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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O começo: Frio, chuva e desistências

Expedição de Inverno - Parte 2

A sensação antes de partir é geralmente a mesma, muita ansiedade até o exato momento de movimentar-se no asfalto. Isso aconteceu logo depois da despedida do companheiro João Paulo que infelizmente não seguiu conosco. Assim, fizemos os últimos ajustes no alforje na intenção de deixá-lo equilibrado e então registramos a saída com uma fotografia na frente do prédio onde mora o João em Curitiba.


17/07 - Saindo de Curitiba (casa João) em direção à BR 376. Começamos bem, chuva e frio intenso.

O encontro com o pessoal que confirmou presença estava marcado no Wall Mart que fica uns quatro, cinco quilômetros de onde estávamos, aliás, atrasados. No caminho, mais uma vez recebo o telefonema do Romulo dizendo que estava em um lugar coberto ao lado do posto. Essa informação demonstra a situação do tempo. O frio já era intenso desde o dia anterior em todo o estado, na capital a sensação térmica era ainda menor. Saimos bem agasalhados, até então era apenas a questão da temperatura, mas não demorou cem metros dos primeiros giros no pedal e o indício de chuva começa aparecer e a ficar cada vez mais evidente de que não seria apenas uma pancada.

Com a chuva, paramos menos de 1 km depois da partida e colocamos a capa no alforje, esta, foi uma idéia do Marco que mandou fazer a partir de uma barraca sem uso. Com ajuda de um conhecido em Itanhaém/SP utilizou a parte de cima barraca pra fazer a sua capa e a debaixo, a minha. Cada uma saiu por trinta reias e ficou muito parecida com aquelas toucas de tomar banho, afinal, o alforje POC tem além das partes laterais, uma superior. A intenção era impermeabilizar o alforje, embora, todas as coisas em seu interior estivessem protegidas com sacolas de plástico, essas de supermercado. No caso do Marco, com saco estanque, que mais tarde se mostraram muito eficientes.

Com as capas devidamente colocadas seguimos para a Avenida das Torres e pouco depois encontramos com o Romulo e o Tui, chegamos uma hora depois do combinado, já era 06:00, acho que eles não gostaram de esperar diante da situação climática, mas tudo bem. Conversamos um pouco antes de seguir viagem. Romulo eu já conhecia da época da Expedição CuritiBahia, Tui no entanto, conhecia muito pouco, de algumas postagens na comunidade.

Depois de encontrar o pessoal, já com chuva forte, seguimos em direção à BR 376 sentido Santa Catarina. Não demorou muito e o pneu do Tui fura nas proximidades do Aeroporto Afonso Pena, trocar pneu com aquelas condições não é fácil. Nos dirigimos até um posto de combustível no outro lado da avenida e trocamos a câmara furada, um pedaço de arame, aqueles de pneu de caminhão havia ultrapassado até mesmo a fita anti-furo. Cerca de vinte minutos depois, voltamos a pedalar. Antes descobrimos que Romulo iria até Porto Alegre e o Tuí nos acompanharia até o Uruguai.

Deixamos Curitiba e a Avenida das Torres para trás e chegamos na BR 376, rodovia extremamente movimentada, trânsito que começou a ficar maior a partir das 07:30. Mesmo com acostamento, pedalar sob essas circunstâncias não me agrada, gerando sempre uma pequena tensão, mas faz parte da vida do cicloturista. A chuva não dá trégua e os caminhões que passam ao nosso lado deixam um enorme spray que acabam direto na cara.

Vamos seguindo, cada um no seu ritmo, mas a princípio todos pedalavam próximos, fazendo uma espécie de rodízio. Marco era sem dúvida o que estava com a bicicleta mais carregada. Havia comentado dias antes que nas subidas de serra iria seguir em um ritmo mais tranquilo. Esse fator (peso) já se fez presente nas subidas da 376. Assim, começamos a pedalar dois mais à frente e dois atrás, nunca deixando ninguém sozinho e mantendo a visibilidade de todo o grupo. Enquanto isso, outro pneu furado, era a vez do Romulo. Aproveitei para comer uns biscoitos made in Paraguay, literalmente. Estava sem comer nada desde a janta na casa do Saboia.


Marco na BR 376, frio, chuva e a bicicleta carregada.



Romulo trocando o pneu furado.

Estava muito frio e a chuva não ajudava muito, mas isso não atrapalhava, afinal era o primeiro dia de viagem e eu pelo menos estava animado, não me importava com tal estado. Tiramos pouquíssimas fotos até a divisa PR/SC com a câmera fotográfica à prova d'água do Marco. Falando em divisa, entre subidas e descidas, chegamos em Santa Catarina pouco depois de uma descida alucinante de serra. Claro, registramos a placa indicando a divisa de estado e seguimos para Garuva onde acabamos almoçando. Lembrando, sempre com muita chuva, que não parou por um minuto.


Divisa Paraná/Santa Catarina


Após o almoço em Garuva/SC. Tui, Nelson, Marco e Romulo

Depois do almoço, ocorreu algo diferente. Estamos acostumados a pedalar em grupo, logo, sabemos que cada um tem seu ritmo, contudo, sempre que avançamos muito, paramos e esperamos até reunir todos novamente. Romulo e Tuí seguiram juntos na frente, no entanto, não nos encontramos mais, não se preocuparam em nos esperar, no mínimo, pra saber se estava tudo bem conosco. Paciência!

Após Garuva começamos a pedalar na BR 101, a Infinita Highway, como diz a letra dos Engenheiros do Hawaii. Um acostamento bom, com subidas e descidas normais. O trânsito continuava intenso, sobretudo, de caminhões nos dois sentidos, pista duplicada, diga-se de passagem. Sem poder apreciar muito a natureza em razão do clima, vamos seguindo sob muita chuva. A noite cai e com ela surge o meu primeiro e único pneu furado durante a Expedição de Inverno. Não estávamos longe de Barra Velha, nosso destino no dia e a sorte foi furar o pneu próximo a um viaduto onde troquei, na ajuda do Marco, a câmara furada, também neste caso, um pedaço de arame foi o responsável por tal façanha. Aproveitei que tinha uma fita anti-furo e coloquei. Fato curioso, em todos os casos do dia, o furo foi justamente no pneu traseiro.

Seguir debaixo de chuva e frio após esfriar o corpo não é tarefa fácil, mas lá fomos nós. A rodovia continuava tão movimentada que não seria necessário farol para enxergar o acostamento, as luzes dos veículos faziam esse papel. Porém, continuávamos a usar o farol e a lanterna traseira para sermos vistos.

Avançávamos e nada de encontrar o Romulo e Tui, chegando em Barra Velha pedimos informação de onde ficava o Corpo de Bombeiros da cidade, era o ponto de referência para chegarmos a um posto de combustível, local combinado para aguardar o Aramis que havia saído de Paranaguá. Pedalamos mais alguns quilômetros, avistamos e chegamos no posto, jogamos uma água nas bicicletas e alforje que estavam cheios de barro. Os funcionários do local nos indicaram uma borracharia ao lado onde poderíamos passar a noite, era um ótimo lugar, considerando que tinha cobertura e continuava chovendo.

Na borracharia cada um montou sua barraca, preparamos a comida e jantamos antes de dormir. Marco ainda fez um varal pra estender as roupas molhadas. O lugar era aberto e qualquer pessoa que passasse na frente facilmente notaria a nossa presença, mas com aquele tempo, a única pessoa que apareceu foi um motorista perguntando se a borracharia estava funcionando, isso porque a luz do local estava acesa e logo foi apagada para ficar mais discreto.


Borracharia em Barra Velha, primeiro acampamento da viagem.

Enquanto isso, Romulo entra em contato e diz que estão em um hotel na entrada da cidade, explico que vamos ficar na borracharia pelo fato de termos combinado com o Aramis. É quando ele me explica que o Aramis ligou avisando que ficaria em Garuva e nos encontraria no dia seguinte na cidade de Biguaçu. Começa aqui a mudança do roteiro.

Com as condições do tempo nada favoráveis não iríamos mais passar em Bombinhas, destino do segundo dia. Agora a pretensão seria chegar em Biguaçu, até ai sem problema. Durante a manhã o Romulo liga e diz que vai abortar a viagem em razão da previsão do tempo, muita chuva para os próximos dias. Tui fica indeciso, mas acaba desistindo também.

Logo depois de sermos comunicados de tais desistências, Aramis avisa que está na rodoviária de Joinville e também não vai continuar, motivo; problema mecânico, câmbio traseiro destruído, sem chances de conserto e era domingo, ou seja, nenhuma bicicletaria aberta para trocar a peça quebrada. Sugiro que pegue um ônibus pra Florianópolis, a fim de consertar o câmbio e nos esperar em São José. Mas me explica que já não estava animado e iria mesmo retornar. Ótimo, estávamos apenas Marco e eu para seguir viagem. E agora?

Ficamos um pouco chateados com a desistência fácil do pessoal, mas não poderíamos fazer nada para mudar a situação, restou tomarmos uma decisão rápida. Faço uma sugestão e que logo é aceita pelo Marco, seguir para o Uruguay pelo litoral. Isso significava deixar a região serrana de SC e RS para uma outra oportunidade, isso porque não fazia muito sentido subir as serras com chuva, frio e não poder apreciar o visual.

Com isso, todo o roteiro muda, pelo menos até o início da BR 471, Rota Extremo Sul que vai para o Chuí. Dessa forma, decidimos seguir até Biguaçu neste dia e lá resolver para onde seguir, fazendo um novo caminho, calculando distâncias e analisando os lugares que passariamos.

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2 comentários:

  1. Dae, Nélson!

    Legal que você está escrevendo sobre a viagem! Não nos comunicamos desde então mas acho que lhe devo algumas explicações:

    Sobre o nosso desencontro depois de Garuva, estava também curioso por que vocês haviam demorado tanto. Você falou que o pneu furou mas ainda não entendo como posso ter chegado mais de 2 h na sua frente! Eu estava sempre na frente, mas parei diversas vezes para esperar pelos 3. Nessas paradas o Tui me alcançava mas de vocês 2 não víamos nenhum sinal. Então fui seguindo até Joinville, onde cheguei às 16 h. Eu e o Tui ficamos ali na chuva e no frio, esperando-os por mais de 20 min. Pensei em posar em Joinville para não pedalar a noite mas aí comentei: "se esperarmos pelo Nélson e pelo Marco, pelo que conheço deles, eles vão querer seguir, mesmo sem luz. Então é melhor esperarmos eles em Barra Velha para pedalar menos no escuro e não ficar passando frio."

    Aí eu soquei a bota e cheguei em Barra Velha em torno de 18h40. O Tui apareceu meia hora depois. Uma parte curiosa dessa minha "corrida" até Barra Velha foi ver passar por mim, no começo da noite, um caminhão com a roda traseira pegando fogo! Eu senti o clarão e o calor antes da roda passar, e só não me queimei porque o caminhão passou bem rápido. Assustador, haha!

    Sobre a desistência: parece ter sido fácil, mas na verdade foi uma decisão completamente lúcida e da qual não me arrependo. Minha empolgação com essa viagem era conhecer as serras (daí a escolha de ir somente até Porto Alegre, e assim mesmo tendo que negociar férias antecipadas com meus colegas de trabalho). E conhecer as serras com chuva e frio, como você mesmo disse, não teria a menor graça. No domingo de manhã, vendo a chuva da janela e a previsão do tempo no jornal que havia na recepção do hotel, decidi que era melhor deixar essa mesma viagem para uma ocasião em que eu estivesse com um pouco mais de sorte. Acabei ficando satisfeito por ter feito assim, pois no dia seguinte descobri que meus aros estavam todos comidos e a roda traseira estava com os raios absurdamente frouxos, precisando de uma centragem urgente (ou seja, para acompanhá-los eu precisaria pegar um ônibus e fazer a manutenção na bike antes de seguir); e dias depois descobri que vocês haviam mudado o roteiro, um plano com o qual eu teria dificuldades de concordar pois tirava da idéia original o principal motivo da minha viagem.

    Enfim, eu ainda sonho com o plano original da viagem mas fico feliz por vocês terem atingido seu objetivo. Parabéns mesmo! As fotos ficaram muito legais.

    Abraços!

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  2. Buenas Romulo.

    Então camarada, muito bom saber o que aconteceu.

    Muitas coisas foram compreendidas com o seu relato. Você tinha razão sobre continuar a noite, já que o objetivo era chegar em Barra Velha, iríamos pedalar com chuva, frio e mesmo no escuro até chegar na cidade. Nós tiramos uma foto do portal de Joinville registrada às 16h:41m, porém o timer da câmera estava um pouco adiantado, ou seja, passamos por volta das 16:30, logo depois que vocês sairam.

    Sobre a diferença de 2 horas na chegada em Barra Velha não é difícil compreender, o Marco em um ritmo mais tranquilo em razão do peso da carga, o tempo para trocar o pneu e ainda o ritmo menor, uma vez que estávamos pedalando a noite e na chuva. E por fim o seu ritmo que foi maior como você relatou.

    E a história do caminhão, heim? Que sinistro, essa eu queria ter visto, parece filme de terror, hehe. Lembrei do filme Motoqueiro Fantasma.

    Enfim, são coisas que acontecem, espero que logo você consiga colocar o plano original em prática e que o tempo ajude, rs.

    Abraços.

    Hasta!

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