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sábado, 9 de janeiro de 2010

Paraguai: Pedalando em território Guarani.

Expedição do Atlântico ao Pacífico

Parte 2

Como morador da fronteira, já havia visitado o país vizinho diversas outras vezes, mas nunca de bicicleta. Já para o Aramis e João, era a primeira visita ao Paraguai. A questão de imigração não é rigorosa do outro lado da fronteira. Não precisamos parar na aduana paraguaia para registrar o ingresso no país.

Mas antes vale uma observação, na verdade um ambiente completamente diferente da rotina na Ponte da Amizade, local de travessia entre Brasil e Paraguai. Como muitos já devem conhecer, Ciudad Del Este, é um centro comercial muito movimentado, um verdadeiro paraíso para compradores de vários lugares. Quase sempre a ponte está extremamente agitada, o tráfego de veículos e pedestres é intenso. Deslocar-se na região é complicado, exige-se rapidez para os pedestres e muita atenção para os veículos, desde carros, caminhões, motos e ônibus, ambos presente de forma significativa. Contudo, aquele era um dia incomum, percebemos ao passar pela aduana brasileira e começar a pedalar pela Ponte da Amizade, que estava deserta. Poderia parecer normal para quem nunca havia visto o local movimentado. Mas para mim era um cenário totalmente atípico, fiquei muito surpreso. Mas era Natal, feriado também no Paraguai. Melhor para nós todos, aproveitamos para fazermos os primeiros registros fotográficos em território estrangeiro.

Ponte da Amizade. Divisa Brasil/Paraguay

Nelson Neto

Aramis

João Paulo

A Ponte da Amizade fica sobre o Rio Paraná, há uma altura impressionante e proporciona um visual interessante. A ilha Acaray próxima à ponte chama atenção de quem faz o percurso. A natureza se apresentava majestosamente. Avançando, saímos da ponte e adentramos em Ciudad Del Este, não precisando parar na aduana e registrar o ingresso. Na prática, deveríamos informar nossa entrada e receber a permissão de ficar no país por um prazo determinado. Todavia, na prática esse exercício não funciona.

Ilha Acaray, território brasileiro.

O centro da cidade também era marcado pelo vazio e silêncio por todos os lados. Inimaginável em um dia comum. Entre lojas fechadas e ruas desertas, a placa indicava Assunção a uma distância de 324 km’s e deveríamos passar pela capital paraguaia no dia seguinte.

Ponte da Amizade

Chegando no Paraguay

Ciudad del Este, em um momento raro de tranquilidade

Seguindo nosso roteiro, iríamos pedalar pela ruta 7 até a cidade de Caaguazú. Os primeiros quilômetros foram marcados pelo tempo que ficou nublado e principalmente com a particularidade da rodovia. Conhecíamos aos poucos um hábito curioso e perigoso do trânsito paraguaio. Começando pelo acostamento, encontramos já no primeiro dia lombadas em todo esse espaço, são obstáculos a cada cem metros. Creio que seja para evitar o tráfego de veículos, principalmente de motos. Em se tratando das motocicletas, outro fator chama atenção, a quantidade e total falta de obediência às leis, se é que essas existem. Depois do término da Expedição, conversando com um conhecido que morou algum tempo no Paraguai, comentou que a forma de pagamento é muito facilitada para comprar uma moto, uma vez com o crédito, esses veículos se tornam um dos principais meios de transporte. Conseqüentemente imagina-se que uma lei seja existente para regulamentar, inclusive, o trânsito das motocicletas. Mesmo com os obstáculos no acostamento, em alguns pontos é possível passar em razão de pequenos espaços nas lombadas, só não pergunte como e quem foi o responsável pelos mesmos. De qualquer modo, são por esses espaços que as motos andam, ou seja, no acostamento, mesmo quando a pista, local ideal para andar, estava desocupada e para variar o uso fundamental do capacete é cena rara de presenciar. O que não era difícil de encontrar foi motociclista passando ao nosso lado no acostamento, muitas vezes quase se chocando com as bicicletas. Imprudência total.

Lombadas no acostamento

Algumas com espaço no meio

João Paulo e eu.

Alguém deveria ter cautela com toda aquelas circunstâncias, e assim continuamos seguindo e apreciando a paisagem da natureza paraguaia. Em alguns trechos identificamos a presença de plantações de culturas extensivas como a de soja e girassol, pastagens com a criação de gados. Algumas áreas verdes, onde o ambiente se apresenta de forma mais atrativa, essa é a impressão que tenho. O relevo é de planície em sua maior parte, mas na estrada percebe-se um terreno em ascensão, ou seja, as subidas começaram a fazer companhia.

Plantação de girassol

Nos primeiros quilômetros eu estava com toda aquela ansiedade de pedalar e pedalei muito, até rápido de mais, o João, famoso pelo seu ritmo mais rápido, estava ficando para trás. Mas ele sabia que aquele meu gás todo não resistiria muito tempo. Afinal, os dois estavam com uma quilometragem maior e já no quinto dia de viagem. Enquanto isso, eu estava recém descarregando minha ansiedade no giro do pedal. Até a hora do almoço continuo pedalando na frente, seguido por João e conseqüentemente pelo Aramis.

Almoço. Nossa primeira alimentação no exterior e descobrimos naquele instante que nos manter bem alimentados não seria uma missão fácil. Compreendemos a dificuldade inicial, encontrar um restaurante aberto em pleno feriado. Não me recordo o nome da cidade em que resolvemos parar, mas não esqueço que não tínhamos muita opção. O único lugar aberto se tratava de uma barraca, parecida com um quiosque à beira da estrada. E o cardápio se resumia a frango assado com mandioca, o único prato para degustação. Sem alternativa, pedimos um frango inteiro e nossa fome impediu que ele continuasse assim em questão de minutos. Pedimos refrigerante para acompanhar o nosso almoço de natal. Mas quem está na estrada, na situação em que nos encontrávamos, não havia muito tempo para ficar reclamando, obstáculos desse porte existem, cabe a você supera-los da melhor forma possível. Neste caso, não gastamos muito e utilizamos pela primeira vez a moeda corrente local, o Guarani, mesmo nome do idioma oficial.

Seguimos viagem após o almoço e o tempo agora estava mais aberto, o sol era forte em contraposição aos giros do meu pedal que agora não tinham a mesma força das primeiras horas. Senti falta de reservar a energia que depositei nos quilômetros iniciais. Isso me fez ficar para trás, não muita coisa. Mas quando cheguei em Caaguazú, meus dois parceiros de viagem estava há algum tempo me esperando na entrada da cidade para então procurarmos um local para passarmos a noite.

Sol forte

Próximo a Caaguazú

Acabamos pernoitando em um hotel na frente da rodoviária de Caaguazú, que por sua vez não fica distante da estrada. Para nossa surpresa o local era de brasileiros residentes no Paraguai, ficamos em um quarto médio com banheiro, como dividimos a despesa, não saiu caro. A opção pelo hotel em vez de barraca se deve por alguns fatores, primeiros dias na estrada, ou seja, bolso cheio e a hospedagem em conta.

Devidamente limpos, mesmo com o banheiro sem iluminação e água quente, saímos para comer algo em um bar e/ou restaurante que ficava ao lado do hotel. Sem um cardápio muito completo, comemos lanches. Aramis acha interessante um formato da garrafa de cerveja, curiosidades que vamos achando no caminho.

Segundo dia de viagem, acordamos cedo, um costume que duraria toda a viagem. Tenho um pouco de demora para arrumar as coisas e coloca-las no alforje, este por sua vez também leva um tempo em ser fixado no bagageiro da bicicleta. Infelizmente essa minha tranqüilidade, para não chamar de lerdeza, continuaram nos dias seguintes. Em direção à Argentina, ainda teríamos que passar pela capital paraguaia, Assunção, que estava à 178 km’s de distância.

A manhã daquela quarta-feira está calma, com tempo bom e temperatura agradável, mas isso ocorreu somente nas primeiras horas do dia, conforme se avançava pela estrada, conhecíamos o calor extremo no país vizinho. A rodovia continua com suas particularidades do dia anterior. Na cidade de Coronel Oviedo passamos pelo segundo pedágio no exterior, para nossa sorte, também não precisamos pagar. De Caaguazú à Oviedo, pedalei praticamente sozinho, Aramis e João seguiram na frente em um ritmo maior. Estranhei essa atitude em deixar um membro da equipe pedalando sozinho, mas com o tempo na estrada, compreendi que o entendimento de equipe que eles tinham era, no mínimo, um tanto particular e diferente do que eu imaginava.

O perigo na estrada já mencionado aqui, ficou ainda mais evidente com um monumento ao lado do acostamento na direção oposto em que estávamos. Era uma coluna de concreto com um local para velas, flores e santos. Em cima da estrutura uma bicicleta toda retorcida, indicando claramente que exatamente sobre aquele local um ciclista fora vitima de um acidente fatal. É nessa hora que a gente coloca o psicológico em ordem e segue em frente.

Perigo na estrada.

Por volta das onze horas fazemos uma parada em Itacurubi de la Cordillera, para comermos algumas bolachas e refrigerantes. Seguindo viagem em direção à cidade de Caacupé, estamos agora na ruta 2, muda-se a nomeação, mas continuam os mesmos problemas e as subidas passam a ficar constantes.

Itacurubi de la Cordillera

A chegada em Caacupé acontece na hora do almoço, então resolvemos procurar um restaurante na cidade, encontramos um dos mais completos durante a viagem. O Asunción Restaurante ficava ao lado da igreja de Caacupé, amplamente conhecida no Paraguai, um país extremamente religioso, adeptos do catolicismo, certamente uma das heranças deixadas pelos jesuítas desde a época da conversão dos indígenas, sobretudo, os guaranis, que habitavam a região.

Restaurante, único buffet que achamos em território paraguaio.

Descanso após almoço.

No agradável restaurante encontramos uma espécie de buffet, com uma comida boa e não muito cara. Foi uma bela oportunidade para comer bem e bastante, afinal era necessário recuperar as energias perdidas. Após o almoço, ainda caminhamos pelo centro da cidade em busca de uma casa de câmbio. Antes o João foi tirar algumas fotos da entrada da igreja de Caacupé. Durante a andança, encontrei uma bandeira pequena do Paraguai, já tinha uma do Brasil, mas ainda não colocara no alforje, esperando justamente por uma do país vizinho. As duas presas no alforje ficaram legais, era uma forma de dizer de onde éramos e o por qual caminho havíamos pedalado. Por diversas vezes fui identificado, principalmente por brasileiros que não confundiam as cores de nossa bandeira.

Bandeiras no alforje

Catedral de Caacupé

Outro ângulo.

Na estrada em direção à Assunção, encontramos logo na saída de Caacupé, uma alucinante descida de serra, foram alguns bons quilômetros em alta velocidade, é difícil fotografar e filmar sob essas condições, mas conseguimos registrar o momento. A paisagem deixava a impressão que estávamos em um local protegido, a área florestal estava presente em todo nosso campo de visão no alto da serra. Era visível também a existência de um rio de tamanho considerável.

Natureza por todos os lados

Paisagem

No final da descida, um trecho de retas e uma outra bela surpresa em nosso caminho. Totalmente de forma inesperada, nos deparamos com uma ovelha e seu filhote recém nascido, certamente escaparam da cerca da propriedade de seus donos. Embora nos deixasse preocupado o fato do perigo que aqueles animais corriam em estarem próximos da rodovia, foi uma cena interessante, um filho ou filhote é sempre um sinal de vida, renovação.

Surpresas pelo caminho

Avançando pela ruta 2, passamos por cidades que ficavam maiores conforme a região metropolitana de Assunção estava mais próxima. Em um desses municípios, uma placa digital nos informava a temperatura e hora, 41ºC às 17h37m respectivamente, e realmente estava muito quente, o desgaste físico era enorme e ainda teríamos mais 6 horas na estrada antes de parar. Além de preparo físico, a condição climática exigiu muito protetor solar.

Antes da cidade metropolitana de San Lorenzo, encontramos um ciclista em treinamento. Conversou bastante com o João e nos indicou uma bicicletaria onde o pessoal poderia nos passar informações sobre o local. Esse ciclista, do qual não me recordo o nome, fez questão de nos levar até a bicicletaria Mundo Bike, cujo proprietário era o Daniel, que nos recepcionou muitíssimo bem. No local, mais conversamos do que qualquer outra coisa, ninguém estava precisando de conserto urgente nas bicicletas. Daniel ainda nos presenteou com um tipo de panetone que caiu muito bem, acabou sendo nosso café da tarde. Um dos ciclistas presentes na bicicletaria se incumbiu de nos acompanhar até a saída para Assunção.

Magrela Guerreira

Bicicletaria Mundo Bike do camarada Daniel.

Nosso guia nos acompanhou pelas ruas de San Lorenzo, e assim como a maioria das cidades metropolitanas, com um trânsito caótico e uma atmosfera de poluição. Não posso generalizar, mas pelos poucos trechos que pedalamos, não consegui visualizar um cenário do qual me agradasse. Imóveis e automóveis velhos pelo caminho, que por sua vez, parecia sombrio. Cenário que continuou também por Assunção, onde também nos acompanhou nosso guia. A capital é ainda mais movimentada, com o trânsito ainda maior, logo, a sensação de respirar um ar poluído também aumenta. Na mesma proporção, nossa canseira aparente.

Nosso guia em direção à capital

Asunción

Ainda em companhia do ciclista, passamos pela ponte que fica sobre o Rio Paraguai. Já escuro, os registros fotográficos não ficam com uma visão boa. Mas conhecer um rio de uma importância significativa para o país me deixa animado, até então meus conhecimentos sobre o local ficavam restritos aos livros de história.

Ponte sobre o Rio Paraguay

Nos despedimos do camarada que gentilmente nos auxiliou. Agradecemos e ele retornou. Mas estávamos muito inconformados pela situação. Não pretendíamos pedalar muito de noite, mas as informações passadas na bicicletaria que estaríamos próximos de Clorinda na Argentina, nos fizeram ficar mais tempo conversando com a turma do Daniel. Mas quase às oito horas da noite ainda estávamos no Paraguai. E o João, querendo seguir fielmente o roteiro, não pensou em outra possibilidade a não ser seguir viagem, mesmo de noite. Mesmo muito cansados, resolvemos seguir. Apenas eu estava com farol, então fui encarregado de puxar o pelotão e ir à frente iluminando o caminho. O trecho era de reta e isso facilitou o aumento da velocidade. Seguimos em um ritmo frenético, muito rápido mesmo, a velocidade estava em torno de 30 km/h, creio que a escuridão e a vontade de chegar eram a motivação principal. Tivemos sorte que o movimento na estrada era quase inexistente. Também, àquela hora da noite, só esses brasileiros mesmo.

O ritmo continuava alucinante, principalmente quando um cachorro no meio do nada se mostrava presente defendendo seu território. Podemos equiparar a cena, com um ciclista de competição em um sprint final. Quando você acha que suas forças acabaram, basta surgirem situações de perigo que supera-se qualquer limite impensável.

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