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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Peru IV

29/10/2012 - 113° dia - Lima a Huacho

Dia de voltar à estrada.

Após uma rápida passagem pela capital peruana, estava na hora de seguir viagem em direção ao norte do país.

Ontem fui dormir tarde por uma série de motivos. Foi necessário deixar parte da bagagem arrumada, preparar o café da manhã (do dia seguinte) e ainda responder alguns comentários no site. Correria total. Dessa forma, apaguei somente por volta da meia noite, muito tarde para quem pretendia acordar por volta das 5 horas da manhã.

Eu estava cansado e por isso resolvi não ativar o despertador do celular e deixar o corpo acordar naturalmente. É certo que eu precisava sair cedo da pensão para enfrentar um trânsito menos caótico, mas de nada adiantava madrugar e ter o pedal prejudicado pela fadiga. Com esse raciocínio levantei somente às 6h30m. Com esse horário, decidi que após terminar de arrumar as coisas nos alforjes eu tomaria o desayuno oferecido pela pensão a partir das 7h30m.

Finalizei toda a arrumação e fui à mesa esperar o café da manhã, levei as duas últimas bananas que havia comprado quando cheguei à capital. Uma forma de reforçar as energias para encarar mais um dia de pedal. O desayuno foi extremamente caprichado, suco natural, pães, chá, banana e ainda bolachas recheadas para completar a refeição matinal.

Despedi-me da família Rodriguez, Dona Margarita e também do belga Oliver. Todos me ajudaram a levar as bagagens para o saguão do prédio. Agradeci pela gentileza e fiz questão de parabenizar o proprietário pela excelente hospitalidade. Além da ótima localização, o atendimento é ímpar e os serviços impecáveis. Recomendo com certeza.

Fui sair da pensão somente às 8h15m. O senhor Rodriguez me explicou o caminho para chegar à Panamericana Norte. Bastou seguir as preciosas dicas e confirmar a direção com algumas pessoas nas ruas e com menos de três quilômetros eu estava no local desejado.  Claro que a essa altura o trânsito já estava nervoso, mesmo para uma manhã de segunda-feira. Mas para quem chegou à Lima (com 9 milhões de habitantes) de noite, pedalar com claridade foi menos complicado.

Na Panamericana o movimento aumentou de forma assustadora. Não tem como ficar confortável diante de tal situação. Seguir tenso é quase inevitável. O trafego é imperdoável e qualquer descuido pode ser fatal, sem exagero. Por isso eu estava totalmente concentrado na rodovia, sem chance para registrar o momento.

Em um determinado momento levei um susto quando a polícia (de moto) apareceu ao meu lado. Pensei que levaria alguma advertência por pedalar nesta parte da rodovia (saída de Lima) onde não há espaço para ciclista. Entretanto, o policial apenas estava curioso para ter maiores detalhes da minha viagem. Mesmo em meio àquele trânsito respondi sem problema. De modo geral, motorista tem “medo” de policia e ninguém chegou perto da gente. Pena que a escolta durou pouco tempo.

Foram treze quilômetros de pedal junto aos veículos já que não existia acostamento. Quando ele finalmente apareceu na região de Los Olivos, sem dúvidas amenizou a situação, mas ainda era complicado passar pelas entradas/saídas da Panamericana. O problema com as paradas de ônibus também exigia atenção máxima. Realmente os motoristas peruanos estão longe de ser um exemplo atrás do volante.

O retorno do acostamento em Los Olivos e o movimento na Panamericana Norte.

O acostamento estava horrível e por vezes deixou de existir e cedeu espaço para a lama formada à beira da estrada. Evidência que a chuva havia marcado presença minutos atrás. No momento eu pedalava apenas com uma leve garoa.  Desde a saída de Lima o tempo estava bem fechado e indicava que a chuva não iria demorar a cair. 

A região metropolitana de Lima é imensa e por toda sua extensão o trânsito intenso é o que mais chama atenção. Estava ansioso para sair logo daquela situação desagradável. Ninguém merece pedalar sem acostamento, com veículos por todos os lados e buzinas que ecoam a todo instante.

Com 35 quilômetros pedalados, finalmente um pouco de tranquilidade. Em Santa Rosa a autopista voltou a ter duas vias em cada sentido da estrada e o acostamento melhorou um pouco. O trajeto continuava plano e favorecia um ritmo maior no deslocamento. Eu também conseguia empregar uma velocidade boa em razão do melhor desempenho da bicicleta com as peças novas. A sensação é que o giro do pedal acontece com mais facilidade. 

Após Santa Rosa aparece uma placa que vejo pela primeira vez em toda a viagem, a mesma dizia: Subida Pronunciada. Já havia realizado uma análise na altimetria e o que me surpreendeu foi o tal letreiro e a sua localização. Isso porque não era possível visualizar nenhum aclive, somente uma longa reta. Todavia, não demorou muito e surgiu uma curva que seguia em direção ao topo da montanha. Agora sim a placa fazia sentido. 

Subida. Onde?

Pode não parecer, mas esta é a tal subida pronunciada.

Longo aclive pelo deserto.

Foram seis quilômetros de subida que proporcionava ter visão panorâmica de um povoado que não tinha certeza se ainda era Santa Rosa, entretanto, incrível que apesar do tamanho do local, simplesmente não havia árvores e nenhuma evidência de qualquer flora. Paisagem literalmente “seca”.

Povoado à beira da rodovia.

 
Encontre a árvore.

No topo da montanha foi possível ver o mar pela segunda vez no dia, em Santa Rosa ele também apareceu para enriquecer o ambiente. Na sequencia a descida começou e teve a mesma quilometragem da subida. Era meio dia e fiquei de plantão para encontrar algum restaurante. No entanto, as horas e mais sobe e desce passaram, mas nada de surgir um lugar para comer. 

Visual no final da subida pronunciada.

Descer também faz parte da "brincadeira".

Em um momento apareceu uma imensa área verde ao lado do oceano e poucos quilômetros depois, casas no horizonte indicavam que a cidade de Chancay estava próxima. Certamente haveria um estabelecimento que oferecia refeição. Cheguei ao trevo de Chancay/Huaral com a marca de 70 quilômetros no velocímetro. Continuei pela Panamericana em direção à Chancay e na entrada do município, parei, às 13h30m, no primeiro restaurante que encontrei. 

A região de Chancay. Do deserto à área verde em poucos quilômetros.

Rodovia que segue para Huaral.

In foco.

Em direção ao norte.

O menu tradicional custou 7 soles. E principalmente o segundo prato estava bem caprichado, entenda-se, bastante cheio, conforme eu havia, gentilmente, pedido. Muito arroz, salada, peixe frito e uma jarra de uma bebida que parecia refresco e chá ao mesmo tempo e ainda tinha pedaços de maça, estranho, diferente, mas bem gostoso. 

Às 14h10m voltei a pedalar. O perímetro urbano de Chancay custou a passar, se não me engano foram dez quilômetros para concluir esse trecho. Durante essa distância foi possível observar as mais diferentes plantações, morango, cenoura, milho e outros produtos que não conheço. Sei que a agricultura na região emprega muita gente.

Plantação de morango. Muito morango.

In foco.

Essa área verde e produtiva ainda durou 25 quilômetros após Chancay. O contraste entre deserto e a região cultivada é algo que ainda chama minha atenção. Continuo curioso para saber mais detalhes do sucesso dessa plantação em solo arenoso. 

O incrível contraste da região.

Meu objetivo inicial era chegar à cidade de Huacho, cerca de 150 km de Lima, mas como minha saída da capital foi tardia, cogitava permanecer em algum lugar antes do planejado. Por volta das 16 horas completei 100 km e como presente, ganhei mais uma bela subida, também de seis quilômetros. Foi tranquilo pedalar por esse aclive, como disse em outra postagem, valeu o treinamento intenso nos Andes.

Flores pelo caminho.

Mulher quase pelada em comercial de cerveja é comum. Mas em equipamento agrícola é novidade.

Rede de pesca.

Resolvi que iria parar mesmo em Huacho, ainda que para isso eu tivesse que pedalar de noite. Agora estou ainda mais confiante para encarar um pedal noturno, afinal, passei por um teste e tanto na chegada à Lima. Isso não significa menos atenção, nunca se deve subestimar a estrada e seus perigos, que isso fique bem claro. No entanto, eu estava em um trecho mais tranquilo e com acostamento, que por sua vez, voltou a ficar bom. A lanterna traseira comprada na capital também me deixava com mais segurança.

Com meus cálculos achei que a chegada ao destino do dia seria apenas por volta das 8 horas da noite. Mas eu consegui me superar e pedalei em um ritmo muito bom. Velocidade acima dos 30 km/h, claro que o relevo (plano) ajudou, contudo, é preciso mencionar que a minha parte física está melhor a cada dia, sobretudo, as pernas que ficam mais e mais fortalecidas. Acho que não poderia ser diferente. Já são mais de seis mil quilômetros de estrada. Em todo caso, com a velocidade maior, poderia chegar à Huacho antes do previsto.

Mais uma vez não consigo ver o pôr-do-sol no Pacífico em razão do tempo extremamente nublado, hoje, por exemplo, ficou assim o dia todo. A escuridão chegou pouco depois das 18 horas e então liguei o farol e a lanterna para garantir a segurança. Continuei animado e o pedal foi tranquilo até chegar ao local esperado. Pelas luzes no horizonte, a cidade de Huacho parecia ser bem maior do que eu pensava.  

Chegada em Huacho.

Pedalei mais alguns quilômetros e cheguei ao primeiro trevo de acesso ao município, entretanto, por motivo desconhecido, resolvi não parar e segui em frente na esperança de encontrar alguma hospedagem à beira da rodovia. A minha intuição não falhou. No segundo trevo vejo a placa de um Hostal próximo da estrada, fui conferir o preço da diária.

Na hospedagem, a diária mais barata custava 25 soles, não consegui nenhum desconto e fui procurar outro lugar. Achei o Hostal Ampay, não muito distante do primeiro. O quarto mais econômico era de 20 soles, mas após muita conversa o proprietário fechou por 15, maravilha. O dormitório é bem simples, há banheiro privado, mas não tem água quente. Fiz a janta (macarrão instantâneo) e depois comecei a escrever o diário. Banho? Acho que vou deixar para amanhã. A temperatura ambiente não está elevada e a água deve estar bem gelada. Estou sem coragem de enfrenta-la no momento. (Risada sacana)

Aproveitando o espelho do quarto para fazer um registro após o longo dia de pedal.

Amanhã sigo para Huarmey que também está aproximadamente há 150 quilômetros. Analisei a altimetria até o referido lugar, mas confesso que já não lembro direito, sinal que o trajeto deve ser tranquilo, caso contrário teria despertado minha atenção. 

Hoje o dia foi finalizado com 148,49 km em 9h02m e velocidade média de 16,43 km/h.

30/10/2012 - 114° dia - Huacho a Huarmey

Dia relativamente tranquilo. Aqui a palavra em destaque faz toda a diferença, afinal, em uma cicloviagem, tudo pode acontecer.

Mais uma noite sossegada. Meu despertador tocou às 5 horas da manhã, mas quem disse que eu consegui levantar. Fui começar a me movimentar praticamente uma hora depois, todavia, a vontade era de continuar deitado. Qual é? Eu também sou ser humano e às vezes bate aquela preguiça “saudável”. 

Mas eu havia planejado que hoje o pedal seria até a cidade de Huarmey, com uma distância de aproximadamente 150 quilômetros, ou seja, eu deveria tratar de arrumar minhas coisas, preparar o café da manhã e me mandar para a estrada o quanto antes.

Fui sair da hospedagem apenas às 7 horas da manhã. Em poucos minutos eu já estava novamente na rodovia Panamericana, contudo, agora a estrada não é mais duplicada, infelizmente. O problema da pista simples em uma rodovia movimentada como esta é a imprudência dos motoristas. Não demorou e apareceram os primeiros sinais de acidentes pelo caminho. As cruzes à beira da estrada estão por todos os lados.  Não basta construir mais e mais espaços para os veículos, é preciso conscientizar seus condutores.

Caminho movimentado na região dos povoados.

Novamente o tempo está nublado e a temperatura nas primeiras horas da manhã é agradável. Não precisei nem mesmo tirar a segunda pele. Avanço sem maiores dificuldades, exceto durante o perímetro urbano dos vários povoados e distritos existentes após Huacho. Nessas áreas é preciso triplicar a atenção, mesmo no acostamento, espaço preferido das motocicletas e moto-taxis. Se um dia você pedalar pela região, não se assuste com as “nervosas” buzinas, basta manter a calma, seguir pelo lado direito do acostamento e deixar o apressado ultrapassar, simples.

Meio mundo vive aqui, rs.

In foco.

As plantações pelo caminho continuam. Não sei informar com muita certeza, mas acho que essa região é responsável por abastecer boa parte do país. A área destinada ao cultivo dos mais variados produtos é enorme. Mas vale lembrar que, aparentemente, a agricultura familiar se destaca, uma vez que todo esse espaço está divido em pequenos terrenos onde é possível visualizar a diversidade da produção.

Eu, particularmente, acho bem interessante pedalar por essas regiões produtivas. É uma oportunidade de conhecer o plantio de vários alimentos que chegam à nossa mesa e que muitas vezes, não temos a mínima idéia deste processo que se inicia no campo. Hoje foi a vez de me surpreender com o cultivo de cebola. Vários hectares dedicados à sua plantação. Também pude observar a conhecida cana-de-açúcar. Isso explica os vendedores ambulantes que vendem garapa à beira da estrada. Morangos, alcachofras, milhos, cenouras e outros produtos também eram visíveis às margens da rodovia.

Agricultura familiar.

Cultivo de cebola.

In foco.

Sistema de irrigação.

Não sei o que é, mas certamente não são apenas flores.

O pedal continuou tranquilo e por volta das onze horas cheguei ao trevo de acesso à Paramonga. Apesar do nome peculiar, não parei e infelizmente essa decisão me custou vários quilômetros para encontrar um restaurante para almoçar. Isso porque o trecho a seguir apresentou somente plantações ou imensas áreas desérticas.

 
Mais um nome curioso para a lista.

Em Paramonga é comum encontra-los à beira da rodovia.

Da série: Coisas que a gente encontra pelo caminho.

Com 60 quilômetros pedalados desde Huacho, apareceu o primeiro acesso para a cidade de Huaraz, conhecida, sobretudo, em razão da Cordilheira Branca que proporciona belíssimas paisagens dos Andes Peruanos. Nos últimos meses eu pedalei demasiadamente pelas altitudes elevadas, então achei melhor continuar pelo litoral em direção ao norte do país.

Primeiro acesso à Huaraz.

A surpresa do caminho ficou por conta da zona arqueológica denominada Fortaleza de Paramonga. Desconheço qualquer informação sobre a mesma, contudo, não deixa de ser uma obra que impressiona pela localização no alto da montanha e também por sua construção que faz jus ao nome e propósito pelo qual foi levantada.

Fortaleza de Paramonga.

Na região da Fortaleza encontrei com vários argentinos de Mar del Plata que viajam pela América do Sul em um ônibus bem antigo. É possível encontra-los no Facebook, basta pesquisar: En Bondi a Centro America. Durante nossa conversa, informaram que nos últimos cem quilômetros foram parados quatro vezes pelos policiais rodoviários. Em todas as ocasiões sofreram com as absurdas propinas, que não foram pagas após argumentarem a falta de dinheiro. 

Realmente a presença da polícia rodoviária é algo que chama atenção na Rodovia Panamericana, seja na parte sul ou norte de sua extensão em território peruano. Como também acontece no Brasil, eles ficam em pontos estratégicos da estrada, muitas vezes quase imperceptíveis para surpreender os motoristas. Até o momento não tive nenhuma abordagem, melhor assim.

Antes de me despedir, os argentinos registraram o encontro da “América Latina unida!” como falou um deles na hora do clique fotográfico. Na verdade, é bem isso mesmo, devemos nos unir e parar com essa rivalidade tola entre brasileiro e argentino, se ela existe, que fique restrita ao futebol com suas cegas paixões e preconceitos absurdos de ambas as partes. Quando eu receber a foto por e-mail colocarei à disposição aqui no site.

O velocímetro marcava 50, 60, 70 quilômetros e nada de restaurante. As bolachas recheadas amenizavam um pouco a fome, entretanto, não eram suficientes para aquietar o estômago que clamava por comida. Acho que a fome realmente mexe com nosso raciocínio. Digo isso porque encontrei um restaurante na beira da estrada, parecia aberto e também abandonado. Estranhei que não havia nenhum cliente e fui perguntar sobre a existência de outro estabelecimento justamente para um policial que realizava uma blitz na frente deste local.

Eu não gosto de conversar com policiais principalmente em razão de todos esses casos de propina, claro que não são todos que a praticam, mas na dúvida, converso estritamente o necessário e sigo viagem. Acontece que neste caso eu nem lembrei o que os argentinos acabaram de me falar. Enfim, o policial não fez nada, exceto me informar que mais a frente (sem maiores detalhes) havia outro restaurante. 

Continuei a pedalada enquanto as horas passavam. Já era quase 2 horas da tarde e nada de almoço. Quase convencia meu psicológico e, sobretudo, meu estômago, que a refeição de hoje seria apenas durante o jantar, quando apareceram construções no horizonte que elevaram meu moral. Comida à vista?

Para minha infelicidade, era apenas mais um pedágio. Tudo se encaminhava para ser outra passagem normal quando um policial surge do outro lado da pista e pede para eu encostar a bicicleta. Misericórdia. Desta vez não esqueci o relato dos hermanos argentinos e ao ver o policial atravessando a estrada pensei que seria outro pedido de propina aos turistas “perdidos” pela região. 

Em uma hora como esta você tem que raciocinar rapidamente, com ou sem fome, e tentar manter sempre a calma. Qualquer sinal de nervosismo o guarda já pensa que existe algo errado e complica ainda mais a situação. Eu que costumo ser meio devagar, tratei de agilizar meus neurônios e quando o policial se aproximou e perguntou como eu estava, na mesma hora dramatizei (foi preciso) e respondi: Yo estoy mucho cansado e con demasiada hambre. Acho que o policial acabou sensibilizado e amenizou a abordagem ainda mais quando soube que eu era brasileiro. 

Não deixei a conversa prolongar e perguntei somente sobre a existência de um restaurante pelos próximos quilômetros. Então me respondeu que após a subida havia uma longa descida e finalmente do lado esquerdo, um local para almoçar. Rapidamente agradeci e disse que deveria seguir para almoçar logo. Ele me desejou boa viagem e nada mais aconteceu, nenhum centavo foi exigido. 

É certo que nem todos os policiais são mal intencionados. Talvez eu nunca saiba o que realmente aquele senhor pretendia, no entanto, em caso de dúvida, mantenha a calma, seja rápido na conversa e improvise um argumento para evitar qualquer possibilidade de pagar um centavo que seja para policial corrupto.

Bom, continuei o pedal. A subida não era das piores, mas a fome e a temperatura elevada com o tempo aberto deixou tudo ainda mais difícil. Com paciência (sempre ela!) consegui vencer o aclive e após a descida não havia nenhum restaurante. Não acreditei que tinha sido sacaneado. Não me restou outra opção a não ser seguir em frente.

Quase sempre procuro pensar que existe um lado positivo para a situação, neste caso, a parte boa da história é que eu chegava aos 80 quilômetros antes das 14 horas. Quando eu já nem esperava mais, não é que o tal restaurante apareceu. Pensei que não havia mais almoço em razão do horário, mas não custava perguntar. 

Para a minha felicidade, ainda serviam comida ao preço de 8 soles o prato a la carte. Desta vez não havia o menu tradicional. Pedi o conhecido Lomo Saltado que geralmente é muito gostoso. Enquanto eu esperava meu prato, percebi que os outros clientes degustavam suas sopas. Em todo caso, nenhum dos pratos apareceu na minha mesa e a fome que era grande, ficou ainda maior. Em um momento perguntei para a cozinheira se a sopa fazia parte do pedido e então ela questionou se eu queria. Respondei que sim. Evidente que eu queria, estava com hambre, mucha hambre.

Finalmente o registro do Lomo Saltado.

A sopa logo apareceu e na mesma velocidade desapareceu do meu prato. Incrível, estou “viciado” neste prato e às vezes não acredito nisso. Justo eu que mal tomava sopa no inverno do sul do Brasil. Agora, mesmo com a temperatura na casa dos 30°C, faço questão de aprecia-la. 

Logo em seguida o Lomo Saltado foi servido, estava caprichado. Muitas vezes não me importo com a quantidade de carne desde que exista bastante arroz. Era o caso desse prato, mais uma vez, muito saboroso. Também, difícil alguém não gostar de carne e batata frita. Claro que não me refiro aos vegetarianos. Tem gosto para tudo.

Quando fui pagar a conta tive uma surpresa. A sopa foi cobrada à parte (2 soles). Mas lembrei que havia perguntado se ela fazia parte do prato e com a resposta da cozinheira, achei que estava incluída no cardápio e esse foi meu argumento para que o valor da mesma não viesse a ser adicionado. A mulher compreendeu e paguei somente 8 soles.

Na volta à estrada eu deveria pedalar mais de 60 quilômetros para chegar ao destino estabelecido. Mas estava difícil para avançar, vento contra, calor, e muito sobe e desce. Sim, pedalar ao lado do mar está longe de significar apenas planície pelo caminho. No Brasil, um bom exemplo disso é a Rio x Santos. Aqui a situação não melhorou com o começo do trecho plano, isso porque o vento se encarregou de espalhar areia para todos os lados. Com a passagem constante dos caminhões, nem mesmo os óculos evitaram que os grãos entrassem nos olhos. Haja paciência! Mas, do mesmo modo como acontece na mencionada estrada brasileira, a paisagem na Panamericana é maravilhosa, sem fazer comparações, que fique claro. Um pequeno túnel proporcionou um dos visuais mais bonitos do dia, sem dúvida.

Sobe e desce da região.

Zona de arenamiento.

Como ir à praia com essas montanhas de areia pelo caminho?

Túnel.

In foco.

As incríveis paisagens da Rodovia Panamericana Norte com o Pacífico ao lado.

Eu, a estrada e o Pacifico. Perfeito!

Montanhas e mais áreas desérticas pelo caminho.

 
Isso significa sobe e desce na rodovia.

  
E as plantações aparecem quando menos se espera.

Durante o final da tarde eu já sabia que enfrentaria mais um pedal noturno. Preparei meu psicológico e encarei as subidas, descidas, areias e o acostamento que por vezes está bem ruim, repleto de ondulações que prejudicam bastante o aumento da velocidade nas descidas. Pedalar na pista está fora de cogitação em razão do movimento, principalmente de caminhões. Com o fim das subidas e o começo da escuridão, bastou pedalar tranquilamente até chegar à Huarmey por volta das 19 horas.

Ainda na Panamericana, procurei saber o preço de uma hospedagem, mas a mesma custava 30 soles, não houve desconto e então fui obrigado a entrar na cidade e começar a busca por algum local econômico para passar a noite. Em mais três ou quatro estabelecimentos a diária mais barata era 25 soles. Por fim, um recepcionista me recomendou um lugar onde seria possível pernoitar por 10 soles. Fui conferir. O local chama-se Hospedaje Aija e fica em uma área mais afastada da rodovia. 

Na hospedagem Aija a diária mais barata que consegui foi ao preço de 15 soles, razoável. Sem muitas opções, resolvi ficar. O quarto era extremamente simples e o banheiro compartilhado havia somente água fria. Desta vez eu precisava de uma ducha e encarei a água congelante, tudo que os musculosos não precisam para relaxar após um dia inteiro de trabalho. Eu nunca gostei de banho gelado, nem mesmo no verão. Mas quando não há alternativa, o jeito é encarar assim mesmo. Mas há uma dica para quem é bastante friorento. Durante o banho tente manter a respiração normalizada. Por mais difícil que pareça, quando estiver debaixo d’água, respire e inspire com calma, realmente funciona, faça o teste. Aprendi isso em mais uma aula do Bear Grylls em À prova de tudo. Assim, tomei o banho rapidamente (claro!) e fui às ruas em busca de mantimentos e um lugar para jantar.

Como a hospedagem está mais afastada do centro, tive que caminhar algumas quadras pelas ruas empoeiradas (algumas não tem asfalto) até chegar à praça principal. No local há opções econômicas para jantar. Escolhi um restaurante onde a refeição custava apenas 5 soles, menu tradicional, sopa e segundo, neste último, uma raridade na viagem, purê de batata com arroz e peixe frito. Uma delícia. Queria pedir outro prato somente por causa do purê, mas aprendi a lição e não quero passar mal por ser guloso.

Depois da janta fui atrás de pão, água e bolacha. Encontrei tudo que precisava e voltei para a hospedagem. Na recepção conferi se a Victoria estava protegida, desejei boa noite para minha companheira e subi para o quarto. Antes de dormir ainda preparei o desayuno de amanhã, pães com geléia, tudo para não atrasar a saída no dia seguinte. Com tudo pronto, finalmente fui descansar após mais um longo dia.

Dia finalizado com 152,17 km em 9h41m e velocidade média de 15,70 km/h.

31/10/2012 - 115° dia - Huarmey a Chimbote

Encontros inesperados.

Realmente não existe monotonia em uma cicloviagem pela América do Sul.

Mais uma noite tranquila. Acordei por volta das 5 horas, mas novamente não levantei no mesmo instante. Acho que resolvi sair da cama somente uma hora depois. Então começou a correria para arrumar as coisas nos alforjes e devorar rapidamente o café da manhã. 

Às 7h20m eu deixava a Hospedaje Aija e seguia para a Panamericana. De volta à rodovia principal, uma surpresa logo nos primeiros quilômetros do dia. A estrada está em obras (processo de duplicação) após Huarmey. Isso significa máquinas pesadas na pista, muitos trabalhadores pelo caminho e acostamento invadido por pedras e areia. O movimento de pessoas e veículos em excesso requer mais atenção.

O tempo finalmente amanheceu melhor que os dias anteriores e pedalei poucos minutos com a segunda pele. A temperatura aumentou rapidamente e não demorou muito e eu já estava suado. A vontade era de mergulhar no mar que estava logo ao lado, mas aqui as praias são desertas e de difícil acesso (montanhas de areia), logo, a solução foi continuar firme e forme, mesmo com calor.

Paisagem nas primeiras horas da manhã.

As obras na estrada duraram cerca de vinte quilômetros, na sequencia a pista está praticamente pronta, no entanto, ainda não foi liberada. Mas, como o acostamento da via principal estava horrível com muita pedra e areia, resolvi me aventurar pela estrada nova. Outra vez, uma rodovia somente para mim, que privilégio. Durante o caminho peço autorização para continuar aos trabalhadores e com a resposta positiva, sigo tranquilamente pelo sobe e desce constante deste trecho.

Rodovia exclusiva. Que maravilha!

Pista ainda não liberada na Panamericana Norte.

Pedalei quase 30 quilômetros sem ter que me preocupar com o trânsito, benefícios de uma rodovia ainda não liberada. Mas a felicidade não durou muito tempo. Após uma forte descida, havia vários trabalhadores, consequentemente diminui a velocidade e novamente pedi autorização para continuar. Um funcionário disse para eu seguir quando uma mulher apareceu e resolveu complicar a situação. Ela aparentava ocupar um cargo superior e disse que eu não poderia continuar pela pista nova porque havia maquinário pesado e qualquer acidente comigo ela seria responsável. Detalhe, não tinha mais máquina nenhuma. Tentei argumentar que era muito mais perigoso pedalar pelo acostamento (quase inexistente) do que pela pista nova e suas máquinas (fantasmas), mas mesmo assim não teve jeito, tive que sair da rodovia exclusiva.

Pensei comigo, vou pedalar mais um pouco e depois volto para a exclusividade da pista nova. Isso tudo porque realmente estava tenso seguir pelo acostamento. A essa altura era somente pedra brita, horrível para pedalar. E aquela obra ao lado me esperava, eu conseguia escutar seu chamado, juro. (risada sacana). Voltei e quando usufruía da segurança proporcionada pela área restrita, um novo bloqueio de funcionários e novamente não fui autorizado a seguir. Aposto que a tal mulher mandou um recado pelo rádio, isso porque anteriormente eu passei por vários funcionários e ninguém se importou com a minha presença.

Os quilômetros passaram, ainda que lentamente e já estava na hora do almoço quando apareceu um restaurante à beira da estrada. Resolvi conferir o preço. Misericórdia, tudo extremamente caro e não existia menu tradicional, apenas pratos a la carte. Conversei com um caminhoneiro que almoçava no local sobre os preços e ele me recomendou seguir viagem que logo a frente existia outra opção para almoçar. Maravilha.

Eu saia do tal restaurante com o preço nada compatível com meu bolso quando fui surpreendido pelo proprietário que foi me buscar na porta do estabelecimento. Eu mencionei que não poderia ficar porque o preço da refeição era muito alto. Ele então disse para eu entrar e na mesma hora perguntei quanto ele me cobraria. Respondeu que era um convite, ou seja, tudo indicava que não cobraria pelo almoço. Quase não acreditava, mas era verdade.

Senhor Clemente, este é o nome da pessoa que me ofereceu o almoço. Ele é proprietário do Restaurante La Balsa no km 347 da Panamericana Norte. Fui convidado a sentar em uma mesa aos fundos, separada da área principal. Um local reservado para funcionários e familiares. Era para eu aguardar um momento que a refeição já seria servida. Confesso que eu ainda estava na dúvida de quanto ela me custaria. Seria realmente de graça?

Entre um atendimento e outro no restaurante, Clemente vem até a mesa para conversar comigo e saber mais detalhes da viagem. Em um destes momentos ele surge com vários cadernos e livros. Aponta-me, com muito orgulho, sua foto em um livro do cicloturista tcheco que passou pelo local, anos atrás. No caderno todo personalizado e intitulado Amigos Aventureiros ele me mostra as várias mensagens dos mais diversos viajantes que passaram pelo restaurante nos últimos anos. Inclusive, alguns brasileiros, como por exemplo, o pessoal do projeto Ciclopoiesis de Santa Catarina.

Um registro histórico. Senhor Clemente e Nelson Neto.

É surpreendente a quantidade de mensagens nos cadernos. É emocionante ler algumas delas. Isso porque elas demonstram que eu não estava diante de uma pessoa qualquer. Senhor Clemente é um grande entusiasta por viajantes, sobretudo, cicloturistas, que não raramente param no local, uma vez que a região não possui muitas opções para realizar a refeição. Pareceu-me que sempre quando é possível ele oferece hospitalidade para quem está na estrada. 

Conversamos bastante. Entusiasmado ele me contava algumas histórias dos personagens reais de seu livro. Eu escutava atentamente antes de começar a relatar as minhas próprias experiências no cicloturismo. Era sua hora de prestar atenção e fazia isso com maestria. A gente sabe quando alguém está realmente interessado naquilo que se diz. Afinal: “O homem ignorante grita, o inteligente opina e o sábio escuta.”

Durante a conversa meu almoço é servido. Que maravilhoso prato! Muito arroz, filé (enorme) de peixe, feijão e salada. Uma jarra de refresco à disposição. Um verdadeiro banquete. Nosso diálogo era interrompido apenas quando algum cliente aparecia no restaurante. Clemente me mostra um jornal que aborda a passagem do furacão “Sandy” pelos Estados Unidos. Eu havia visto algo na internet, mas não tinha idéia da devastação causada. A manchete do jornal ainda dizia que o fenômeno El niño chegaria com força total nos países do Pacífico Sul, ou seja, incluindo o Peru. Achei a matéria um pouco sensacionalista, mas, vamos esperar que não aconteça nada de mais grave.

Estava quase no final da refeição quando sou questionado se não quero mais comida. Achei que seria um abuso da minha parte pedir mais e então disse que estava satisfeito. Mas o senhor Clemente insistiu na pergunta e então aceitei. Minutos depois um funcionário trouxe um prato repleto de arroz e feijão, que delícia. 

Durante a agradável conversa, Clemente me faz uma pergunta, que agora tenho a oportunidade de compartilhar com vocês. Questionou-me sobre a existência (no Brasil) de congeladores (esses horizontais para guardar bebidas) que funcionam a gás ou querosene. Isso porque o local onde ele vive não tem energia suficiente para fazer funcionar um equipamento elétrico desse porte. Atualmente bebidas são mantidas a base de muito gelo no congelador. Segundo ele, isso eleva os custos. Eu não soube informa-lo, mas fiquei de responder (por e-mail) caso alguém tivesse informação a respeito. Portanto, se por acaso, você tem conhecimento de um congelador com essas características, me avise que entrarei em contato com o Clemente para deixa-lo a par das novidades made in Brazil. Será um prazer ajudá-lo.

Fiquei um bom tempo no restaurante e após a refeição fui convidado a deixar a minha mensagem no caderno. Que honra! Agora sou um dos amigos aventureiros. Isso é fazer parte da história de uma pessoa e um local. E sem dúvidas o senhor Clemente agora também faz parte da minha história. São acontecimentos deste tipo que tornam uma viagem inesquecível. Se você um dia passar pela região, faça questão de parar no La Balsa, nem que seja para trocar algumas palavras com esse sábio homem.

Restaurante la Balsa.

Restaurante la Balsa.

Antes de ir embora do restaurante ainda recebi o endereço e telefone de uma pessoa em Trujillo que recebe ciclistas em sua casa, segundo Clemente, era uma recomendação de outros cicloturistas que deixaram os dados com ele, em caso outros viajantes precisarem de hospitalidade. 

Despedi-me do Clemente e agradeci imensamente por sua hospitalidade e voltei à estrada já era quase duas horas da tarde. Havia um bom trecho para ser pedalado, mas pelo menos eu estava bem alimentado. Corpo e alma revigorados. 

No período da tarde tornei a pedalar pela pista nova e desta vez ninguém impediu minha passagem. O trajeto novamente foi marcado por várias subidas e descidas. Com 82 quilômetros apareceu o segundo acesso para Huaraz, fica um pouco antes da cidade de Casma, esta, por sua vez, tem um perímetro urbano bastante movimentado, aqui a moto-taxi peruana predomina e as placas nas estradas chegam a orientar os motoristas sobre a presença destes veículos pelo acostamento. Consequentemente, tive que dividir espaço com eles.

Segundo acesso à Huaraz.

Tempestade de areia. Enfrentei alguns quilômetros bastante arenosos pelo caminho. A areia simplesmente encobria a estrada, uma cena no mínimo curiosa, fotografei rapidamente para não sujar muito a lente da câmera. Na sequencia o obstáculo foi mais uma longa subida e para variar o acostamento continuava ruim. 

Tempestade de areia. Encontro de tudo nesta expedição.

Playa de Tortuga.

Mais uma subida completada.

Cultivo de Pimenta.

In foco.

Ao final de mais um aclive o horizonte me apresenta uma enorme cidade. Ao anoitecer, Chimbote estava no meu campo de visão. Todavia, foi uma longa jornada para chegar ao município. Ficou cada vez mais escuro e o fluxo de veículos aumentava significativamente conforme eu me aproximava da zona urbana. 

Chimbote.

Distritos apareceram antes de Chimbote e foram uma grande tentação para eu realizar minha parada, já que algumas hospedagens se encontravam à beira da rodovia. No entanto, eu estava próximo do meu objetivo e não desistiria de alcança-lo.

Finalmente cheguei à Chimbote, estava cansado, mas ainda precisava achar uma hospedagem econômica para recuperar as energias. Não faltam opções de hotéis e hostal, no entanto, a maioria estava do outro lado da rodovia e atravessa-la àquele instante parecia impossível. Então continuei pela Panamericana quando, ainda na entrada da cidade, ao lado direito da estrada, apareceu o Hostal Ray, decidi conferir o preço da diária. 

Na hospedagem Ray, fui muito bem atendido pela senhora Ester, proprietária do local. O pernoite me custaria 25 soles, mas com a negociação, fechamos em 20 soles, algo em torno de 16 reais. O quarto era muito bom, cama de casal (luxo), TV a cabo e banheiro privado com água quente. Finalmente poderia tomar um banho mais caprichado. Instalações limpas e satisfatórias. Recomendo.

A Victoria ficou bem segura na recepção do hostal. Enquanto retirava a bagagem mais importante dos alforjes, conversei bastante com a dona Ester, uma senhora com mais de setenta anos e muita sabedoria. Gosto de encontrar pessoas idosas que compartilham o conhecimento de toda uma vida. É um aprendizado que muitas vezes acontece mediante de um gesto, uma expressão e claro, sábias palavras.

Devidamente alojado no dormitório localizado no segundo piso do prédio, tratei logo de tomar um banho, estava sujo em razão do suor, areia, poeira e tudo mais. Precisava ficar limpo. Aqui no país a hospedagem não é tão barata como na Bolívia, mas ainda assim é mais econômica do que no Brasil, motivo pelo qual ainda tenho optado por pernoitar nestes locais. A diária tem ficado em torno de 15 a 20 reais. 

Acampar não tem sido uma opção frequente, principalmente pela ausência de segurança. Também é importante mencionar que os postos de combustíveis não oferecem a estrutura brasileira que muito agrada aos cicloturistas (espaço, segurança e banheiros com chuveiro). Aqui ainda não encontrei, por exemplo, nenhum grifo (como os postos são chamados) com chuveiro para poder tomar aquele banho depois de um longo dia de pedal. Dormir demasiadamente sujo não é nada agradável e o descanso não é o mesmo. E recuperar as energias é algo essencial em uma viagem como esta. 

Após o banho na hospedagem Ray, fui preparar meu jantar, um simples macarrão instantâneo sem atum, sardinha e/ou extrato de tomate. Para deixar a refeição um pouco mais “rica”, degustei os pães que a dona Ester gentilmente me ofereceu assim que cheguei, inclusive, também ganhei uma banana para restabelecer as energias. Após a refeição ainda procurei estudar um pouco o roteiro do dia seguinte para não ser totalmente surpreendido pelo trajeto. Em seguida, finalmente fui dormir.

Hoje foi um dia mais do que especial pelo encontro com pessoas interessantes e, diga-se de passagem, com uma baita bagagem de vida e muita sabedoria para ensinar. Um exemplo de gentiliza a ser seguido. E afinal, gentileza gera gentileza. Repassar (na prática) esse aprendizado é uma forma de retribuir toda essa ajuda.

Comecei o mês da melhor forma possível com a visita à Machu Picchu e terminei outubro também de um modo extremamente positivo. Sem dúvidas foram dias para jamais serem esquecidos. Que novembro seja ainda mais surpreendente!

Dia finalizado com 139,01 km em 9h34m e velocidade média de 14,50 km/h.

01/11/2012 - 116° dia - Chimbote a Virú.

Diferente dos últimos dias, hoje não acordei com o despertador e também não madruguei naturalmente. Eu precisava descansar em razão da quilometragem acumulada em pouco tempo desde a saída de Lima. Foram quase 450 km em três dias, uma média diária maior do que tenho empregado durante toda a expedição. Desse modo, levantei somente às 7 horas.

Comecei a arrumar minhas coisas tranquilamente, não havia pressa porque resolvi que o dia seria com uma distância menor. Finalizaria o pedal na cidade de Virú, aproximadamente cem quilômetros após Chimbote. Assim, preparei meu desayuno com os pães comprados ainda na noite retrasada em Huarmey. Ando bem esperto com essa questão da alimentação. Não tenho deixado faltar pão, geléia, bolacha, água e macarrão, este último para o caso de emergência mesmo. 

Após o café da manhã fui me despedir da Dona Ester e às 8h30m comecei o pedal. As pernas estavam um pouco pesadas no inicio, mas logo voltaram ao normal. Em todo caso, decidi pedalar em um ritmo mais tranquilo. Afinal de contas, cheguei até aqui sem nenhum problema físico e acho que posso atribuir isso à forma pela qual o pedal tem sido exercido, sempre sem forçar demais a musculatura. 

Outra vez o céu está nublado e hoje um friozinho pôde ser sentido. Como eu estava na entrada da cidade, tive que completar todo seu extenso perímetro urbano. Próximo da região central a Panamericana praticamente se transforma em mais uma movimentada avenida. Eu segui o caminho que parecia ser mais óbvio já que não havia nenhuma placa que indicava a direção ao norte.

No perímetro urbano de Chimbote.

Conforme eu avançava pela área urbana de Chimbote mais o movimento ficava tranquilo e então comecei a suspeitar que algo estava errado. A Panamericana sem tráfego? Difícil de acreditar. A essa altura eu me encontrava no porto da cidade. E geralmente a região portuária não é um lugar muito recomendado para turista, aqui ou em qualquer lugar da América do Sul, sobretudo, no Brasil. Sempre há muitas pessoas e infelizmente algumas sem boas intenções. Com isso, tratei de pedalar o mais rápido possível para sair do local. Quando ficou mais tranquilo parei para tirar uma foto das centenas de embarcações ancoradas e da praia(?) repleta de lixo. 

Região portuária de Chimbote.

In foco.

Uma cena lamentável.

Após o registro fotográfico continuei em frente e quando encontrei uma vendedora ambulante perguntei sobre a direção para Trujillo. Ela respondeu que bastava eu seguir pela avenida onde eu me encontrava. Aliviado, mencionei que estava com receio de estar perdido já que há pouco movimento no local. Então a senhora me explicou que a rodovia continua pelo centro. Como eu não visualizei nenhuma placa, simplesmente passei direto e cheguei nesta área do porto que também é uma região industrial. 

O desvio involuntário me custou três quilômetros a mais de pedal, mas nem estressei por causa disso e pensei pelo lado positivo, havia me livrado do barulhento trânsito que certamente existia no centro da cidade. Há males que vem para o bem. 

De volta à Panamericana a falta de um acostamento decente prejudica o avanço mais rápido. Nem de longe é possível comparar a parte sul da rodovia com essa região norte, a primeira é muito melhor para nós, ciclistas. O motorista de modo geral não deve notar muita diferença, já que a pista está sempre em ótimas condições.

Mais um túnel pelo caminho. Desta vez sua extensão é maior e antes de atravessá-lo fiz questão de acender a lanterna traseira para ser mais bem visualizado pelos motoristas. Pedalar por um lugar assim é sempre uma aventura à parte. Geralmente é escuro, estreito e sem espaço adequado para o tráfego de bicicletas. Para tornar a experiência ainda mais emocionante, imagine o barulho de vários veículos ecoado de forma assustadora. É sinistro! Adrenalina pura.

Túnel pelo caminho.

Após vinte quilômetros pedalados, Santa apareceu pelo caminho. Não, eu não estava diante de um milagre, este é o nome do distrito existente após Chimbote. Sua área urbana também é bastante movimentada. A zona rural, para variar, é repleta de plantações, destaque para o cultivo de arroz e o sistema de irrigação utilizado para garantir uma boa safra. Aliás, ao que tudo indica, a irrigação é o segredo do sucesso da produtividade em solo arenoso e clima seco.

Mais plantações entre Chimbote e Santa.

Labuta no campo.

Cultivo de arroz.

Comer e descansar.

Aqui os animais são alimentados à base de cenoura, rs.

Na estrada, o acostamento melhorou um pouco, mas nada muito significativo. Às vezes parecia que a bicicleta estava pregada no chão em razão da pedra brita existente neste espaço sagrado para a maioria dos ciclistas. Para variar, enfrentei uma longa subida que somada ao acostamento nada favorável, tornou o pedal bem cansativo. Sempre que isso acontece eu faço pequenas pausas para comer um pacote de bolacha (meu combustível infalível). No entanto, estava sem as galletas (as últimas terminaram horas atrás) e tudo ficou ainda mais complicado.

Da série: Coisas que a gente encontra pelo caminho.

Mas quando se tem pensamento positivo as coisas acontecem. Assim, no meio do nada apareceu uma das várias guardianias (local destinado para guardar cargas de caminhões) presentes à beira da estrada. Parei na intenção de perguntar sobre a presença de algum restaurante próximo, mas infelizmente quem me atendeu não soube informar, todavia, bolachas eram exibidas em um simples balcão. Claro que não pensei duas vezes em garantir meu almoço. Levei quatro pacotes da melhor (entre as mais baratas) galleta rellena em território peruano. GN é o nome da bolacha. Não se compara à Cremosita boliviana, mas quebra um galho, digo, engana a fome e repõe parte das energias.

Após a tal guardiania a subida tornou ainda mais íngreme e foram mais de cinco quilômetros de ascensão que me fizeram lembrar da Cordilheira dos Andes. Quando se vai aos céus pedalando só resta uma coisa a fazer, ter paciência e seguir com muita calma. Dessa forma, logo cheguei ao final de outro aclive. A surpresa estava no horizonte, uma descida espetacular.

Antes de começar a descer fiz uma pausa para degustar uma das galletas compradas quilômetros atrás, já estava na hora do almoço e meu estômago não queria saber se havia ou não restaurante pelo caminho, tratou de pedir comida, mas a única coisa que ele recebeu foi a energética bolacha. Paciência! Após a rápida “refeição”, coloquei meus óculos e fui para a pista começar a adrenalina. Que descida fantástica! 

Descida fantástica.

In foco.

Como era próximo do meio dia havia poucos veículos na rodovia, aproveitei esse fato para descer pela pista principal. A velocidade aumentou em questão de segundos. Com a bicicleta regulada (aros centrados e pneus calibrados) e uma estrada em excelente estado, o resultado não poderia ser outro, novo recorde de velocidade durante a expedição: 75,89 km/h. Detalhe, sem fazer o mínimo esforço para chegar a tal marca. 

Com o final da magnifica descida, o trajeto continuou favorável e um leve declínio ainda era perceptivo já que o ritmo aumentou sem precisar empregar muito esforço físico. Outro fator que ajudou a melhorar o avanço do pedal foi o vento que felizmente não estava contra e de certa forma me dava uma “mãozinha” para seguir em frente.

As horas passaram e o relógio marcava 14 horas quando finalmente apareceu um povoado pelo caminho. Mais um nome diferente: Chao. Na entrada do distrito surgiram pequenos “restaurantes” que simplesmente não despertaram minhas “lombrigas”, que a essa altura do campeonato já estavam em sono profundo pela demora em receber alimento. Resolvi seguir para ver se encontrava lugares mais atrativos para fazer a refeição.  

Quando finalmente apareceu a área urbana de Chao, os restaurantes estavam por todas as partes. E pela clientela tudo indicava que ainda serviam almoço, apesar do horário tardio. Parei em um lugar para saber o preço da refeição e desta vez foi o valor alto (10 soles) que não atiçou meu apetite. Achei caro e como não houve desconto, continuei o pedal. Já estava convencido que ficaria sem almoço, sinceramente a fome havia passado e não faltava muito para chegar à Virú, destino final do dia. 

No final do perímetro urbano de Chao encontrei um restaurante que pareceu simples e com um menu tradicional que talvez estivesse compatível com meu bolso. Parei e fui conferir o preço. Oito soles, sopa e arroz, feijão (também chamado aqui de menestra), salada e peixe frito. Ao ver o prato na mesa, a fome voltou e as lombrigas despertaram no mesmo instante. Devorei tudo rapidamente, quer dizer, demorei um pouco em razão dos espinhos do pescado, ainda assim, em pouco tempo eu já estava de novo na estrada. Segundo meus cálculos faltavam aproximadamente mais dez quilômetros para terminar meu pedal.

Após o almoço o pedal continuou tranquilo, afinal, eu estava com a barriga cheia e em pouco tempo chegaria à Virú. O relevo plano ajudou no deslocamento e quase não apareceram subidas pelo caminho. No entanto, meu destino demorou mais do que o previsto para surgir às margens da rodovia. Isso aconteceu praticamente 20 quilômetros depois de Chao. 

Virú não está localizado à beira da Panamericana. Em seu trevo de acesso até existe construções e um comércio movimentado, entretanto, não encontrei nenhuma hospedagem. Logo, fui obrigado a me deslocar 2,5 km até chegar à Virú. Quando finalmente estava no centro da pacata cidade, comecei a procura por locais econômicos para pernoitar. Infelizmente os mais baratos estavam fechados. Um hotel próximo da praça principal a diária estava 30 soles e a proprietária fez um desconto de 5 soles em um dormitório no quarto andar. Ainda achei caro e fui em busca de outras opções.

Recomendaram-me uma hospedagem chamada Santa Rosa, apesar de não estar distante da praça (coração da cidade), o local não foi fácil de achar. Tive que adentrar em uma área bem sinistra, na verdade tratava-se de uma região comercial bem popular e simples. No hostal Santa Rosa não havia ninguém na recepção. Mas para minha sorte, quase ao lado havia a Hospedaje La Alameda. 

Quem me atendeu na hospedagem Alameda foi Rafael, que informou o preço das diárias, 20 soles o quarto com banheiro compartilhado (sem água quente) e 25 com TV a cabo e banheiro privado, incluindo água quente. Claro que escolhi a primeira opção. No entanto, quando Rafael trouxe a chave, disse que me deixaria ficar no dormitório com banheiro. Segundo suas próprias palavras; é preciso tratar bem o turista que não é do meu país. 

Deixei a Victoria na parte inferior do prédio, tirei meus alforjes dianteiros e as coisas mais valiosas e subi para meu alojamento. Quando entrei no quarto, uma grata surpresa, todo arrumado e com uma cama de casal bem confortável, perfeita para um descanso merecido. O banheiro não deixa a desejar e também é limpo. Aproveitei o enorme espelho para fazer a barba de novo. Não tem muita explicação, apenas senti vontade de tirar os pêlos da cara. Deixaria um cavanhaque, mas errei a simetria entre os lados e acabei por fazer tudo. Até que ficou legal, gostei do resultado. Voltei aos meus 17 anos. 

Versão 17 anos, rs.

Bem acomodado, com barba feita e banho tomado, resolvi sair às ruas, precisava jantar, comprar pão para o desayuno da manhã seguinte e também necessitava ligar para o contato de Trujillo que o senhor Clemente havia me passado. É chato chegar sem avisar. A primeira coisa que fiz foi encontrar um restaurante. As pollerias estão por todas as partes, mas eu não queria comer apenas frango e batata frita. Após muita procura, achei um local que servia  Lomo Saltado pelo preço de 8 soles. Não é barato, mas resolvi que não posso mais ficar sem me alimentar para não perder peso, portanto, tenho que desembolsar mais verba, ainda que isso seja sempre doloroso. O jantar estava bom.

Após a refeição comecei a buscar um locutório para avisar minha chegada ao responsável pela hospitalidade em Trujillo. Quando finalmente consegui um lugar para realizar a chamada, os dois celulares estavam desligados. Então fui a uma lan house para ver no mapa a localização do endereço que eu tinha em mãos. Não me pareceu distante da Plaza de Armas, então anotei algumas referências e comecei a torcer para que a casa estivesse de portas abertas.

Antes de regressar para a hospedagem passei no mercado “sinistro” que existe na região e comprei alguns pães. De volta à Alameda, precisei apenas descansar. Não seria necessário sair cedo no dia seguinte, já que Trujillo estava a menos de 50 quilômetros. Fui dormir o sono dos justos.

Dia finalizado com 102,42 km em 7h21m e velocidade média de 13,93 km/h.

02/11/2012 - 117° dia - Virú a Trujillo

Mais um dia histórico e memorável.

A noite em Virú foi tranquila e agradável no confortável quarto da hospedagem La Alameda. Acordei por volta das 7 horas e com muita calma comecei arrumar minha bagagem. Embora essa tarefa tem sido realizada bem mais rápida com o passar do tempo, afinal, com os vários dias de viagem se pega prática em determinadas situações. 

Tomei meu café da manhã que na verdade foi à base de pão, geléia e suco, de café mesmo não tinha nada já que não sou apreciador desta bebida. Na sequencia levei os alforjes para a parte inferior do prédio e minutos depois estava pronto para seguir viagem às 8 horas da manhã.

Na rua a minha primeira imagem do dia foi do mercado “sinistro” que foi mais bem visualizado neste horário. Muitas pessoas já negociavam frutas, verduras, legumes, carnes e tantos outros produtos. Tirei uma foto, passei rapidamente pelo local e fui em direção à saída da cidade. Foram mais de três quilômetros para chegar novamente na Panamericana, distância percorrida sem nenhum problema.

Saída da Hospedaje La Alameda.

Calma! São apenas minhocas, rs.

Na rodovia em direção à Trujillo o pedal também ocorreu sem maiores dificuldades. Foi preciso apenas ter mais cuidado nas áreas urbanas dos povoados pelo caminho, onde o movimento é sempre maior.

A região tem muitos hectares destinados à plantação de cana de açúcar. Não raramente sê vê um contexto bem parecido com aquele de determinadas partes do Brasil onde também existe o cultivo desta planta. Ônibus – que realizam o transporte de trabalhadores – estacionados à beira da estrada; queimadas nos canaviais; cortadores de cana e caminhões abarrotados (de cana-de-açúcar) pela rodovia ou acostamento, infelizmente. 

Queimada nos canaviais.

Trânsito movimentado e a invasão do acostamento.

Mickey. É você? rs.

O trajeto Virú x Trujillo consiste em poucas subidas, uma ou outra mais íngreme, mas que não chega a assustar em nenhum momento. A parte plana e as decidas predominam. Mesmo com essas condições favoráveis não forcei minha chegada à Trujillo. Segui sempre com calma, no ritmo empregado desde o começo da viagem. Velocidade média na casa dos 15 km/h. Parece pouco, mas é o suficiente para avançar e isso tem sido feito com sucesso.

Por volta das 11 horas da manhã finalmente apareceu uma placa “comercial” que desejava boas vindas à Trujillo, considerada a capital cultural do país e que também “disputa” com Arequipa, o posto de segunda maior cidade peruana. São quase um milhão de habitantes. Não é pouca coisa e justamente por isso que a minha estratégia foi chegar com claridade na cidade. 

Finalmente em Trujillo.

Apesar da placa receptiva na estrada, foi preciso pedalar aproximadamente mais dez quilômetros para realmente chegar ao perímetro urbano. No entanto, não foi nada difícil já que o trecho é composto por uma longa descida de onde é possível observar a grandiosidade de Trujillo e também algumas de suas praias. Um visual que impressiona, sem dúvidas.

A imensa Trujillo com quase 1 milhão de habitantes.

In foco.

Com quase um milhão de habitantes eu já esperava um trânsito típico das grandes cidades. Mais uma vez estava diante do caos. Muito, mas muito veículo pelas ruas. A solução era pedalar atento e sempre no lado direito, pelo menos dessa forma eu ficava espremido pelos carros somente por um lado, já que do outro se encontravam as calçadas. 

Na entrada da cidade existem várias hospedagens que pela aparência parecem ser bem econômicas. Entretanto, tudo indicava que eu tinha um lugar para ficar. A casa de Luiz Ramirez D’Angelo que recebia ciclista, segundo a informação do senhor Clemente. Fui procurar a residência. Primeiro perguntei várias vezes pelo caminho para chegar à Plaza de Armas, principal referência que eu tinha pela pesquisa realizada na internet durante a noite anterior.

Na busca pela Plaza de Armas cheguei quase sem querer à Avenida España, endereço que eu precisaria encontrar após achar a praça principal. Com isso eu já estava na metade do caminho, bastava me direcionar para a Avenida Santa onde a casa do Ramirez está localizada. Foi uma longa e complicada pedalada. A região é bastante movimentada e surgem veículos de todas as partes. Nas ruas continuei a perguntar a todo instante pela direção correta para chegar ao meu destino. 

Para minha sorte as pessoas colaboraram e passaram informações corretas, inclusive, um ciclista me abordou e perguntou se eu procurava pelo Ramirez. Fiquei animado porque era um sinal que o anfitrião era conhecido no meio ciclístico e que eu realmente teria um lugar para ficar. O ciclista acabou por passar mais algumas informações e continuei a procurar o tal endereço.

Misericórdia. A Avenida Santa demorou, mas apareceu. Faltava encontrar a casa do Ramirez. O ciclista anterior havia me alertado que na fachada da residência havia um desenho e estava escrito “Amistad”. Enquanto eu pedalava atentamente pela avenida um homem do outro lado da rua me chamou e apontou para o lado. A princípio não compreendi o gesto, mas logo em seguida notei a arte estampada na frente da casa. Finalmente eu estava no local indicado.

Casa Amistad - Casa de Ciclistas em Trujillo.

Jorge é o nome do senhor que me chamou e que mora ao lado da Casa Amistad. Ele disse que o Ramirez havia saído para pedalar e me recomendou fazer uma ligação a ele, o número de telefone estava exibido em um letreiro publicitário na frente da residência. A placa em questão é a respeito de uma produtora de eventos pertencente ao Luiz. Quando fui anotar o telefone percebi o porque não havia conseguido contato anteriormente, o número passado pelo senhor Clemente estava errado, por sorte o mesmo não aconteceu com o endereço. 

Com o número do celular correto em mãos, fui em direção a um telefone público tentar contatar o Ramirez e avisar sobre a minha chegada. Descobri que o telefone público funciona a partir de uma moeda de cinquenta centavos. Segundo o Jorge, apenas uma moeda bastava para chamar o Luiz. No entanto, ninguém atendeu. Jorge então resolveu tentar a ligação e desta vez houve alguém do outro lado da linha. A recomendação era para eu esperar na frente do local. Em todo caso, a porta da casa abriu e repentinamente um jovem apareceu e pediu para eu entrar e aguardar pelo “Lucho”. 

O local é um sobrado e a área onde esperei a chegada do anfitrião é um grande espaço que lembra uma garagem, mas pela ausência de um portão, essa possibilidade é descartada. O lugar é repleto de bicicletas, adesivos de viajantes e suas expedições pelas janelas e paredes, nestas por sinal, há várias fotos de Ramirez, que foi um ciclista profissional. Observo tudo atentamente quando a porta abriu e finalmente pude me apresentar ao dono da casa. 

Luiz Ramirez é também conhecido por Lucho e prefere ser chamado dessa forma. Expliquei sobre minha viagem e onde havia tomado conhecimento sobre a hospitalidade oferecida por ele. Fiz questão de frisar que o número de telefone estava errado e por isso não entrei em contato anteriormente. Lucho foi compreensivo e disse que não tinha problema. 

Lucho me fez algumas perguntas básicas e na sequencia pediu para eu aguardar um pouco que ele limparia a habitação já que no dia anterior um casal da Polônia esteve no local. Enquanto espero seu retorno fico a me questionar sobre a existência de um quarto. O senhor Clemente mencionou que outros cicloturistas lhe disseram que o local era grande e havia espaço para acampar, em nenhum momento citou que tinha dormitório. Por isso fiquei ansioso para conhecer o lugar de descanso.

Minutos depois, Lucho retorna com vários cadernos, entre eles o registro daqueles que frequentam o local desde 1985. Já são mais de 1700 cicloturistas, é brincadeira? Parece inacreditável, mas o lugar é mesmo uma casa de ciclistas bastante conhecida. Algumas regras da casa foram apresentadas. Coisas básicas como manter a limpeza do local, deixar torneiras fechadas, essas coisas. Também me mostrou os serviços oferecidos à parte; lavanderia (5 soles o quilo); massagem; conserto de bicicletas; entre outros.

Como é uma casa de ciclista, não há diária, você fica o tempo que for necessário e quando for embora deixa uma contribuição, se achar necessário. Isso para que a hospitalidade continue a existir. Como são muitos cicloturistas, as despesas aumentam e por isso se fala em contribuição. Não há interesses lucrativos, a ajuda é apenas para evitar que os custos sejam demasiadamente elevados para Lucho. Compreendo perfeitamente a situação já que recebo com certa frequência a ilustre visita de cicloturistas na minha casa em Foz do Iguaçu.  

Lucho me explica que não vive no local, no entanto, outras pessoas moram no terreno, por isso, adverte para as coisas que posso ou não utilizar. Com as dicas, finalmente sou encaminhado para o quarto na parte superior da casa. Na entrada do dormitório uma arte na parede me faz lembrar que havia visto essa fachada em alguma foto, mas naquele momento não consegui recordar.

A famosa Casa de Ciclistas. Hospitalidade desde 1985.

No quarto há três camas disponíveis, uma pequena televisão, vários livros e mapas. Local simples e mágico. Aqui já estiveram cicloturistas de todas as partes do mundo. Muitos viajantes famosos, como o saudoso Valdo e o conhecido Heinz Stucke que viaja de bicicleta por quase 5 décadas ao redor do mundo e contabiliza mais de 500 mil quilômetros pedalados. Que tal? Por tudo isso é uma honra estar neste lugar e fazer parte de sua história. Foi no livro de registros que encontrei a passagem do Valdo e certamente foi através de uma foto dele que me lembrei do desenho na parte de fora do quarto. São aproximadamente vinte brasileiros na lista dos visitantes. O pessoal do projeto Nova Origem também esteve por aqui. Agora o livro também marca minha passagem.

No mapa, a distância percorrida até o momento. Quase sete mil quilômetros.

O ambiente no interior do quarto é fantástico, aqui se respira viagens, histórias e aventuras pelo mundo. Há mapas e mensagens por todos os lados. Um venezuelano deixou a seguinte frase na parede: “La felicidad no es hacer lo que quieras, sino querer lo que haces.”. Em outra parte há um relógio sem ponteiros e as seguintes palavras abaixo; El tiempo no importa. Na área reservada aos livros, existem obras de todas as nacionalidades e idiomas, isso porque o esquema funciona na forma de intercâmbio, se você levar um tem que deixar outro no lugar. Assim a estante terá sempre uma opção para quem gosta de ler. Isso também funciona com relação aos mapas. 

El tiempo no importa!

Acho tudo isso interessante demais. Sinto-me extremamente feliz e à vontade em um lugar como este. É a primeira vez que estou hospedado em uma casa de ciclista. Geralmente elas estão localizadas nas capitais, contudo, foi uma grata surpresa encontrar este local em Trujillo. Aproveito a oportunidade para deixar o endereço do local: Casa de Ciclistas Amistad - Avenida Santa, 347. Telefone: 949907133 ou 980612830. Contatar Luiz Ramirez (Lucho). Site: http://cdc-trujillo.ath.cx/

Quando fui me despedir de Lucho perguntei se era possível ficar três dias, a resposta foi inesperada; fique o tempo que for necessário. Mi casa es tu casa. Disse que há cicloturistas que ficam uma semana e até mesmo um mês. Assim, vou aproveitar para descansar, conhecer o centro histórico, as ruinas de Chan-Chan (maior cidade de barro do mundo) e também espero pegar umas ondas na famosa praia de Huanchaco que fica a menos de dez quilômetros daqui. Com isso devo permanecer mais quatro, cinco dias nesta acolhedora casa.

Para melhorar ainda mais a situação, há dois mercados públicos praticamente na frente da casa, são pequenos, mas com uma variedade grande de produtos e serviços. Inclusive há vários restaurantes com preços econômicos. O vizinho Jorge me disse que o almoço sairia por quatro soles, então fui conferir e realmente era verdade. Sopa e segundo prato com peixe frito por esse preço. Maravilha. Estou hospedado em um lugar onde o clima é ótimo e não preciso pagar (mas certamente farei minha contribuição) e próximo de refeições baratas. Perfeito!

Após o almoço, ainda no mercado público, aproveitei para comprar manga. Há dias estava com vontade de degusta-las já que vários caminhões na estrada (responsáveis pelo seu transporte) deixam o cheiro da fruta no ar. A manga, conhecida como Edward, estava uma delícia, doce e sem fiapos, lembra um pouco a manga maça que existe com maior frequência no interior de São Paulo.

Voltei para a casa e na sequencia retornei às ruas, fui a um supermercado comprar mantimentos para os próximos dias. Por sorte há um estabelecimento grande que não fica longe da hospedagem. No local comprei mais frutas (laranja e banana); macarrão instantâneo; vários pacotes de bolacha; pão; geléia (1 kg); leite e ainda sete litros de água que estava na promoção. Tudo me custou quase trinta reais. 

Regressei para casa repleto de sacolas. No quarto aproveitei para preparar o café da tarde e enquanto fazia a reposição das energias, observava cada detalhe da habitação e viajava nos pensamentos. Quase dois mil ciclistas passaram pelo local. A energia positiva impera neste simples cômodo. Por falar nisso, o lugar resume um pouco o espirito daqueles que viagem de bicicleta. Independente de suas origens e nacionalidades, não há espaço para futilidades e o simples é mais do que suficiente. Há companheirismo e isso fica evidente quando compartilhamos informações e conhecimentos adquiridos na estrada da vida. Se outrora oferecemos hospitalidade, em determinado momento a recebemos. Assim, aumenta cada vez mais o número de pessoas que descobrem a liberdade e um mundo inteiro com suas bicicletas. Viva o cicloturismo e seu estilo de vida.

Cafè da tarde. Estás servido?

Interior do quarto na Casa Amistad.

 
À esquerda, Heinz e Lucho. DAP com presença garantida!

No final da tarde comecei a atualizar o diário de bordo. Fiquei horas viajando pelas palavras e quando já era quase meia noite, fui descansar um pouco.

 
Final de tarde.

Pôr-do-sol visto da janela do quarto. Maravilha!

O dia foi finalizado com 54,14 km em 3h42m e velocidade média de 14,58 km/h.

03/11/2012 - 118° dia - Trujillo (Folga)

Mais uma noite tranquila. 

Acordei naturalmente por volta das 7 horas da manhã, degustei meu desayuno e voltei a escrever este diário de bordo. Não tinha muito tempo disponível porque às 9h30m o Lucho passaria aqui para me levar a um passeio ciclístico promovido por uma faculdade particular da cidade.

Próximo do horário combinado troquei de roupa e fiquei pronto para pedalar, mas nada do Lucho aparecer, então tornei a escrever e quase uma hora depois, quando eu já pensei que nem teria mais passeio, o anfitrião apareceu. Na “garagem” preparamos seu carrinho de som (puxado por uma bicicleta) que é sempre levado nas bicicletadas e passeios. No carrinho há  fotos de dois cicloturistas que foram atropelados e mortos. A mensagem de protesto pede justiça e respeito aos ciclistas.

Trata-se de uma viajante belga que estava em uma tandem com seu marido quando um caminhão invadiu o acostamento (com a justificativa de evitar a batida com um veículo no sentido contrário que ocupou sua pista) na altura do km 508 (região de Chao) por onde o casal pedalava. Isabella foi arrastada por metros e não resistiu aos ferimentos e faleceu uma hora depois em um hospital de Trujillo. O motorista está em liberdade.

Respeite os cicloturistas!

A outra foto que reforça a cobrança por mais respeito e alerta que os ciclistas também têm direito a ocupar as estradas, remete a um viajante que foi atropelado por um motorista embriagado na região de Puno. Neste caso, o condutor imprudente está preso. Infelizmente também estamos sujeitos a essa triste realidade das rodovias enquanto motoristas infringirem as leis de trânsito.

Quando terminamos de instalar o sistema de som na bicicleta, fomos ao encontro do pessoal no local de partida do passeio. Pela velocidade empregada pelo Lucho, tudo indicava que estávamos bem atrasados. Pedalar nas ruas de Trujillo, mesmo com a bike sem carga é um grande desafio. Se muitos motoristas não respeitam sequer outros condutores, imagine o tratamento com os ciclistas. Tenso! 

Finalmente chegamos ao ponto de partida, infelizmente tarde demais. Entretanto, o passeio se resumia em algumas voltas pelas ruas e avenidas da universidade. Conseguimos acompanhar o pessoal em apenas uma volta. Deveria ter aproximadamente cinquenta ciclistas, a maioria estudantes da faculdade. O passeio estava intitulado; um dia sem poluição. Todo evento em prol da utilização da bicicleta é válido, portanto, fizemos nossa parte e reforçamos o grupo daqueles que se locomovem com um meio de transporte alternativo aos veículos motorizados.

Passeio ciclistico.

Passeio ciclistico pelas ruas e avenidas de Trujillo.

Registro garantido!

In foco.

Parada na universidade.

Voltamos para a hospedagem por um trajeto diferente que passava na área central e foi justamente próximo da Plaza de Armas que Lucho teve sua “carreta” atingida por um veículo e seu motorista apressado. A sorte é que não ocorreu nada mais grave e os danos foram apenas no carro que ficou riscado. Como o condutor foi o responsável pelo acidente, teve que arcar com os prejuízos. 

Essa região central é extremamente movimentada e nada propicia para pedalar com esses motoristas “loucos” à solta. Ainda bem que não demoramos muito para sair desta área, embora as outras partes da cidade não estivessem com uma realidade diferente. O trânsito de Trujillo é horrível, não perde muito para Lima. 

Por volta das 13 horas estávamos na Casa Amistad. Desmontamos o equipamento de som e ainda combinamos de mais tarde visitarmos Chan-Chan, pedalando. Não estava muito a fim de ir de bicicleta por causa do trânsito, mas ficaria chato negar o convite do Lucho que se dispôs a me apresentar o caminho. O lado positivo é que além da companhia eu economizaria uma grana com o transporte.

Na hora do almoço, meu anfitrião fez questão de me levar até um restaurante no mercado público onde os ciclistas geralmente realizam suas refeições. Segundo ele, a proprietária do local, ciente da nossa necessidade em repor as energias, capricha no prato e ainda repete se for o caso. Animei com a informação, mas o lugar estava fechado. A outra opção não foi das melhores, no menu tradicional o segundo prato tinha uma carne desconhecida que na verdade era mais gordura do que carne propriamente dita. Almocei rapidamente, paguei os 4 soles e voltei para casa.

No quarto descansei um pouco e tratei de me aprontar para ir à Chan-Chan, no entanto, nada do Lucho aparecer no horário combinado. Voltei a escrever o diário de bordo quando uma hora depois ele bate na porta para visitarmos o maior conjunto de ruinas de barro do mundo. Apesar do horário, Lucho disse que seria suficiente para chegarmos a tempo. 

O pedal até as ruinas foi tenso, de novo. Seguimos por seis quilômetros entre os ferozes veículos, quando finalmente chegamos ao Museu de Chan-Chan, localizado próximo das ruinas. No entanto, na bilheteria fui surpreendido. Não havia mais tempo hábil para realizar a visita. Quer dizer, eu teria apenas quinze minutos para conhecer o pequeno museu. Com o bilhete eu poderia visitar Chan-Chan no dia seguinte, uma vez que o mesmo é válido por dois dias. A entrada em ambas as atrações custa dez soles. Sem muita opção, comprei e fui conferir o museu. 

Realmente o museu é pequeno e compreende alguns objetos e várias informações a respeito da civilização Chimu que habitou a região antigamente e foi responsável pela construção de Chan-Chan. Ainda é possível ver fotos aéreas que expõem a dimensão das quinze cidades que formavam o complexo que eu conheceria apenas no dia seguinte. Como eu não tinha muito tempo para ler as informações, a solução foi tirar foto de todas para ler mais tarde. Assim, minha passagem pelo local aconteceu rapidamente e então começamos a pedalar de volta para casa.

Civilização Chimu - Museu de Chan-Chan.

Lucho fez questão de me mostrar a direção da Huaca Esmeralda, atração que é possível visitar com o mesmo bilhete que concede direito de entrada no museu e ruinas. Este local se destaca principalmente por sua localização em meio à área urbana de Trujillo. Como já passava das 16h30m os portões estavam fechados. Ainda assim foi possível visualizar a parte externa e pela primeira vez, o famoso cachorro peruano sem pêlo, pensei que sairia do Peru sem registrar esse animal considerado um patrimônio do país. Não achei ele nada bonito, bicho mais estranho.

Famoso cachorro peruano sem pêlo. E aquele topete???

Não realizamos o mesmo caminho para retornar à hospedagem e mais uma vez foi preciso encarar o trânsito enfurecido. Lucho parece estar acostumado com a situação e por vezes realiza passagens arriscadas entre os veículos. Lembrei-me do amigo Leandro do Rio de Janeiro que também é audacioso pelas ruas e avenidas da capital fluminense. Abraço, carioca. Eu seguia com mais cautela para evitar qualquer acidente.

Na Casa Amistad agradeci ao anfitrião pelo convite ao passeio ciclístico e a companhia até Chan-Chan. Depois fui tomar um banho. Ainda não mencionei, mas o banheiro fica na parte inferior do imóvel e também é compartilhado com a outra família que mora no local. Não tem água quente, mas isso agora é somente um detalhe. O segredo para enfrentar uma ducha gelada é controlar a respiração. 

Após o banho, preparei minha janta e voltei a escrever. Algumas horas eu já perdia a concentração para relatar a viagem e então resolvi ver um dos filmes que tenho no computador. Raramente tenho tempo para isso, então aproveitei a oportunidade e fui relaxar um pouco com a sétima arte. Duas horas depois eu capotava na cama para mais uma noite de descanso.

Dia finalizado com 28,47 km em 2h13m e velocidade média de 12,84 km.

04/11/2012 - 119° dia - Trujillo (Folga)

Mais um sitio arqueológico conhecido. O maravilhoso e impressionante complexo de Chan-Chan.

Acordei quase às 8 horas da manhã. Fiquei surpreso com o horário que levantei, mas tudo bem, eu preciso aproveitar o máximo possível para descansar. Após meu desayuno voltei a escrever. É muita coisa para relatar e às vezes não tenho tempo para fazer isso após um dia de pedal. E quando isso ocorre, faço minhas anotações e na primeira oportunidade começo a atualizar o diário. E o momento para fazer isso é agora.

Havia decidido visitar Chan-Chan no período da tarde, após o almoço. Apesar da recomendação do Lucho, não estava disposto a encarar o caminho até às ruinas de bicicleta. Pegaria uma condução para chegar ao local.

Perto do meio dia meu anfitrião aparece e diz que outros dois ciclistas acabam de chegar. Rapidamente arrumo minha bagunça organizada e deixo o quarto pronto para receber os viajantes que a essa altura recebiam as mesmas dicas que eu quando cheguei ao local. Minutos depois o Lucho informa que o casal vai ficar no dormitório de baixo para que todos nós pudéssemos ter mais privacidade. Eu não tinha conhecimento deste cômodo extra, mas fiquei surpreso pelo espaço reservado aos cicloturistas.

Desci para cumprimentar os novos hóspedes. Descobri que ela é de Cingapura e ele da Inglaterra, pedalam juntos desde o México. De Trujillo seguem para Santiago de avião em razão da época das chuvas que se aproxima aqui no Peru. Da capital chilena eles continuam o pedal até Ushuaia. Conversamos pouco porque eu tinha que almoçar e seguir para Chan-Chan. Mas combinamos de trocar algumas informações nos próximos dias, uma vez que ficaremos mais um tempo aqui na casa de ciclistas.

Fui almoçar no mesmo local da minha primeira refeição aqui em Trujillo, no entanto, por ser domingo o estabelecimento estava fechado. Mas isso não foi um problema porque encontrei um lugar, também no mercado público, aparentemente limpo e com o preço acessivo, somente 4,50 soles. A comida estava boa. Destaque de hoje foi a carne de cabrito que é bastante comum na região, contudo, experimentei pela primeira vez. Não notei muita diferença no gosto em relação à carne de gado. Aprovada!

Voltei ao meu quarto, peguei minha máquina fotográfica e tratei de encontrar um taxi para me levar à Chan-Chan. A informação que eu tinha é que a corrida seria barata, afinal, o sítio arqueológico fica há sete quilômetros de onde estou hospedado. Todavia, o primeiro taxista que parou ao meu sinal queria cobrar 15 soles inicialmente e depois da negociação o preço baixou para 8 soles. Como eu não sabia se o valor era justo, agradeci e resolvi esperar outro taxi para fazer uma comparação. Não faltam taxistas na cidade e menos de dois minutos depois, outro veiculo encostou. Desta vez o motorista cobra 7 soles com desconto. Como achei que não encontraria mais barato, entrei e fui em direção ao local histórico.

Pepe, o taxista seguiu tranquilamente por todo o caminho. Aqui não existe taxímetro e o preço é sempre combinado antes da corrida. Assim, eu não me importava com a velocidade normal do veículo em meio a tantos outros que parecem participar de uma competição de automobilismo. 

Em um primeiro momento Pepe começa a falar sobre segurança e me conta a respeito da lei que entrou em vigor recentemente e que coloca atrás das grades por sete anos aqueles que roubarem turistas, independente do valor ou objeto levado. Segundo ele, a lei trouxe mais tranquilidade ao visitante estrangeiro. Ainda assim me recomendou ficar sempre atento. Quando disse que era brasileiro ele entendeu o porque eu não estava assustado. Afinal, também vivo em um país sul-americano e sei como é conviver com a violência.

Ao saber da minha nacionalidade, Pepe não hesitou em começar uma longa conversa sobre futebol. Pareceu-me um daqueles senhores que realmente conhece o esporte. Mostrou ser fã do Neymar e encheu o jovem jogador de elogios. Aliás, também teceu comentários positivos à escola brasileira de futebol, o mesmo não ocorreu em relação ao modo como o esporte é praticado na Europa. Apresentou seus argumentos para sustentar o posicionamento que realmente fazia sentido. 

Paramos em um posto de combustível para completar o tanque do veículo e na hora pagamento Pepe me alerta sobre as cédulas falsas. Não é a primeira vez que recebo essa advertência. Por isso mesmo, busco sempre conferir se as mesmas são verdadeiras, aprendi a diferencia-las. Mas hoje o taxista me trouxe uma novidade. Disse que às vezes você realiza um pagamento e a pessoa que recebe, troca sua nota verdadeira por uma falsa e diz que não tem valor. E essas notas sem validade são rasgadas e não devolvidas. Para não cair neste golpe, Pepe diz que basta conferir os três últimos números da série antes de entregar o dinheiro. Achei uma dica e tanto, não poderia deixar de compartilhar aqui no site. 

O taxista me deixou na Panamericana onde existe uma estrada que leva até a entrada de Chan-Chan. Esse trecho tem quase dois quilômetros. Segui a pé mesmo, mas repentinamente apareceu um caminhão-pipa e não pensei duas vezes em pedir carona, que para minha felicidade, foi concedida. Pouco tempo depois eu estava na entrada do sítio arqueológico onde apresentei meu bilhete e entrei no Palácio de Nik-An.

Chegada à Chan-Chan.

Entrada no Palácio de Nik-An.

Chan-Chan é considerada a maior cidade de barro do mundo. Foi a capital do Reino Chimu que habitou a região entre os séculos IX e XV. A cultura Chimu se destacou como uma das mais notáveis da época pré-colombiana. Toda sua importância histórica e o legado deixado por eles foram responsáveis por conceder ao local o titulo de patrimônio cultural da humanidade.

Segundo um folheto informativo, Chan-Chan foi a capital religiosa e administrativa da cultura Chimu. Também foi a maior cidade do Peru pré-hispânico. Era constituída por nove palácios, anexos, templos, zonas populares, mananciais, caminhos, campos de cultivo e etc. Alcançava uma área de 20 km² com 200.000 a 250.000 habitantes. A cidade foi conquistada e invadida pelos Incas em 1470. 

Entre os palácios que compreendiam a cidade, é possível visitar apenas o Palácio Tschudy, também conhecido por Nik-An. Poucos metros após a entrada em Nik-Na, encontra-se a Plaza Principal, onde eram realizadas as festividades e cerimônias religiosas. O local sem dúvida impressiona, a começar pelas enormes muralhas construídas em adobe que chegam a ter de 7 a 12 metros de altura. Também se destaca a decoração bem realizada pela civilização Chimu. São representações ornamentais, geométricas e complexas figuras que refletem o pensamento daqueles que habitavam o lugar. 

Plaza Principal.

Plaza Principal.

 
Lembrei de um dos eposódios das Aventuras de Tintim.

In foco.

Plaza Principal.

A economia do Reino Chimu estava basicamente relacionada à agricultura e a pesca. Em relação à primeira, desde aquela época utilizavam uma extensa rede de canais que irrigavam as plantações com as águas oriundas dos rios da costa. Contudo, também havia outra alternativa que garantia a produtividade. Com a extração da água do subsolo era possível obter colheitas durante todo o ano. Esses sistemas explicam porque a região, ainda hoje possui uma agricultura bastante desenvolvida se considerarmos as condições do solo e o clima seco. 

A proximidade com o mar permitiu à civilização Chimu aproveitar os recursos oferecidos pelo Pacífico, sobretudo, no que diz respeito à pesca. Utilizavam redes, anzóis e outros equipamentos para capturar peixes, mariscos e algas marinhas. 

Toda essa relação com o mar é estampada nas ruinas de Chan-Chan, na praça principal, por exemplo, as linhas horizontais presentes nas muralhas remetem-se às ondas. No Corredor de Peixes e Aves a referência é ainda mais nítida com a representação de correntes marinhas e marés altas e baixas através das decorações exibidas nas paredes. Na Sala del Altarcillo (local também de cerimonias) o que se destaca são as redes de pesca.

Corredor de Peixes e Aves

Representação das correntes marinhas/maré alta e baixa.

In foco.

Pelicanos. Detalhe para a ação do tempo na figura do lado direito.

In foco.

Simbolizam as redes de pesca.

Sala del Altarcillo

Sala del Altarcillo

Sala del Altarcillo

 
 Sala del Altarcillo

A caminhada pelas ruinas é algo fora de série. Incrível como as construções são resistentes aos séculos, ainda que levantadas com adobe. É praticamente impossível passar pelos corredores (que por vezes parecem labirintos) sem notar o tamanho das muralhas e as decorações quase simétricas nas paredes do palácio. 

Tamanho "básico" das muralhas.

Presença na famosa Cidade de Chan-Chan.

A sala denominada Audiencias é considerada “a mais decorativa e original de todo o conjunto arquitetônico do local. Era onde viviam os sacerdotes e sua família. Possivelmente também tenha sido um lugar para audiências e departamentos administrativos que estavam decorados em alto relevo, sobretudo, com a figura do Pelicano em diversas situações; voando, dormindo ou comendo.” 

Sala Audiencias

Sala Audiencias

Sala Audiencias


In foco.

In foco.

In foco.

Um dos momentos mais surpreendentes, sem dúvidas, foi a chegada à Huachaque, o maior poço cerimonial em Chan-Chan. É simplesmente inacreditável que em uma região seca como aquela é possível aparecer um reservatório com muita água, aves e também o cultivo de totoras, junco utilizado pelos Chimus na construção de embarcações e que ainda hoje são utilizadas, por exemplo, nos Caballitos de Totora, encontrados, sobretudo, na praia de Huanchaco. 

Praça cerimonial.

Pelos corredores da maior cidade de barro do mundo.

O incrível Huachaque.

Cultivo de totora.

In foco.

Yo!

In foco.

Todo o local, de modo geral, é fantástico e enorme. Apesar do tamanho o deslocamento na área do palácio é tranquilo já que existem flechas que indicam a direção correta pelas principais áreas. As setas contradizem a informação recebida na entrada de que é possível ficar perdido, caso a visita à Nik-An, aconteça de modo independente. Não passa de uma tentativa para vender o serviço oferecido por guias que cobram 30 soles pelas explicações. Certamente a visita guiada deve ser interessante. Todavia, existem, na maioria das salas do palácio, placas que trazem detalhes a respeito do lugar e que permitem compreender melhor a história de Chan-Chan. 

Chan-Chan

"Hasta la Victoria Siempre"

Chan-Chan

Chan-Chan

In foco.

Uma dos lugares mais importantes do palácio é o Recinto Funerario onde está localizada a tumba do Senhor Chimo e suas oferendas. Também há mais outras 44 tumbas secundárias. As mulheres dos governantes, por exemplo, eram enterradas no local. 

Recinto Funerario

In foco.

De volta à Plaza Principal.

Após uma longa caminhada pelas ruinas históricas de Chan-Chan, estava na hora de voltar para a cidade. Como ainda havia claridade, resolvi pegar o taxi em direção ao centro histórico de Trujillo, mais especificadamente à Plaza de Armas. A corrida me custou 8 soles. 

Por ser uma tarde de domingo, o centro estava bem mais calmo do que o dia anterior. Foi possível observar tranquilamente as interessantes e coloridas construções coloniais que rodeiam a praça principal da cidade. Entre os antigos prédios históricos, destaque para a prefeitura e a catedral. 

Prefeitura de Trujillo.

 
Catedral

Iglesia na esquina da Plaza de Armas.

No centro da Plaza de Armas existe o monumento de La Libertad, uma obra do escultor Edmundo Moeller que chama atenção pelas estátuas de mármore que representam a arte; ciência; comércio; agricultura; escravidão; atitude (ação) e a libertação. Impossível ficar indiferente diante de esculturas extremamente bem trabalhadas e repletas de detalhes e significados. Sem dúvidas enriquece a charmosa  e principal praça da cidade.


Plaza de Armas. Monumento La Libertad e catedral ao fundo.

Plaza de Armas.

Plaza de Armas.

Plaza de Armas.

Construções coloniais no centro histórico.

 
Os coloridos casarões do centro hitórico.

In foco.

Após conhecer essa parte do centro histórico comecei minha caminhada de volta à hospedagem pelo extenso calçadão Francisco Pizarro, um local movimentado e que lembra o Jirón de la Unión da capital peruana. Muitos prédios antigos que hoje abrigam lojas, bancos, restaurantes, mercados e outros estabelecimentos. Um lugar extremamente agradável de andar, observar e sentir o clima da capital cultural do Peru.

Calçadão Francisco Pizarro.

Calçadão Francisco Pizarro.

Calçadão Francisco Pizarro.

Calçadão Francisco Pizarro.

A Plaza de Armas está localizada há sete quadras da casa de ciclistas, trajeto pode facilmente ser realizado através de simples caminhada. No meu regresso à hospedagem encontrei um carrinho de caldo de cana (aqui chamado de “jugo de cana”) e aproveitei a oportunidade para pedir um copo que custou apenas 1 sol. “Matei” a sede, fome e um pouco da saudade do Brasil.

Delicioso "jugo de cana".

Um comércio dominical na esquina de casa.

Na Casa Amistad comecei a escrever o diário de bordo que a cada dia fica maior em razão das diversas experiências que a viagem tem proporcionado. Com a visita à Chan-Chan, conheci praticamente tudo aquilo que havia planejado visitar em território peruano. Dessa forma, não preciso escrever muito para dizer o quanto estou feliz. Preciso?

05/11/2012 - 120° dia - Trujillo (Folga)

Dia dedicado exclusivamente à atualização do diário de bordo.

Algumas vezes me esqueço de mencionar certos detalhes da viagem. Vou aproveitar a oportunidade e relatar determinadas situações que fazem a diferença na estrada, pelo menos, do meu ponto de vista.

Talvez para os cicloturistas mais experientes as dicas a seguir não sejam nenhuma novidade, no entanto, sei que há muitas pessoas que acompanham o site que ainda não tiveram a oportunidade de realizar uma viagem de bicicleta. Possivelmente para estas pessoas as informações abaixo podem fazer a diferença futuramente.

Capacete. Item fundamental na estrada. Antes de começar esta viagem fui obrigado a comprar um capacete novo, uma vez que o meu antigo estava em péssimas condições em razão de sua utilização frequente. Enfim, na nova aquisição há uma novidade, trata-se de uma pequena aba, não é do tamanho daquelas dos bonés, contudo, faz a maior diferença na pedalada. Durante a expedição pude comprovar isto em várias situações. 

Chuva. O capacete com aba impede que a água caia diretamente nos olhos. Claro que isso depende da direção e intensidade da chuva. Mas, sem dúvida ajuda bastante. Quando a pedalada acontece de noite a aba evita que a luz dos veículos (direção contrária) dificulte a visão. Basta abaixar um pouco a cabeça e olhar apenas para a roda diante da bicicleta que compreende um campo de visão relativamente seguro, desde que você esteja com um farol, claro. Durante o dia o capacete diminui a intensidade dos raios solares diretamente nos olhos, uma vez que a aba proporciona uma pequena, mas suficiente sombra no rosto.

Espelho retrovisor. Eu nunca utilizei na bicicleta. Cheguei a cogitar a aquisição de um para esta viagem, mas infelizmente não há espaço no guidão para sua instalação e meu bar-end (chifrinho) não permite a fixação do mesmo, portanto, continuo sem espelho. Mas para muitos ciclistas ele faz toda a diferença e pode ser uma peça fundamental para quem começa agora no cicloturismo. 

Para quem não utiliza espelho a solução é apurar ao máximo a audição para identificar quando um automóvel se aproxima. Geralmente funciona. Onde o fluxo de veículos é intenso e não existe acostamento, muitas vezes é impossível olhar para trás já que esse simples movimento pode deslocar a direção da bicicleta e causar um acidente. Por isso é bom prestar atenção ao som oriundo da estrada. Logo, se você estiver com fone de ouvido, procure não deixa-lo com um volume muito alto e em determinadas situações, vale a pena deixar somente um lado. 

Para quem deposita a confiança na audição, deve ficar atento para alguns detalhes traiçoeiros. Existem veículos hoje em dia que praticamente se locomovem em silêncio, por isso, é preciso pedalar, sempre que possível, em uma área segura, de preferência no acostamento, quando ele existir. E uma vez no acostamento, não deixe a atenção de lado, já que determinados motoristas costumam surpreender e infringir as leis de trânsito e trafegam por esse espaço sagrado para os ciclistas. 

Outra observação constatada nesta viagem. Em áreas desertas quando o vento contra está forte ele abafa o som dos veículos, inclusive, caminhões, e se você não estiver atento, pode ser surpreendido, assustar, cair e acabar machucado. Portanto, fica a dica, pedale sempre com atenção.  

Hasta luego! 

06/11/2012 - 121° dia - Trujillo (Folga)

Dia dedicado exclusivamente à atualização do site.

Ainda devo permanecer alguns dias em Trujillo já que minhas despesas na cidade se tornaram baixas em razão da hospitalidade na casa de ciclistas e da refeição com preço econômico no mercado público. Com isso vou aproveitar para colocar tudo em ordem, descansar e ainda curtir a praia. A mais famosa delas é Huanchaco, não é muito perto daqui, mas descobri que há um ônibus que leva ao local por apenas 1,50 soles. 

Estou a menos de 500 quilômetros do Equador, logo, devo completar a distância em uma semana de pedal, no entanto, antes de atravessar a fronteira ainda pretendo fazer uma nova atualização com o relato e fotos de Huanchaco e as demais localidades do norte peruano. 

No mais, resta-me agradecer pelos comentários. Tenho recebido vários incentivos que sinceramente me emocionam e deixam sem palavras. Muito obrigado!

PS: Minha vaquinha virtual continua recebendo contribuições. Se você quer colaborar com a expedição: Clique Aqui! 

Abraço.

07/11/2012 - 122° dia - Trujillo (Folga)

Mais um dia para atualizar o site.

Ontem a internet na lan house não estava com a velocidade muito boa. Paciência.

Hoje finalmente a atualização está completa.

OBS: Aproveitei a oportunidade e respondi todos os comentários dos tópicos Peru I; Peru II e Peru III. Como é bom receber essas mensagens de apoio e incentivo. É uma honra poder responde-las. Apenas me desculpem pela demora, mas acho que a mesma é compreensiva diante da realidade da viagem. Enfim, confiram e qualquer coisa basta entrar em contato novamente. Muito obrigado.

Atenciosamente,

Nelson Neto.

Hasta luego!


08/11/2012 - 123° dia - Trujillo (Folga)

Praia!

Ontem finalizei mais uma atualização do site. E para comemorar, hoje resolvi conhecer a famosa praia de Huanchaco, sem dúvida a mais conhecida de Trujillo, quiçá da região. Estava ansioso para colocar o pé na areia, mergulhar nas águas do Pacífico e pegar umas ondas de bodyboard. 

Huanchaco é um distrito de Trujillo que está localizado a dez quilômetros da cidade. Ainda assim o lugar é bastante visitado, sobretudo, em razão de suas praias e os peculiares caballitos de totora, pequenas embarcações construídas com junco. Elas são utilizadas para a pesca desde a época da civilização Chimu.

Para visitar Huanchaco eu não estava disposto a pegar um taxi e gastar aproximadamente 30 soles com a corrida de ida e volta. Então tratei de encontrar um meio de transporte alternativo. A bicicleta não foi cogitada por causa do trânsito. Restou-me duas opções, ônibus público ou van. A primeira, segundo informações, custava apenas 1 sol. O deslocamento por van era um pouco mais caro, 1,50 soles, contudo, mais rápido. Sem dúvida são os meios mais econômicos.

Ônibus e vans passam na Avenida España nas proximidades do Calçadão Francisco Pizarro. No local (bastante movimentado) deve-se pegar a Linha B sentido Huanchaco. São várias opções e não demorei muito para pegar uma van. Por volta das dez horas da manhã eu começava o trajeto de praticamente trinta minutos. 

A van é uma aventura à parte. Manobras arriscadas são executadas a todo o momento. Isso parece ser algo inerente aos motoristas peruanos. As paradas para a entrada e saída de passageiros acontecem com frequência em qualquer lugar, basta um gesto para entrar ou aviso para sair. Tudo controlado por um ajudante/cobrador que também é responsável por atrair os passageiros. Para isso, não hesita em berrar (da janela) os principais destinos. Para quem não está acostumado pode ser um pouco assustador. Eu observava toda aquela “loucura” e imaginava como deveria ser estressante a realidade cotidiana de quem necessita enfrentar sempre a mesma rotina. 

A chegada ao distrito é marcada pelo mar que aparece ao lado da estrada. Peço ao cobrador me avisar quando estiver próximo ao “malecon”, referência que o vizinho da Casa de Ciclistas me passou para descer. Fui deixado perto ao local desejado e poucos minutos depois eu começava minha caminhada pelo calçadão.

O tempo estava um pouco nublado, a temperatura amena e poucas pessoas faziam o mesmo que eu naquele momento. Huanchaco pode ser um lugar movimentado no verão, contudo, não era a realidade que eu encontrava. Sem problema, quanto mais tranquilidade melhor. 

Praia em Huanchaco.

 Uma família de viajantes chilenos.

 O calçadão que em algumas partes deixa a desejar.

Restaurantes e hospedagens são maioria ao lado do calçadão. Em um determinado local encontrei uma loja que alugava pranchas de surf, resolvi conferir os preços para ter uma idéia. A diária de uma prancha de bodyboard estava 10 soles, mais barato do que imaginei, entretanto, achei melhor não alugar neste primeiro momento. Aproveitei e solicitei algumas informações para saber onde a galera pegava as ondas. O funcionário me apontou um lugar que havia dois surfistas. Agradeci pelas dicas e fui caminhar em direção ao local em que as ondas quebravam. 

Restaurante na beira da praia.

Infelizmente alguns motivos não me animaram para cair n’água e pegar as ondas. Primeiro; o mar estava muito agitado e eu simplesmente não conhecia o local. Segundo; onde o pessoal surfava tinha várias pedras e achei arriscado demais. Terceiro; a água estava extremamente fria. Sem neoprene suspeitei que em poucos minutos estaria congelado. Paciência. Apesar da tentação de finalmente surfar no Pacífico ser enorme, é preciso ser cauteloso e pensar duas vezes para não comprometer o restante da viagem. 

Que tal uma caminhada?

Os poucos corajosos que enfrentaram as águas congelantes.

Pedra, muita pedra nesta área de Huanchaco.

A praia é bonita e relativamente limpa, mas não é das mais charmosas. E caminhar pela areia não é algo muito agradável, já que ela é daquele tipo que mais tem pedra do que areia. Talvez eu tenha me acostumado e inevitavelmente me apaixonado pelas praias de Florianópolis, sobretudo, a dos Ingleses e por isso Huanchaco não tenha me surpreendido como eu esperava, uma vez que o local é bastante divulgado. 

Jardim bem cuidado.

In foco.

Umas das coisas que chama atenção durante um passeio pelo calçadão são as placas que informam o que não é permitido fazer na praia, sobre o risco de ser multado. Não sei se a fiscalização é rigorosa, mas se tudo o que estiver informado for levado ao pé da letra, certamente o lugar tende a ficar mais “saudável”, conforme menciona o letreiro. 

Fica a dica!

In foco.

A parte mais agradável da orla de Huanchaco, na minha opinião, é a praia El Varadero, onde está localizado o muelle, espécie de passarela e/ou cais. Para ingressar nesta área e observar o mar de um ângulo diferente é necessário pagar cinquenta centavos. Na faixa de areia é possível encontrar os famosos e interessantes caballitos. A maioria é utilizada para a pesca, contudo, alguns são direcionados ao turismo. Navegar (quinze minutos aproximadamente) com essa diferente embarcação custa 8 soles. Não realizei o diferente passeio em razão do preço, mas existem turistas que fazem questão de embarcar na “aventura”.

Muelle

Yo en Huanchaco!

 Caballitos de Totora

 
 Pelicanos

 
 Caballitos de Totora

 In foco.

 
 "Cavalgada!"

 
 In foco.

 
 In foco.

 Mais de cem quilos nas costas.

Registro garantido!

Te peguei!

 In foco.

Playa El Varadero

Apareceu do nada..

Por volta do meio dia fui procurar um lugar para almoçar, no entanto, os restaurantes na frente da praia, conforme eu suspeitava, não são compatíveis com o meu bolso e a refeição mais barata custava dez soles. Perguntei a um morador local sobre opções mais baratas e ele me indicou o mercado central. Não hesitei em procura-lo e durante o caminho deparei-me com as peculiares ruas de Huanchaco, muitas vezes são parecidas com um calçadão, mas volta e meia os veículos aparecem e surpreendem aqueles que andam tranquilamente pelas pacatas vielas.


Pelas ruas diferentes..

Igreja ao fundo..

 In foco.

Após algumas perguntas encontrei o Mercado de Abasto Maria del Socorro onde há todo tipo de coisa, de frutas a carnes e também dois ou três lugares para almoçar. No primeiro “restaurante” a refeição custava apenas 3,50 soles, barato, mas o lugar não era nada convidativo, a higiene estava longe de ser uma das prioridades. Com uma volta mais atenta pelo mercado encontrei um lugar meio escondido e que servia almoço por 5 soles. Sopa, lomo saltado e salada. Uma delícia!

Lomo Saltado em Huanchaco.

Depois do almoço fui caminhar mais um pouco e aproveitei para subir até a igreja que fica em uma parte mais alta. Pensei que o visual seria interessante e não me enganei. É possível ter um panorama bem interessante de Huanchaco, suas casas e praias. Destaque também para o jardim da igreja que é muito bem cuidado e com lindas flores. Valeu a pena conferir.


Iglesia.

"Menino, não te disse que a partir de agora nós somos vegetarianos?" Não me pergunte o significado da escultura.

In foco.

Panorama de Huanchaco.

Panorama de Huanchaco.

Yo!

In foco.

In foco.

Capricho da mãe natureza.

 In foco.

No regresso à orla caminhei sem pressa e aproveitar para sentir a “vibe” do lugar. Claro que não deixei de registrar cada momento. Inclusive, no período da tarde mais pessoas andavam pela areia e poucos audaciosos entravam rapidamente na água, que por sua vez, continuava gelada, muito gelada. 

In foco.

A parte mais bem cuidada da praia.

Olha aquelas ondas. Que beleza!

 Huanchaco

Pensei em ficar até o pôr-do-sol, mas o tempo ficou bem nublado no final da tarde e achei melhor voltar para casa antes do horário de maior movimento no trânsito de Trujillo. Desse modo, fiz sinal para uma van com a letra B estampada no para-brisa, confirmei se a mesma seguiria para a Avenida Espanã e calçadão Pizarro e com a resposta do cobrador, entrei e comecei o caminho de volta. Pouco antes das 18 horas eu desembarcava no mencionado endereço. 

Antes de voltar para a hospedagem ainda passei em um mercado para comprar frutas e pão que na sequencia seria degustado durante a janta que teve macarrão instantâneo no cardápio preparado por mim. Depois me restou descansar. 

09/11/2012 - 124° dia - Trujillo (Folga)

Dia tranquilo.

Hoje aproveitei para descansar, sobretudo, na primeira parte do dia. 

Na hora do almoço fui mais uma vez ao restaurante no mercado público onde os proprietários estão acostumados a receber os cicloturistas da Casa Amistad. Tenho realizado minhas refeições no local durante toda a semana e sempre fui muito bem recebido. O prato é extremamente caprichado para os viajantes. 

No período da tarde o Lucho me convidou para divulgar o passeio ciclístico e uma competição para crianças que aconteceria no dia seguinte. Fiz questão de ajuda-lo e saímos pelas ruas da região com o “carrinho” de som que anunciava o evento. Ainda nos encontramos com a polícia para que a mesma realizasse a segurança da “bicicleteada”. 

Regressei somente de noite à hospedagem, que agora tem mais um cicloturista, trata-se do francês Ianis que começou a viagem em Quito e direciona-se à Bariloche na Argentina. O ambiente aqui na Casa de Ciclistas está cada vez melhor, não faltam assuntos interessantes nas conversas que na maioria das vezes são acompanhadas de muita risada com as histórias de viagem de cada um.

Após tomar um banho fui jantar no mesmo local do almoço, contudo, desta vez na ótima companhia do casal de cicloturistas Andy (Inglaterra) e Chan (Cingapura). A minha refeição praticamente saiu de graça porque de tarde encontrei 5 soles na rua. A sorte continua a me acompanhar. A refeição estava mais uma vez caprichada. Tenho aproveitado esses dias sem pedalar para ganhar um pouco de peso. A estratégia tem funcionado, na minha última pesagem aqui em Trujillo estava com 1,5 quilos a mais. Maravilha!

Alimentado, voltei para casa, esperei um pouco e fui dormir. Era preciso descansar para o passeio na manhã seguinte. 

Dia finalizado com 7,27 km em 00h55m e velocidade média de 7,89 km/h.

10/11/2012 - 125° dia - Trujillo (Folga)

DJ Nelson Neto comanda as pistas. E não me refiro às rodovias.

Um dia que certamente não esquecerei!

Acordei por volta das 6h30m e após o café da manhã aproveitei para escrever o diário de bordo. Fiquei mais de 3 horas a relatar os últimos acontecimentos quando o Lucho apareceu para nos acompanhar até o local de partida do passeio ciclístico. Saímos da hospedagem em comboio, afinal, éramos quatro cicloturistas. 

Mercado de "segunda mão" que acontece aos domingos pela manhã na rua da Casa Amistad.

In foco.

A tal bicicleteada estava marcada para às 10 horas, mas foi começar quase uma hora depois. No local de encontro não havia muitas pessoas, talvez vinte, no máximo. Ainda assim, a polícia esteve presente e realizou a escolta em três motocicletas e uma caminhonete. Um grande exemplo. Em Foz do Iguaçu quando realizamos as bicicletadas e reunimos cem ciclistas, a polícia não comparece aos nossos chamados para fazer a devida segurança. Uma lástima!

O passeio foi relativamente rápido e consistiu em duas voltas por um trajeto pelas ruas e avenida desta parte da cidade. Foi legal ver a participação de crianças com pouca idade. Evidência que este trabalho do Lucho faz a diferença. É preciso mencionar que ele é realmente um amante do ciclismo e faz o (im)possível para incentivar a utilização da bicicleta. Inclusive está com um projeto para implantar uma escola de ciclismo na região, focado, sobretudo, nas crianças. Excelente iniciativa.

Passeio ciclistico.

Após o passeio aconteceu uma pequena competição entre as crianças. Uma forma de incentivar e despertar os “niños” para o esporte e seus benefícios. Nós, cicloturistas, ajudamos na organização. Foi um evento simples, mas com grande significado. Gostei!

Mandaram bem garotada!

 Vitoriosos

Voltamos às 13 horas para a casa de ciclistas e eu tinha apenas uma hora para almoçar, isso porque fui o único que aceitou ajudar Lucho no evento realizado por sua produtora em uma festa de aniversário. Eu teria apenas que ajuda-lo com o transporte dos equipamentos de som. Ao menos essa era a informação inicial.

Para almoçar fui ao mercado público com o francês Ianis. Resolvemos experimentar um prato bem comum da gastronomia peruana, carne de pato. Na região está quase sempre presente no cardápio. Sem dúvidas é diferente e saborosa. Pareceu-me uma carne bem macia. Aprovada!

Carne de pato, saborosa.

Às 14h30 minutos o anfitrião apareceu e começamos a colocar todos os equipamentos na “carreta” puxada pela bicicleta. Lucho não tem carro e seu principal meio de transporte, inclusive para o trabalho, é a bicicleta. Após carregar todos os instrumentos, seguimos ao local da festa.

A festa de aniversário era de uma menina que completava quatro anos. O salão estava todo decorado e muito bonito, diga-se de passagem. Auxiliei Lucho a instalar as caixas de som e depois apenas observei este processo com a mesa de som e seus vários botões. Incrível como em poucos minutos estava tudo pronto. 

Os primeiros convidados chegaram quase uma hora após o previsto e esse fato preocupou Lucho que recém havia recebido um telefonema para mais um serviço, desta vez, de iluminação. O receio é que não houvesse tempo suficiente para montar o equipamento da outra festa. Adivinhe qual foi a solução? 

Pois é, eu não entendo nada de equipamento de som, mas sei trabalhar com um computador. Então rapidamente fui convidado à mesa para aprender a manusear o básico da aparelhagem e operar o netbook onde estava boa parte das músicas. Das 17h45m até 18h45m comandei o ritmo da festa com as orientações do Lucho que entre outras coisas, disse que era tudo muito simples e provavelmente eu necessitaria apenas trocar a bateria do microfone e colocar alguma música sugerida pela empresa que faz a animação. Achei simples e disse que não havia problema. 

Próximo das 19 horas eu estava sozinho no controle do som de uma festa com centenas de pessoas. Era muita responsabilidade e eu não poderia fazer feio para honrar o prestígio da empresa de Lucho e também para não estragar uma data especial, sobretudo, para a aniversariante e seus familiares. Procurei utilizar minha paciência para manter tudo sobre controle. 

Havia somente um grande problema, as músicas. Elas estavam em várias pastas no computador que não indicavam o estilo musical. Certamente Lucho estava acostumado em trabalhar daquela forma, no entanto, eu não poderia selecionar todas as músicas de uma vez porque algumas simplesmente não combinavam com a temática infantil. Colocava àquela que parecia ter algo direcionado aos niños a partir da descrição em certas canções. A minha sorte é que em determinado momento a equipe responsável pela animação utilizou suas próprias músicas e então eu apenas deveria tocar aquela que me pediam. Neste momento ecoava o pedido pelo salão; música DJ. 

Acredite se quiser, mas no repertório havia músicas da Xuxa, Michel Telo, Gustavo Lima e um pouco de axé para sacudir a criançada. Pelo menos eles não entendem as letras. Também espero que não se recordem delas futuramente. (Risada sacana)

O tempo passou rapidamente e o bolo foi cortado após os parabéns por volta das 20h30m, em ambos os momentos uma música especial foi tocada. Felizmente ocorreu tudo bem. Logo depois os convidados começaram a ir embora. 

As horas passaram e nada do Lucho aparecer. Isso aconteceu quase às dez horas da noite. O francês Ianis acompanhava-o e nós três rapidamente desmontamos todo o equipamento. No final os pais da aniversariante nós deram refrigerante, arroz doce e gelatina. Eu já havia recebido um kit com guloseimas que todos os convidados ganharam como lembrança da festa. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos, sobretudo, a festa de aniversário. Experiência única. 

No retorno à hospedagem fui apresentado a mais dois franceses que chegaram. Phillipe e Odete também viajam em direção ao norte. Mais uma cama foi montada no quarto superior (onde estou) que agora tem quatro pessoas. Com isso, a casa de ciclistas está lotada, são seis viajantes, mas ainda há espaço para muitos outros. Eu estava cansado, mas ainda conversei um bom tempo com o pessoal antes de dormir. 

Dia finalizado com 6,77 km em 00h48m e velocidade média de 8,36 km/h.

11/11/2012 - 126° dia - Trujillo (Folga)

Dia dedicado para atualizar a escrita no diário de bordo. 

Também aproveitei para arrumar minhas coisas, afinal, amanhã estou de volta à estrada após dez dias na Casa de Ciclistas de Trujillo. Confesso que eu poderia ficar aqui por mais tempo, contudo, é preciso avançar para pegar menos chuva possível durante a passagem pela Cordilheira dos Andes (novamente) no Equador. Infelizmente a época seca (inverno) já passou. Sem problema. Vamos que vamos!

Assim fica um quarto com vários cicloturistas.

De noite reunimos todos os cicloturistas da casa e saímos para jantar. O pessoal escolheu uma chifa, nome direcionado aos restaurantes chineses. Ao contrário dos outros viajantes, não sou muito fã desta gastronomia oriental, mas uma viagem também ajuda a quebrar paradigmas, então fiz meu pedido; Arroz Chaufa. Não sei a origem exata deste prato, todavia, há tempos queria degusta-lo, pois está no cardápio de vários restaurantes, sobretudo, chineses. 

De entrada apareceu a sopa wanta, que novamente não agradou meu paladar. Havia experimentado essa sopa na chifa visitada em Lima. O segundo prato demorou a chegar e quando finalmente surgiu na mesa, uma surpresa; o garçom confundiu o pedido e trouxe um tal de Aeropuerto, mescla de Chaufa de frango e macarrão. Em todo caso, estava muito caprichado (leia-se, uma montanha de comida) e não mudava o preço, oito soles. Que delícia! Não sei dizer muito bem o que é feito com o arroz, mas fica muito bom. Aprovado!

Vai um aeropuerto aí?

 In foco.

O jantar foi na verdade uma despedida, afinal, Andy e Chan também partiriam no dia seguinte. O ambiente estava muito bom e não poderia ser diferente, cicloturistas reunidos é quase sempre garantia de conversa interessante e boas risadas. França, Brasil, Inglaterra e Cingapura na mesa, no entanto, todos falavam em espanhol com finalidade de pratica-lo e consequentemente aperfeiçoa-lo. Oportunidade única.

No regresso à hospedagem, encontramos com Lucho e sua família, que apareceu para também se despedir. Em um livro de registros dos cicloturistas que passam pela casa, deixei minha mensagem e o agradecimento ao anfitrião que por décadas mantém as portas do local abertas aos viajantes sobre duas rodas. No entanto, Lucho é humilde e ao ler minha mensagem agradece e diz o respeito que tem por nós (cicloturistas), uma vez que deixamos nossas casas, famílias e países para conhecer o mundo. Ainda fez questão de entregar vários cartões de visita de sua empresa para passa-los a outros ciclistas pelo caminho. Sinceramente, uma pessoa com valor inestimável. Se vieres por essas bandas, não deixe de conhecer a Casa Amistad e o responsável por seu funcionamento.

Lucho ainda me orienta sobre o caminho que devo fazer na manhã seguinte e alerta sobre a passagem por Paiján, um distrito cinquenta quilômetros depois de Trujillo que ficou conhecido entre os cicloturistas pela falta de segurança. Viajantes tiveram suas bicicletas roubadas no local. Quem primeiro apareceu com essa informação foi o inglês Andy e depois o francês Ianis que chegou a pegar um ônibus para não passar pela região. Se necessário, Lucho disse que eu poderia pedir escolta policial até completar o perímetro urbano. Tenso!

Não fiquei com medo das informações sobre Paiján, em maior parte do caminho pedalado até agora sempre fui orientado a ter cuidado porque as cidades eram perigosas. No entanto, sempre muito atento, nada me aconteceu e espero que assim continue. Todavia, é óbvio que não vou descartar as preciosas dicas e tomarei a cautela necessária para seguir sem maiores problemas. 

Essa questão de segurança também foi levantada para atravessar a fronteira na região de Tumbes. A mesma não é recomendada pelos ciclistas por ser considerada perigosa. A outra opção para ingressar no Equador é através da cidade de Macará. No mapa achei a alternativa atraente, embora, montanhosa e resolvi não seguir essa última parte em território peruano pelo litoral. Dessa forma, após Piura, sigo para Silluana e depois Macará.

No máximo em uma semana eu espero atravessar a fronteira. Desejo que tudo ocorra bem assim como tem acontecido durante toda a viagem.

Hasta luego!

12/11/2012 - 127° dia - Trujillo a Mocupe

Um dia para muitas reflexões.

Madruguei. O celular tocou às 5 horas e desta vez a preguiça não teve a mínima chance de me convencer a ficar deitado. Precisava sair cedo porque o caminho era longo, muito longo. Havia elaborado um plano ousado, pedalar mais de duzentos quilômetros entre Trujillo e Chiclayo, difícil, mas não impossível. 

Assim que levantei, tratei logo de levar minha bagagem para baixo a fim de não acordar os demais hóspedes. No pátio da casa, Andy e Chan já haviam colocado suas bicicletas em um veículo para leva-los até o aeroporto, o voo para Santiago estava marcado para às 6 horas. Para minha surpresa, Lucho também estava presente para prestar qualquer auxilio necessário. 

Novamente me despedi do casal e comecei a arrumar minha bagagem na Victoria, por incrível que pareça fiz isso em um tempo recorde. Agora levo mais um item sobre o alforje traseiro. Um pneu reserva que estava em um canto da casa de ciclistas. É verdade que está bastante gasto, mas pode servir em um caso de emergência. E muito provavelmente deverei utiliza-lo para colocar no lugar do pneu dianteiro (ainda Pirelli) que chega aos 7 mil quilômetros e por motivos óbvios começa a exibir suas costuras e logo deve rasgar. Por isso achei melhor sair preparado.

Com tudo em ordem fui abastecer meu tanque; tomar o café da manhã. Pão, geléia e leite achocolatado, este último foi bastante consumido esses dias aqui em Trujillo. Pareceu-me uma opção barata e muito nutritiva. Infelizmente não posso leva-la a bordo em razão das elevadas temperaturas.

Despeço-me de Lucho e exatamente às 6 horas da manhã sigo em direção à Panamericana Norte. Para minha felicidade o caminho para chegar à rodovia é sem complicação. Como ainda era cedo, poucos veículos transitavam pelas ruas, realidade que mudou em questão de minutos. Mas o deslocamento ocorreu sem problemas e com aproximadamente oito quilômetros eu já estava na estrada.

Despedida da Casa Amistad.

Descansado após uma pausa de dez dias em Trujillo e com o relevo para Chiclayo basicamente todo plano e ainda informações que o vento estaria ao meu favor, sobretudo, no período da tarde, achei que seria possível pedalar os duzentos quilômetros, mesmo que isso significasse seguir noite à dentro na estrada. 

O tempo estava bom e o sol já brilhava com intensidade. A temperatura aumentou rapidamente e poucos minutos após minha saída fui obrigado a tirar a segunda pele. Continuei atentamente por causa do fluxo de veículos. Quando o velocímetro marcava vinte quilômetros vejo uma blitz à frente e muitos carros estacionados no acostamento. Assim que me aproximo o policial pede para eu seguir devagar porque havia ocorrido um acidente. Ao lado da rodovia um carro funerário indicava que a situação infelizmente era mais grave do que imaginava.

Batida frontal. Uma van e uma caminhonete se colidiram e quando passei sobre os vários cacos de vidros espalhados pela rodovia notei que um homem estava sem vida e já encoberto com uma manta ao lado da van. Uma mulher chorava em meio das várias pessoas que se encontravam no local, entre elas, jornalistas, fotógrafos e policiais. Uma cena muito triste. Não quero fazer julgamentos e também não sei qual o motivo da colisão. Mas tudo indica que tenha sido mais um caso de imprudência. Parece que um dos veículos fazia uma ultrapassagem perigosa.

Infelizmente mais um acidente fatal.

Começar o dia com uma cena deste tipo com certeza não é nada agradável. Confesso que não sabia qual seria minha reação ao longo do dia. Isso porque durante a Travessia do Paraná em 2007 (primeira expedição realizada), deparei-me com uma situação muito parecida e lembro ter ficado, de certa forma, abalado psicologicamente e naquela ocasião eu desejava que o dia terminasse o quanto antes. Agora eu questionava como meu psicológico lidaria com esse momento delicado.

Restou-me seguir viagem. Minha atenção foi triplicada. O acostamento continuava ruim, repleto de buracos e remendos em muitos trechos. Mas ainda assim era possível avançar com uma velocidade razoável. E conforme a quilometragem passava eu ficava um pouco apreensivo pela proximidade de Paiján. Pelo caminho a região continua desértica. Em determinados locais a areia invade a pista e é necessária a ajuda de uma máquina para remove-la e permitir a passagem dos veículos.

In foco.

Será que venta por essas bandas?

Meu avanço era surpreendente e o vento a essa altura não ajudava muito. Pouco antes de Paiján encontrei a entrada para Puerto Malabrigo (aproximadamente 30 km da Panamericana), local onde existem as ondas mais longas do mundo. Era um dos lugares que eu desejava conhecer, mas apenas ver as ondas e não entrar na água em razão da temperatura baixa não seria interessante. Fica para a próxima.

Cidade de Deus versão peruana, rs.

Paiján. Com 53 quilômetros pedalados eu estava no tal lugar perigoso. Na entrada do distrito cones alertavam os motoristas a diminuírem a velocidade. Aconteceu que boa parte da carga de um caminhão de cana de açúcar foi deixada na rodovia. Não sei como aquilo pôde ocorrer. Provavelmente o veículo tombou às margens da rodovia horas atrás. Sei que tinha cana para todos os lados. Como eu estava na dita área perigosa, não ousei registrar o momento.

No perímetro urbano de Paiján encontrei um carro da polícia rodoviária e resolvi ter maiores detalhes sobre a segurança do local e a possível necessidade de escolta. No entanto, o policial disse apenas eu poderia seguir. Foi o que eu fiz, voando (risada sacana). Esse trecho durou seis quilômetros e mais dois veículos da polícia foram visualizados. Logo, não me pareceu nada inseguro passar por Paiján. Acho que basta ter atenção e não marcar bobeira quando estiver pela região.

Mesmo após a passagem por Paiján eu continuei a voar com a bicicleta. O vento a favor apareceu e o pedal ficou muito bom. A velocidade era sempre acima dos 20 km/h. Com isso, parei na cidade de Pacasmayo às 12h40m com a incrível marca de 110 km pedalados. Estava muito surpreso com isso. Geralmente chego na hora do almoço com 50 a 80 km completados. 

No restaurante à beira da estrada havia uma novidade no cardápio, na verdade o prato de entrada era diferente, típico da região norte que é servido somente às segundas-feiras. Trata-se do Shambar, uma espécie de sopa com caldo de feijão, soja e pedaços de carne. Gostei. No prato principal, bastante arroz, feijão, salada e milanesa de frango. Um “refresco” de soja foi muito bem-vindo. Menu saiu por sete soles.

Quase uma hora depois eu estava na estrada de novo. Havia aproximadamente mais cem quilômetros para serem percorridos. A temperatura continuava elevada. Precisei de muita água para hidratar o corpo, por sorte eu comecei o dia com 4 litros, foi uma boa estratégia. Meu psicológico estava relativamente bom. Acho que esses anos de estrada me ensinaram a conviver com situações complicadas como a que ocorreu no início da manhã.

Um veículo buzina incansavelmente e ao passar do meu lado percebo que é o pessoal da Argentina que viaja pela América no Bondi, o ônibus antigo responsável pelo deslocamento. Havíamos nos encontrado quilômetros antes de Trujillo na semana retrasada. Eles pararam no acostamento e conversamos um pouco. Segundo me relataram, tiveram que ficar mais tempo que o esperado na região porque ninguém queria trocar peso argentino pela moeda local. Ficamos de nos encontrar pelo caminho e cada um seguiu viagem.

El Bondi dos hermanos argentinos.

A tarde passou rapidamente e a quilometragem também. Por volta das 18 horas, eu estava com 179 km pedalados. Poderia seguir tranquilamente à Chiclayo, porém achei mais prudente parar em Mocupe, um distrito que apareceu pelo caminho. O problema de continuar a viagem naquele momento é que o acostamento estava realmente muito ruim e com a escuridão (mesmo com farol) a situação ficaria ainda pior. 

Em Mocupe achei uma hospedagem que não tem nome, mas pertence à dona Soledade que a principio me cobrou 20 soles e estava irredutível para conceder um desconto. Mas com muita insistência consegui fechar por 15 soles. No final, além do desconto, ainda ganhei duas bananas e uma manga. Maravilha! O quarto era bastante confortável e o banheiro privado não tinha chuveiro. A ducha (fria) precisou ser realizada em um local compartilhado. Sem problema.

De noite sai para jantar, mas as duas opções do lugar estavam fechadas. Comprei alguns pães e voltei para a hospedagem no intuito de preparar um macarrão instantâneo. Após a janta tentei escrever o diário, mas a canseira e o sono não deixaram, afinal, eu estava acordado desde às 5 horas da madrugada. Fui dormir.

Dia finalizado com 179,51 km em 10h12m e velocidade média de 17,57 km/h.

13/11/2012 - 128° dia - Mocupe ao km 882 

Após uma noite tranquila de descanso, madruguei de novo. Às cinco horas o despertador tocou, demorei poucos minutos para levantar e na sequencia comecei arrumar as coisas. Antes de sair ainda tomei meu café da manhã e fui para a estrada às 6h30m. 

Objetivo do dia era pedalar 150 km e parar em algum lugar da Panamericana Norte, isso porque o trecho entre Lambayeque (que fica pouco depois de Chiclayo) e Piura é praticamente deserto. Com essa distância eu precisaria pedalar menos no dia seguinte para chegar em Piura. Essa era a estratégia. 

Na rodovia a paisagem não mudou muito. Quer dizer, não havia mais plantações de arroz, milho e cana de açúcar, como no dia anterior. Agora era somente deserto com muita areia e arbustos por todos os lados. Pela primeira vez na viagem aparece uma placa que indica a presença de dunas. Sinal que a areia também estava presente na estrada. 

Mais areia pelo caminho. Impossível ficar limpo.

Dunas.

O ritmo do pedal não foi o mesmo de ontem, mas ainda assim continuava firme e forte. Em pouco tempo cheguei à Chiclayo, uma das maiores cidades do Peru e isso justifica o aumento significativo do trânsito. Na entrada da cidade parei em uma lan house para checar meu e-mail. Esperava a resposta de uma participante do warmshowers de Piura que possivelmente poderia me hospedar em sua casa. No entanto, não havia nenhum retorno de sua parte. Paciência.

Distâncias. Obs: Muito lixo em determinadas regiões à beira da estrada.

Chegada à Chiclayo.

De volta à estrada sigo entre os vários veículos e por muito pouco não vou para uma direção errada graças a uma informação mal recebida. A minha sorte é que procuro perguntar várias vezes e em um destes momentos finalmente fui bem orientado e cheguei à Panamericana. 

Ainda em Chiclayo procurei um caixa eletrônico para sacar um pouco de dinheiro, com todo aquele clima de suspense sobre Paiján eu resolvi não retirar nada em Trujillo. Entretanto, não encontrei nenhum lugar para fazer a operação. Restava-me aguardar a cidade de Lambayeque.

Pouco mais de 12 quilômetros após Chiclayo, surge Lambayeque, município que tem o mesmo nome do departamento ao qual pertence. Na área urbana achei um banco às margens da rodovia. No caixa eletrônico saquei uma quantia em dólar, afinal, essa é a moeda corrente no Equador, onde estarei em poucos dias. Ainda no banco, troquei vinte dólares por soles, quantia suficiente para chegar à fronteira. 

Com a parte financeira resolvida precisei apenas avançar. Após Lambayeque a Panamericana fica muito mais tranquila e nem parece ser a mesma rodovia de antes. Pelo caminho há pouquíssimos vilarejos e que não estão nem nos mapas. Continuei pela região desértica e já próximo do meio dia a fome começou a aparecer, em contrapartida, nenhum restaurante para almoçar. 

Com 77 quilômetros pedalados vejo uma movimentação de veículos à beira da estrada, no local havia algumas casas, mas nenhum letreiro indicava a existência de um restaurante, ainda assim fui verificar e para minha felicidade, uma das casas servia almoço. Como não era menu, fiquei sem a sopa, no entanto, o Lomo Saltado estava bom. Paguei 7 soles. Após a refeição descansei um pouco e às 13h30m voltei a encarar o trecho no deserto.

É inacreditável como esse acostamento da Panamericana Norte fica cada vez pior. Não é fácil desviar o tempo inteiro dos buracos ou então pedalar pelas pedras britas e areia que preenchem o espaço que deveria ser igual a pista que continua ótima para o trânsito de veículos. O pior de tudo é que a rodovia é pedagiada, contudo, esqueceram completamente da manutenção no acostamento. As poucas reparações são porcamente realizadas e os remendos são muitas vezes piores que os buracos. Santa paciência!

Pelo caminho duas surpresas. Finalmente encontrei algo que há muito tempo eu procurava. Uma árvore modificada em razão do vento. Por falar nele, hoje não ajudava como ontem, era lateral e isso justificava o formato das árvores à beira da rodovia. Vento lateral às vezes ajuda, no caso de hoje, pouco influenciou na velocidade média. A segunda surpresa foi ver um pelicano peruano perdido no meio do deserto. A estrada se distanciou do oceano, por isso sua presença solitária foi incompreensível. 

Vento lateral cruel. Observe a árvore.

 In foco.

Perdido no meio do deserto.

In foco.

Acostamento com buraco, remendo, areia e muita pedra.

Agora que estou longe do mar, o tempo está aberto e finalmente consigo registrar o pôr-do-sol, magnifico, diga-se de passagem. Isso aconteceu pouco depois das 18 horas. Eu sabia que depois desse acontecimento eu teria apenas mais uma hora de claridade. Era o momento que eu deveria procurar um local para montar acampamento. Os minutos passavam, a escuridão chegava e pelo caminho apenas dunas de areia e pequenas árvores nas margens da estrada. Em um determinado momento apareceu uma guardiania no meio do nada. Aproximei-me e perguntei se poderia passar a noite no local. Não fui autorizado, mas pelo menos o proprietário informou que cinco quilômetros a frente teria um restaurante. Fui conferir.

Momentos como este não tem preço.

 Pôr-do-sol

Realmente o tal restaurante (San Francisco – km 882) apareceu na distância informada. Parei às 19 horas no local e repeti a mesma pergunta de minutos antes. Desta vez a resposta foi diferente e tive a permissão para montar acampamento atrás do estabelecimento. O lugar era bem simples e aparentava ser seguro, afinal era um deserto. Pensei duas vezes se montava a barraca ou passava a noite apenas com o saco de dormir estirado no chão. A queda na temperatura ambiente me fez optar pela primeira opção. 

Com acampamento levantado, aproveitei e fui jantar no restaurante. Arroz, salada, bisteca e batata frita por 7 soles. O prato estava bem caprichado, bastante arroz e uma carne muito saborosa e macia, algo difícil de encontrar em território peruano. Após a refeição fui descansar.

Dia finalizado com 158,13 km em 9h58m e velocidade média de 15,84 km/h.

14/11/2012 - 129° dia - km 882 a Piura

Que noite! Que noite!

Cachorros, jumentos, patas, galinhas e roedores.

Ontem quando cheguei ao restaurante fui recepcionado aos latidos por cachorros que fazem a segurança do local. Durante a madrugada eles não hesitaram em fazer o mesmo com os caminhoneiros que chegavam ao local para dormir. Infelizmente não foram os únicos animais a fazerem a “festa” noturna. 

De noite comecei a ouvir barulhos estranhos e não soube identificar o que era, mas certamente era de algum animal. Em determinado momento fui verificar e ao lado da barraca encontrei um roedor parecido com rato e coelho, acho que é aquilo que eles chamam de Cuy, que por sua vez, é comestível. Não me assustei porque já havia visto uma criação deles entre Cusco e Nasca. O problema é que eles emitem um som bem irritante e que fica ainda pior quando você tenta dormir.

Responsáveis pelo barulho durante a madrugada.

De noite também escutei algo que parecia choro de algum animal. Do lado da minha barraca tinha uma pata e seus filhotes, mas eu nunca soube que pato chora. Chora? Sei que não foi fácil dormir. Acho que peguei no sono apenas por volta das 4 horas da madrugada. Quando finalmente pude descansar, sonhei (na verdade foi um pesadelo) que haviam mexido na bicicleta. Misericórdia. Acampar sozinho é sempre uma grande aventura.

Meu celular despertou às 6 horas da manhã e a primeira coisa que fiz foi verificar se estava tudo em ordem com a bicicleta. Minha Victoria estava intacta, foi apenas um pesadelo, ainda bem. Neste momento aproveitei e registrei os barulhentos roedores e também a pata e os patinhos. Descobri que o choro na madrugada era dos filhotinhos de uma cachorra que estava do outro lado da parede. Esta, por sua vez, também delimitava o espaço reservado para galinhas e perus. Eu estava num verdadeiro zoológico.

Local do acampamento.

Vizinhos

Pata e seus filhotes.

Cuy

 
  Jumentos também no norte peruano.

Depois que levantei, preparei um suco e degustei algumas bolachas, foi meu desayuno. Comecei a desmontar acampamento e às 7 horas eu seguia em direção à Piura. Uma placa logo depois do restaurante dizia que havia mais 95 quilômetros. Era o que eu suspeitava. Com uma distância razoavelmente curta, eu poderia pedalar tranquilo que por volta do meio dia eu estaria no meu destino. 

Restaurante San Francisco.

Acostamento aqui é luxo.

Durante a madrugada choveu um pouco, mas como eu estava em uma área coberta não tive problema com isso e cheguei a pensar que era apenas mais um sonho. Mas havia sinal de chuva na estrada, sinal que não estou louco, ainda. O acostamento estava de mal a pior. Hoje fui obrigado a pedalar na pista, sempre em cima da faixa lateral. Quando havia tráfego em ambos os sentidos eu voltava para as crateras e pedras. Durante os cinquenta primeiros quilômetros o trajeto foi praticamente plano. Neste trecho há dois restaurantes em funcionamento, estão situados 35 e 40 quilômetros após o Restaurante San Francisco. Fica a informação.

Após 50 quilômetros pedalados apareceu uma série de sobe e desce em uma região com vários povoados. Em nenhum havia restaurante ou hospedagem. Se você estiver aqui, talvez possa conseguir um espaço para montar acampamento, não mais do que isso. 

Finalmente descida após longas retas.

A temperatura aumentou bastante próximo do meio dia. Para aliviar um pouco o calor e a fome, realizava paradas para degustar minhas bolachas debaixo das sombras à beira do acostamento. Isso porque a região passou a apresentar (em um passe de mágica) uma área verde e com árvores. Melhor assim!

Verde à beira da estrada. Animais pelo caminho.

Quando cheguei ao pedágio antes de Piura, havia pedalado 90 quilômetros e aproveitei a existência de um restaurante para almoçar. Poderia parar somente no destino final, mas a fome era grande e o calor judiava bastante. No local, a refeição custou 6 soles; arroz, feijão, bisteca (não muito boa) e salada. 

Após a refeição segui para completar os quilômetros finais. Nos meus cálculos faltavam apenas mais dez. Com a barriga cheia e corpo hidratado, bastava pedalar tranquilo. No entanto, logo depois da placa de boas vindas meu pneu dianteiro começou a murchar. Não acreditei, mas quando verifiquei havia dezenas de espinhos. Cogitei seguir daquele jeito, mas o pneu ficou completamente vazio em poucos metros. Fui obrigado a parar e fazer a troca da câmara furada. 

Finalmente, Piura.

 Essa vai para meu amigo Luciano Castilha de Foz do Iguaçu.

Eu já comentei que não gosto de trocar pneu (algum ciclista gosta?). Agora imagina fazer isso quando você acabou de almoçar e está prestes a chegar ao destino final. Pois é, não é fácil. Mas nem tudo estava perdido. Pelo menos eu achei uma sombra para realizar a tarefa. O trabalhoso é tirar todos os alforjes para virar a bicicleta. Feito isso, bastou retirar os espinhos e trocar a câmara. Perdi um bom tempo até voltar para e estrada de novo. Em poucos minutos eu estava em Piura.

Passei pela entrada da cidade bem atento para ver se encontrava hospedagem ou alguma lan house para verificar se o contato do warmshowers havia respondido. Não encontrei nenhum lugar com internet. No entanto, achei o Hostal Las Orquideas, aonde cheguei às 16 horas. A diária estava em 30 soles, mas consegui diminuir para 20, ainda é caro, mas eu precisava de um banho que estava atrasado em um dia e também necessitava descansar. 

O quarto tem televisão a cabo, banheiro ( ducha sem água quente) e internet, não pega bem o sinal, mas está valendo. A cama de casal me pareceu um luxo diante da noite anterior. Único problema do dormitório é a quantidade de pernilongo. Quando fui tomar banho (eu estava muito sujo) tive uma surpresa. Provavelmente o hóspede anterior esqueceu 7 soles na porta do banheiro. Sorte a minha.

Assim que fiquei limpo comecei a escrever o diário de bordo. Amanhã devo permanecer aqui para realizar a última postagem antes de atravessar a fronteira. Durante a noite sai para procurar algum lugar para comer. Achei um local bem simples e a refeição custou apenas 3,50 soles. Era arroz chaufa, mais modesto do que aquele da chifa em Trujillo, mas pelo preço estava ótimo. 

Voltei ao hotel e fui ver um pouco de televisão. Acho que tinha cem canais, mas nenhum me chamou muito a atenção. Um deles exibia Tropa de Elite, legal é que estava dublado em espanhol. Assisti por alguns minutos e depois fui dormir com o ventilador ligado por causa dos pernilongos. 

Dia finalizado com 105,53 km em 6h27m e velocidade média de 16,33 km/h. 

15/11/2012 - 130° dia - Piura (Folga)

Dia dedicado à atualização do site.

16/11/2012 - 131° dia - Piura a Suyo

Últimos quilômetros em território peruano.

Ontem fui dormir tarde porque demorei mais do que imaginava para atualizar o site. Com isso, resolvi não madrugar hoje. Quer dizer, não coloquei o celular para despertar. No entanto, acordei naturalmente às 6 horas da manhã. Aproveitei que ainda era cedo e tratei de arrumar minhas coisas e tomar meu simples desayuno; bolachas e suco. Acontece que não tive tempo de comprar mantimentos e fiquei sem um estoque mais reforçado.

Às 7h15m entrego a chave do quarto na recepção do Hostal Las Orquideas e sigo na direção da Panamericana. O movimento pelas ruas já era intenso, mas não tive nenhum problema e minutos depois da saída da hospedagem eu já estava diante da rodovia esperada.

Pedalei quinze quilômetros e deparei-me com as obras de duplicação do trecho Piura x Sullana. Um bom trecho já está concluído e não pensei duas vezes para continuar na via ainda não inaugurada. Desta vez fui autorizado pelos funcionários sem nenhuma burocracia. O trajeto exclusivo durou aproximadamente vinte quilômetros. O ritmo do pedal foi maior até a entrada de Sullana.

Chegada a Sullana.

Rodovia Panamericana Norte - 1N - Piura x Sullana

Em Sullana por muito pouco não passei batido pelo trevo de acesso para Tambo Grande. O local também está em obras e nenhuma placa orienta a direção para o distrito em questão. A minha sorte é que ao olhar para o outro lado da rodovia visualizei a placa que apontava o caminho que eu deveria seguir.

Meu objetivo no dia estava em aberto. Gostaria muito de atravessar a fronteira para o Equador, contudo, eu tinha conhecimento que a distância de 175 km não seria fácil de ser completada em razão do relevo. A região tem uma série de sobe e desce.  Alternativa: parar em Suyo, último povoado antes da divisa. Assim precisaria pedalar cerca de 150 quilômetros.

Tambo Grande é um local estratégico para seguir ao Equador via Macará. Há duas rotas para se chegar ao distrito. A primeira é direta desde Piura, contudo, segundo informações dos mapas e ciclistas, existe um trecho de terra pelo caminho. Por isso fui pela segunda opção; Piura, Sullana, Tambo Grande, Suyo e finalmente a fronteira.

De Sullana à Tambo Grande a rodovia, ainda considerada Panamericana Norte, está impecável, inclusive o acostamento. É uma maravilha não precisar desviar de buracos e pedras. O deslocamento só não foi maior porque começaram as subidas. Mas nem estressei com elas. Encarei sem problema.

A paisagem da região muda radicalmente. Felizmente o ambiente desértico cede lugar a uma vasta área verde com muitas árvores e plantações, sobretudo, de limão. Essa fruta é amplamente produzida pelos agricultores da região. Logo após Sullana é possível ver as pessoas encaixotando a produção para envia-la às diversas partes do país.

Plantações de limão.

A volta das árvores na beira da estrada.

Verde pelo caminho.

A temperatura aumenta de forma assustadora. O dia prometia ser bastante quente. O sobe e desce continua e o mesmo não acontece com as áreas férteis. Do nada a paisagem passou a lembrar aquela do cerrado brasileiro nas épocas de seca. Ainda bem que a mesma não permaneceu muito tempo às margens da estrada. O cenário voltou a ficar verde e com uma trilha sonora literalmente animal. Muitos pássaros emitiam os mais diversificados cantos. Uma sinfonia excelente. Infelizmente não consegui flagrar nenhuma ave.

A mudança na paisagem. Subida a vista.

Novamente área fértil. Descida a vista.

O trecho Sullana x Tambo Grande tem 47 quilômetros. No distrito de Tambo Grande o destaque é para a plantação de mangas. Centenas de hectares exclusivos para sua produção. Não raramente os “mangos” são encontrados à venda na beira da estrada. O que também apareceu foi um restaurante. Já era 12h40m (83 km pedalados) e eu precisava me alimentar para seguir viagem. Entre as opções a la carte, a mais econômica era carne de cabrito acompanhada de arroz e feijão. O prato custou cinco soles e apesar do preço estava muito bom.

Portal de Tambo Grande.

Com um dia de folga em Piura, gastei quase todos meus soles com o pagamento da hospedagem. Dessa forma, iniciei o dia apenas com 15 soles, era tudo o que eu tinha para chegar até a fronteira. Resolvi não trocar mais dólares para não perder dinheiro na cotação. Com o almoço essa quantia ficou ainda mais limitada. O que restou deveria ser gasto em uma hospedagem ou em alimentação no final do dia.

Após a refeição continuei pelo ótimo caminho que começou a apresentar mais e mais montanhas no horizonte. Claro que as subidas também estavam presentes. Com mais vinte quilômetros pedalados debaixo de um sol escaldante parei em um povoado às margens da rodovia para perguntar se havia água ou refrigerante gelado. A água de 2,5 litros custava três soles e com a minha verba limitada optei por uma gaseosa helada que custou um sol. No final paguei apenas 90 centavos porque eu não tinha trocado. Entre outras coisas, no local também havia água de coco, mangas e tamarindos.

Acostamento perfeito.

Plantações de banana e manga.

Nas margens da estrada. Pena que ainda estavam verdes.

Montanhas

Comecei a conversar com os proprietários do estabelecimento e minutos depois começaram as dádivas. Primeiro me ofereceram uma manga que sem dúvida foi muito bem-vinda e degustada no mesmo instante. Depois completaram minhas garrafas com a água da torneira que era potável. Antes de partir ganhei duas mangas para levar e ainda abriram um coco que reforçou a minha hidratação. Restou-me agradecer imensamente. Afinal, com o calor quase insuportável, nada melhor que líquidos e frutas para recuperar as energias.

Na volta à estrada em poucos quilômetros estava em Las Lomas, cidade que sempre aparecia nas placas pelo caminho. O local me pareceu bem simples. A notícia desagradável é que após seu perímetro urbano o acostamento excelente desaparece. Que tristeza! Bem que aquela situação estava ótima demais para ser verdade. Pelo menos durou quase cem quilômetros.

No final da tarde fui obrigado a encarar o sobe e desce no acostamento ruim. A parte boa foi admirar a paisagem que modificou completamente em pouco tempo se considerarmos o ambiente desértico da costa peruana. Lembrei-me da estrada entre Guaratuba (PR) e Joinville (SC) e também de alguns trechos da rodovia entre Chuy e Aguas Dulces no Uruguay. Todos estes locais são belíssimos e muito agradáveis para pedalar.

Montanhas e subidas pela frente. Repare o aclive no lado esquerdo superior da imagem.

Com o pôr-do-sol fiquei na expectativa de qual seria o desfecho da minha situação com a pouca grana. Mas aos poucos tudo foi resolvido. Com aproximadamente 140 km pedalados cheguei às 18h20m a uma vila pertencente a Suyo, que por sua vez, está quase há 10 km de distância. Por um milagre, no pequeno povoado havia um restaurante/hospedagem e resolvi perguntar o preço para pernoitar.

Mais um por-do-sol na estrada.

Os bodes malucos que atravessam a estrada a todo instante.

Inicialmente a diária na hospedagem custava 15 soles, mas foi reduzida para 10 soles. Um preço justo e que eu poderia pagar. Naquele instante achei que uma boa noite de sono e um ótimo banho seriam importantes após um dia cansativo e quente. Claro que não ficaria sem alimentação, tinha o resto de um macarrão e as duas mangas na bagagem.

Mas a minha sorte ainda não havia terminado. No simples vilarejo tinha um local que trocava dólar. Pensei uma, duas, três, várias vezes antes de fazer o câmbio, mas no final das contas troquei uma pequena quantia que seria suficiente para jantar de verdade no restaurante anexo à hospedagem. Não estou disposto a ficar sem me alimentar direito, ainda mais agora que ganhei alguns quilos em Trujillo.

A janta custou apenas 5 soles e apesar de simples, estava uma delícia. O cardápio era arroz, feijão, batata doce e carne de porco. No final apareceu um suco de maracujá que fechou a refeição da melhor forma possível.

Durante o jantar uma cena curiosa. Muitos veículos formavam uma fila no acostamento da rodovia. Perguntei o motivo daquele movimento e me responderam que eram contrabandistas de combustível trazido ilegalmente do Equador onde o preço é mais acessível. Os motoristas esperam até formar um comboio e partem em direção à barreira policial que está poucos quilômetros depois. No local é claro que ocorre a propina para fazer a conhecida vista grossa.

Lembrei e comentei com o pessoal sobre a época que os muambeiros (com suas mercadorias do Paraguay) formavam comboio de dezenas de ônibus para evitar a fiscalização nas rodovias paranaenses e seguiam para todas as partes do Brasil. Era uma cena impressionante, impossível de esquecer.

Alimentado, voltei ao quarto, degustei uma manga e comecei escrever o diário de bordo. Essa é a última postagem a respeito da minha passagem pelo Peru. A fronteira está a 30 km daqui e o próximo relato já será sobre o Equador.

Em território peruano foram 3.003 km pedalados e 1.624 reais gastos em um mês e vinte e cinco dias. A média diária ficou em 29 reais, abaixo dos 30 reais que está estipulada para toda a viagem.

Sem dúvidas o Peru é um país surpreendente, sobretudo, pelas Islas de Uros em Puno; a riqueza cultural e histórica de Cusco (Machu Picchu) e Nasca; as belezas naturais da Reserva Nacional de Paracas; o impressionante centro histórico de Lima; e a fascinante Chan-Chan em Trujillo.  Ainda vale destacar a gastronomia peruana que é diversificada e muito saborosa. No mais, está tudo descrito nos relatos. Aproveite-os.

Dia finalizado com 142,74 km em 9h10m e velocidade média de 15,56 km/h.

23 comentários:

  1. Lindo relato Nélson, continua me inspirando demais pra fazer minha primeira viagem. (algo em torno de 150km talvez rsrs)

    Sensacional essa Casa do Ciclista e o tratamento que o Senhor Clemente lhe deu. Muito emocionante.

    Acho que os lugares são maravilhosos de se conhecer no pedal, mas as pessoas, essas eu acho que fazem tudo valer a pena e mais um pouco. Gente muitas vezes simples, mas de um valor imensurável.

    Obrigado por compartilhar sua viagem com a gente e muito boa sorte!!

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    1. Buenas Vinicius.

      Sou eu quem agradeço pelas palavras. Espero que voce faça logo sua primeira viagem para nao parar mais ao descobrir esse fascinante mundo do cicloturismo. Quando realizar essa experiencia nao esqueça de compartilhar conosco.

      No mais, concordo plenamente contigo, muitas vezes sao essas pessoas simples que fazem a diferença. Afinal: "Felizes aqueles que tem espirito de pobre".

      Valeu pela força.

      Abraçao.

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  2. Nelson, já vi uns cães parecidos no litoral brasileiro, parece que a raça é "sarna".

    Brncadeiras à parte, pulei o post anterior pois estou com internet "racionada", mas sigo acompanhando a trip.

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    1. Buenas seu fanfarrão.

      Pois é, parece mesmo com a raça mencionada, rs. Talvez até mais bonito. Vai dizer que aquele topete nao é estiloso?

      Isso ai, continue a bordo.

      Abraçao, hermano.

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  3. 17 anos!!
    Rachei de rir aqui.... kkkkkk!!!

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    1. Buenas japa.

      Rachou de rir porque eu aumentei dois anos, nao é? Na verdade voltei aos 15 anos. Muita juventude, rs. É o resultado de muito pedal. :)

      Abraçao.

      Hasta Siempre!

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  4. Sua experiência indizível, seu relato fantástico, sempre me leva as lágrimas (de felicidade). Parabéns pela determinação, paciência (contigo mesmo e com os outros), pelo desprendimento. Com certeza és fonte de inspiração para muitos(as). Abraço, Juliana

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    1. Buenas Juliana.

      Muito, mas muito obrigado mesmo por fazer questao de deixar essas poucas, mas significativas palavras para um viajante que as vezes se encontra solitário por essas estradas da vida. Sem dúvida esse é um grande incentivo para continuar com todo esse projeto.

      Seja sempre bem-vinda a bordo desta experiencia maravilhosa.

      Abraço.

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  5. Continuo acompanhando as atualizações. Aproveitei e li todos os relatos de suas viagens anteriores. Ri muito com sua primeira viagem e seus sustos à noite dentro da barraca. hehehehe

    Você tem me inspirado muito para colocar a bicicleta na estrada. Enquanto lemos dicas e dicas sobre equipamentos necessários para uma viagem de bicicleta, geralmente tudo muito caro, você focou na viagem, no roteiro, que é o que realmente importa. Tá de parabéns, Nelson.

    Eu só to com um problema, toda vez que leio seus relatos das comidas me bate uma fome danada! hehehe
    E uma dúvida, essa geleia que você passa no pão no café da manhã, dura quanto tempo antes de estragar, ainda mais na quentura da estrada?

    Você vai passar por Natal, RN?

    Abraços e boas pedaladas!! :)

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    1. Buenas Jacqueline.

      Pois é, depois que passa a gente recorda com boas risadas. Mas acampar sozinho é sempre uma grande aventura. Tem ocorrido nesta viagem também. Mas faz parte da vida de um cicloturista.

      Em relaçao aos equipamentos, o importante, na minha humilde opiniao, nao é a marca e sim a confiança que voce tem na bicicleta. Por isso eu acho fundamental pedalar bastante com magrela antes de cair na estrada. Há muitas marcas simples, desconhecidas e baratas que podem surpreender. Claro que para isso também depende da forma como se trata o equipamento. Sempre procurei cuidar bem das minhas bicicletas. Vocë pode notar o quao longe a Magrela Guerreira chegou, rs.

      Sobre a geléia. Ela nao tem nem tempo de estragar, rs. Essa combinaçao com pao é muito boa. Em todo caso, meio quilo dura aproximadamente cinco dias. Mesmo com a temperatura mais elevada nao aparentou sinais que inviabilizasse seu consumo. Em Trujillo, notei que os outros cicloturistas também tinham geléia na bagagem. Parece-me uma excelente opçao para garantir energia extra.

      Certamente passarei por Natal. Ansioso demais para conhecer essa maravilhosa regiao do nosso rico Brasil. Ainda nao sei quando vou chegar a essas bandas. Mas ficarei alguns dias para conhecer o lugar. Quem sabe a gente nao pedala um trecho junto. O que acha? :)

      Qualquer coisa basta perguntar. Obrigado por acompanhar a expediçao e sinta-se a vontade para continuar a bordo.

      Abraçao.

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  6. LA HORA NO IMPORTA!

    Que bom que tens pelo caminho pessoas como O sr Clemente, srta Ester, LUCHO,Felicidades na tua caminhada, beijos OldDad.

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    1. Buenas Papito!

      Existe muita pessoa boa neste mundo. O incrível é que elas nao sao apresentadas para a sociedade como deveriam. Por isso faço questao de ressaltar a importancia destas almas caridosas. Acredito que o exemplo delas possa mudar o comportamento e a atitude de muitas outras pessoas.

      Sinceramente acredito que "gentileza gera gentileza"

      Abraçao, pai.

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  7. hola, chamigo!
    acho que vc tem que fazer o quer relatou no penúltimo dia: descançar! passear! aproveitar tudo por aí!
    abraços do amigo do MS
    Elton Xamã

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    1. Buenas camarada.

      Pode ter certeza que procuro aproveitar o máximo possível tudo que está ao meu alcance. As vezes eu começo a lembrar dos vários lugares e das experiencias que eles me proporcionaram. Sao tantas emoçoes que até parece que estou sonhando. Mas para minha felicidade é a realizaçao de um grande sonho.

      Feliz demais com tudo isso.

      Abraçao.

      Hasta luego!

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  8. Grande Nelson,
    já tinha lido uns relatos seus na época do orkut... e ontem achei o link da sua viagem e estou fascinado!

    Ganhei uma bolsa de estudos e fico até Dez nos EUA... quando volto para o Brasil para terminar meu doutorado. Mas não consigo parar de ler os relatos... Jacaré! Adorei as fotos com os jacarés!

    Fico feliz que está indo tudo bem!

    Não sei quando vai passar por Recife-PE, mas certamente a partir de março estarei por lá e receberá meu apoio!

    Te add no facebook.

    Luiz Sanches

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    1. Buenas Luiz.

      Saudoso orkut. Uma pena ter chegado a esse estágio em que quase ninguém mais utiliza essa incrivel ferramenta. Nossa comunidade ainda está ativa e com uma rica fonte sobre cicloturismo. Espero que ela nao caia em total esquecimento.

      Em todo caso, legal que voce encontrou o site e está gostando da viagem. Tem sido uma experiencia única (em todos os senidos) para mim. E tenho procurado compartilhar a expedicao de todas as formas possíveis.

      Suerte ai com seus estudos. Agradeço pela hospitalidade. Nos encontramos no nordeste. Mas ainda nao sei exatamente quando, nao deve ser antes março. Quero demais conhecer essa regiao.

      A foto com os jacarés é para quem nao entende o motivo do nome: Cicloturismo Selvagem. rs :)

      Abraçao.

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    2. Agora estamos aguardando as novidades do Equador! Boa sorte no novo país.
      Você será muit bem vindo no nordeste. Digo isso pois não sou de lá e fui muito bem acolhido. Sou natural de Maringá-PR! Abração!

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  9. Fala meu brother, cara como eu havia dito, depois da correria eu voltarei a saborear o blog, e como eu tinha parado no dia 70, me bateu uma curiosidade enorme de chegar nos dias atuais, e fiz isso, li todo esse periodo atual, e me diverti mt, cara ta cada dia melhor, vc é o cara meu irmão!
    tamo junto e tu sabe disso, abração..e agora vou voltar ao dia 70 kkkkkkkkkkkkk

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    1. Buenas hermano.

      Pois é Dega, cada dia melhor, mais surpreende e emocionante. Uma experiencia única e maravilhosa.

      Massa demais saber que voce tem gostado das novas atualizaçoes. Acho que também vai curtir aquelas pendentes. :P De qualquer forma, boa leitura.

      Sucesso ai meu irmao.

      PAZ!

      Abraçao.

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  10. Filhão, que a sorte te acompanhe em teritório Equatorenho,da mesma forma que tem te acompanhado até agora.
    BJS. OLD DAD

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  11. Você não mora no Rio, por isso as vans peruanas te causaram espanto, hehehe.

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  12. Oi tudo bom, meu nome e Edneia estou me preparando para uma grande aventura Ilha Bela a Nova York de Bike, com 2 crianças Beatriz de 11 anos e Rock de 9 anos meu marido Ricardo . Voce nao vai acreditar, mas esse sonho e desde criança estou com 47 anos, nao faço outra coisa e preparar a viagem, ja estou com as tande, ta faltando grana mas ate julho tenho fe que ja tenho entao quro partir, por favor me passa as dicas, perigos frio calor
    estari com criança e todo cuidado e vom

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