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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Dezembro de 2006. A primeira viagem.

Trajeto entre Foz do Iguaçu x Marechal Cândido Rondon
Morando sozinho em Marechal Rondon e passado mais um ano letivo na universidade surge uma ideia audaciosa para mim e todos aqueles com quem compartilhei  a possibilidade de ir pedalando até Foz do Iguaçu, cidade onde minha família morava. Aproveitando o período de férias, procurei realizar um planejamento básico para que a viagem não ficasse restrita ao campo das ideias ou dos sonhos. Engraçado, hoje, três anos após essa viagem, não consigo lembrar de algum momento em que ela me parecesse impossível, embora muitos me dissessem o contrário e já me taxavam de louco.

Mesmo sem ter conhecimento de que aquilo que estava planejando era uma modalidade do ciclismo denominada cicloturismo na qual diversas pessoas no Brasil e mundo afora são adeptas dessa prática que hoje considero um estilo de vida. Sem ler relato algum de viagens já realizadas por cicloturistas ou ter contato com um algum aventureiro sobre duas rodas eu sabia que precisava de um mínimo de planejamento para colocar em prática o objetivo, chegar pedalando em Foz do Iguaçu.

O primeiro passo, foi ter um conhecimento prévio do roteiro, as cidades que estariam no caminho e a distância entre elas, assim como a quilometragem total do percurso. Comecei procurando um mapa do Estado do Paraná (não me recordo qual utilizei, mas acredito que tenha sido um acessado na internet) e conseqüentemente traçando as cidades do caminho a ser percorrido. Não existem muitas opções de rotas para quem deseja chegar na Terra das Cataratas partindo de Marechal, então utilizei o mesmo percurso que a linha de ônibus entre M.C.R e Foz, trajeto que passei inúmeras vezes observando a Costa Oeste e seus balneários atrás da janela do ônibus. Em minhas anotações estavam presentes, inclusive os distritos visíveis no mapa, afinal, eu deveria saber por onde estava pedalando.

Essa primeira tarefa não foi difícil, alguns mapas tem disponível a quilometragem entre cada trecho, assim o roteiro fica mais rápido de ser estabelecido. A distância era considerável para qualquer ciclista que deseja concluir em um dia inteiro de pedal a totalidade de aproximadamente 170 km. Na verdade, por alguma razão não me assustei com esses números. Pensar no que levar foi o próximo passo. Ferramentas básicas para trocar uma possível câmera de ar furada durante o trajeto, detalhe, nunca tinha trocado um pneu antes e nem sabia como fazer. Não sei, talvez a falta de experiência ou a confiança de que nada poderia acontecer me fez não prestar muita atenção para esses detalhes.

Uma bomba de ar, câmera reserva e ferramenta básica, foi o que levei em uma mochila que também continha meia dúzia de banana, algumas bolachas e uma garrafa de dois litros de água congelada, sim, pensei que essa seria a solução para ausência de água, um engano. Nos recordamos com risadas das coisas que fazemos no passado quando percebemos o quanto elas podem se modificar com o passar do tempo através da experiência e conhecimento adquiridos. A mochila estava extremamente pesada, o que resultou em um desgaste ainda maior durante a pedalada. Mas o planejamento precisava de algo mais, estabelecer o horário de partida. E aqui talvez esteja o meu principal equívoco, sair após o almoço.

Almocei, deixei um bilhete em cima da mesa com o percurso completo, acho que vi essa dica em algum lugar, como eu não tinha avisado ninguém sobre a viagem, apenas a ideia de viajar, achei que seria interessante deixar o aviso se algo acontecesse. E assim, após as 13 horas fechei a porta do apartamento, encontrei minha vizinha e disse que estava indo para Foz do Iguaçu. Claro, ela ficou incrédula com a notícia. Segui viagem.

É impossível descrever uma viagem na íntegra, Che Guevara, já mencionava em seu diário de bordo em sua viagem pela América Latina, que suas palavras não eram um relato e sim um fragmento das experiências que ele e seu amigo Alberto Granado compartilharam pelos lugares onde passaram. A totalidade de uma viagem é apenas sentida por aquele que embarca na aventura de faze-la. Claro, tentamos expressar aquilo que vivenciamos através das palavras, todavia, como demonstrar pelas letras a emoção e sentimentos em sua essência? Assim, minha primeira viagem de Marechal à Foz do Iguaçu, seguiu sob um forte calor marcado por uma tarde quente de verão em uma das regiões com as temperaturas mais elevadas do estado. Aprendia naquele momento que o melhor horário pra começar uma viagem de bike não era de tarde, muito menos, com aquelas condições. Minha água da garrafinha não demorou a acabar, do mesmo modo a de dois litros não resistiu aos cinqüenta primeiros quilômetros. Mas na maioria das ocasiões existe um lado positivo, e começava ali o contato com as pessoas durante a viagem, pedindo água, informações sobre a estrada e tudo mais. O melhor desse contato é sentir a hospitalidade das pessoas para com os ciclistas que estão viajando. Não sei dizer o que elas pensam, algumas nos chamam de loucos mas ao mesmo tempo ficam admiradas pela nossa coragem e estilo de vida.

Continuando minha jornada, ficava mais difícil chegar em casa no mesmo dia, aquele sábado quente de dezembro. Com paradas freqüentes para me hidratar, comer alguma coisa e, sobretudo, descansar, o tempo foi passando de forma rápida em contraposição aos quilômetros que aparentemente ficavam mais longos a cada giro do pedal. Esqueci de mencionar um detalhe, a altimetria (altitude de cada lugar) é algo que parece banal, mas é de muita utilidade para uma aventura desse tipo, claro que eu não tinha esse conhecimento. E mesmo M.C.R com uma altitude de mais de 400m contra os 164m de Foz, o trajeto não foi apenas de descidas, as subidas são constantes. Se você pretende se aventurar pedalando pelas estradas, comece a olhar a subida por um outro ângulo, se enxerga-la apenas como um obstáculo intransponível, certamente seu aspecto psicológico vai afetar o desenvolvimento físico do seu corpo. Mas vai dizer isso pra alguém em sua primeira viagem. Na prática, as coisas são mais sofridas.

Escuro. A noite chega e eu ainda estava na estrada, há quase 30 k de São Miguel do Iguaçu, cidade onde o caminho para Foz é pela BR 277, rodovia pedagiada, com condições infinitamente melhores que a PR por onde seguia na escuridão. Para variar, o trecho a percorrer até São Miguel é um dos mais complicados de toda a viagem, ainda hoje, após realizar diversas vezes esse percurso, tenho a mesma opinião. O sobe e desce é constante, com um detalhe, as subidas são infinitamente íngremes. Agora acrescente, quilômetros pedalados debaixo de um sol escaldante, uma canseira aparente e pedalando sem enxergar nada. Pois é, não sei o que estava pensando quando resolvi sair depois do almoço. Não levei lanterna, farol ou coisas do gênero, a única luz que enxergava na pista era a dos automóveis que me orientava através do seu reflexo na faixa. Em uma estrada que serve de caminho para vários balneários, hoje tenho a consciência do extremo risco que foi pedalar aquele trecho precário de acostamento quase inexistente. Se era difícil enxergar a pista, imagina as placas informativas, principalmente em relação as distâncias.

Outro aprendizado em minha primeira viagem, não confie cegamente nas informações de pessoas à beira da estrada ou nas entradas das cidades sobre quilometragem, muita gente não tem noção de distância e talvez de modo inconsciente, dez quilômetros pode ser na verdade trinta. Pouco mais das 22 horas, finalmente chego na cidade de São Miguel do Iguaçu, logo na entrada avisto uma panificadora onde comprei alguma coisa pra comer. Não sei qual era maior, a fome ou a canseira. A dona do estabelecimento me informou que Foz estava mesmo a praticamente 40 km e me recomendou não seguir viagem pela rodovia àquela hora da noite e indicou-me um hotel. Aqui, aproveito para mencionar duas coisas. Primeiro, embora eu tenha utilizado os mapas da região, não fiz nenhuma planilha no computador, apenas rabiscos em um papel com a distância aproximada de cada cidade. Segundo, não levei mais do que vinte reais, afinal, não esperava gastar muito. Enfim, resolvi seguir o conselho da senhora e fui procurar o hotel indicado no centro da cidade.

Claro, aprende-se logo cedo nas viagens a escolher o mais barato. Dez reais o pernoite, com direito a café da manha, servido apenas após as 8:00. Não tomei banho. Estava muito tarde e embora estivesse muito sujo e suado, a canseira era maior. Liguei o ventilador e fui dormir no pequeno quarto onde mal cabia uma cama de solteiro. Mas era o suficiente.

No dia seguinte resolvi sair cedo. Ainda estava com fome e o café gratuito era tentador, mas 8:00 horas da manhã era muito tarde para que pretendia chegar o quanto antes em casa. Quase 7 horas da manhã já estava na estrada novamente. As pernas estavam cansadas, assim como o corpo todo, mas ainda conseguia pedalar. Faltavam apenas 45 km e o acostamento era muito bom. Mas parece que o ritmo não era o mesmo. E o psicológico ainda não acostumado com as subidas não ajudava o corpo a compreender aquilo que era o maior dos obstáculos. Avistar uma subida era motivo para desanimar e pra ser sincero, avistava-se dezenas delas. A 277 é repleta de sobe e desce. Mas com muito esforço a distância foi ficando menor e quase ao meio dia estava em Foz. Agora faltavam poucos quilômetros até chegar em casa.

Surpresa. Essa é a palavra de como todos me receberam em casa, estavam atônitos com a minha visita, ninguém me aguardava. Não comentei com ninguém que estava viajando, muito menos de bicicleta. Conhecendo o jeito protetor do meu pai, sabia que não iria gostar nem um pouco sobre a aventura, e não duvido que não medisse esforços para que eu não a realizasse. Não esqueço que me perguntaram se eu tinha vindo de caminhão com a bicicleta na carroceria.

Era realmente inacreditável, sentado na área de casa, comecei a contar sobre a viagem e para a minha surpresa não fui repreendido, mas meu pai disse que se soubesse que eu estava em São Miguel teria ido me buscar. Ainda bem que ninguém sabia, se não teria que ter avisado sobre pernoitar na cidade. 

A sensação é de vitória, conquista, superação, e sobretudo, que estamos vivos, embora naquele exato momento, quase morto de canseira. Fiquei uns três dias sem andar direito, estava tudo travado. Não era pra menos, sem fazer alongamento, ter pedalado no máximo três vezes a distância de trinta quilômetros como treino e depois pedalar 175 km em menos de 24 horas. Mas a experiência existe para aperfeiçoarmos a cada dia. De algum modo, sentia que outros horizontes me aguardavam. E essa primeira aventura foi a porta de entrada para um estilo de vida que levo comigo até os dias de hoje.

As pessoas, sim, elas vão continuar te chamando de louco, mas também vão lhe admirar, você acaba inspirando muita gente, seja pela coragem, determinação ou pelo simples fato de não ser comum ver um ciclista viajando. Contar a história da viagem, as dificuldades, belezas naturais do trajeto, os perigos da estrada, a hospitalidade do povo e todo o resto, talvez sejam uma parte da aventura que não se acaba quando chega ao destino.

6 comentários:

  1. Estou de férias, mas ainda assim tenho obrigações que me prendem aqui em São Paulo. Então o que faço agora é ler o blog dos companheiros cicloturistas. Gostei muito deste fragmento de sua primeira aventura, vou continuar lendo até a última postagem, é uma boa forma de enganar a saudade das estradas...
    Abraços Nelson!

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  2. Nunca tinha lido este post.....show.

    Aprendemos com nossos erros.

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  3. Quanta aventura!!
    muito legal o seu relato!
    Estou soh esperando uma folga no trabalho e na facul pra fazer minha primeira viagem e sentir alguns desses sentimentos que vc citou!!

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  4. Orgulho de você meu amigo! Realmente, quando ouvimos você falar na faculdade que iria para Foz de bike, o pensamento foi: -Meu Pai, o portuga Nelsão tá doido! rsrsrs... mas tua doidera amigo, é admirável... louvável! Quem sabe, você (de nós 3 portugas) é o que tenha conseguido viver de forma mais livre! Continuamos ainda os 3 portugas... Nelsão / Edi / Rapha... cada um num caminho... cada um trilhando sua história... cada um vivendo a sua maneira! Saudades camarada. Rapha

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  5. impressionante o relato de sua primeira cicloviagem muito bom pra mim q estou iniciando na modalidade. Leonardo Noronha !!!

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  6. Quanto erro bobo dá até raiva.

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