da capital sergipana.
Surpreendentemente, pouco depois das 14 horas, o tempo começou a melhorar e não demorou muito para o céu ficar limpo, com poucas nuvens e sol. Que maravilha! Não pensei duas vezes em pegar minhas coisas para caminhar na orla. Era realmente uma oportunidade única para realizar o tal registro.
Sendo segunda-feira, infelizmente, não seria possível visitar o Oceanário de Aracaju que é mantido pelo Projeto Tamar. Segundo informações obtidas na internet, o local estaria em manutenção no dia citado. Paciência.
A Orla de Atalaia, conforme havia mencionado na postagem anterior, é uma das mais bem estruturadas do litoral brasileiro e tem uma peculiaridade que se diferencia de outras praias no país: a distância entre a orla (calçadão, ciclovia e restaurantes) e o mar chega a ser de 100-300 metros em determinadas partes. Esse espaço é preenchido por lagos, quadras esportivas, espaços recreativos (parque para crianças) e áreas destinadas ao comércio de alimentos e artesanatos. Surpreendentemente também existe uma pista de MotoCross. Destaque e ponto positivo para a limpeza e manutenção do local.

Mundo da criança na Orla de Atalaia. Área recreativa.
Mundo da criança.
A região dos lagos na orla é sem dúvida um dos atrativos mais agradáveis, pois a mesma é cercada por vias exclusivas à caminhada e também possibilitam um passeio de pedalinho que certamente é uma opção muito bacana, sobretudo, para as crianças. Ainda nesta área é possível ver dezenas de patos, peixes e até mesmo coelhos.

Região dos lagos.
Espaços reservados para caminhada.
Pedalinhos: mais uma opção de diversão na orla.
Patos: moradores locais.
Região dos lagos. Destaque para a pista de motocross ao fundo.
Pista de caminhada na orla.
In foco.
In foco.
In foco.
In foco.
Passarela do artesão.
Restaurantes e barracas localizadas na orla.
Farol da Orla de Aracaju
Avenida Santos Dumont. Orla de Atalaia.
Centro de Arte e Cultura.
Orla de Atalaia.
Claro que não deixei de caminhar pela praia que naquele horário estava praticamente deserta. A areia não é das mais fofas, mas ainda assim o lugar é convidativo para a realização de esportes, mesmo que seja uma corrida privilegiada ao lado mar. Por falar nele, aqui a cor da água está longe de ser esverdeada como no estado vizinho de Alagoas. E a explicação é simples, muitos rios desaguam no pequeno litoral sergipano, entre eles, o importante São Francisco e Sergipe que acabam por deixar a água mais escura.

Praia em Atalaia.
In foco.
In foco.
Quando voltei a andar pela orla passei na frente do oceanário e notei que algumas pessoas entravam no atrativo turístico. Fui conferir se o mesmo estava em funcionamento e para a minha felicidade o acesso disponível me permitiu conhecer o local. O ingresso custou 14 reais, mas valeu o investimento de cada centavo pela diversidade de peixes, crustáceos, tartarugas e outros animais aquáticos.

Convite do Projeto Tamar 
Oceanário de Aracaju
Distâncias para algumas cidades. Para Florianópolis siga reto toda vida, rs.
Oceanário de Aracaju
Filhotes de tartaruga.
Tartaruga Oliva
Tartaruga Oliva
Tartaruga Oliva
O oceanário de Aracaju que é de responsabilidade do Projeto Tamar é muito mais interessante do que a estação visitada em Florianópolis no que diz respeito à variedade de aquários, tanques e, sobretudo, animais. Na ilha catarinense o projeto está voltado mais às tartarugas. Um dos destaques na capital sergipana fica por conta de um enorme tanque com a presença de peixes grandes, incluindo arraias que adoram se “exibir” para o público, este, diga-se de passagem, oriundo de diversos estados e países. Existem mais turistas em Aracaju do que eu imaginava. Sinal que a cidade oferece atrativos turísticos que não são divulgados como merecem.

Arraia "exibida"
Não sei qual o nome, mas é um baita peixe.
In foco.
In foco.
In foco.
No Projeto Tamar de Aracaju outro destaque do oceanário fica por conta dos tubarões-lixa que é a segunda espécie mais dócil entre os tubarões, pelo menos foi a informação repassada pelos funcionários. No tanque reservado para os tubarões, existem dezenas de peixes menores que não passam a ser refeição dos “irmãos” maiores por que eles são alimentados três vezes ao dia. Tive a oportunidade de acompanhar um desses momentos. Aliás, na entrada do oceanário existe uma placa que indica as atividades do dia. E essa alimentação estava incluída na agenda.

Tanque reservado para os tubarões.
Tubarões-lixa.
Tubarões-lixa
In foco.
Comida na "boquinha". Hora da refeição.
Ver a funcionária dando comida praticamente na boca do tubarão é uma cena que impressiona, sobretudo, pela lembrança do recente fato do ataque de tubarão na praia de Boa Viagem em Recife que resultou na morte de uma jovem de dezoito anos. Mas vale lembrar que são espécies diferentes. De qualquer forma é algo que não imaginei ver nesta viagem. Estar cara-a-cara com um tubarão é simplesmente assustador e incrível ao mesmo tempo.
Claro que o diferencial no oceanário é a presença dos tubarões, contudo, vale ressaltar que espécies de água doce também fazem parte do projeto, algo que enriquece demais a visita, principalmente pelas informações inseridas em cada aquário. Gostei e recomendo.

Piau Três Pintas e Acará Boi.
Tilápia.
Moréia Pintada.
Moréia Pintada.
Robalo Flecha.
Lagostas
In foco.
Tartaruga pequena.
Cavalo-Marinho
Cavalo-Marinho
Cavalo-Marinho.
Cavalo-Marinho.
No final do dia fui à casa da família do Fernando para poder me despedir do pessoal que vai deixar saudade. Galera animada demais. Obrigado pela receptividade inesquecível.

Aquiles e Lara. Um registro especial para a amiga Sandra.
30/07/2013 - 387° dia - Aracaju (Sergipe) a Conde (Bahia)
Que dia incrível!
Chegada ao maior e último estado nordestino da minha expedição. Bahia!
Acordei por volta das 5 horas da manhã e terminei o processo iniciado na noite de ontem: arrumar a bagagem após alguns dias de “folga” na capital sergipana. Estava na hora de voltar à estrada.
A partida de Aracaju ficou marcada com o Guylherme (me acompanharia por um trecho) para às 7 horas da manhã na casa do Fernando. O anfitrião também ficou de aparecer para pegar a chave do imóvel e se despedir. Sei que no final todo mundo atrasou alguns minutos que não chegaram a interferir na saída que aconteceu apenas um pouco mais tarde do que o previsto. Sem estresse. Importante é que consegui um registro com o anfitrião que também recebeu meu agradecimento por toda a hospitalidade. Muito obrigado, Fernando e Sandra.

Camarada Fernando. Valeu, hermano.
Um registro com Fidel que foi minha companhia por alguns dias.
Hasta luego, Fidel.
Para a minha felicidade o tempo estava bom e a partida aconteceu sem problemas. O trajeto para sair da cidade ocorreu pela Orla de Atalaia que ainda estava com trânsito relativamente calmo. Essa situação é sempre boa para poder observar melhor a paisagem. Dessa forma seguíamos em direção ao vilarejo de Mosqueiro, ainda no município de Aracaju. Eu estava com o guia Guylherme que conhecia o caminho, contudo, é muito difícil ficar perdido, existem muitas placas que orientam a direção correta para a divisa entre Sergipe e Bahia. Apenas fiquem atentos em relação às distâncias, muitas delas estão equivocadas.

Placas na Orla de Atalaia. Erraram apenas em 80 km a distância para a divisa SE/BA.
Ao chegar à Mosqueiro nos direcionamos à bonita Orla do Pôr-do-sol que fica na divisa dos municípios de Aracaju e Itaporanga D’Ajuda. A saída da capital acontece pela ponte Joel Silveira sobre o Rio Vaza-Barris que marca o início de uma estrada simples e com acostamento apenas em determinadas partes.
Orla do Pôr-do-sol
Orla do Pôr-do-sol
Ponte Joel Silveira.
Últimos metros na capital Aracaju.
Camarada Guylherme na divisa dos municípios.
A rodovia passa a ser denominada como Airton Senna ou SE 100, contudo, a mesma nomenclatura numérica foi encontrada naquela rodovia sem pavimentação depois de Brejo Grande e que vai até Japaratuba. Sinceramente não sei o motivo desse “conflito”. No meu mapa físico a estrada após a ponte Joel Silveira não tem nome e no Google Maps está como SE 438. Então se você estiver na região, procure não levar muito em consideração essas questões e siga direto à Caueira.

Na rodovia Airton Senna.
O trecho entre a ponte Joel Silveira e a Caueira é tranquilo, porém vale ressaltar que apenas uma parte está com acostamento. Deste trajeto não é possível visualizar o mar, todavia, a paisagem, mesmo em sua simplicidade, torna a pedalada agradável, ainda mais em boa companhia. Guylherme e eu conversamos por todo o caminho.

Guylherme.
Pedalando no trecho sem acostamento da Rodovia SE 100 em direção à Caueira.
Valeu hermano.
In foco.
Paisagem.
Após 2h30m e aproximadamente 40 quilômetros pedalados, chegamos à Caueira que era o destino do camarada Guylherme a quem eu também fiz questão de agradecer por toda a ajuda e companhia durante a minha estadia em Aracaju. Muito obrigado, hermano. Espero ter a oportunidade de pedalar contigo mais vezes.
Meu destino após Caueira era a Ponte Gilberto Amado que, erroneamente, coloquei na cabeça que era a divisa entre os estados, contudo, quando cheguei ao local, depois de 75 km da saída de Aracaju (orla de Atalaia), descobri que na verdade restavam mais 25 km para realmente entrar na Bahia. Somente para constar, entre esse trecho até a ponte eu parei em um restaurante para almoçar. A refeição (self-service) custou 10 reais e apesar da simplicidade e pouca variedade, estava muito boa.
Na ponte Gilberto Amado eu tive a felicidade de poder contemplar a foz do Piauí e o seu encontro com mar que voltou a aparecer no horizonte. Registro garantido, sem dúvida. Na sequencia, continuei em direção à Salvador que frequentemente aparecia nas placas. Vale destacar a ótima sinalização da estrada, que por sua vez, passou a apresentar acostamento em excelentes condições. Perfeita para pedalar.

Ponte Gilberto Amado
In foco.
Rio Piaui.
Registro entre rio e mar.
Ponte Gilberto Amado, a maior sobre rio da região nordeste.
Em direção à Bahia.
In foco.
Estrada perfeita após a ponte Gilberto Amado.
Os 25 quilômetros para chegar à Bahia passaram rapidamente e por volta das 15 horas, eu estava no 14° estado brasileiro desta expedição. Claro que não deixei de fotografar o ingresso no último e maior estado da região nordeste. Essa questão fará com que minha passagem pela Bahia seja um pouco mais longa, contudo, visitarei apenas o litoral norte e a capital Salvador, depois sigo ao Espirito Santo pela BR 101. Claro que existem praias lindíssimas no sul do estado, mas resolvi conhece-las melhor em outra oportunidade. Digamos que estou muito satisfeito com todo esse litoral visitado até o momento.

Divisa entre Sergipe e Bahia.
Ingresso no 14° estado brasileiro desta expedição.
As boas-vindas à Bahia foram dadas pela rodovia estadual BA 099, conhecida como Linha Verde/Estrada do Coco, famosa por sua temida montanha-russa, ou seja, relevo extremamente acidentado e marcado pelas subidas e descidas frequentes. Muitos amigos já tinham me alertado sobre essa questão e talvez por isso eu já estava física e psicologicamente preparado.

Bem-vindo à Linha Verde.
Bem-vindo à Bahia.
Meu planejamento entre Aracaju e Salvador era completar o trajeto em 3-4 dias, pedalando pelo menos 100 km/dia. Hoje essa distância foi alcançada quando passei pela divisa dos estados. Cogitei parar no povoado de Itanhi, onde havia uma pousada, todavia, ainda era muito cedo e achei melhor seguir em frente. Com a decisão me preparei para pedalar no escuro porque eu sabia que a próxima cidade era Conde que ficava há mais de 40 km e o relevo retardaria minha chegada ao município. Isso se eu não montasse acampamento em alguma propriedade rural pelo caminho.
A Linha Verde é conhecida também por não ter muitos pontos de apoio para quem passa pela estrada. São poucas cidades, povoados, restaurantes, hospedagens e postos de combustível, estes, segundo as placas, estariam presentes em Conde, Massarandupió e Imbassaí. Com essas informações e a cada quilômetro pedalado entre as infinitas subidas, eu me convencia de que meu dia seria mesmo finalizado em Conde.

Postos de abastecimento na Linha Verde.
As subidas da Linha Verde realmente não são fáceis, mas vencê-las é mais uma questão psicológica do que física. Os vários aclives não tem uma extensão como nos Andes, contudo, são íngremes e presentes com enorme frequência. Você termina uma subida difícil e na sequencia já visualiza mais dezenas de outras no mesmo estilo, ou seja, para encarar essa rodovia é preciso estar com a cabeça muito boa para encarar a situação com paciência. Isso porque a bicicleta, provavelmente, vai estar na relação mais leve para o desafio que consequentemente vai levar mais tempo para ser completado.
Após o povoado da divisa, o próximo vilarejo (sem hospedagem) vai aparecer apenas 12 km depois e pode servir para reabastecer as garrafas de água, foi justamente o que procurei fazer. Na sequencia o que encontrei foram acampamentos do MST onde muitas pessoas me cumprimentaram.
No final da tarde o tempo fechou repentinamente e a chuva não demorou muito para cair. Que maravilha! Meu corpo apenas não esfriou por causa das subidas que exigia um esforço físico maior. A escuridão não foi um problema, principalmente para encarar os aclives que a essa altura não apareciam no campo de visão por causa do horário. Nestas situações você percebe a subida apenas por ter que empregar mais força nas pernas.
Na estrada, um pequeno susto. Como o tráfego ficou cada vez menor, todo movimento diferente era facilmente notado. Verifiquei que no outro lado da pista algumas pessoas conversavam e se orientavam com a ajuda de lanternas. Até aí, tudo bem. Acontece que não demorou muito e percebi que estavam, de bicicleta, poucos metros atrás de mim. O que estranhei foi a lanterna deles desligada em determinados trechos. Pensei logo que não gostariam de ser reconhecidos. Mesmo cansado e com mais subidas pela frente eu tratei de pedalar mais rápido para despistar aquelas pessoas. Felizmente a estratégia funcionou. Talvez fossem apenas moradores locais, mas na dúvida eu não quis arriscar.
Quinze quilômetros após o povoado em que peguei água, um posto policial apareceu e me informaram que Conde estava a dez quilômetros. Agradeci e continuei pedalando para completar o trecho final. Ainda chovia um pouco quando notei a presença de luzes intermitentes no alto de uma subida. Naquelas condições climáticas tudo indicava que algum acidente havia acontecido. Quando me aproximei a suspeita foi confirmada. Batida entre duas caminhonetes, uma delas estava capotada fora da pista. Acho que não houve vitimas fatais, mas várias pessoas ficaram feridas. Quando passei pelo veículo apenas escutei o policial dizendo no telefone; adianta, adianta que é uma família inteira. Não parei e também não procurei saber maiores detalhes do sinistro.
Não demorou muito e por volta das 20 horas cheguei ao trevo de acesso à Conde que ainda ficava a três quilômetros. Na pacata cidade perguntei onde tinha hospedagem e fui direto àquela que me informaram ser a mais barata. Na pousada Andrade o quarto mais econômico custava 20 reais, contudo, não havia mais nenhum dormitório disponível. A proprietária me indicou a Pousada Shalom onde fui muito bem recebido. A diária custou 25 reais em um quarto com televisão e ventilador. O destaque ficou por conta do banheiro que era compartilhado no quintal.
Como eu estava com muita fome, fui procurar algum estabelecimento para restabelecer as energias gastas em mais de dez horas de pedal. Em uma lanchonete solicitei um lanche que foi devorado rapidamente. Tinha espaço para mais três, no entanto, era preciso economizar e por isso voltei à pousada para degustar outro pacote de bolacha e na sequencia fui descansar.
Dia finalizado com 148,36 km em 10h29m e velocidade média de 14,10 km/h.
31/07/2013 - 388° dia - Conde a Imbassaí
Mais um dia repleto de subida, chuva e certas decepções.
A noite na pousada foi tranquila. Como eu tinha pedalado bem mais do que o previsto no dia anterior, estava muito sossegado em relação ao horário de saída de Conde. Assim, acordei naturalmente por volta das 6 horas, levantei quase uma hora depois, tomei meu café da manhã, leia-se bolacha recheada, e apenas às 7h30m comecei a pedalar.
A chuva que caiu durante a madrugada e também poucos minutos antes da minha saída, parecia que não demoraria em voltar a cair. E isso foi acontecer após meu retorno à Linha Verde. Tive tempo apenas de fazer um registro do tempo fechado no horizonte.

Chuva à vista. Para começar bem mais um dia de pedal.
Mais uma vez meu objetivo era pedalar, no mínimo, cem quilômetros, ou seja, minha parada no final do dia deveria ser em Costa do Sauipe ou Imbassaí. O caminho, novamente, foi marcado pelas subidas que continuaram mais frequentes e íngremes do que aquelas do dia anterior. A diferença é que hoje minhas pernas estavam mais pesadas. Mas isso não impedia meu avanço, ainda que mais lento.
A chuva começou com mais intensidade pouco depois de Conde, quando encontrei com o Juarez, um ciclista que está, segundo ele, há mais de quinze anos na estrada. Estava completando a segunda volta pelo Brasil e também já tinha visitado os países da América do Sul, inclusive, sua bicicleta exibia bandeiras e placas de trânsito dos nossos países vizinhos. Seu meio de transporte era simples, porém adaptado para levar sua bagagem e também a Luana Piovani, sua cadela carregada na frente da bicicleta.

Juarez e a Luana Piovani
Juarez estava parado debaixo de uma barraca na margem da rodovia, esperando a chuva parar. Conversamos um pouco e logo voltei à estrada, mesmo com chuva, afinal, não posso me dar ao luxo de depender das condições climáticas para seguir viagem.
Na estrada não houve surpresas, montanha-russa em modo avançado, chuva e muitos coqueiros na paisagem. Não é à toa que a rodovia leva o nome de Linha Verde – Estrada do Coco. No caminho não encontrei nenhum povoado, apenas trevos que davam acessos a pequenos vilarejos.
Meu psicológico continuava muito bom, contudo, não foi fácil mantê-lo dessa forma, principalmente quando minhas bolachas terminaram e a fome ficou maior na hora do almoço. Para variar, nada de restaurante na estrada. Aliás, nenhum povoado, vilarejo, nada, nada e nada. Tive que me concentrar apenas nas subidas e enganar o vazio do estômago com água.
Fui almoçar apenas às 15 horas na entrada da praia de Massarandupió, onde, além do restaurante, tinha também um posto de combustível. A refeição custava muito para o meu bolso porque era por quilo, opção nada recomendável para quem está morto de fome. Ao perguntar, na cara dura, ao funcionário sobre a existência de outro restaurante, ele sugeriu que poderia fazer um prato feito por dez reais. Perfeito.
Após o almoço eu estava decidido a encerrar a pedalada na famosa Costa do Sauipe. Não completaria cem quilômetros, mas chegaria perto disso. Eu continuava debaixo de chuva quando passei pela entrada de Porto do Sauipe, Vila Sauipe e finalmente, Costa do Sauipe. Quando fiz o contorno no trevo de acesso, uma surpresa e decepção. A via na verdade não levava a um vilarejo à beira do mar como eu imaginava e sim a um complexo fechado composto por restaurantes, pousadas e hotéis.

Nas proximidades da decepcionante Costa do Sauipe.
Na entrada do complexo de Costa do Sauipe o segurança perguntou se eu tinha reserva em alguma hospedagem e com cara de abestado eu respondi que não e questionei o que era aquilo tudo e foi quando ele me falou sobre o complexo. O funcionário ainda me recomendou conversar com a recepcionista para saber a respeito de uma hospedagem barata. Como não custava nada perguntar, fui conferir. Para passar o pernoite em um local econômico eu deveria desembolsar apenas 300 reais. Isso mesmo, 300 reais numa diária. Que absurdo! Depois de agradecer ainda perguntei sobre o próximo povoado com pousada. Ela disse que eu poderia encontrar no vilarejo de Diogo que ficava a 4 km ou então em Imbassaí, 10 km.
Voltei à Linha Verde muito indignado com o fato de um complexo fechado estar situado no mapa, como se fosse um povoado ou distrito. Não seria isso propaganda e uma informação que, no mínimo, induz a um pensamento equivocado? De qualquer forma tive que pedalar mais um pouco debaixo de chuva. Achei melhor não parar no povoado Diogo porque eu deveria pegar uma estrada de terra. E já que Imbassaí não estava longe fui terminar meu dia no vilarejo.
Já estava escuro quando cheguei ao trevo de Imbassaí onde um senhor me explicou que eu deveria pedalar mais um trecho para chegar ao local onde as pousadas estavam concentradas. A distância de três quilômetros foi completada por uma ciclovia que me levou até o perímetro urbano onde não hesitei em parar em uma mercearia para comprar bolacha para o jantar e o café da manhã do dia seguinte. No estabelecimento eles me informaram sobre um albergue cuja diária seria a mais barata. Fui procura-lo.
Para chegar ao Imbassaí Eco Hostel Lujimba, credenciado ao Hostelling International, tive que pedalar por algumas quadras, mas não foi difícil encontra-lo por causa das várias placas pelo caminho, que por sinal, é repleto de pousadas, restaurantes e um comércio voltado ao turismo. Eu não tinha o menor conhecimento sobre as belezas do povoado que pertence à cidade de Mata de São João, mas tudo indicava que as praias seriam muito bonitas.
No hostel eu fui atendido pelo proprietário argentino que disse o valor da diária; 35 reais. Não era barata, mas pelo menos tinha café da manhã. Como já estava tarde, chovia e a canseira era evidente, achei melhor ficar na hospedagem. O quarto era compartilhado, mas muito aconchegante e com instalações razoáveis e limpas, sobretudo, o banheiro com água quente disponível. Maravilha de banho.
O dormitório com quatro beliches tinha somente um hóspede, o paranaense Gustavo, natural de Maringá, mas que hoje mora no interior da Bahia. Conversamos um pouco e depois fui ligar para minha anfitriã, Lucia, de Salvador para dizer que estaria chegando à capital no dia seguinte. Ela disse não tinha nenhum problema e que estaria à minha espera. Na sequencia fui descansar o sono dos justos.
Dia finalizado com 101 km pedalados. Infelizmente, zerei, mais uma vez, o tempo total e a velocidade média, mas esta deve ter ficado na casa dos 11 km/h.
01/08/2013 - 389° dia - Imbassaí a Salvador
Finalmente na primeira capital do Brasil: Salvador.
Começo de mais um mês. Que agosto seja ainda melhor e repleto de surpresas encantadoras.
A noite foi bem tranquila no hostel, sobretudo, em razão da temperatura mais baixa do que o normal e que pouco lembrava o típico clima baiano. Eu não precisava acordar cedo porque o café da manhã começaria a ser servido apenas às 8 horas. Mas como meu corpo está acostumado a levantar cedo, às 6h15m despertei naturalmente, contudo, me recusei a levantar e somente às 7h45m eu resolvi sair da cama.
A primeira coisa que fiz ao levantar foi conferir o pneu traseiro da bicicleta que ficou presa no lado de fora do quarto. Ontem quando saí da mercearia percebi que a calibragem estava baixa e tudo indicava mais uma câmera de ar furada. Algo que confirmei hoje pela manhã. Resolvi fazer a troca da câmera antes do café da manhã. A tarefa durou um pouco mais do que o esperado porque aproveitei para deixar a câmera reserva pronta para a próxima eventualidade.
Fui à mesa do café quase às 9 horas e a refeição matinal estava quase finalizada, mas ainda assim consegui forrar o estômago. (Risada sacana). Fiquei um bom tempo nessa função de repor as energias. Na verdade eu não estava muito preocupado com o horário da saída de Imbassaí porque Salvador ficava a menos de cem quilômetros. Eu apenas não gostaria de chegar à capital baiana na hora do rush.

Parte da recepção do Hostel.
Instalações aconchegantes do Lujimba.
Minha saída do hostel aconteceu quando já passava das 9h20m, mas mesmo com o horário tardio, ainda fui conferir a praia já que o tempo estava aberto, totalmente diferente de ontem. Hoje o sol brilhava forte e convidava os turistas ao esperado banho de mar. A praia estava muito próxima do Lujimba e poucos minutos depois eu estava diante de um litoral exuberante com muitas ondas, areia branca e fofa com muitos coqueiros em suas margens.

Praia de Imbassaí.
Praia de Imbassaí
A extensão da praia fez com que eu andasse um bom trecho pelas ciclovias para chegar até á foz do Imbassaí que corta boa parte do povoado e que deixa o cenário ainda mais fantástico. Inclusive, a ciclovia segue ao lado do rio. Um caminho marcado pela natureza em sua essência.
Victoria às margens do Rio Imbassaí.
Na foz do Imbassaí muitas pessoas se dividem entre um mergulho na água salgada do mar ou doce do rio, este por sua vez, proporciona a formação de pequenas e rasas “lagoas” que são altamente indicadas a um relaxamento total. Apenas não fiquei no local porque eu precisava chegar à Salvador. Mas sem dúvida é um lugar que merece uma visita. Recomendo.

Foz do Imbassaí.
Foz do Imbassaí.
Pequenas lagoas ao lado do mar.
Rio e mar.
Minha companheira Victoria.
Barracas à beira do Rio Imbassaí na proximidade de sua foz.
Voltei à Linha Verde para seguir à capital baiana, não sem antes conhecer a Praia do Forte que fica quase quatro quilômetros distantes da rodovia. O caminho para chegar à praia é um pouco longo, porém é bonito, sobretudo, na passagem pela Lagoa Timeantube. O trajeto é marcado também por mansões e condomínios luxuosos. Não raramente também se encontra hospedagens e restaurantes sofisticados. Esse cenário indicava que a praia seria extraordinária, contudo, é pequena e simples. Não vou dizer que não recomendo, mas eu não me deslocaria outra vez ao local.

Trecho após a saída de Imbassaí.
Trevo de acesso à Praia do Forte.
Povoado da Praia do Forte.
In foco.
Lagoa Timeantube
Lagoa Timeantube
Lagoa Timeantube
Praia do Forte.
Slackline na Praia do Forte.
Praia do Forte.
Praia do Forte.
Praia do Forte.
Praia do Forte.
Praia do Forte.
Vale apenas destacar que a Praia do Forte concentra mais um espaço dedicado ao Projeto Tamar e também Projeto Jubarte. Outro ponto que pode ser visitado é o Castelo Garcia D’Ávila cuja entrada fica um pouco depois da saída da Linha Verde. Uma placa indica a direção correta para conhecer uma das grandes construções portuguesas do século XVI no Brasil. Para maiores detalhes veja aqui: http://praiadoforte.org.br/atrativos-turisticos/castelo-garcia-davila/. Eu já estava atrasado e por isso não visitei os locais mencionados acima, mas fica a dica para quem estiver de passagem pela região.

Acesso ao Castelo Garcia D’Ávila
O relevo melhora bastante depois da Praia do Forte e marca o término da montanha-russa na Linha Verde que passa a ser duplicada e oferece ainda mais condições para empregar um ritmo maior. Assim, rapidamente passei por Itacimirim e Guarajuba. Fiquei tentado a entrar nesta primeira para conhecer a praia onde Amyr Klink desembarcou em sua travessia pelo Atlântico, relatada na magnifica obra Cem dias entre céu e mar. Mas acabei perdendo a entrada correta para a praia e no retorno achei melhor seguir em frente. Já na saída Guarajuba parei em um restaurante por volta das 14 horas para almoçar. Prato feito custou 12 reais e estava uma delícia.

Linha Verde sem montanhas após a Praia do Forte.
Depois do almoço continuei em direção à Salvador. A estrada permaneceu duplicada, contudo, com um movimento cada vez maior na medida em que a capital ficava mais próxima. A situação se agravou quando cheguei à Lauro de Freitas, município da região metropolitana. Muita calma nesta hora e avante!
Aproximadamente 20 quilômetros após Lauro de Freitas eu estava em Salvador, a primeira capital do Brasil Colônia. Tinha uma placa de boas-vindas na estrada, contudo, com o trânsito e a região movimentada, achei melhor não fotografar e apenas parei em um trecho mais à frente para saber qual direção seguir. Eu deveria pegar o caminho sentido à praia de Itapuã e não ao centro.
Após as informações recebidas peguei algumas vias que me levaram à Avenida Dorival Caymmi que estava com muito trânsito, sobretudo, de ônibus. Continuei com atenção e pouco depois estava na orla de Itapuã, litoral de Salvador. Que maravilha. Liguei para a anfitriã na pretensão de pegar mais detalhes de como chegar à sua casa e com as dicas continuei mais 5 quilômetros pela ciclovia da orla até chegar ao Parque de Pituaçu onde o Zena, marido da Lucia, foi me encontrar para mostrar o caminho até sua residência que ficava bem próxima do local.
Pelas movimentadas avenidas de Salvador.
O trânsito agitado das grandes cidades.
Praia de Itapuã. Chegada à orla de Salvador.
Lucia é fundadora do grupo de pedal Amigos de Bike (www.amigosdebike.com.br) que recentemente completou oito anos de incentivo total ao ciclismo em Salvador. Atualmente o grupo faz passeios urbanos e que facilmente passam de cem pessoas. A anfitriã entrou em contato comigo depois que um amigo de Zedequias (anfitrião em São Luis/MA) perguntou a ela se era possível me hospedar. Desde então ela disse que eu seria muito bem recebido em sua residência. E sem dúvida a recepção foi muito boa. Com um ambiente agradável e boa companhia não foi difícil me sentir em casa. Devo permanecer aqui alguns dias para poder conhecer a cidade e, quem sabe, atualizar o diário de bordo.
Dia finalizado com 96,02 km em 6h37m e velocidade média de 14,4 km/h.
02/08/2013 - 390° dia - Salvador (Folga)
Estava na dúvida do que fazer no decorrer do dia. Uma das opções seria a visita ao Pelourinho, mas eu teria que caminhar muito pelo centro histórico e minhas pernas cansadas e pesadas não se animaram com a idéia. Por isso achei melhor ficar em casa para descansar e atualizar o diário de bordo, contudo, meus planos foram alterados por algo que merece uma postagem exclusiva.
Acontece que o anfitrião Zena é fotógrafo e também trabalha com arte gráfica. Em uma conversa sobre a possível capa do meu futuro livro (a respeito da viagem) começamos a trabalhar na criação da mesma. Quer dizer, eu apresentava algumas idéias que eram complementadas pelo "designer" que conseguia passar para o computador aquilo que eu imaginava. O trabalho durou horas porque o anfitrião procurou fazer algo realmente profissional. E o resultado não poderia ser diferente; perfeito. Muito obrigado pela dedicação, Zena Tomio. 

Capa do livro: Cicloturismo Selvagem - Pedal pela América Latina. Arte: Zena Tomio.
A capa do livro simplesmente me deixou fascinado e pensativo. Fiquei muito tempo admirando a arte. Comecei a sentir algo diferente, um sentimento enorme de querer escrever e concluir a obra o quanto antes. Em meio a essa “tormenta” de emoções, uma idéia um tanto utópica voltou à tona. Porque não realizar uma pré-venda?
Fazer a venda de algo que ainda está na “planta” é uma responsabilidade gigantesca. Mas depois de pensar um pouco melhor, cheguei a conclusão de que sou capaz de encarar mais esse desafio. Aceitei o compromisso e lancei a idéia que pode ser visualizada na íntegra: Leia Aqui!! 
A recepção da pré-venda do livro no Facebook foi simplesmente um sucesso e até o final da noite eu já estava com vários exemplares reservados. Muito obrigado àqueles que continuam depositando confiança no projeto da viagem.
Fui dormir em êxtase.
03/08/2013 - 391° dia - Salvador (Folga)
A chuva na parte da manhã em Salvador dificultou minha visita ao Pelourinho e por isso cogitei atualizar o diário de bordo, contudo, mais uma vez, a tarefa foi adiada, novamente por um motivo bastante forte.
Em menos de 24 horas após o anúncio da pré-venda do livro Cicloturismo Selvagem – Pedal pela América Latina, estava com 30 exemplares reservados. Simplesmente inimaginável. Fiquei o dia todo conversando com os compradores exclusivos sobre a obra. Detalhe: Houve pedidos de outros países da América do Sul e também da Europa. Pensa na felicidade do sujeito aqui. Estou cada dia mais feliz com tudo que tem acontecido. 
Para completar o clima agradável, houve uma pequena confraternização familiar aqui na casa dos anfitriões onde pude conhecer novas pessoas e também falar um pouco mais sobre o meu projeto pela América Latina. A “reunião” se estendeu até o final da noite e a atualização do diário de bordo ficou para os próximos dias.
04/08/2013 - 392° dia - Salvador (Folga)
São Salvador da Bahia de Todos os Santos! Pelô! Farol da Barra! E muito mais...
Hoje, finalmente, consegui conhecer um pouco melhor a capital baiana que no século XVI se tornou a primeira capital do Brasil Colônia. Histórias não faltam pela cidade que atualmente, segundo o IBGE, abriga quase 3 milhões de habitantes, sem contar a importante região metropolitana que além da densidade populacional é a mais rica do nordeste.
Talvez quando se fale em Salvador seja impossível não direcionar o pensamento a um passado importante da história do Brasil e que, felizmente, pode ser lembrado, a partir de uma visita ao Pelourinho no Centro Histórico. Por isso não pensei duas vezes sobre o que conhecer na cidade. Para chegar a essa região foi relativamente fácil. Na orla, frente ao Parque de Pituaçu, peguei, por volta das 8 horas, um ônibus em direção ao Terminal da França.
O valor da passagem no transporte coletivo de Salvador é de R$ 2,80, contudo, aos domingos os passageiros pagam apenas metade desse valor, no entanto, o beneficio não é estendido aos ônibus intermunicipais que foi justamente aquele em que eu embarquei para chegar ao local desejado. O deslocamento aconteceu em aproximadamente meia-hora. Durante o trajeto foi possível conferir um pouco mais da extensa orla e também outras regiões da cidade que a principio me agradou bastante.
A descida no Terminal da França significava o começo da minha caminhada. Os anfitriões tinham me orientado sobre a região e por isso iniciei o passeio pelo Mercado Modelo situado na Cidade Baixa, como é conhecida a área que se estende ao longo da Baia de Todos-os-Santos. O mercado é do início do século XX e bastante famoso por suas centenas de lojas dedicadas ao artesanato, presentes, lembranças e restaurantes especializados em comida baiana. Como a minha pretensão não era comprar nada, apenas caminhei pela antiga construção antes de pegar o Elevador Lacerda que faz a ligação entre a Cidade Baixa e Cidade Alta.

Terminal Turístico Marítimo.
Mercado Modelo.
Mercado Modelo.
Mercado Modelo.
Elevador Lacerda.
Na praça em frente do Mercado Modelo existem comerciantes e também pessoas, principalmente mulheres, com vestimentas peculiares, que fazem uma abordagem um tanto desagradável aos turistas. Elas se aproximam e já encostam as mãos no ombro da pessoa na pretensão de fazer uma reza ou algo parecido. Como eu já tinha sido alertado sobre esse procedimento apenas agradeci de forma educada e disse que não precisava, pois eu estava ciente que ao final do “trabalho” elas solicitavam uma contribuição financeira, claro. Sei que ao recusar a “reza” a senhora me chamou de infeliz algumas vezes e com uma raiva imensa me deixou em paz. (Risada Sacana). Claro que não me importei com isso e continuei o passeio normalmente.

Praça na frente do Mercado Modelo. Elevador Lacerda ao fundo.
O Elevador Lacerda funciona como um transporte público onde o preço da passagem é de R$ 0,15. Rapidamente eu estava na Cidade Alta, mais precisamente na Praça Tomé de Sousa, nome alusivo àquele que foi o primeiro governador-geral do Brasil e que ainda no século XVI começou a construção do Palácio Rio Branco que durante os séculos seguintes passou por inúmeras reformas e abrigou o governo do Estado da Bahia. Hoje a visitação é permitida apenas na parte inferior onde é possível constatar um pouco do luxuoso edifício. Em uma das salas funciona um pequeno memorial referente aos governadores do estado.

Palácio Rio Branco.
Ainda na Praça Tomé de Sousa é possível ver a prefeitura e outros prédios históricos. O que desperta ainda mais a atenção é o fantástico visual da Baia de Todos-os-Santos (maior do Brasil e segunda do mundo) de onde também se visualiza o Elevador Lacerda de outro ângulo; Forte de São Marcelo; e boa parte da Cidade Baixa.

Registro garantido na Praça Tomé de Sousa. Ao fundo, Elevador Lacerda e Baia de Todos-os-Santos.
Histórico Elevador Lacerda.
Mercado Modelo de outro ângulo.
Forte de São Marcelo.
Forte São Marcelo e Terminal Turístico Marítimo à esquerda.
In foco.
Forte São Marcelo
Cidade Baixa e Elevador Lacerda visualizados da Praça Castro Alves.
Cidade Baixa.
Cidade Baixa.
Baia de Todos-os-Santos
Baia de Todos-os-Santos.
Forte São Marcelo.
Prédios históricos ao redor da Praça Tomé de Sousa.
Palácio Municipal/Câmara dos Vereadores
Prefeitura de Salvador.
Na sequencia andei por algumas ruas da região e me informei sobre qual direção ficava o Pelourinho que para a minha felicidade estava a poucas quadras de onde eu me localizava (Praça Castro Alves). Pelourinho é um bairro que faz parte do Centro Histórico de Salvador, tombado como Patrimônio Nacional e declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

Pelas ruas do centro histórico.
In foco.
Outrora o Pelourinho foi um bairro estratégico e que concentrava até 1960 as melhores residências da capital, contudo, com a modernização da cidade em outras regiões o local passou por um período de decadência que foi revertido apenas nas décadas seguintes com o reconhecimento da UNESCO e da revitalização do conjunto arquitetônico e cultural. 
Vale lembrar que a palavra pelourinho “se refere a uma coluna de pedra, localizada normalmente ao centro de uma praça, onde criminosos eram expostos e castigados. No Brasil Colônia, era, principalmente, usado para castigar escravos”.
“Hoje o Pelourinho, situado no coração do centro histórico da cidade [...] oferece inúmeras atrações artísticas e musicais. Há uma concentração de bares, restaurantes, boutiques, museus, teatros, igrejas e outros monumentos de grande valor histórico. [...] Agora é um Pelourinho revivido e colorido, repleto de atividades culturais e eventos.”
Sem dúvida o Pelourinho está revitalizado e muito diferente daquele apresentado pelo cinema como, por exemplo, no filme nacional: Ó Pai, Ó. Confesso que fiquei surpreso com esse conjunto arquitetônico colonial preservado. Impossível não se impressionar com as construções antigas, suas formas e cores, ladeiras, largos e ruas e todo um clima histórico e cultural. É simplesmente uma visita imperdível para quem está na capital baiana. Gostei demais, sobretudo, por verificar essa questão da preservação e conservação dos prédios históricos.

Praça da Sé no Pelourinho.
Construções coloniais ao lado da Praça da Sé.
As famosas baianas.
In foco.
Destaque para as cores dos casarões.
Terreiro de Jesus. Ao fundo, Catedral Basílica.
Catedral Basílica
Igreja de São Domingos.
Capoeira no Terreiro de Jesus.
Ladeiras típicas do Pelourinho.
Maravilha de conjunto arquitetônico.
Baiana.
Acarajé: iguaria típica da Bahia.
Coisa mais linda.
Um registro dos telhados dos casarões.
A presença das religiões afro-brasileiras.
Pelourinho: Simplesmente fascinante.
Pelas ruas históricas.
Território do bloco de carnaval Olodum, um dos mais conhecidos da capital.
Registro garantido.
Patrimônio da Humanidade.
Comércio é notório no Pelourinho.
Conjunto Arquitetônico
In foco.
In foco.
In foco.
Fascinante.
Talvez o ponto negativo no Pelourinho seja a abordagem constante de inúmeros vendedores ambulantes que oferecem, sobretudo, fitas religiosas, colares e outras coisas do gênero. A estratégia deles é oferecer, por exemplo, uma lembrança religiosa de presente, contudo, na sequencia pedem uma colaboração financeira pelo regalo. Para driblar esse assédio, basta recusar veementemente.
Vale destacar as interessantes igrejas presentes no Pelourinho que somam com aquelas espalhadas pela cidade mais de 365 templos católicos, um para cada dia do ano. No centro histórico a de maior evidência é a São Francisco com sua decoração ao melhor estilo barroco do século XVIII. É o templo mais rico em Salvador no que diz respeito a obras de talha dourada e primorosos azulejos. A entrada custa 5 reais e por isso eu contemplei apenas a área externa.

Igreja São Francisco.
Largo do Cruzeiro de São Francisco.
In foco.
In foco.
Largo do Cruzeiro de São Francisco.
Ainda se referindo às igrejas vale mencionar a Nossa Senhora do Rosário dos Pretos que data do século XVIII e se destaca também pelas fitas que são amarradas pelos fiéis e turistas na frente do templo que está localizado no Largo do Pelourinho que ainda concentra o Museu da Cidade e a Casa de Jorge Amado. Outra atração do local é o casarão onde Michael Jackson gravou They Don't Care About Us na companhia do Olodum, bloco do carnaval de Salvador. (veja clipe). Uma das casas onde o “rei do pop” gravou pode ser visitada para um registro na sacada, local em que Michael esteve presente.

Nossa Senhora do Rosário dos Pretos
Presença no Largo do Pelourinho
Na frente da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.
Largo do Pelourinho.
Largo do Pelourinho.
Cores e formas.
In foco.
In foco.
Largo do Pelourinho de outro ângulo.
À esquerda, Museu da Cidade e à direita, Casa de Jorge Amado.
Casa utilizada por Michael Jackson para gravar clipe com o Olodum.
Yo!
Turistas de todas as partes do mundo.
Pensei que não encontraria um restaurante econômico pela região do Pelourinho, mas surpreendentemente achei um em que a refeição (prato feito) estava muito caprichada e saborosa por apenas 8 reais. O local fica quase na frente da antiga faculdade de Medicina que por sinal é outro prédio interessante.
Na sequencia peguei um ônibus, próximo da Praça Tomé de Sousa, para o Farol da Barra que é outro ponto conhecido da capital e, diga-se de passagem, muito bonito. Desembarquei na Praia do Porto da Barra que estava completamente lotada já que o tempo ensolarado em pleno domingo era convidativo a um banho de mar. Muitos turistas também se encontravam no local.
Caminhei pela orla até o Forte de Santa Maria e posteriormente ao Farol da Barra. Todo o trajeto é marcado pela praia com águas claras e arrecifes em algumas partes. No Farol eu aproveitei para comer um acarajé (5 reais) que não estava bom como aquele provado em Fortaleza, mas mesmo assim foi uma boa pedida para finalizar o passeio. Peguei um ônibus em direção ao Parque de Pituaçu (orla) e menos de 40 minutos depois eu estava na casa dos anfitriões.

Praia do Porto da Barra com o Forte de Santa Maria ao fundo.
Forte de Santa Maria.
Forte de Santa Maria.
Farol da Barra.
In foco.
Praia do Porto da Barra.
Farol da Barra.
In foco.
In foco.
Registro garantido.
Praia do Porto da Barra 
Região atrás do Farol da Barra.
In foco.
Praia da Barra.
Forte de Santa Maria.
Farol da Barra.
Acarajé
In foco.
Um grupo de amigos de Lucia e Zena estava na residência para mais uma confraternização. Foi outra oportunidade para conhecer novas pessoas. Novamente não faltou assunto, principalmente porque boa parte da galera é do meio ciclístico. A companhia serviu para finalizar um dia inesquecível.

Deliciosa macarronada
Uma imagem vale mais do que mil palavras. Risada Sacana.
Galera do Amigos de Bike. Valeu pela companhia, pessoal.
05/08/2013 - 393° dia - Salvador (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.

Vale destacar que hoje a minha anfitriã, através da loja Alan Bike's & Motos, conseguiu um pneu novo para a roda traseira da Victoria. Acontece que o pneu Pirelli, com aproximadamente 4 mil km, já está na costura e não deve demorar muito para rasgar e ao comentar sobre a necessidade de um novo, a Lucia não mediu esforços para entrar em contato com o Alan que, por sua vez, não hesitou em apoiar o projeto e cedeu um pneu Kenda Kevlar sem nenhum custo. Por isso fica aqui meu agradecimento ao Alan e a divulgação de sua loja em Salvador.

Um registro com meus anfitriões Zena e Lucia.
Simbora seguir viagem, Lucia?
Alan Bike's & Motos - Salvador - Bahia.
06/08/2013 - 394° dia - Salvador (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
07/08/2013 - 395° dia - Salvador (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
08/08/2013 - 396° dia - Salvador (Folga)
Finalmente está concluída mais uma atualização no diário de bordo. A postagem seria realizada apenas no Rio de Janeiro, mas achei melhor adiantar para não acumular muito material, sobretudo, fotográfico.

Amanhã devo partir de Salvador em direção à capital fluminense. Muito provavelmente eu faça uma parada apenas no Espirito Santo para visitar um grande amigo cicloturista, contudo, a próxima atualização realmente será no Rio de Janeiro, onde devo chegar em duas semanas aproximadamente.

No mais, agradeço pela visita ao diário de bordo e a todo o apoio que tenho recebido. Muito obrigado.

Boa leitura.

Grande abraço.

"Hasta la Victoria Siempre"

09/08/2013 - 397° dia - Salvador (Folga)
Dia dedicado exclusivamente ao descanso.
10/08/2013 - 398° dia - Salvador (Folga)
Dia dedicado exclusivamente ao descanso.
11/08/2013 - 399° dia - Salvador a Valença
Dia de voltar à estrada.
Após um longo descanso, estava na hora de seguir viagem. Minha estadia na capital baiana foi maior e muito melhor do que eu pudera imaginar. Os dias em Salvador foram essenciais para atualizar o diário de bordo, conhecer a cidade, novas amizades e, sobretudo, adquirir um enorme aprendizado com o casal anfitrião que me recebeu muitíssimo bem em sua casa. Inclusive, foi por convite deles que a permanência se estendeu e proporcionou um último descanso antes de atravessar a Bahia. Obrigado, Lucia e Zena.
Acordei cedo, arrumei minha bagagem, tomei um café da manhã preparado pelo Zena e na sequencia deixei a “fazenda” dos anfitriões, não sem antes agradecê-los pela acolhida. Lucia não poderia me acompanhar na saída da cidade em razão de outros compromissos, todavia, o camarada Rafael Costa, leitor deste diário de bordo, aceitou o convite de me guiar até o Ferry Boat, onde eu embarcaria em direção à ilha de Itaparica.
Encontrei com o Rafael às 7h30m na orla de Pituaçu e começamos a pedalar pela ciclovia. Durante o trajeto passamos por várias praias, entre elas: Jardim Armação; Costa Azul/Jardim de Alá; Pituba; Rio Vermelho e; Ondina. Esta última faz parte do famoso circuito Barra x Ondina no carnaval de Salvador, um dos mais conhecidos do Brasil.
Orla de Pituaçu
Victoria no litoral da capital baiana.
Ciclovia 
In foco.
Camarada Rafael.
A orla de todas as praias estava bastante movimentada, muitas pessoas aproveitavam a manhã bonita de domingo para realizarem seus exercícios. Fazer atividade física em lugares privilegiados como aqueles deve ser ainda mais convidativo para não ficar em casa. Vale a pena destacar que as praias também são atraentes e certamente lotariam no decorrer das horas.
Para chegar à Ondina foi preciso passar por algumas ruas e avenidas já que a ciclovia não contempla toda a extensão da orla. Em todo caso, o caminho foi tranquilo e estratégia de sair no domingo pela manhã funcionou, uma vez que as vias estavam com movimento bastante reduzido. Em determinadas áreas, o congestionamento é inevitável durante os dias de semana, segundo informou o Rafael, que, diga-se de passagem, se preocupou o tempo todo em me contar as histórias e detalhes dos locais por onde pedalávamos. Também relatou seus planos no mundo do cicloturismo. Espero que em breve ele esteja me comunicando sobre a viagem, com sucesso, à Itacaré.
Chegada à Ondina.
Em Ondina, beira-mar, foi possível notar apartamentos com placas de aluga-se para o carnaval do ano que vem. Rafael me contou que, para sete dias de festa, a locação sai por 15 mil reais. Que tal? Acho que vou comprar um imóvel no local. (Risada Sacana). Aproveitei a existência de um banco da minha agência no bairro para sacar um pouco de dinheiro, estava praticamente zerado.
Pela Avenida Oceânica nos direcionamos ao Farol da Barra onde não demoramos para chegar. Essa região toda eu tinha percorrido a pé ou de ônibus no dia em que visitei o Pelourinho, contudo, refazer esse trajeto de bicicleta é muito mais interessante. O visual é simplesmente fantástico, sobretudo, nas partes mais altas da avenida, onde o panorama das praias do Cristo e Farol da Barra dispensa comentários.
Avenida Oceânica entre as praias do Cristo e Farol da Barra.
Em direção ao Farol da Barra.
Farol da Barra.
A orla do Farol da Barra estava extremamente movimentada, inclusive, parte da Avenida Oceânica é fechada na altura do farol para a prática de exercícios físicos. Esse “bônus” acontece somente nos domingos pela manhã.
Final da Avenida Oceânica, reservada exclusivamente para a prática de exercícios.
Farol da Barra.
Depois de passar também pela praia do Porto da Barra, começaram as subidas sentido à Cidade Alta. O caminho é marcado por inúmeros imóveis luxuosos que fazem a região ter o metro quadrado mais caro de Salvador. Não à toa é local em que famosos, como Ivete Sangalo e Claudia Leitte, tem suas casinhas.
Na Cidade Baixa tive a oportunidade de pedalar na frente do Elevador Lacerda que não foi devidamente registrado porque o camarada Rafael disse que a área não era muito segura para permanecer com a máquina fotográfica em mãos. Na sequencia ainda passamos pelo Mercado Modelo e o bairro Comércio que na região portuária estava com uma aparência de abandono e não era nada convidativa para um pedal. Por sorte, rapidamente chegamos ao Ferry Boat com 28 km pedalados.
Elevador Lacerda
No Ferry Boat a surpresa ficou por conta do preço a ser pago pelo transporte da bicicleta; 14 reais, incluindo a minha entrada. Simplesmente um absurdo. Os funcionários disseram que eu poderia ingressar na embarcação sem pagar pela bicicleta desde que ela fosse desmontada para passar na catraca. Não entendi muito bem o motivo, mas neste caso o pagamento seria de pouco mais de cinco reais, se não me engano. Sem chance de desmontar a Victoria naquela altura do campeonato. Fui obrigado a desembolsar R$ 14,50.
Com a passagem em mãos estava na hora de me despedir do Rafael, não sem antes agradecê-los pela companhia. Valeu camarada. A embarcação sairia às 11 horas da manhã, ou seja, eu teria que esperar mais de meia-hora. Aproveitei para mandar um salve para meu pai pelo seu dia. Também contatei a mãe para dar notícias e dizer que em muito breve o bom filho a casa retorna.
Se eu não me engano, o embarque foi permitido a partir das 10h30m. O Ferry Boat era muito parecido com aquele que fiz a travessia da Baía de São Marcos para chegar à São Luís no Maranhão. O procedimento também não foi diferente, deixei a Victoria encostada na área reservada aos veículos, tirei as coisas de maior valor e fui à parte superior. Com dois andares, a embarcação conta com algumas salas que dispõem de vários assentos para que os passageiros realizem a viagem de 50 minutos com um pouco mais de conforto.
Eu fiquei no convés do Ferry Boat para poder registrar a Baia de Todos-os-Santos que proporcionou um ângulo diferente e interessante de Salvador. O mesmo aconteceu do outro lado, quando nos aproximamos de Itaparica. Aliás, chegamos ao destino no tempo previsto. Esperei alguns veículos saírem para poder desembarcar a Victoria e começar o pedal ao meio-dia.

 Forte de Monte Serrat
Salvador de outro ângulo.
Baía de Todos-os-Santos.
Baía de Todos-os-Santos.
In foco.
In foco.
In foco.
Baía de Todos-os-Santos
In foco.
In foco.
Itaparica
Itaparica
A última imagem de Salvador.
A saída do terminal hidroviário em Itaparica acontece direto na BA 001, ou seja, não tive nenhuma dificuldade para encontrar o caminho em direção ao sul do estado. Minha pretensão é chegar ao Rio de Janeiro no dia 23 de agosto e 15 de setembro em Foz do Iguaçu. Para alcançar o objetivo até a capital fluminense será preciso não realizar nenhuma parada (folga) e pedalar no mínimo 100 km diários. Acho que é possível.
Marco zero da BA 101 em Itaparica.
Sentido Nazaré.
Pela BA 001 existem duas opções para “descer” ao sul da Bahia, ambas passam pela cidade de Nazaré e depois uma segue pela rodovia em questão e a outra vai para a BR 101. Fiquei em dúvida por qual delas eu continuaria o pedal. Como eu não pretendo realizar nenhuma visita ao litoral sul procurei analisar qual teria o relevo mais propicio para um deslocamento mais rápido. No final das contas optei por Valença via BA 001. Segundo me informaram o relevo não era muito diferente da rodovia federal e o caminho seria muito mais tranquilo.
Como a minha passagem por Itaparica aconteceu na hora do almoço, cogitei a idéia de parar em algum restaurante, contudo, nenhum me pareceu convidativo e como a fome ainda não era insuportável, achei melhor seguir em frente até aparecer algo mais atraente. Não foi uma boa estratégia, os estabelecimentos que encontrei na sequencia eram bem piores. Acontece que eles são uma mistura de bar e restaurante. E ninguém merece almoçar com um monte de bêbado do lado. Por isso, avante.
Na estrada, eu pedalava em direção à Nazaré. A ilha de Itaparica é grande e muito agradável para andar de bicicleta, não à toa se encontra muita gente que utiliza esse maravilhoso meio de transporte. Na saída do perímetro urbano de Itaparica encontrei com o ciclista Giovane que já viveu em muitos países e atualmente mora em um sitio na ilha. Com seus 55 anos (nada aparentes) busca um estilo de vida mais calmo em meio ao “campo” e próximo da praia. Sua mente aberta proporcionou uma conversa bem interessante sobre valores, prioridades e, principalmente, viagens. Inclusive ele curtiu bastante o projeto e disponibilizou hospitalidade em sua propriedade numa próxima passagem pela região. Pedalamos um trecho juntos e depois cada um seguiu sua direção.
Giovane e sua magrela peculiar.
O trajeto na ilha é plano na maior parte do tempo e a rodovia com acostamento favorece um pedal tranquilo. Pelo caminho é possível encontrar vilarejos com mercearias e bares/restaurantes. Vale ressaltar que muitos estabelecimentos ficam fechados aos domingos. Como minha bagagem estava com um estoque grande de bolachas, parte dele seria meu almoço.
BA 001 na ilha de Itaparica é perfeita para pedalar.
O trecho para Nazaré também foi sem muitas surpresas e por volta das 16 horas estava na cidade onde pensei em parar numa pousada no trevo para Valença que estava a mais de quarenta quilômetros. Continuei na estrada, ciente de que a decisão significava pedalar durante a noite. Sem problema.
Município de Nazaré.
Depois de Nazaré a estrada ficou muito ruim, sem acostamento e com a pista principal repleta de buracos.  As subidas também passam a ser frequentes, mas não chegam a ser assustadoras. A situação da rodovia não fica mais critica porque o trânsito, pelo menos aos domingos, é muito baixo e poucos veículos transitam por ela.
Nova realidade da BA 001 após Nazaré.
Entre Nazaré e Valença existem poucos povoados e aproveitei a existência de um deles para reabastecer minhas garrafas de água. A noite chegou rapidamente e com calma seguia em direção ao meu destino onde cheguei às 19h30m. Na entrada de Valência parei em um posto de combustível para pegar um pouco de álcool para poder cozinhar a janta. Meu botijão de gás acabou na Venezuela e depois que descobri o poder da espiriteira nunca mais voltei a utilizar o fogareiro. Há muito tempo eu não preparava minha refeição, mas como eu fiquei sem almoço e não queria gastar dinheiro com a janta, achei que poderia ser uma opção interessante.
Ao lado do posto de combustível tinha uma pousada onde fui conferir o preço da diária, mas 50 reais era muito dinheiro para o meu bolso e por isso continuei em direção ao centro da cidade. O início do perímetro urbano de Valença me pareceu uma região que merece muita atenção em relação à segurança, sobretudo, de noite. Tentei passar o mais rápido possível pelo local.
Na região central encontrei a Pousada Felix que chamou minha atenção pela simplicidade e por isso fui verificar a diária. O pernoite custava 20 reais sem o café da manhã. Como eu não tinha gasto nada com o almoço, fiquei na hospedagem cujas instalações não são novas, mas pelo preço é razoável. Às 20 horas estava devidamente acomodado para mais um descanso merecido. Antes de dormir ainda preparei uma macarronada com sardinha que foi degustada rapidamente.
Dia finalizado com 139,44 km em 9h07m e velocidade média de 15,2 km/h.
12/08/2013 - 400° dia - Valença a Travessão*
E a expedição chega aos 400 dias. Que maravilha!
A noite na pousada foi tranquila. Levantei cedo mais uma vez e pouco depois das 7 horas da manhã eu estava na estrada, quer dizer, nas ruas da cidade em busca da saída para a rodovia BA 001.
Assim como aconteceu em Nazaré, as ruas de Valença são de calçamento, pavimentação que sempre exige uma velocidade menor para evitar trepidação da bicicleta e consequentemente nas bagagens. Com as placas informando a direção do caminho desejado foi fácil retornar à rodovia. Meu destino hoje era pedalar pelo menos 100 km em direção à Travessão, onde encontraria a BR 101.
Quem visita o sul da Bahia certamente encontrará a Costa do Dendê, Costa do Cacau e Costa do Descobrimento. Essa primeira está localizada na região entre Valença e Camamu. Particularmente não sei identificar a palmeira que denomina essa área, contudo, é possível observar flora e fauna abundantes e exuberantes em todo o trajeto. Há uma diversidade enorme de frutas, algo que presenciei apenas no Amazonas.
Rodovia após a saída de Valença.
Coqueiros, dendês, cacau e muito mais na beira da estrada.
Na estrada é possível encontrar estabelecimentos que vendem cupuaçu, pupunha, guaraná, açaí e cacau, este último, por sua vez, está presente em toda a margem da rodovia. Para os moradores locais deve ser algo bem comum, mas para quem não está acostumado, com certeza é um ambiente que chama atenção.
Cacau
Cacau.
A rodovia BA 001 depois de Valença continua nas mesmas condições do trecho anterior no que diz respeito ao acostamento, relevo e trânsito. A tranquilidade impera e basta seguir atento sem deixar de observar flora e fauna da região.
Em direção à Camamu pela Costa do Dendê.
Um pouco antes de Camamu meu pneu traseiro furou e aproveitei para trocar não somente a câmera de ar, mas o próprio pneu. O Pirelli rodou pouco mais de 4 mil km e estava com as costuras à mostra e por isso precisava ser trocado para não furar novamente. Eu estava levando um Kenda Karma reserva desde Salvador. Não havia realizado a troca na capital baiana por preguiça. (Risada Sacana).
Mais um Pirelli chega ao fim.
O pneu Kenda é 2.0 e sem dúvida segura um pouco mais na estrada, mas tudo bem. O que custa fazer um esforço extra nas pernas? Sei que cheguei à Camamu por volta do meio-dia e, novamente, não encontrei nenhum restaurante convidativo a parar e almoçar. Não, eu não estou ficando exigente e fresco a essa altura do campeonato, mas acontece que tenho certa rejeição a esses lugares que misturam boteco com restaurante. Na verdade é apenas uma estratégia para não me deparar com bêbados chatos.
Camamu tem seus pontos turísticos, entre eles a baía que leva o mesmo nome e concentra ilhas e praias. Não cheguei nem a passar próximo dessa região, apenas continuei em direção à saída da cidade. No caminho encontrei uma placa que indicava o centro histórico, mas também não parei para conferir e por isso não sei maiores informações sobre o mesmo. Para quem passar pela região, recomendo a realização de uma pesquisa mais detalhada para desbravar a histórica Camamu. E quem já conhece pode deixar, aqui no diário de bordo, seu comentário sobre o município. Agradeço a colaboração.
Chegada à Camamu.
In foco.
Por volta das 14 horas passei pelo vilarejo de Acaraí e assim que atravessei uma ponte notei que ao lado do rio tinha um restaurante (La Bodeguita) que aparentava funcionar ainda naquele horário. Fui verificar e o almoço ainda era servido. Que maravilha! O prato feito custava 8 reais. Entre as opções da “mistura”, optei pela carne de sol. Estava tudo muito caprichado e delicioso. Fiz questão de elogiar a cozinheira, que por sinal, é a proprietária do local.
No restaurante me informaram que o trecho entre Acaraí e Travessão (40 km) não tinha nenhuma pousada e que esse segundo distrito era muito perigoso para chegar de noite, não pelos riscos da estrada, mas sim por causa da violência no povoado. Não desconsiderei a notícia e continuei o pedal para ver o que aconteceria.
Esse trecho final na BA 001 foi extremamente complicado para ser pedalado. As inúmeras subidas causaram um desgaste ainda maior na minha parte física. A sorte é que meu psicológico estava muito bom, entretanto, o ritmo menor foi inevitável. Aproveitava o deslocamento lento para observar um possível local para acampar, todavia, nenhuma propriedade parecia adequada, não havia outra coisa a fazer a não ser seguir para Travessão.
Um dos trechos em solo brasileiro que mais se parece com os Andes.
Entardecer na estrada.
Por volta das 18 horas e quando ainda faltavam 15 km para chegar à Travessão e eu completava mais uma subida, encontrei duas casas à beira da estrada. A princípio não seriam nada adequadas para passar a noite, pois não existia nenhuma varanda, apenas uma minúscula área onde não caberia a barraca, mas eu estava extremamente cansado e mais 15 km de montanha-russa acabariam com meu corpo e por isso achei melhor parar e solicitar um canto para minha estadia.
Como já mencionei em postagens anteriores, quando sei que vou acampar, procuro encontrar um local propicio quando ainda existe a luz do dia para que o proprietário consiga me ver nitidamente e possa depositar um pouco de confiança. Hoje, como estava escuro, aconteceu justamente o contrário.
Quando cheguei na frente da propriedade, notei que uma das casas estava com a luz acesa, mas assim que os moradores perceberam meu chamado a lâmpada foi desligada. Fiquei meio desconfiado, mas continuei a chama-los. Um homem finalmente saiu na porta e perguntou, sem cerimonia, o que eu gostaria. Como ninguém conseguia enxergar ninguém, solicitei que ele viesse conversar comigo. Mencionei que era apenas um viajante.
Com muito custo, um jovem se aproximou da porteira e extremamente desconfiado perguntou o que eu desejava. Foi então que expliquei sobre a viagem e que, naquele momento, seria muito complicado chegar à Travessão e por isso necessitava de um lugar para passar a noite. O rapaz ouviu o pedido e chamou outro homem que não queria se aproximar, mas com a insistência do jovem, acabou chegando perto para ouvir o requerimento. Este segundo homem pediu para aguardar enquanto conversava com uma mulher. A senhora também demonstrou incômodo com a minha presença. Era muita desconfiança numa única casa. Misericórdia.
Para mostrar que eu não era um andarilho, pedarilho, mendigo ou coisa do tipo, disse que era professor de história e realizava um projeto de bicicleta pela América Latina. Também deixei claro, várias vezes, que precisava apenas de um canto para poder montar a barraca, atar a rede ou esticar o saco de dormir para passar a noite e no dia seguinte seguiria viagem. O pessoal pensou mais um pouco, mas acabou por ceder e permitir a minha presença no local.
No final das contas não precisei montar a barraca e nem a rede. Uma cama estava disponível na casa mais simples e eu poderia dormir nela sem nenhum problema. Apenas estiquei o saco de dormir para servir como lençol e cobertor. Perfeito. Estava devidamente alojado, pelo menos, eu imaginava.
O pessoal da casa ficou muito curioso com a viagem e não demorou muito para as perguntas começarem. Pacientemente respondia cada uma delas. Um dos questionamentos foi em relação à segurança. Quando disse que não tinha acontecido nada até o momento, eles ficaram surpresos e começaram a mencionar os casos de violência na região, sobretudo, em Travessão que parecia mesmo ser perigoso. Àquela altura eu me convencia que tinha parado mesmo na hora certa. Mas essa certeza foi logo desconstruída quando um dos moradores começou a relatar que tinha levado dois tiros na cabeça por causa de umas “tretas” que mais tarde eu descobri que estavam relacionadas com as drogas.
Para preservar a identidade do pessoal, utilizarei outros nomes. Arnaldo, o cara que levou os tiros era um ex. dependente químico que hoje faz questão de dizer que está em tratamento numa clinica em uma cidade próxima. Estava alguns dias com a família porque ganhou o direito depois de três meses internado, no dia seguinte voltaria a terminar o tratamento que tem mais nove meses de duração. Segundo ele, estava limpo desde que começou a se recuperar.
Já que Arnaldo voltaria para a clinica, José (jovem que me atendeu) ficaria com a mãe para cuidar da propriedade e também do Marcos, irmão de criação do Arnaldo e que tinha um pouco de deficiência mental, mas que era muito inteligente, apesar das limitações. João, um amigo da família também estava na casa. A conversa entre eles estava cada vez mais “cabulosa” e eu já não tinha mais certeza se estava no lugar certo. Não pelo pessoal, mas de quem poderia chegar para um eventual acerto de contas, não sei, pensei em várias coisas, ainda mais depois que descobri que o povo estava armado.
Eu poderia estar um pouco preocupado com toda a situação, mas não deixei eles perceberem isso. No final ainda me ofereceram um café e biscoitos. Confesso que fiquei meio ressabiado em aceitar a bebida, vai saber o que poderia ter dentro, mas a princípio era apenas café. Fiz questão de aceitar cordialidade. É preciso respeitar os “manos”.
A cama onde eu estava ficava na “sala” da casa mais simples. No quarto dormia o José que antes de deitar fechou a porta com uma proteção especial e involuntariamente confirmava o nível de segurança que o local exigia. Na minha frente tinha um pequeno altar com santos e imagens de Jesus Cristo. Era minha verdadeira proteção em meio a tudo aquilo.
Sei que a partir de agora vou selecionar ainda melhor os lugares para dormir. Talvez gaste até um pouco mais para pousar em hospedagens, mas antes ficar pobre do que sem vida por alguma besteira, ainda mais agora que a viagem chega à reta final.
Dia finalizado com 102,56 km pedalados em 8h03m e velocidade média de 12,7 km/h.
13/08/2013 - 401° dia - Travessão* a Buerarema
O dia do livramento!
A noite foi tranquila e sem nenhuma surpresa, ainda bem. Descansei bastante e às 6 horas da manhã já estava levantado e preparado para seguir viagem. Não sem antes tomar um café e agradecer ao José e sua mãe pela hospitalidade.
O pedal começou às 6h30m debaixo de muita chuva. Para variar percebi que o pneu traseiro estava um pouco murcho e provavelmente furado. Que maravilha! Nada melhor para começar o dia. Quer dizer, a situação poderia ficar ainda mais emocionante. E as subidas se encarregaram de fazer esse papel e permaneceram. Logo na saída do sítio um aclive íngreme me aguardava. Misericórdia.
Tensão na estrada. Dez minutos depois da saída, ao completar a primeira subida do dia na BA 001 e prestes a fazer uma curva à esquerda sou surpreendido por um motorista irresponsável (em alta velocidade) que, no sentido contrário, perde o controle da sua máquina mortífera, digo, automóvel, não consegue fazer a curva, passa na minha frente e não me acerta por míseros 15 metros antes de se chocar no barranco.
Foi tudo muito rápido, mas parece que visualizei toda a cena em câmera lenta, desde o momento em que o Fiat Doblo apontou na estrada e logo invadiu a outra pista e o acostamento onde eu estava. Foi por pouco, muito pouco que não fui atingido. Quando percebi que o carro tinha perdido o controle fiz questão de frear a bicicleta imediatamente, caso contrário a situação teria sido diferente.
Se não bastasse cruzar a minha frente, o veículo passou do meu lado e ficou entre eu e o barranco, onde colidiu a lateral. O carro estava em uma velocidade tão alta que mesmo após a batida o motorista não parou e ainda saiu acelerado como se nada tivesse acontecido.
Estou desde 2006 no mundo do cicloturismo e já vi vários acidentes na estrada, muitos, infelizmente, fatais, contudo, ano após ano, a imprudência está cada vez maior e tenho relatado isso com frequência aqui no diário de bordo. Somente quem vive a realidade das estradas para saber o nível absurdo e criminoso dos motoristas irresponsáveis. As imprudências são de todos os tipos que se possa imaginar.
Hoje tive a sorte de sair ileso, mas quantas pessoas inocentes não perdem a vida por causa desses criminosos que jamais deveriam ter licença para dirigir. Sim, porque não há diferença entre matar com uma arma de fogo e um automóvel. É bom ressaltar também que imprudência é diferente de acidente. Este, todos nós estamos sujeitos em todos os lugares, inclusive, dentro de casa. Agora, imprudência é crime e que deve ser considerada como tal para evitar outras vitimas.
Talvez algumas pessoas possam pensar e/ou questionar: Pô, Nelson, mas você também procura a morte. Que história é essa de ficar viajando de bicicleta por essas estradas perigosas? Meus amigos, todos nós temos o direito de ir e vir com o mínimo de segurança, quem não deve estar em liberdade é justamente esses criminosos atrás do volante. Esses não poderiam dirigir e ainda deveriam cumprir a pena por seus atos conforme determina a lei. Uma pena que no Brasil essas mesmas leis são brandas e quando existem não se fazem valer.
Sempre estive ciente dos riscos aos quais estou sujeito, afinal, como mencionei, acidentes acontecem em todos os lugares, contudo, é impossível naturalizar situações como essa de hoje. Não, isso não pode acontecer porque não foi um acidente. O veículo, conduzido pelo irresponsável motorista, estava em alta velocidade, muito além daquela permitida na rodovia, ainda mais sob aquelas condições. Lamentável.
Volto a reforçar, se você é motorista, por favor, não cometa essa burrice de achar que você é um super-herói na estrada e que sua “máquina” tem poderes que te deixam imune a todo tipo de acidente. Esse pensamento é mais do que equivocado e mais cedo ou tarde o único resultado é o sofrimento de alguém que perdeu o ente querido em um acidente provocado pela sua estupidez. Não corra, não mate e não morra!
Para quem acha que dirige corretamente eu deixo um aviso também, fiscalize seu próprio comportamento no trânsito para evitar qualquer tipo de eventualidade. Continue na direção defensiva e reforce esse tipo de conduta aos seus amigos, sobretudo, para aqueles que não tem a mínima idéia do perigo que a irresponsabilidade pode trazer. Fica a dica.
Acho que fiquei um minuto parado no local do sinistro antes de seguir viagem. Eu não acreditava no que tinha acabado de acontecer. Jamais havia passado por algo parecido em tantos anos de cicloturismo. Misericórdia. Fiquei parado, assustado, sem entender direito tudo aquilo. Lembrei apenas de agradecer a Deus a quem eu tinha feito minha oração de proteção minutos antes de tudo isso acontecer.
Ainda incrédulo, voltei a pedalar, meu coração estava mais acelerado do que o normal, minha respiração diferente e no meu pensamento somente a cena do veículo invadindo a pista. Fiquei imediatamente com trauma e parecia que em toda curva que eu passava um veículo sairia em minha direção. Que sensação horrível! Meu psicológico ficou abalado. Não esperava esse tipo de situação no final da viagem. É tudo muito novo e ainda procuro uma maneira de administrar o acontecido na minha mente.
O trajeto até Travessão foi realmente de quinze quilômetros e muitas subidas. No pequeno distrito pertencente à Camamu, finalmente voltei à BR 101, agora em território baiano. O movimento de veículos aumentou consideravelmente, sobretudo, de caminhões, mas pelo menos o acostamento era decente e os aclives mais íngremes ficaram restritos aos primeiros quilômetros, depois um leve sobe e desce com algumas partes planas.
A chuva permaneceu por quase toda a manhã e a sapata dos freios começaram a ficar totalmente desgastadas. Eu teria que troca-las o quanto antes para a minha própria segurança. Destaque da BR 101 fica por conta da fauna e, sobretudo, flora, extremamente ricas. Uma extensa área com mata nativa deixa o pedal ainda mais agradável, até mesmo debaixo de chuva.
BR 101 na Bahia.
Várias fazendas neste estilo à beira da rodovia.
Em Ubaitaba passei sem maiores dificuldades, me falaram que a cidade era perigosa, as pessoas matavam durante a luz do dia e isso e aquilo. Mas nada aconteceu. Na sequencia, em Aurelino Leal, parei num posto para calibrar o pneu traseiro que realmente estava furado, mas em pequenas proporções, fiquei de trocar a câmera somente no final do dia. Assim, seguiria enchendo sempre que necessário. O bom de uma rodovia movimentada é que os postos de combustíveis estão presentes com maior frequência e disponibilizam calibrador, bebedouro e alguns, restaurantes e pousadas.
Próximo do meio dia a fome já era grande e eu esperava ansioso por um restaurante para almoçar. Uma placa indicava que o próximo estava no km 471. A essa altura a chuva tinha dado uma trégua e eu estava quase seco, mas faltando dois quilômetros para chegar ao restaurante, um baita temporal me deixou todo encharcado. Que beleza!
No restaurante a refeição mais barata era self-service por R$ 12,90, o preço um pouco acima da média fazia jus ao cardápio oferecido.  Meus pratos ficaram bem caprichados. Dessa vez tive um exclusivamente para as carnes. Acho que ganhei pelo menos um quilo na hora do almoço. Que maravilha!
Voltei à estrada com mais chuva. Meu objetivo era, novamente, completar os cem quilômetros diários. Alcançaria a distância na cidade de Itabuna, bastante conhecida no estado e que também me falaram ser perigosa. Mas assim como aconteceu em Ubaitaba, minha passagem foi tranquila. Fiquei atento para encontrar um hotel às margens da rodovia, mas apenas no final do perímetro urbano fui achar uma pousada onde a diária mais em conta era de 55 reais. Obrigado e até a próxima. (Risada Sacana). Infelizmente fui obrigado a seguir viagem.
Na entrada de Itabuna.
Eu gostaria de ter parado em Itabuna porque ainda era relativamente cedo e eu poderia escrever no diário de bordo, mas tive que seguir em direção à Buerarema que ficava a quase 20 km de distância. Paciência. O relevo não prejudicou muito, mas o acostamento não estava em suas melhores condições e nas descidas eu comecei a pedalar devagar e com muita atenção por causa dos buracos, principalmente porque os freios estavam comprometidos e eu não queria levar uma queda por causa disso.
Cheguei à Buerarema quase às 18 horas e na entrada da cidade encontrei a pousada Corsário, onde consegui um desconto de 20 reais na diária que acabou por 25 reais. Recomendo bastante, instalações novas e confortáveis, com televisão, internet, chuveiro elétrico e ventilador.
Eu tinha o diário de bordo para escrever, mas também necessitava trocar a câmera furada e consertar as reservas. Essa tarefa me levou muitos minutos e ao final tive coragem apenas de tomar um banho e capotar na cama. Mais um dia sem escrever. Que tristeza. Digo isso porque cada dia que passa, acumula mais e mais material e dessa vez eu não tenho mais tempo para ter folga em um lugar para atualizar o diário e realizar uma nova postagem. Ainda não sei como vou conciliar isso daqui para frente.
Após um inicio assustador, o dia terminava de uma forma tranquila e com um descanso mais do que merecido, graças a Deus.
Dia finalizado com 119,85 km pedalados em 9h02m e velocidade média de 13,2 km/h.
14/08/2013 - 402° dia - Buerarema a São João do Paraíso
Depois da tempestade a bonança.
Nada como um dia após o outro.
Noite mais do que tranquila na pousada. Acordei por volta das 6 horas e imediatamente levantei para colocar o pneu traseiro no lugar. No dia anterior apenas tinha remendado as câmeras. Após realizar a tarefa e arrumar a bagagem, degustei um pacote de bolacha e retornei à estrada por volta das 7h30m.
Objetivo era mais uma vez completar, pelo menos, cem quilômetros. Não tinha muita certeza de onde a distância seria completada porque depois de Camacan não havia muitos povoados, vilarejos e distritos próximos. Essa era a informação do meu mapa. De qualquer forma a estratégia principal tem sido avançar e aos poucos isso acontece na medida do possível.
Logo após a saída da pousada, passei em um posto para acabar de calibrar o pneu e perguntei ao funcionário sobre a existência de alguma bicicletaria para poder trocar as borrachas do freio. É muito difícil uma cidade não ter uma oficina, mas essa foi a informação repassada pelo senhor que mencionou existir bicicletarias apenas em Itabuna. Está bom que eu voltaria 20 quilômetros. Segui em direção à Camacan.
O tempo na parte da manhã estava ótimo para pedalar, sem chuva, sol, temperatura amena. Perfeito. A estrada alternava trechos bons e ruins. Em algumas partes o acostamento ficava com muita pedra brita solta e dificultava o avanço, mas para a minha felicidade essas partes não eram predominantes.
Em São José da Vitória, logo depois de Buerarema resolvi parar e perguntar para um senhor sobre a existência de alguma bicicletaria. Para além da resposta positiva ele me levou até o local que não ficava longe da entrada do distrito. Na oficina fui muito bem atendido pelo funcionário Bueno que fez questão de dar atenção máxima à Victoria. Ele trocou as sapatas dos dois freios e deixou perfeitamente regulado. Não tinha nome na fachada da loja, mas também não acredito que tenha outras bicicletarias, então se você estiver de passagem e precisar de alguma coisa, recomendo o local. Fica a dica.
Na estrada, a situação não mudou muito e continuei observando os pássaros e toda a natureza ao lado da rodovia. Como meu café da manhã não foi muito reforçado, logo fiquei com fome e nem adiantou mandar mais um pacote de bolacha para o estômago. Cheguei a um ponto que pensei em subir num pé de jaca para pegar a fruta e matar a fome, mas seria muito empenho. (Risada Sacana).

Trecho da rodovia após São José da Vitória. Em pouco tempo o céu estaria nublado.
Mudança repentina no tempo.
BR 101 - Bahia
A região é repleta de jacas, cacaus e bananas, essas últimas encontram-se bastante à venda nas margens da estrada. Em uma barraca parei e perguntei o preço de cinco delas. Surpreendentemente o vendedor disse que se eu comesse no local não precisava pagar nada. Isso porque um cacho de bananas custava apenas dois reais.

Região dos bananais e do acostamento virado em brita.
Apenas dois reais cada cacho. Que tal?
In foco.
O vendedor frisou várias vezes que eu poderia comer a quantidade de bananas que eu quisesse, inclusive, sugeriu que eu levasse o cacho sem nenhum custo. Agradeci a gentileza, recuperei uma boa quantidade de potássio e voltei à estrada para encarar mais um bom trecho de subidas. O trajeto sinuoso me fez lembrar, em várias ocasiões, do sinistro de ontem. A sensação era a mesma; de que os veículos sairiam da pista em minha direção. Que coisa mais chata.
Cheguei à Camacan por volta das 14 horas e parei no primeiro restaurante que encontrei. Prato feito a 12 reais. Não estava muito caprichado (quantidade), mas estou longe de reclamar da bendita refeição de cada dia. Matei parte da minha fome.
Retornei à estrada com a pretensão de parar em São João do Paraíso, nome do povoado que falaram que eu encontraria em 35 quilômetros. Como fecharia os 100 quilômetros pedalados, achei que seria o local ideal para finalizar o pedal e ainda escrever um pouco do diário de bordo.
Durante o caminho para o local desejado, um motociclista buzinou e retornou para falar comigo. Reilan Rodrigues é ciclista profissional de speed e já correu por equipes de São Paulo, onde disputou campeonatos paulista e brasileiro. Conversamos um pouco e ele se disse admirado com o meu projeto, inclusive, ficou espantado quando mencionei que a quilometragem passava dos 18 mil quilômetros. Obrigado pelas palavras de apoio, camarada. Espero que um dia você consiga realizar sua cicloviagem de São Paulo à Bahia. Grande abraço.
Reilan disse que eu encontraria algumas subidas até São João do Paraíso e que antes de chegar no povoado um aclive de dois quilômetros me aguardava. Sem problema. Continuei pedalando quando fui, mais uma vez, abordado por outro veículo, desta vez um carro com dois competidores da Ecomotion, uma competição de tinha acontecido em Itacaré. No automóvel, Rafael e Márcio, residentes no Rio de Janeiro, também ficaram curiosos para saber mais detalhes da viagem e, inclusive, fizeram questão de me oferecer água, bolo e até mesmo algumas castanhas de caju. Esse tipo de recepção na estrada é sempre muito gratificante. Vejo como um grande reconhecimento pelo que vem sendo feito. Sem contar que é um animo a mais para encarar o trecho restante, que no meu caso era de muita subida. Obrigado, camaradas.
Os dez quilômetros antes de chegar à São João do Paraíso realmente concentram as subidas mais íngremes depois de Camacan. E o destaque fica mesmo por conta do aclive frisado pelo Reilan, mas longe de ser assustador, o mesmo foi completado sem maiores dificuldades. No final, como recompensa, o local desejado. Finalmente no Paraíso.

No final da subida  de dois quilômetros.
Na entrada do distrito pertencente à Mascote, visualizei diversas placas de hotéis e pousadas à beira da estrada. Fiquei animado porque as opções significavam concorrência e consequentemente preços mais flexíveis. Parei no Hotel Marques (que não pertence à família da minha amada, rs) e a diária começou em 35 no quarto com ventilador, mas com pedido de desconto, fechamos em 25 reais. Surpreendentemente o hotel é simplesmente um dos mais sofisticados que já fiquei na viagem. Instalações novas e modernas, ambiente agradável e com internet disponível. Perfeito para atualizar o diário de bordo e quem sabe realizar uma nova postagem.
Como parei por volta das 17 horas e desta vez não precisava remendar nenhuma câmera de ar, eu tinha um tempo, ainda que curto, para escrever no diário de bordo, contudo, ainda que eu conseguisse escrever até altas horas da madrugada, não conseguiria finalizar, muita coisa para relatar. Fui dormir sem saber se no dia seguinte eu ficaria até 11h30m no hotel, quando vencia minha diária ou se permaneceria mais um dia no local, ainda que essas decisões, a princípio, prejudique meu planejamento de chegar no Rio de Janeiro no próximo dia 23. Acontece que não posso deixar para atualizar o diário apenas na capital fluminense porque se não os dois dias que passarei na cidade maravilhosa serão somente para escrever. E quero poder aproveitar esse tempo para rever velhos amigos.
Durante a noite tinha a pretensão de preparar minha janta, mas depois que tudo estava preparado, a caixa de fósforos estava molhada e de maneira alguma consegui acender o fogo. Como eu acho que não é muito aceitável cozinhar no quarto, não fui solicitar fósforo para a recepcionista e tampouco sai num boteco de noite para compra-lo. A macarronada cedeu espaço a mais um pacote de bolacha. Sacanagem! (Risada Sacana)
Dia finalizado com 97,33 km pedalados em 6h41m e velocidade média de 14,1 km/h.
15/08/2013 - 403° dia - São João do Paraíso (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
Caros amigos, em respeito a vocês, fiz essa pausa inesperada e extraordinária para poder realizar uma nova postagem com o relato dos últimos acontecimentos. Com essa decisão de permanecer em São João do Paraíso vou ter que aumentar a quilometragem diária daqui para frente se eu ainda quiser chegar ao Rio de Janeiro no dia 23 deste mês. Espero que dê tudo certo.
Também quero aproveitar para agradecer aos leitores que tem me ajudado na aquisição do livro em sua pré-venda. Para quem ainda deseja colaborar com o projeto, a obra pode ser adquirida no seguinte endereço:  Reserve aqui!
Grande abraço.
“Hasta la Victoria Siempre”
16/08/2013 - 404° dia - São José do Paraíso a Eunápolis
Faltou muito pouco para o dia ser um dos mais tranquilos da expedição.
Atípica. Assim foi minha sexta-feira. Com muito sacrifício, o diário de bordo foi atualizado apenas às 2 horas da madrugada (quinta para sexta). A velocidade da internet não colaborou no momento da postagem dos registros fotográficos e por isso finalizei a tarefa neste horário. Não preciso dizer que estava morto de sono, sobretudo, porque o dia anterior foi exclusivamente dedicado ao diário de bordo.
Com a folga extraordinária de ontem eu precisava sair hoje bem cedo para pedalar uma quilometragem maior, no entanto, acordei somente por volta das 7h30m. Não coloquei o celular para despertar porque pensei que acordaria naturalmente no horário de sempre, ou seja, aproximadamente às 6 horas da matina, mas não foi o que aconteceu.
Como levantei tarde, arrumei minha bagagem o mais rápido possível, degustei minhas bolachas energéticas e retornei à estrada às 8h30m. O tempo nublado indicava que a chuva que caiu de madrugada poderia voltar a desabar a qualquer momento. Não me importei com isso e comecei a pedalar em direção à Eunápolis, cidade determinada para finalizar o dia, uma vez que a distância até o local seria de aproximadamente cem quilômetros.

Em direção à Eunápolis. Chuva pelo caminho.
Na estrada o pedal foi tranquilo, quer dizer, as subidas continuaram presentes, contudo, as descidas estavam generosas e a quilometragem passou, relativamente, mais rápida no velocímetro. Vale a pena ressaltar que o acostamento e a minha energia restabelecida (folga de ontem) ajudaram no deslocamento em um ritmo maior, inclusive, os aclives eram completados com uma velocidade de 3-4 km/h a mais. Parece pouco, mas pode acreditar que é muita diferença no final do dia.
Quando cheguei ao trevo de Itapebi encontrei as placas que indicavam o litoral sul, mais precisamente à Santa Cruz de Cabrália, no entanto, a cidade não estava no meu roteiro e continuei pela BR 101. Observação: No meu mapa, esse caminho para Santa Cruz não é asfaltado, contudo, me parece que o mesmo já se encontra com pavimentação.
Pela BR 101 comecei a me deparar com um tráfego significativo de veículos longos, leia-se, caminhões responsáveis pelo transporte de eucaliptos, que por sua vez, são encontrados com facilidade pelas propriedades rurais às margens da estrada. Esse movimento me surpreendeu porque esperava visualiza-lo apenas no Espirito Santo, onde a situação com esse mesmo tipo de veículo exige atenção redobrada, sobretudo, pela limitação do acostamento. Aqui na Bahia esse espaço de “segurança” nos permite um pedal mais tranquilo.
Na rodovia, além do transporte de eucaliptos é possível encontrar acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em determinados trechos existem famílias isoladas que não pertencem ao MST, mas que também vivem em uma situação precária. Realidade muito triste de ser observada, sobretudo, porque nos barracos construídos à beira da estrada sempre tem uma, duas ou mais crianças brincando com aquilo que tem a disposição, que na maioria das vezes é quase nada, infelizmente.
A região montanhosa que esteve presente em todo o trajeto na BR 101 até São João do Paraíso, continuou no horizonte, todavia, a área florestal deu espaço a muitos hectares destinados à pastagem e ao cultivo de eucalipto. Essa soma resulta em uma paisagem pouco interessante, ainda mais com o tempo nublado. Por várias vezes escapei da chuva que era visível em lugares próximos daquele onde eu estava.
Mesmo com a minha saída tardia do hotel, por volta das 13 horas, já estava em Itagimirim com mais de sessenta quilômetros pedalados. Aproveitei um restaurante paralelo a um posto de combustível e fui almoçar. O prato feito, relativamente caprichado, custou 12 reais. Aqui no sul da Bahia esse tem sido o valor padrão para esse tipo de refeição. Infelizmente é um pouco mais caro do que em outros locais.
Na parte da tarde não foi possível escapar da chuva e muito menos das subidas e descidas. Por essas bandas quase não existe um meio termo, ou seja, pedalar em um terreno plano não é muito comum, esteja ciente disso quando planejar sua passagem pelo local.
Conforme o previsto, minha chegada à Eunápolis ficou na casa dos cem quilômetros. Para variar, continuava chovendo e sob essa condição comecei a procurar uma hospedagem aparentemente mais econômica para passar a noite. Não estava fácil e durante essa busca passei pelo trevo de acesso à Porto Seguro pela BR 367.  A cidade histórica será visitada apenas em outra oportunidade. Naquele momento me concentrei na hospedagem.
Terminei o dia às 17 horas no Hotel Brasil - Itália onde recebi um desconto e a diária saiu por trinta reais. Uma facada para o meu bolso, contudo, fiquei em razão do café da manhã disponível no dia seguinte. Querendo ou não é uma refeição a mais, e no estado em que eu me encontro isso é muito importante para não perder peso.
O hotel é grande, as instalações razoáveis e o dormitório com ar-condicionado, banheiro (chuveiro elétrico) e também sinal wi-fi. A Victoria ficou na imensa garagem localizada na parte inferior do prédio. Retirei apenas os alforjes dianteiros e mais algumas coisas de valor, incluindo, a panela e os alimentos. (Risada Sacana). Isso porque preparei a minha janta novamente. Desta vez o fósforo não me deixou na mão.
Aproveitei a disponibilidade da internet para agradecer aqueles que têm realizado a compra do livro na pré-venda. Também fiz questão de deixar meu muito obrigado aos que mandaram mensagens positivas nos últimos dias. Muitos leitores que acompanharam, anonimamente, o diário de bordo tem se manifestado com palavras de incentivo nesta reta final e também colaborado financeiramente, algo de extrema importância já que meus gastos com hospedagem e alimentação tem aumentado. De qualquer forma, fiquei extremamente feliz com essa receptividade dos leitores com o diário de bordo. Obrigado meus amigos.
Devidamente alojado, limpo e alimentado, fui descansar e ter o sono dos justos.
Dia finalizado com 109,85 km pedalados em 7h29m e velocidade média de 14,6 km/h.
17/08/2013 - 405° dia - Eunápolis a Itamaraju
Surpresas, subidas, chuvas, montanhas e muito mais.
Acordei tarde mais uma vez. Acho que meu corpo tem pedido um descanso maior, levantei apenas por volta das 7h30m. Eu não necessitava madrugar porque o café da manhã começaria a ser servido apenas às 7 horas, mas não precisava me atrasar. Meus planos de fazer 150 km estavam comprometidos, mas tudo bem. Sem estresse.
A refeição matinal estava simples, porém muito saborosa, suficiente para restabelecer as energias, ao menos, por algumas poucas horas. No refeitório, dois homens começaram a conversar comigo. Questionaram se eu era o ciclista viajante. Certamente haviam visualizado a Victoria na garagem. Pensei que eram hóspedes, mas somente depois fui saber que um deles era o proprietário do hotel. Vanderlei me contou mais tarde que também era missionário e ficou impressionado, não somente com a expedição, mas como Deus vem agindo sobre mim durante esse projeto maravilhoso. No final, fizemos uma oração, recebemos a palavra do Senhor e voltei ao quarto para arrumar minhas coisas. Estava feliz porque na verdade não tinha perdido tempo, apesar do atraso. É aquela conhecida frase: Tudo depende dos olhos de quem vê.

Missionário Vanderlei, eu e mais um irmão.
Voltei à estrada apenas às 9h30m e pouco tempo depois, ainda no perímetro urbano, começou a chuva de novo. Estou na época de maior precipitação na região nordeste, por isso, essa constante realidade climática. Paciência. Com mais uma saída tardia, meus planos foram, mais uma vez, modificados, e ao invés de parar em Teixeira de Freitas, coloquei como objetivo terminar o dia em Itamaraju que ficava aproximadamente cem quilômetros de Eunápolis.
O trajeto para Itamaraju foi muito mais complicado do que aquele de ontem. A montanha-russa continuou presente e desta vez com aclives ainda mais íngremes. Felizmente o acostamento também permaneceu e ofereceu uma segurança um pouco maior, no entanto, a pavimentação não era das melhores e parecia uma verdadeira lixa. Pedalar por esse espaço não favoreceu o deslocamento. Paciência mais uma vez.
Parte da montanha-russa no horizonte.
In foco.
O relevo no trecho entre Eunápolis e Itabela é extremamente acidentado e a rodovia tem muitas curvas, em várias delas existem marcas dos acidentes, sobretudo, de caminhões que perderam o controle ao passar pela parte sinuosa. Mesmo com essa realidade perigosa da região, acho que meu trauma com relação às curvas vem diminuindo, ainda bem.
O cenário até Itabela também não é diferente daquele do dia anterior: pastagens com criação de gado e o cultivo de eucaliptos. Novos acampamentos do MST também foram visualizados, um deles, diga-se de passagem, muito bem organizado. Uma luta bonita de se ver. Como dizia uma frase no local: O melhor adubo para a terra é o suor de quem trabalha nela. Apenas quem não conhece a história do Brasil, do próprio Movimento e sua realidade é que chama seus integrantes de vagabundos e outras coisas. Já mencionei aqui no site, mas reitero meu posicionamento de apoio à luta pela reforma agrária neste país.
Ambiente bucólico na estrada.
Um pouco depois de Itabela parei em um restaurante à beira da estrada para almoçar. Prato feito por 9 reais, um pouco mais barato, felizmente. A refeição caseira estava simples, porém saborosa. Suficiente para saciar a fome.
Pouco depois das 12h30m eu já estava, novamente, na estrada para poder concluir o pedal. Mais chuva, subida e acostamento lixa, nada favorável. Em um momento fui obrigado a passar em um buraco que estava coberto de água e lamentavelmente escutei o som que há algum tempo não soava. Infelizmente, mais um raio quebrado. Misericórdia. Acho que o último danificado foi trocado em Fortaleza. Agora vou continuar assim até o litoral paulista a não ser que outros comecem a quebrar e me obriguem a parar em uma oficina pelo caminho.
Na estrada também encontrei o Parque Nacional de Monte Pascoal, uma área bastante montanhosa. O famoso Monte Pascoal (avistado por Cabral em 1500) fica a 14 km da rodovia. Entre várias montanhas não sei se consegui visualiza-lo e identifica-lo. Mas outras montanhas se encarregaram de deixar o ambiente interessante.
Montanhas com elevações significativas.
Destaque para o monte ao fundo. 
Entrada para a estrada em direção ao Monte Pascoal.
Região montanhosa.
In foco.
Mais um fim de tarde na estrada.
In foco.
In foco.
Quase na entrada de Itamaraju meu pneu traseiro furou mais uma vez. Como faltavam apenas três quilômetros para chegar ao município, a solução foi encher várias vezes a câmera furada para poder troca-la após a parada em alguma hospedagem. Isso aconteceu na primeira pousada que aparece paralela a um posto de combustível na estrada. O pernoite custou 35 reais com desconto. Minha permanência ocorreu em razão do café da manhã disponível. O quarto da pousada é simples, porém limpo, com ventilador, televisão e chuveiro elétrico. Recomendo.
Troquei a câmera de ar furada por causa de um arame de caminhão que ainda estava no pneu e na sequencia fui tomar um banho para poder preparar o jantar que estava delicioso. Mais uma macarronada de sardinha para entrar na história. Depois comecei a escrever o diário de bordo para não atrasar a postagem futuramente.
Dia finalizado com 95 quilômetros. A velocidade média e o tempo de pedal foram zerados involuntariamente.
18/08/2013 - 406° dia - Itamaraju a Teixeira de Freitas
Mais um dia com acontecimentos inimagináveis.
A noite na pousada foi tranquila. Acordei às 6 horas porque 30 minutos depois o café da manhã começaria a ser servido. Não foi fácil levantar da cama, eu estava cansado e o sono não havia sido suficiente para recuperar todas as energias. Mas a refeição matinal tinha que ser aproveitada. Era tudo muito simples, porém, mais do que suficiente para começar o dia com a barriga cheia.
Gostaria de ter saído mais cedo da pousada, contudo, comecei a pedalar somente por volta das 7h30m. O horário “tardio” significava que meu planejamento de chegar ao estado do Espirito Santo estava bastante comprometido. Paciência.
Apesar do tempo ensolarado a situação na estrada estava longe de ser das melhores e o principal responsável era o acostamento inutilizado por causa do matagal que tomava conta de todo seu espaço. Simplesmente lamentável. Para melhorar o contexto, as subidas, mais uma vez, eram constantes. Somando esses fatores com o tráfego que aumentava gradativamente, o deslocamento ficou cada vez mais complicado e lento, sobretudo, porque em vários momentos eu fui obrigado a sair da pista para não causar nenhum acidente.
A região montanhosa, visualizada no dia anterior, de um outro ângulo.
Acostamento cade você?
Paisagem.
Acredite, não é fácil seguir por um "acostamento" desse tipo.
Em razão da falta de acostamento, a paisagem pouco pôde ser observada, pelo menos nos primeiros 40 quilômetros, distância em que a montanha-russa permaneceu, na sequencia o caminho começou a apresentar o cultivo de urucum, nosso conhecido colorau. Muitos produtores realizam o processo final e a venda na beira da estrada. O registro fotográfico não ficou melhor porque o visor da minha máquina começou a dar problemas e a funcionar depois de alguns minutos com a câmera ligada. Como eu não poderia esperar tanto tempo, tirei a foto sem o devido enquadramento. Paciência.
Plantação de urucum.
In foco.
In foco.
Processo final para poder ensacar o colorau.
Colorau à venda. Cinco reais a saca.
Se por um lado a região montanhosa ficou para trás, por outro, o vento contra apareceu para a festa. Faz um bom tempo que não menciono esse fanfarrão aqui no diário de bordo, mas hoje ele voltou a incomodar e, consequentemente, a diminuir drasticamente a velocidade média. Pedalar por esse trecho no sul da Bahia tem sido um verdadeiro teste de paciência.
Com pouco mais de cinquenta quilômetros parei em um posto de combustível onde uma churrascaria com self-service a 12 reais foi mais do que convidativa para almoçar. A refeição estava maravilhosa. Mais uma vez meu prato foi caprichado daquele jeito que vocês podem imaginar. (Risada Sacana).
Quando me preparava para sair do restaurante notei que o pneu traseiro estava murcho. Mais um furo. Misericórdia. Aproveitei a borracharia paralela ao posto para realizar a troca. Coloquei a câmera de ar reserva enquanto àquela furada foi remendada pelo próprio borracheiro porque eu estava sem remendos Eles acabaram depois de inúmeros inconvenientes.
O calibrador automático da borracharia estava estragado e por isso fui obrigado a utilizar um normal que não mostrava a medida desejada. Tomei cuidado para não encher demais porque o aro traseiro da Victoria demonstrava algumas rachaduras na parte de cima da folha. O problema quase imperceptível foi verificado ainda em Fortaleza pelo pessoal da Savana Bike Shop. Na ocasião eu já havia gasto mais de 400 reais com outras peças e por isso não troquei o aro e arrisquei continuar até o limite do material. Por isso estava atento para prolongar o máximo possível sua vida útil.
Voltei à estrada e pedalei pouco mais de cinco quilômetros quando escutei um verdadeiro estouro que também chegou a assustar os moradores de uma casa às margens da estrada. Parei imediatamente a bicicleta porque pensei que a câmera de ar tinha sido danificada, contudo, foi muito mais do que isso. O aro simplesmente “estourou” na parte lateral que não tinha relação com as rachaduras mencionadas. Muito provavelmente o acontecido foi em razão do desgaste provocado pela borracha do v-brake e maximizado por uma calibragem inadequada. Afinal o material já passava dos 35 mil quilômetros e como mencionei, necessitava de cuidados.
Aro estourado
Quando verifiquei o tamanho do estrago, encostei a bicicleta, sentei no meio-fio, observei a Victoria e pensei no que poderia ser realizado naquele instante. Infelizmente não havia muitas opções. A minha companheira tinha que ser rebocada. Para a minha sorte a cidade de Teixeira de Freitas estava a menos de dez quilômetros. Assim eu imaginava que não seria difícil conseguir transporte até o local. Na segunda tentativa meu pedido foi atendido e uma caminhonete estacionou no acostamento. O motorista, que também se dirigia à Teixeira, entendeu a situação e permitiu colocar a bicicleta na carroceria. Maravilha!
Como a cidade estava próxima de onde o aro estourou, em poucos minutos estávamos no centro, onde desembarquei, não sem antes agradecer pela ajuda e pedir informação sobre bicicletaria e hospedagem. Ambas se encontravam nas redondezas, inclusive, havia muitas oficinas/lojas para bicicleta que eu poderia procurar no dia seguinte, afinal, em pleno domingo, estava praticamente tudo fechado.
Na pousada recomendada soube que a mesma não funcionava mais. Conversei com algumas pessoas e fui conferir as outras opções que, teoricamente, não estavam longe, contudo, diante da situação do aro, tive que levantar a traseira da bicicleta para que a peça danificada não cortasse o pneu. O problema é que essa é a parte mais pesada da Victoria e as minhas forças se esgotaram rapidamente. Para quem assistiu “Desafiando Gigantes”, a cena na cidade baiana parecia muito com aquela do filme em que o personagem gordinho é submetido a um  rigoroso treinamento, mas que após muito esforço consegue finalizar seu objetivo. Eu me encontrava exatamente na mesma situação.
Na segunda hospedagem onde parei ninguém atendeu o interfone. E com isso caminhei mais um pouco até a próxima alternativa. Sem brincadeira, andava cinco metros e parava, recuperava o fôlego e continuava. Um verdadeiro calvário. Para a minha felicidade, um motorista ao ver o meu sacrifício indicou uma hospedagem mais próxima e, com muita dificuldade, cheguei ao Hotel Continental por volta das 15h30m. No estabelecimento a diária do quarto com ventilador, televisão, banheiro com chuveiro elétrico e wi-fi saiu por 25 reais com direito ao café da manhã. Estava finalmente alojado e com o braço todo dolorido.
Na hospedagem de instalações simples, tomei um banho e posteriormente acessei a internet para mandar notícias, sobretudo, do ocorrido com a bicicleta. Mais uma vez recebi um apoio inacreditável. Obrigado a todos vocês que não tem medido esforços para me ajudar na finalização deste projeto.
No final da noite começou a chover e a temperatura baixou drasticamente e nem parecia que eu estava na Bahia. Meus pacotes de bolacha e todos os demais alimentos tinham se esgotado e fui obrigado a procurar alguma coisa para comer, entretanto, não achei nada ao redor do hotel e por causa da chuva não andei muito e voltei com fome. Para minha sorte encontrei uma lata de sardinha no fundo do alforje, foi meu jantar. A reposição dos mantimentos ficou para o dia seguinte.
Dia finalizado com 58,62 km pedalados em 4h40m e velocidade média de 12,5 km/h.
19/08/2013 - 407° dia - Teixeira de Freitas (Bahia) a Pedro Canário (Espírito Santo)
Espírito Santo!
Chegada ao 15° estado brasileiro pedalado na expedição.
Um dia de sobrevivência. A passagem por um dos trechos mais perigosos das estradas brasileiras.
A noite na hospedagem foi tranquila e o descanso garantido. Não precisava levantar cedo porque a refeição matinal estaria disponível a partir das 7 horas e o comércio abriria uma hora depois para eu poder levar a roda traseira à bicicletaria. Acordei com muita dor no braço direito, o mesmo que levantou a Victoria em todo o trajeto no centro de Teixeira de Freitas. Paciência!
Como eu fiquei sem jantar na noite anterior, devorei boa parte do café da manhã, principalmente porque eu estava sozinho no refeitório, aliás, acredito que poucos hóspedes se encontravam no hotel. Sei que forrei o estômago legal. (Risada Sacana). 
Fui à rua pouco antes das 8 horas e debaixo de muita chuva me desloquei até a bicicletaria Gool, recomendada no dia anterior. A loja é uma das mais conceituadas da cidade e tem um espaço físico enorme, assim como a quantidade de peças e bicicletas à venda. Os funcionários me atenderam muito bem e informaram que a troca do aro, raios quebrados, câmera de ar e mão de obra sairiam por 65 reais. Não esperava gastar toda essa grana, mas infelizmente são ócios do ofício. Gostaria de ter colocado novamente o aro Extreme da marca Vzan, contudo, só havia o modelo Action, que é um pouco mais leve e menos resistente, contudo, também deve aguentar uma boa quilometragem.
Deixei a Victoria na bicicletaria e combinei de pegar uma hora depois. Neste período aproveitei para passar em um supermercado e comprar bolachas, macarrão, sardinha, molho de tomate e suco para os próximos dias.
No horário combinado voltei à Gool e peguei a roda pronta para ser colocada na minha companheira. No hotel coloquei tudo em seus devidos lugares, arrumei a bagagem e às 10h30m estava, finalmente, de saída em direção ao Espírito Santo.
Infelizmente continuava chovendo e eu tinha plena consciência que o dia não seria nada fácil. A pretensão era passar a divisa com o Espírito Santo, contudo, o horário da saída não ajudava, havia perdido praticamente meio dia de pedal. A distância de aproximadamente 100 km para Pedro Canário, primeira cidade no estado vizinho, poderia ser completada somente com um pedal noturno, todavia, o deslocamento seria ainda mais difícil na escuridão pela condição da rodovia; pista simples, sem acostamento e com tráfego pesado de veículos com carga.
Esse trecho da rodovia é extremamente perigoso e eu não recomendo a passagem pelo local nem aos mais experientes. Por vezes fui obrigado a sair da pista para não ser atropelado. O sobe e desce com várias curvas é a situação ideal para acontecer os acidentes, considerando, é claro, a imprudência dos "motoristas". Nos locais sinuosos a marca de batida está presente o tempo todo. Em uma curva a quantidade de cruzes impressiona. Contei mais de dez. Simplesmente assustador.
Como o pedal começou tarde, não avancei muito e realizei a primeira parada após 25 quilômetros percorridos. Encontrei um restaurante paralelo ao Posto Bom Preço no km 900 e aproveitei para almoçar. O prato feito a dez reais foi prontamente caprichado conforme o solicitado. O proprietário do restaurante preparou o prato que chegou a transbordar, literalmente, na mesa. (Risada Sacana).
O dono do restaurante me disse que a curva com várias cruzes na estrada tinha ceifado onze vítimas de uma vez em um acidente com o ônibus da Águia Branca há três meses. E ontem no mesmo lugar, uma carreta tinha tombado. Em outro trecho antes dessa curva, dois motociclistas também haviam perdido a vida em um choque com caminhão. Lugar é sinistro.
Como eu não tinha muito tempo disponível para descansar após o almoço, logo voltei à estrada para enfrentar a mesma situação do trecho anterior, no entanto, para a minha surpresa, com aproximadamente 40 km pedalados desde Teixeira de Freitas, apareceu um vilarejo chamado Boa Vista (acho que é esse o nome). Deste ponto em diante o acostamento aparece para aliviar a situação, finalmente. O relevo não muda e a montanha-russa continua.
Com a presença do acostamento o pedal rendeu muito mais do que no trecho anterior e mesmo com as subidas o deslocamento ocorreu sem maiores dificuldades, contudo, após 30 km nestas condições a situação voltou a ficar tensa. O acostamento desapareceu após o cruzamento para Mucuri que fica pouco depois do povoado de Itabatã.
Quando passei pelo trevo para Mucuri e a situação piorou eu comecei a perceber que permanecer na estrada seria uma decisão mais do que arriscada, sobretudo, porque começou a escurecer, o que tornava o contexto ainda mais perigoso, uma vez que a pista simples e sem acostamento continuava com tráfego intenso de veículos. Cogitei finalizar o pedal antes do objetivo traçado, contudo, não encontrei nenhum lugar parar pernoitar. Avante.
Mantido o objetivo de chegar, pelo menos, na divisa, continuei pedalando no escuro e constantemente saindo da pista quando os dois lados ficavam ocupados pelos veículos que eram facilmente identificados por causa dos faróis. Eu estava devidamente com os equipamentos para pedalar de noite, inclusive, com colete refletor, tudo para poder chegar ao destino com vida.
Pedalar neste trecho sul da BR 101 na Bahia foi uma das experiências mais assustadoras dessa viagem, principalmente quando voltou a chover. Como o relevo não mudava, ambas as situações eram complicadas, na descida, com velocidade alta, sair da pista rapidamente aumentava os riscos de uma queda feia. Já na subida era complicado dividir o espaço com os veículos que me obrigavam a pedalar fora da pista onde o matagal tomava conta.
Com muito sacrifício cheguei à divisa da Bahia com o Espirito Santo exatamente às 18h15m quando alguém às margens da rodovia me confirmou que eu estava prestes a deixar o território baiano, finalmente. Para a minha felicidade, a saída do nordeste também implicava na melhoria significativa da rodovia, algo que naquele momento era crucial. Me informaram também que a BR 101 voltava a ter acostamento, facilitando o deslocamento à Pedro Canário.
Na divisa entre Bahia e Espírito Santo.
Na divisa, há apenas um pequeno vilarejo do lado baiano e o mesmo não tem nenhuma hospedagem, pelo menos, não identifiquei nada à beira da estrada e por isso, registrei a entrada ao 15° estado brasileiro pedalado nesta expedição e continuei em direção à cidade mencionada. Evidente que estava cansado, mas precisava completar aquela distância para poder chegar ao Rio de Janeiro em uma data aproximada daquela estipulada inicialmente, ou seja, entre os dias 23 a 25 de setembro.
Registro em mais uma divisa de estados.
A rodovia BR 101 no Espírito Santo tem outra realidade, sem dúvida. O acostamento após a divisa ajuda a pedalar em segurança. Nos três primeiros quilômetros a pavimentação não está aquelas coisas, mas depois torna-se infinitamente melhor, perfeita para pedalar. O relevo continua com subidas e descidas, contudo, um pouco mais moderadas. Necessitei apenas de um cuidado maior com as canas de açúcar presentes no acostamento. Não raramente tinha que desviar delas para não levar uma queda. Como estava escuro, não consegui enxergar a paisagem nitidamente, mas ao que tudo indicava, havia muitos hectares destinados à plantação de cana, logo, fazia-se entender o motivo da presença delas no acostamento. É preciso atenção, porque a coisa mais fácil do mundo é passar de bicicleta sobre ela, perder a direção dianteira e cair. Fica a dica.
Três quilômetros antes de Pedro Canário havia um posto de combustível, conforme me avisaram, entretanto, não tinha pousada e por isso fui obrigado a me deslocar à cidade. A essa altura do campeonato voltava a chover e a minha vontade era encontrar o quanto antes um lugar para dormir e finalizar o dia. Isso aconteceu na entrada do município, que, ao contrário da informação do funcionário do posto, tinha algumas hospedagens. Não me recordo o nome do lugar onde resolvi permanecer, mas era uma pousada e a diária ficou em 25 reais com desconto. Diferente dos últimos locais em que me hospedei, o preço não condizia com as instalações precárias. No quarto, tinha apenas a cama que no momento não estava nem arrumada. Paciência.
Antes de dormir, tomei um banho quente no banheiro disponível do lado de fora do quarto e na sequencia preparei a janta, macarronada com sardinha. Depois tentei escrever no diário de bordo, mas fui vencido pelo cansaço, meus olhos não conseguiam se manter abertos, fui descansar o sono dos justos.
Dia finalizado com 102,56 km pedalados em 7h41m e velocidade média de 13,3 km/h.
20/08/2013 - 408° dia - Pedro Canário a Linhares
Encontro com o amigo Carlos Andrade.
Dia tranquilo. Apesar da precariedade a noite na pousada foi sem nenhum problema. Recuperei parte das energias e às 6h45m voltei à estrada. Tempo nublado mesmo após uma madrugada com muita chuva. O objetivo do dia era chegar à Linhares onde tinha combinado de encontrar o camarada Carlos Andrade, antigo amigo da época da comunidade Cicloturismo no Orkut. O mineiro radicado no Espírito Santo também viaja de bicicleta e se dispôs a sair de Cariacica onde mora para me acompanhar um trecho.
O trajeto não apresentou muitas surpresas e a paisagem foi marcada, sobretudo, pela presença dos canaviais. Nos vinte primeiros quilômetros o acostamento estava repleto de cana deixada pelos caminhões responsáveis pelo transporte da mesma, inclusive, não é raro encontra-los no caminho. Detalhe: estão sempre abarrotados. É fácil entender o porque as canas estão no acostamento. Mais uma vez precisei de muita atenção para não passar por elas e cair.

Acostamento largo na BR 101 no ES. À frente o caminhão abarrotado de cana.
Acostamento repleto de cana deixada pelos caminhões que realizam seu transporte
Não há cidades entre Pedro Canário e São Mateus, portanto, programa-se caso esteja de passagem pela região, no entanto, vale destacar que o relevo não apresenta muitas dificuldades, apesar das subidas neste trajeto. Passei em São Mateus por volta do meio-dia com pouco mais de 50 km pedalados e resolvi parar depois do perímetro urbano. No restaurante, almoço a 10 reais em um buffet completo com direito, entre outras coisas, a costela frita e purê de batata, uma delícia. Não hesitei em repetir, claro.
Quando me preparava para deixar o restaurante, voltava a chover forte. Não esperei e retornei assim mesmo à estrada para enfrentar mais um trecho que alternava subidas, descidas e algumas partes planas, sobretudo, na região da Reserva Biológica de Sooretama, diga-se de passagem, muito agradável. Não registrei em razão da chuva. Mas apesar da condição climática foi possível observar a natureza.
Na cidade/distrito de Sooretama é possível encontrar hospedagem, restaurante, mercados e todo um comércio à disposição. O lugar oferece certa estrutura e pode servir de apoio para quem passar pela região. No local eu apenas parei de pedalar para falar ao telefone com o Carlos que já estava em Linhares e viria me encontrar na estrada.
A rodovia fica mais movimentada depois de Sooretama, mas a existência do acostamento torna o pedal seguro, mesmo durante a noite, já se aproximava das 18 horas. Quinze quilômetros antes de Linhares, encontrei o Carlos, contudo, ele não me viu por causa do movimento na estrada. Apenas notei sua presença no outro lado da rodovia por causa da vestimenta de ciclista e o farol intermitente. Ele não ouviu meu chamado e muito menos viu meus gestos. Imediatamente parei a bicicleta e fui ligar avisando-o para retornar, mas neste instante, repentinamente, começou a chover muito forte. Guardei o telefone e segui para um ponto de ônibus onde consegui realizar a chamada. Após algumas tentativas o Carlos atendeu ao telefone e minutos depois estava de volta.
Carlos é um senhor de 52 anos com uma enorme sabedoria, humildade e bom-humor, sem falar, claro, no condicionamento físico. Não é qualquer pessoa nessa idade que tem preparo para pedalar longas distâncias. Quando nos encontramos  ele acabava de completar mais de 160 km pedalados no dia. Que tal? Sei que foi uma grande honra poder conhecê-lo pessoalmente. Inclusive ele tem acompanhado minhas últimas viagens. Além de todo apoio e incentivo, durante os últimos meses, Carlos fez questão de contribuir financeiramente para a expedição.
Pedalamos em direção à Linhares e um pouco antes do início do perímetro urbano paramos em um posto de combustível que tinha uma pousada (Dadinho) onde a diária ficou em 35 reais para cada. O preço um pouco mais elevado foi aceito porque o Carlos já havia pesquisado em outros lugares e não variava muito. Para compensar, o café da manhã no dia seguinte significava uma refeição a mais.
Devidamente alojados, conversamos bastante, preparamos o jantar e na sequencia cada um foi descansar para encarar o pedal do dia seguinte em direção à Cariacica.
Dia finalizado com 132,62 km pedalados em 9h28m e velocidade média de 14 km/h.
21/08/2013 - 409° dia - Linhares a Cariacica
Pedalando pelo litoral capixaba.
Dia extremamente longo e cansativo, porém de muitas risadas e encontros inesperados.
Noite tranquila na pousada. Levantei quase às 6 horas da manhã porque meia hora depois o café estaria na mesa. A refeição estava muito boa, com variedades de pães, bolos, sucos e outros alimentos não menos saborosos e que também foram degustados. Consegui sair com a barriga cheia.
Voltamos à estrada apenas às 7h30m debaixo de chuva, para variar mais uma vez. Linhares é uma das maiores cidades do estado e por isso sair de seu perímetro urbano levou alguns quilômetros, mas tudo dentro da normalidade.
Saída da pousada para mais um dia de pedal.
Nobre amigo Carlos Andrade.
Jaqueira à beira da estrada.
Havia duas opções para chegar à Cariacica, direto pela BR 101 ou via litorânea, a primeira encurtava o caminho em aproximadamente 30 km, contudo, apresentava um trânsito intenso, sobretudo, de veículos pesados. Embora com acostamento, a rodovia federal não tinha uma paisagem convidativa e bonita como a estrada alternativa pelo litoral e por isso decidimos sair da BR 101. Mas isso aconteceu apenas 42 quilômetros depois da saída de Linhares quando apareceu o trevo para a rodovia ES 445 em direção à Barra do Riacho.
Trecho na BR 101 após Linhares.
O trecho entre Linhares e o acesso à ES 445 foi tranquilo e com relevo moderado de poucas subidas. A chuva não permaneceu por muito tempo e inacreditavelmente o vento estava ao nosso favor. Que maravilha! Durante o trajeto o que mais encontramos foram indústrias, sobretudo, de móveis. Também nos deparamos com muitas plantações de eucaliptos. A maioria é enviada à antiga Aracruz Celulose que hoje é chamada de Fibria.
A ES 445 é bastante tranquila, apesar do tráfego de alguns veículos longos que transportam eucalipto. A rodovia tem acostamento pequeno, porém não contínuo, no entanto, isso não chega a ser um problema, uma vez que o trânsito é bastante limitado. O relevo é marcado por longas subidas e descidas. A situação melhora quando a rodovia passa a ser denominada ES 010 que vai até a capital capixaba.
ES 445 e os eucaliptos por todos os lados.
Trecho final e sem acostamento da ES 445,
Poucos quilômetros após a entrada na ES 010, chegamos à Barra do Riacho onde aproveitamos para almoçar em um restaurante no pequeno centro do distrito que pertence à cidade de Aracruz. O local é importante em razão da existência do único porto brasileiro especializado no embarque de celulose. No entanto, visualizamos o mar somente após o almoço que custou 12 reais, buffet limitado sem possibilidade de repetir. Por isso meu prato ficou com alguns andares. (Risada Sacana).
O litoral capixaba nesta região parece muito com aquele encontrado no Sergipe, onde a água tem uma cor escura, pelo menos, na área mais próxima da praia. Depois o mar é visivelmente verde/azul nas praias de Barra do Sahy, Mar Azul e Dos Padres. Em ambas é possível encontrar pequenos vilarejos que pertencem ainda à cidade de Aracruz. Todos esses lugares são bem pacatos e tem a rodovia passando ao lado do mar. Ambiente perfeito para pedalar, ainda mais que o relevo plano ajuda bastante.
Primeira imagem do litoral capixaba em Barra do Riacho.
In foco.
Litoral capixaba
Camarada Carlos.
Em algum lugar na região de Coqueiral.
In foco.
In foco.
Ponte sobre o rio Piraquê-açú.
Registrando a foz do Piraquê-açú.
Foz do Piraquê-açú.
Enigmático castelo na beira da estrada, rs.
Um pouco antes da divisa entre Aracruz e Fundão na região litorânea, encontramos com o Juan Fernandes, que é natural de Vitória, mas trabalha em uma das praias de Aracruz e mora próximo do mar em Fundão. Ele faz o percurso diariamente de bicicleta, estava com alforje e tudo mais. Começamos a pedalar juntos e durante a conversa recebemos o convite para tomar um café da tarde na sua casa. Não recusamos e a recepção foi, sem dúvidas, excelente. Agradecemos por tudo e seguimos viagem. Valeu camarada.
Camarada Juan Fernandes.
A noite chegou e continumos na estrada em direção à capital pela rodovia ES 010. Com a escuridão e debaixo de chuva não foi possível curtir o litoral com a devida atenção, mas ainda assim observamos a lua a despontar no mar com toda sua grandeza e beleza. A essa altura já estávamos nas praias do município de Serra.
Com o relevo plano, conseguimos empregar um ritmo maior na pedalada e avançamos pelas praias até chegar em Vitória. O Carlos conhecia muito bem a capital e o deslocamento foi sem maiores dificuldades. O trânsito estava relativamente tranquilo em razão do horário e por isso não houve problema para encontrar a ciclovia beira-mar em Camburi, onde seguimos alguns quilômetros pela orla, que, diga-se de passagem, me pareceu organizada, simples e funcional. Com a chuva, poucos registros fotográficos. A passagem pela capital foi relativamente rápida por meio das imensas ruas, avenidas e pontes.
Chegada à Vitória.
Em direção à orla.
Orla em Vitória.
Uma bolacha para aguentar o pedal até Cariacica.
Chegamos à Cariacica somente por volta das 22 horas. A família do Carlos me recebeu muito bem e preparou um jantar que foi rapidamente degustado. Na sequencia mandei notícias na internet e fui dormir, afinal, partiríamos na manhã do dia seguinte ao sul do estado. Carlos me acompanharia por mais um trecho. Pedala demais esse “garoto”.
Dia finalizado com 172,23 km pedalados em 11h23m e velocidade média de 15 km/h.
22/08/2013 - 410° dia - Cariacica a Rio Novo do Sul
Na direção do vento.
Acordei por volta das 6 horas, levantei pouco tempo depois, arrumei a bagagem e na sequencia tomei um café da manhã para poder seguir viagem na companhia do Carlos. Há duas opções para seguir ao sul do Espirito Santo, uma pela BR 101 e outra por meio da Rodovia do Sol. A distância é praticamente a mesma em ambos os caminhos, no entanto, na segunda opção a estrada é pelo litoral, consequentemente, muito mais interessante. Foi nossa escolha.
A saída da casa do anfitrião aconteceu somente às 8h30m e antes de retornarmos à estrada ainda passamos em Vila Velha na residência do Ponciano, amigo do Carlos, para comprar os buffs, espécie de bandana com múltiplas funções. Achei que a peça seria muito útil e aproveitei o preço baixo para realizar a aquisição, no entanto, o camarada Ponciano ao saber da viagem me presenteou com dois exemplares e uma lanterna traseira que eu estava precisando uma vez que a minha parou de funcionar por causa das chuvas.
Ciclovia em Cariacica ao lado da Baía de Vitória
Baía de Vitória. Capital capixaba ao fundo.
Vitória
Conversamos um pouco com o Ponciano que vende seus produtos no seguinte endereço: http://eshops.mercadolivre.com.br/briellashop/ e na sequencia nos dirigimos à Rodovia do Sol. Quando chegamos à estrada (duplicada) tivemos uma grande surpresa, o vento estava muito forte, mas ao nosso favor. Com um acostamento excelente e nas mesmas condições da pista principal, o pedal aconteceu em um ritmo alucinante.
Rodovia do Sol
Rodovia do Sol
Em direção à Guarapari
O tempo bom (por um período) também permitiu visualizar o litoral que não se diferenciou muito da região norte, pedalada ontem, ao menos, no que diz respeito à cor da água. Estava tudo favorável e por isso em 2h30m de pedal estávamos em Guarapari onde pedalamos ainda mais próximo do mar. Aproveitamos para almoçar em um restaurante no centro da cidade onde o prato feito custou 12 reais.
Praia em Guarapari
Guarapari
Guarapari
Guarapari
Guarapari
In foco
Depois do almoço seguimos à Piúma na pretensão de pegar a estrada (Rodovia Jorge Feres – ES 375) para voltar à BR 101. O caminho para Piúma deixa de ser pedagiado e a rodovia fica muito ruim, sobretudo, pela ausência de acostamento em vários trechos. O trajeto também é marcado pelo sobe e desce acentuado. Em determinadas partes ainda é possível visualizar a imensidão do mar que foi registrada na medida do possível.
Rodovia do Sol
Em direção à Anchieta
Deste ponto em idante a rodovia deixa de ser duplicada.
Acostamento precário em direção à Piúma.
Últimos quilômetros ao lado do litoral capixaba.
Registrando com o visor da máquina danificado.
In foco.
Chegada à Piúma
Hasta luego, Rodovia do Sol.
O trajeto na ES 375 se torna mais bucólico e também tranquilo. A estrada apresenta subidas e descidas moderadas, contudo, com acostamento pelos oito quilômetros até a BR 101. Na rodovia federal o movimento de veículos estava infinitamente maior. É exatamente nestes momentos que você sente a diferença de pedalar em estradas principais e secundárias. De qualquer forma continuamos em direção à Rio Novo do Sul. Poucos quilômetros antes de chegar na cidade paramos ao lado de um restaurante/hotel para perguntar a distância restante até a divisa. Pelas minhas contas ainda faltavam 40 quilômetros, mas nos informaram que teríamos que pedalar outros 85 quilômetros.
Na rodovia estadual ES 375 que liga a Rodovia do Sol à BR 101.
Com a nova distância para chegar ao estado do Rio de Janeiro resolvemos finalizar o pedal neste hotel (Capim Angola) onde a diária saiu por vinte reais para cada. Instalações novas e confortáveis. Antes de finalizar o dia ainda jantamos no restaurante porque a fome estava braba.
Dia finalizado com 119,04 km pedalados em 6h50m e velocidade média de 17,3 km/h.
23/08/2013 - 411° dia - Rio Novo do Sul (Espírito Santo) a Campos dos Goytacazes (Rio de Janeiro)
Finalmente em território fluminense.
Rio de Janeiro, 16° estado brasileiro pedalado na expedição Cicloturismo Selvagem.
Essa última parte da expedição tem sido de noites tranquilas e descansos garantidos. Mas, infelizmente essa não foi a situação de hoje. A proximidade do hotel com a rodovia extremamente movimentada impediu um sono ininterrupto. De qualquer forma, levantei por volta das 5h30m, arrumei minhas coisas e na sequencia fui tomar o café da manhã disponível a partir das 6 horas.
Terminando de arrumar a bagagem.
A saída da hospedagem aconteceu somente por volta das 7 horas. Retornar à estrada significava que estava na hora de me despedir do nobre amigo Carlos que voltaria para Cariacica. Pedalar em sua companhia foi uma honra. Espero ter a oportunidade de realizar outras viagens com essa grande pessoa. Obrigado por tudo, camarada.
Saída para o último trecho em território capixaba.
As condições climáticas estavam excelentes para pedalar, pelo menos nas primeiras horas do dia. Tempo aberto, temperatura agradável e com um vento lateral que não ajudava, mas também não atrapalhava. Isso possibilitou seguir tranquilamente, apesar do tráfego intenso pelos últimos quilômetros na BR 101 em território capixaba, que por sua vez, continuava montanhoso. A sorte é que o relevo acidentado não refletia muito na estrada que tinha apenas um sobe e desce moderado.
Em direção à divisa com o Rio de Janeiro.
Montanhas com os mais diversos formatos
BR 101 no Espírito Santo.
Estrada movimentada.
Quase vinte quilômetros antes da divisa, parei em um restaurante que oferecia comida caseira. O buffet custava doze reais e estava extremamente saboroso. Meu prato ficou bem caprichado e vazio em poucos minutos. O movimento no estabelecimento estava limitado a duas pessoas, entre elas, o motorista Guaraci que ao saber melhor sobre a viagem resolveu colaborar espontaneamente e acabou por pagar meu almoço. Maravilha. Fico sempre muito agradecido com esses acontecimentos.
Depois do almoço, voltei a pedalar para completar os últimos quilômetros no Espírito Santo. Com 82 quilômetros marcados no velocímetro desde o início do dia, eu chegava ao 16° estado brasileiro desta expedição. Registrei o ingresso ao Rio de Janeiro da forma como era possível e continuei em direção à Campos dos Goytacazes.
Rio de Janeiro
Victoria em mais uma divisa
Registro garantido.
A rodovia BR 101 no estado do Rio de Janeiro estava em melhores condições do que no Espírito Santo, sobretudo, o acostamento, porém, vale ressaltar que o mesmo tem várias depressões nos primeiros quilômetros. Depois a situação se normaliza e é possível seguir sem maiores problemas. Aproveitei para curtir a região montanhosa que por vezes dava lugar às pastagens com criação de gado e áreas planas destinadas ao cultivo da cana de açúcar.
BR 101 - Rio de Janeiro
BR 101
Norte do Rio de Janeiro.
Cheguei à Campos dos Goytacazes de noite e com um trânsito bastante complicado. Não encontrei nenhuma hospedagem à beira da rodovia e por isso continuei em frente orientado pelas placas que indicavam a direção para a capital fluminense. O caminho passa por dentro da cidade e durante o trajeto encontrei somente duas hospedagens, mas em ambas a diária custava 60 reais. Na hora me lembrei de quando passei pelo Rio de Janeiro em 2009 e achei tudo absurdamente caro. Claro que eu não paguei esse preço para um pernoite e continuei sentido capital até que na saída de Campos encontrei a Pousada Pinheiro onde a diária saiu por 30 reais com desconto.
Fiquei feliz em encontrar um lugar para dormir, mas ao mesmo tempo, indignado com os recepcionistas dos hotéis anteriores que informaram não haver nenhuma hospedagem pelo caminho. Na Pousada Pinheiro as instalações são razoáveis, contudo, o quarto não tem banheiro privado, mas isso não foi nenhum problema. Aproveitei a disponibilidade do wi-fi para mandar notícias mais uma vez. Antes de dormir fui comer um cachorro quente porque não tinha mais nada para sossegar as lombrigas. (Risada Sacana).
Dia finalizado com 151,41 km em 9h22m e velocidade média de 16,1 km/h.
24/08/2013 - 412° dia - Campos dos Goytacazes a Casimiro de Abreu
Mais um dia de pedal extremo.
O café da manhã na pousada começava a ser servido apenas a partir das 7 horas, por isso não pude sair cedo para pedalar como gostaria. Não perderia a refeição matinal, ainda mais sentindo uma fome enorme. A espera valeu a pena, a mesa estava simplesmente divina. Uma das melhores e mais fartas de toda a viagem. Aproveitei até não aguentar mais. Fiquei um bom tempo recarregando as energias. (Risada Sacana)
Comecei a pedalar somente às 8h30m. O horário tardio significava que eu terminaria o dia pedalando no escuro, isso porque o objetivo era chegar de qualquer forma à Casimiro de Abreu que ficava a aproximadamente 150 km. Esse deslocamento se tornava imprescindível porque no dia seguinte os amigos Leandro Barcelos e Pablo Giovanni estariam à minha espera para me acompanhar até a cidade do Rio de Janeiro onde eles moram.
O dia começou com tempo bom e tudo indicava que permaneceria assim. O relevo, segundo me informaram, seria praticamente todo plano. Dessa forma, teoricamente, conseguiria avançar sem maiores problemas.
Entre Campos e Casimiro não há nenhuma cidade, apenas poucos distritos e vilarejos, portanto, na saída de Campos não hesite em parar em uma das várias barracas de doces à beira da estrada. Apenas para economizar eu não comprei nada, mas a vontade era abastecer os alforjes, sobretudo, com goiabadas.
A paisagem não mudou muito em relação ao dia anterior e a região montanhosa se alternava com áreas planas onde a plantação de cana continuava presente. Não à toa existem barracas que oferecem caldo de cana por um preço acessível. Não resisti e parei para ganhar um pouco de energia. Dois copos por apenas R$ 1,50. Perfeito.
Na estrada o relevo não era praticamente plano e algumas subidas retardaram meu avanço. A rodovia tem um trecho que está sendo duplicado, mas as obras não interferem o tráfego, pois ainda que as placas indiquem que não há acostamento, existe um espaço que permite pedalar com segurança, basta ter atenção.
Por volta das 13 horas encontrei o Restaurante Amizade à beira da estrada e não pensei duas vezes em parar, pois não sabia quando teria outro pelo caminho. Foi uma das decisões mais acertadas do dia, não pela ausência desse tipo de estabelecimento nos próximos quilômetros, mas pela refeição servida. O prato feito custou nove reais e estava extremamento caprichado. No local aconteceu algo inédito, a funcionária perguntou se eu queria mais comida (sem custo) quando deixei o prato limpo. Claro que não recusei. No final dessa segunda etapa a mesma pergunta foi repetida e novamente aceitei. Perfeito.
Com energia de sobra voltei à estrada para encarar o sol e um vento contra moderado que diminuiu minha velocidade média. Como os últimos dias foram de pedal extremo, no começo da noite eu estava cansado, não vou negar, mas precisei seguir até o local desejado para terminar o dia.

Sentido à Casimiro de Abreu.
Cheguei à Casimiro de Abreu por volta das 20 horas e na entrada da cidade encontrei o Hotel Apollo onde a diária me custou 25 reais. O pernoite tem ficado sempre entre 20 e 30 reais. Geralmente com café da manhã e internet disponível. A hospitalidade no sudeste não é como em boa parte do nordeste, logo, a facilidade para encontrar um lugar seguro para acampar ou atar a rede não é a mesma, por isso tenho optado pelas hospedagens mais econômicas. A colaboração financeira de quem acompanha a viagem é que tem custeado esse descanso merecido. Com essa distância percorrida nos últimos dias, nada melhor do que dormir bem.
Dia finalizado com 151,16 km pedalados em 10h31m e velocidade média de 14,3 km/h.
25/08/2013 - 413° dia - Casimiro de Abreu a Rio de Janeiro
O dia de grandes encontros foi também o dia que não terminou.
Finalmente na cidade maravilhosa: Rio de Janeiro, mais uma vez.
Acordei às 6 horas e imediatamente levantei para tomar o café da manhã. O refeitório ficava localizado na frente do meu quarto e bastou abrir a porta para visualizar toda aquela comida à minha espera. Que maravilha! O hotel estava com muitos hóspedes, contudo, em plena manhã de domingo, quase ninguém acordou de madrugada. Por isso, estava sozinho no recinto repleto de coisas boas para comer. Aproveitei até ficar realmente satisfeito.
Após a refeição matinal voltei para o quarto e ao arrumar minha bagagem notei que o pneu dianteiro estava furado, como não estava completamente murcho, achei que poderia seguir viagem dessa forma e trocado apenas no Rio de Janeiro.
Minha saída do hotel aconteceu por volta das 7h20m em direção à rodoviária de Casimiro onde Leandro e Pablo chegariam de ônibus do Rio de Janeiro às 7h30m. O terminal fica próximo da rodovia e não houve nenhuma dificuldade para encontra-lo, inclusive, quando cheguei ao local os camaradas já estavam à minha espera.
Reencontrar velhos amigos é sempre muito bom. Fiquei feliz em rever meus camaradas que tiveram a enorme consideração de me acompanhar até a capital. Ambos são ciclistas e com várias viagens de bicicleta no currículo. Leandro já foi para Foz do Iguaçu pedalando e, inclusive, ficou hospedado em minha casa naquela ocasião. Já o argentino Pablo conhece, também através da bicicleta, muitos lugares do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Grande encontro com os amigos Leandro e Pablo.
Começamos o pedal por volta das 8 horas da manhã e na estrada nos deparamos com um tempo bom que logo cedeu lugar à muita neblina que escondia a paisagem. Enquanto conversávamos (muito!) um fato, no mínimo, curioso, acontece; um veículo buzina incessantemente e ao passar ao nosso lado, ainda em alta velocidade, apresenta uma cena nada interessante. O passageiro do veículo mostra, sem nenhum pudor, a bunda pela janela. Que coisa bizarra! Fiquei surpreso, lógico, nunca vi nada parecido em quase 7 anos de estrada, no entanto, meus amigos não tiveram a mesma reação porque disseram que esse fato é comum no Estado. Misericórdia! Como assim isso é comum? Somente no Rio de Janeiro mesmo. Sacanagem!
Após o fato bizarro que gerou muita risada, continuamos pedalando em direção à Tanguá, local onde encontraríamos o amigo Ronaldo Adriano Santos que, junto com sua família, nos esperava em sua casa para o almoço. O trecho entre Casimiro e Tanguá foi de aproximadamente 70 quilômetros com pouca inclinação e relativamente fácil de ser percorrido.

Trecho na saída de Casimiro.
Na companhia do hermano Pablo.
Em meio à neblina.

In foco.
Registro de um ângulo diferente.
In foco.
Em direção à Tanguá.
Galera animada.
Chegada à Rio Bonito.
In foco.
Pedágio? Não pagamos!
Em Tanguá o anfitrião Ronaldo foi nos encontrar na estrada. O camarada tem acompanhado e acreditado no projeto desde o começo, inclusive, foi o primeiro a realizar uma colaboração financeira para a viagem antes mesmo da partida. Ele nem deve imaginar a importância que essa atitude teve para a sequencia da expedição.

Chegada à Tanguá.
In foco.
Na companhia do camarada 
Conversa com o anfitrião Ronaldo.
Ronaldo é a simplicidade em pessoa. Quem conhece sabe de sua humildade e garra para vencer os obstáculos da vida e oferecer uma vida digna à sua família. É apaixonado por ciclismo e não raramente apoia e acompanha aqueles que estão na estrada. Suas palavras de incentivo sempre foram bem-vindas.
Há alguns meses Ronaldo sofreu um acidente de moto. Na ocasião levava sua bicicleta em um suporte na parte de trás do veículo motorizado. A queda resultou em diversos ferimentos, no entanto, a maior perda foi mesmo de sua companheira de estrada. Alguém sem escrúpulos se aproveitou da situação e roubou a bicicleta logo depois do sinistro. Desde então Ronaldo não conseguiu recuperar seu meio de transporte preferido e tampouco condições para investir em uma nova bicicleta.
Na casa do anfitrião sua família nos recebeu muito bem e, apesar da simplicidade, não mediu esforços para nos proporcionar um almoço bem caprichado. A feijoada e todos os demais pratos estavam simplesmente deliciosos. Aproveitamos o máximo possível daquele breve momento e da companhia ímpar de toda a família. Realizamos um brinde à altura do encontro. Claro que foi tudo devidamente registrado.

Um brinde à altura do encontro.
Degustando a feijoada.
Antes de voltar à estrada nos despedimos de todos e agradecemos pela calorosa e inesquecível recepção. Ronaldo nos acompanhou até a saída da cidade. Meu amigo, obrigado por tudo, principalmente pela lição de ser uma grande pessoa com princípios e valores que não dependem da condição financeira para serem colocados em prática. Pode ter certeza que muitas portas ainda se abrirão para você. Grande abraço.

Ronaldo e sua filha.
Camarada Ronaldo.
Agradecendo mais uma vez. Hasta luego, hermano.
No período da tarde seguimos em direção ao Rio de Janeiro pela BR 101 passando por Itaboraí, São Gonçalo e Niterói. A rodovia duplicada ficou cada vez mais movimentada na medida em que nos aproximávamos da capital, contudo, o deslocamento ocorreu sem maiores problemas. Os camaradas apenas precisaram de paciência para acompanhar o meu ritmo infinitamente mais lento.

A movimentada BR 101 nas proximidades de São Gonçalo.
In foco.
Chegamos à Niterói por volta das 20 horas e nos dirigimos ao local de embarque para a barca que realiza a travessia na Baía de Guanabara. A passagem pela mesma se faz necessária porque não é permitido o trafego de bicicletas na famosa ponte Rio x Niterói. A travessia custa RS 4,50 e tem duração de aproximadamente 20 minutos. As bicicletas podem ficar no salão inferior onde há todo um espaço confortável também para os passageiros.

No interior da barca.
Sentido ao Rio de Janeiro.
O desembarque na cidade maravilhosa ocorreu sem nenhum problema. Eu estava de volta ao Rio de Janeiro após quatro anos da expedição Curitiba x Rio. Naquela ocasião eu visitei os principais pontos turísticos da cidade, portanto, minha passagem dessa vez será apenas para recuperar as energias e atualizar o diário de bordo. Claro que não conheço tudo no Rio, mas esses lugares ainda não visitados ficarão para uma próxima oportunidade.

Desembarque no Rio de Janeiro.
A expedição Curitiba x Rio (2008/2009) pode ser visualizada no seguinte endereço: Leia Aqui!
De onde desembarcamos até a casa do Leandro - que será mais uma vez meu anfitrião - são mais de 40 quilômetros, ou seja, mesmo após um dia inteiro de pedal, eu ainda tinha que pedalar toda essa distância. Em razão do dia e horário, o movimento estava bem tranquilo pelas ruas e avenidas. Entre outros lugares passamos pelos bairros: Centro, Lapa, Laranjeiras, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra e, finalmente, Jacarepaguá onde mora o Leandro. Durante esse trajeto registramos a passagem apenas na orla de Ipanema. Não seria muito inteligente de nossa parte ficar tirando foto àquela hora.

Registro garantido na praia de Ipanema.
Da mesma forma como ocorreu em 2009, minha passagem pela entrada da famosa Cidade de Deus ocorreu por volta da meia noite. Mas dessa vez nenhuma invasão policial acontecia e, consequentemente, não se ouviu tiro algum. Graças a Deus.O deslocamento de modo geral foi bem tranquilo, apenas na Avenida Niemeyer que encontramos algumas pessoas com atitude um pouco suspeita, mas não causaram nenhum problema e a nossa passagem foi liberada.
Já era quase 1 hora da madrugada quando finalmente chegamos ao destino final. Estava com fome e extremamente cansado. Era difícil até mesmo para raciocinar àquela altura do campeonato.
Vale ressaltar que meu pneu dianteiro furado não foi trocado desde Casimiro de Abreu, contudo, foi preciso ficar enchendo a câmera de ar com certa frequência, principalmente na parte final. A roda traseira quebrou mais três raios e, compreensivelmente, ficou um pouco empenada. Terei que mandar arruma-la aqui na cidade.
O Leandro mora em apartamento e por isso eu ainda tive que tirar toda a bagagem da Victoria para poder leva-la no elevador. Depois tive a oportunidade de conhecer a Ida, namorada do anfitrião e amiga da Fabi, minha excelentíssima. Para quem não se lembra, foi através deles que conheci a Fabi.
A Ida tinha preparado uma janta com bastante sustância e a refeição foi degustada antes mesmo de tomar banho. A fome era maior do que a vontade de ficar limpo. Depois de um tempo fiquei devidamente limpo e fui dormir para descansar o sono dos justos.
Devo permanecer alguns poucos dias na cidade apenas para descansar, atualizar o diário de bordo e encontrar com mais alguns amigos.
Dia finalizado com 175,16 km pedalados em 12h40m e velocidade média de 13,7 km/h.
26/08/2013 - 414° dia - Rio de Janeiro (Folga)
Dia dedicado exclusivamente ao descanso e à atualização do diário de bordo.
27/08/2013 - 415° dia - Rio de Janeiro (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
Hoje também aproveitei para levar, na companhia do Leandro, a roda traseira da Victoria para trocar os raios quebrados. No final das contas foram colocados cinco novos raios. Cobraram vinte reais pela substituição das peças. Um absurdo. O anfitrião não me deixou arcar com as despesas e pagou pelo serviço. Obrigado, carioca.
De noite os camaradas Pablo e Estevão Nicoletto (hoje morador do Rio de Janeiro) apareceram no apartamento para uma pequena e animada confraternização. O amigo Estevão viajou comigo em 2010 quando realizamos o Caminho Velho da Estrada Real na companhia do Guilherme Tolotti. Naquela ocasião a expedição estava denominada como; Foz, Estrada Real e Belo Horizonte. Desde aquela época não tinha mais encontrado com ele, portanto, foi mais um reencontro para a história.

Ambiente descontraído e animado com esses amigos.
Para a minha surpresa, o anfitrião resolveu se aventurar na cozinha e preparou, com ajuda de sua namorada, o tradicional prato árabe: shawarma. A iguaria é amplamente conhecida em Foz do Iguaçu em razão da colônia árabe presente na tríplice fronteira, onde o carioca provou o prato, gostou e resolveu fazê-lo.

Hora de provar o shawarma. Aprovado!
Shawarma
O shawarma preparado pelos anfitriões ficou muito bom e bastante parecido com aquele encontrado em Foz. Aprovado!
O encontro com o pessoal estava bom demais. Muitas risadas e histórias. Simplesmente inesquecível.
28/08/2013 - 416° dia - Rio de Janeiro (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
Hoje o dia foi de mais um encontro histórico, dessa vez quem apareceu na casa do Leandro para nos fazer uma visita foi o conhecido cicloturista Ricardo Martins do projeto pela América do Sul intitulado Roda América.
Ricardo é mais um amigo da época do Orkut que eu tenho a oportunidade de conhecer nesta viagem. Sem dúvida ele inspirou muita gente a ter um estilo de vida diferente. Lembro muito bem que anos atrás fiquei fascinado pela sua passagem no litoral do Uruguay onde se deparou com paisagens incríveis. Não esqueci aquelas fotografias compartilhadas na comunidade Cicloturismo e em 2010 tive a oportunidade de visitar aquele país e, sobretudo, Cabo Polônio, local das imagens impressionantes.
O camarada Ricardo lançou recentemente seu livro Roda América – Em Busca de nossa gente, onde conta melhor sobre sua viagem. Maiores informações: http://www.rodaamerica.com.br/
Mais uma vez a confraternização foi animada, Estevão e Pablo também estavam presentes e a reunião durou até altas horas da madrugada. Hoje os anfitriões prepararam panquecas deliciosas. Tudo muito bom.

Encontro histórico no Rio de Janeiro: Pablo, Leandro, Nelson Neto, Estevão e Ricardo
Obrigado pela companhia de todos vocês.
29/08/2013 - 417° dia - Rio de Janeiro (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
Estava preparado para seguir viagem hoje, mas fui dormir muito tarde (4h00) e não havia chance de acordar às 6 horas da manhã para pedalar. Por isso achei melhor permanecer mais um dia na cidade, assim tenho tempo para poder, finalmente, terminar a atualização do site.
30/08/2013 - 418° dia - Rio de Janeiro (Folga)
Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.
Para poder finalizar a atualização e realizar a nova postagem no diário de bordo, fiquei mais um dia no Rio de Janeiro com a autorização do anfitrião, claro. Essa permanência não compromete meus planos de chegar à Foz do Iguaçu no dia 15 de setembro, contudo, não poderei ficar dois dias em Itanhaém, como estava planejado.
De qualquer forma, no próximo dia 4 de setembro, encontrarei com o pessoal do grupo CicloturITA e seguiremos à Paranaguá, via Estrada da Graciosa, onde acontecerá um encontro histórico (no dia 7) do grupo DAP (Do Atlântico ao Pacífico) com presença dos amigos e cicloturistas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro.
Amanhã volto à estrada para completar a penúltima etapa da viagem. Faltam apenas 16 dias para concluir o projeto.
No mais, quero agradecer a todos que continuam a bordo da expedição nesta reta final. Tenho tido pouco tempo para responder todos, mas podem ter certeza que leio cada mensagem, comentário, e-mail e todas as palavras de apoio. Também deixo meu muito obrigado àqueles que adquiriram o livro na pré-venda. Se você ainda não comprou, aproveite e reserve seu exemplar, clique aqui!

Mandarei notícias em Paranaguá - Paraná no próximo final de semana. Aguardem!
Grande abraço a todos.
“Hasta la Victoria Siempre”

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