Apoio:


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Uruguay e Argentina

Expedição de Inverno - Parte 7

Pedalar no Uruguay me deixava muito feliz, era um sinal de que estava no caminho certo para concluir meu objetivo de conhecer o país (ao menos uma parte), consequentemente seu povo, cultura e história. E poder ter o privilégio de estar mais próximo da natureza que se revelaria incrivelmente rica em todos os sentidos do Chuy até Montevideo.

Na saída do Chuy, fomos em direção à Ruta 9, que faz ligação até a capital. Somos informados que em poucos quilômetros haveria a aduana para registrarmos nossas entradas e assim ficarmos legalizados no país. Não demorou muito e aparece uma placa indicando a fronteira e a alfãndega.


Mais uma fronteira. Bienvenido al Uruguay


Expedição de Inverno 2010


Paso de Frontera. Alfândega uruguaia.

Confesso que estava super ansioso para passar na aduana e o motivo era a minha identidade (RG) que estava com mais de dez anos de emissão. Para entrar em países do Mercosul não existe muita burocracia, é preciso apenas a identidade desde que seja emitida em um prazo de dez anos. Como eu descobri a situação do meu documento apenas em cima da hora, até fui fazer um novo em Foz do Iguaçu mas ficaria pronto somente quando estivesse em Porto Alegre, isso se o roteiro inicial fosse mantido, assim minha mãe enviaria-o para a capital gaúcha através de sedex. Mas como o roteiro mudou e adiantei alguns dias, tentaria entrar assim mesmo.

Logo que chegamos no local somos orientados a ter o documento em mãos, entramos na sala principal que contava apenas com um funcionário para registrar as entradas/saídas do país. Mas tudo ocorre perfeitamente sem problemas, preenchemos alguns dados na permissão que foi carimbada, os dados são registrados no sistema e pronto. Não demorou dez minutos. Alívio.

Poderia continuar minha viagem tranquilo, pelo menos até a fronteira com a Argentina, mas se consegui entrar no Uruguay, os hermanos argentinos não iriam complicar as coisas.

Com o tempo bom, sol e nenhuma nuvem, estava frio, mas isso não era um problema. No Chuy trocamos o dinheiro em uma casa de cãmbio que também começou a funcionar a partir das 9h da manhã. Conversão é simples; 1 real vale 10 pesos uruguaios, 1 dólar é equivalente a 20 pesos. Troquei cerca de 250 reais. Até poderia ter sacado uma grana a mais no lado brasileiro, mas o bom de viajar com pouco dinheiro é que você praticamente se obriga a economizar e caso acontecesse uma emergência o cartão de crédito internacional estava disponível.

Na saída da casa de câmbio somos abordados por algumas pessoas curiosas sobre a viagem. E são elas que nos orientam a passar em locais imperdíveis como a Fortaleza de Santa Teresa e Punta del Diablo. Assim, após a passagem pela aduana, seguimos na pretensão de chegar na capital em 3 dias, Marco conseguiu uns dias a mais de folga, por isso poderia me acompanhar até Montevideo. Mesmo com o tempo limitado, não deixaríamos de conhecer tais lugares. Estávamos em uma área ecológica, histórica cultural e de balneários, conforme ilustrado na placa. Seguimos por todos os locais indicados.


Seguimos praticamente por todos os locais indicados na placa.

Em La Coronilla, primeira cidade após o Chuy, já é quase meio dia. Em um posto de combustível abasteço minha garrafinha de água, sempre da torneira, Marco prefere compra-la. Um funcionário indica um restaurante mas afirma que a comida não é barata. Fomos conferir, parecido com um quiosque na beira da estrada, o local não tinha ninguém, exceto sua dona e um gato que foi por ela espantado para não espantar a freguesia. No menu, minutas e outros pratos estranhos, tudo muito caro. Resolvemos seguir mais alguns quilômetros.

A Fortaleza de Santa Teresa, pertencente ao município de Castillos logo aparece de forma imponente às margens da rodovia. Resolvemos conferir de perto, isso levou uns 5 km ida e volta. Na histórica fortaleza, considerada a mais expressiva do país, sua construção é datada de 1762, e o local chama atenção por sua conservação, embora o tempo tenha modificado as cores dos muros principais, tingindo-os com um tom amarelado. As torres de vigilância, presentes em cada canto são um destaque a mais. No interior do forte encontra-se um museu histórico militar que fechado na segunda-feira não pudemos entrar.


Fortaleza Santa Teresa


Os espaços abertos no alto do muro é onde estão alinhados os canhões


O tom amarelado indica ação do tempo sobre a Fortaleza


As torres de vigilância, um destaque a mais.

Na frente da entrada da Fortaleza existe um cemitério ou camposanto como está inscrito no local. E ao lado, a Costa del Viajero, dois estabelecimentos abandonados a pouco tempo, ao menos foi a minha impressão. Aproveitamos e preparamos o almoço ali mesmo, era convidativo já que protegia da ação do vento que na estrada não estava a nosso favor. Enquanto almoçamos, turistas de carro aparecem para visitar a Fortaleza, muitos são brasileiros, identificados pelas placas dos veículos. Nas pastagens ao redor uma raça diferente de gado se faz presente, deixando a paisagem ainda mais interessante.

Enquanto fazíamos o contorno do forte, avistamos o monumento destinado ao Coronel Leonardo Oliveira, um dos responsáveis pela independência da região no século XIX frente aos portugueses. Estávamos observando a obra quando um carro parou e a motorista brasileira perguntou sobre a viagem e admirada com a resposta pediu permissão para tirar uma foto nossa. Reconhecimento é algo muito bom.


Ao fundo a entrada da Fortaleza


Data da construção, século 18.


Cemitério ou Camposanto


Costa del Viajero


Diferente raça bovina.

Após uma longa descida na volta para a Ruta 9, continuamos em direção à Punta del Diablo, no trevo de acesso perguntamos qual a distãncia para se chegar na praia e como eram apenas 5 km, não pensamos duas vezes e fomos conhecer o litoral uruguaio. Assim que aparecem as primeiras casas, surge também o magnífico Oceano Atlântico e sua imensidão. Conforme vamos nos aproximando notamos a distribuição diferente entre casas e terrenos que acabam quase invadindo a praia.


Punta del Diablo, placa no trevo de acesso.


Primeira imagem da imensidão do mar.


As casas construídas quase dentro do mar.

Na praia começamos a caminhar entre a areia e pedras registrando a natureza em uma de suas mais belas formas. Marco caminha por outra direção para tirar suas fotos, quando se aproxima me diz que um senhor lhe disse que atrás daquelas pedras (me aponta a direção) existia um pinguim. Ambos hesitamos em comemorar a presença de um animal tão raro de ser visto no Brasil, seria brincadeira do morador? O pinguim ficaria parado esperando a nossa chegada? Sei que continuamos em direção as pedras, claro que estava levando a Victoria comigo. Fiz várias paradas para fotografar a beleza do lugar que já se mostrava encantador.


As guerreiras.


Ao fundo o local onde estaria o pinguim.


Gaivotas


Ao lado do farol

Gaivotas fazem parte do cenário meio a fortes ondas que quebram próximas das pedras. Chego primeiro no local onde possivelmente estaria o pinguim e não vejo nada. Como a minha expectativa em vê-lo não era grande, desconfiado da informação recebida, não fico chateado de não encontra-lo e continuo apreciando o mar. Entre uma pedra e outra, a surpresa. Atônito com o encontro inusitado, era mesmo um pinguim e imediatamente tenho uma sensação indiscritível, mas muito boa. Logo aviso o Marco sobre a descoberta e me aproximo com cautela para evitar que fosse embora sem que o Marco visse com seus próprios olhos. Devagar tiro uma foto para a posteridade.


Encontro inusitado e inesquecível


Pinguim

O pinguim, um filhote possivelmente perdido dos demais membros da sua espécie, estava quase imóvel. Com a chegada do Marco nos aproximamos e esboçamos um carinho que logo é rejeitado, com paciência e cuidado insisto em passar a mão rapidamente, dessa vez não mostra reação contrária e tenho um momento único e inesquecível, não imaginava ter um encontro desse tipo tão cedo na minha vida e pra falar a verdade, nunca havia pensado sobre essa possibilidade, estava extremamente feliz, feliz com todas as letras e ainda sem acreditar no que estava vendo ao vivo e a cores.


Momento único


Outro ângulo

Registramos o pinguim por vários ângulos, fizemos uma filmagem e após alguns minutos de admiração voltamos para pegar as bicicletas deixadas entre as pedras. Uma família brasileira estava se dirigindo para o mesmo local onde estávamos e de repente um grito: "leão-marinho!". Voltamos na mesma hora pra conferir e para nossa felicidade que já não era pouca, avistamos um filhote de leão-marinho sobre uma enorme pedra que constantemente era molhada pelas fortes ondas. Não acreditava no que estava vendo de novo. Enquanto isso ele fazia pose para as fotos, coçava a orelha que provavelmente tinha entrado água, estava cheio de graça. No Uruguay eu esperava ver esse tipo de animal apenas em Cabo Polonio, mas para aumentar as surpresas do dia fomos presenteados pela natureza.



Leão-marinho


Fazendo pose


Entrou água, culpa da onda.


Leão-marinho em Punta del Diablo.

Após tamanha beleza, voltamos para a estrada, mais 5 km até a Ruta 9, nesta, seguir o máximo possível na direção de Cabo Polonio, lugar extremamente bonito, sobretudo, pela presença dos leões-marinhos que tornam o ambiente único na América do Sul. Fiquei sabendo de sua existência a partir do amigo e cicloturista Ricardo que em sua expedição, Roda América, passou por lá e registrou suas belezas naturais que me deixaram curioso em conhecê-las.

A Ruta 9 é inicialmente plana, predominando retas e poucas curvas, mas aos poucos algumas inclinações diferenciam o relevo, subidas e descidas moderadas configuram a estrada que contém excelente acostamento.

Claro que pedalamos de noite também no Uruguay. E no escuro passamos por regiões pouco povoadas, rodovia sem muitas opções de parada e a fome já nos alertava para preparar a comida, independente do local. Mas resolvemos seguir. Não demora e estamos na entrada da cidade de Castillos, encontramos as placas indicando o caminho que deveríamos seguir, Aguas Dulces pela Ruta 16. Nos meus mapas após sair de Castillos ingressaríamos direto na Ruta 10, isso me fez ficar em dúvida sobre o caminho. Tarde da noite tivemos a sorte de encontrar um rapaz que esperava um ônibus no trevo, conversamos e nos explica que após a 16 surge a 10 em direção à Cabo Polonio. O jovem se estende na explicação e acaba nos confundindo um pouco com tantas informações.


Sentido Ruta 16


Lua iluminando o caminho.

No fim, nos despedimos do rapaz e seguimos pela Ruta 16, sentido Aguas Dulces, cerca de 15 km de Castillos. A estrada agora era uma escuridão total, iluminação apenas da lua, aparentemente ninguém habitava os campos ao lado da rodovia. O frio era intenso e eu esperava ansiosamente por chegar em nosso destino, ficar um pouco mais aquecido e alimentado, estava morrendo de fome. A ruta 16 apresenta várias subidas, mas o trecho até Aguas Dulces é pequeno e logo chegamos na cidade.

O jovem encontrado anteriormente nos disse a respeito de um camping na entrada do município, mas não saberia dizer se estava em funcionamento nessa época. Antes de chegarmos no camping indicado que aparentemente estava fechado, nos deparamos com um animal atravessando a pista, era uma espécie de marsupial noturno, parecido com um gambá que logo correu para a árvore mais próxima, Marco a fim de tirar uma foto do animal, deixa a bicicleta na pista e corre em sua direção, iluminado-o com o farol da bicicleta consegue um ótimo clique do bichinho que no mínimo deve ter se assustado com a movimentação.


Marsupial noturno

Seguimos pela pacata cidade. Assim que aparece as primeiras casas com seus extensos jardins, perfeitos para acampar, pergunto ao Marco se tem a manha de passar a noite em um desses locais, com sua resposta positiva me dirijo à primeira casa da rua, a intenção era simples, pedir autorização para acampar.

Na casa, bato na porta da sala onde luzes e alguns sons indicavam a presença de pessoas. Alguém aparece na janela e logo ouço a pergunta; "quem é?" respondo; "Soy un brasileño viajando en bici y neces .." Quando então, o dono da casa abre a porta. Explico sobre a viagem e a primeira reação dele e de quem nos atende é sempre pensar, olhar e finalmente nos depositar um pouco de credibilidade em toda a história contada. Enfim, nos permitiu acampar em seu quintal.

Era muito tarde, quase 11 horas da noite e não demoramos em estacionar as bicicletas no local permitido para acampar, quando o dono da casa, José e sua esposa aparecem novamente e ele diz que tem uma idéia melhor e pede para segui-lo. Era uma espécie de quarto de visitas, misturado com despensa que ficava na garagem nos fundos da casa, onde havia pia, cama, colchões, mesa e até mesmo banheiro. Um verdadeiro luxo para a ocasião. A mulher ainda nos pede desculpa pelo local não estar arrumado, ajeita algumas coisas e repete várias vezes que podemos utilizar o necessário.


Quarto de luxo

José nos explica sobre o caminho até Cabo Polonio e os horários de visitação do parque, nos diz sobre as belezas do lugar e que há poucos dias uma baleia foi avistada na região. Ficamos ainda mais seguros de que uma visita se fazia extremamente necessária em Cabo Polonio. Conversamos mais um pouco sobre a viagem e o casal nos deixa a vontade, desejando boa noite.

Era muito mais do que esperávamos e eu particularmente não vou esquecer tamanha hospitalidade daquela família. Aproveitamos para fazer um jantar de verdade, na real era uma macarronada com os itens comprados em um pequeno mercado em Punta del Diablo; macarrão, sardinha, salame e molho de tomate, ficou uma delícia. E ainda jantamos na mesa, parece simples, mas só quem vive o dia-a-dia na estrada sabe o valor que determinadas coisas passam a ter. Lavamos a louça e fomos dormir, eu peguei um colchão de solteiro, coloquei no chão e o saco de dormir por cima e capotei. Marco fez o mesmo, mas em um colchão sobre a cama de casal.

Acordamos cedo no dia seguinte para aproveitar o máximo do tempo para conhecer Cabo Polonio. Deixamos o quarto arrumado do jeito que encontramos e um bilhete agradecendo pela hospitalidade. Era cedo e possível que todos ainda estivessem dormindo. Saimos em direção à Cabo Polonio.


Casa da família uruguaia


A porta da garagem onde passamos a noite. De manhã o frio me deixava todo encolhido.

Logo na saída da cidade um trevo indica finalmente a Ruta 10, desejada e recomendada por amigos ciclistas por ser litorânea e mais plana do que a Ruta 9. No caminho vamos encontrando paisagens com ovelhas que pastavam meio a centenas de butías pelos extensos campos onde algumas áreas se encontravam alagadas. Pássaros também foram apreciados nos quilômetros até as proximidades de Valizas, local onde passamos por uma estreita ponte sobre um rio que certamente fazia ligação com o mar. O ambiente calmo indicava um vilarejo de pescadores.


Fauna


Flora


Ponte com passagem para apenas um veículo.


Vilarejo de pescadores

Dez minutos após passar a ponte, finalmente estamos em Cabo Polonio, avançamos um pouco e surge ao lado esquerdo da estrada o local que faz o transporte até a praia. Nos dirigimos à bilheteria e um homem nos explicou sobre os horários, o próximo tinha saída marcada para às 11 horas, retornando meio dia e às 2 da tarde. Compramos o bilhete, 150 pesos uruguaios, ou seja, 15 reais, incluindo ida e volta. Deixamos as bicicletas encostadas ao lado da bilheteria onde o funcionário disse ser seguro e não ter problema pois sempre estariam sendo vigiadas.


Finalmente em Cabo Polonio

Logo o veículo 4x4 aparece e subimos, o motorista nos avisa que é possível ir sentado no alto do Safari Express, nome estampado na lataria. A aventura estava começando. O transporte através de um 4x4 se faz necessário em razão do caminho marcado pelas dunas, trilhas mostram a direção a seguir. No alto, vamos curtindo o visual meio a muita risada, temos que segurar firme para não cair, balança demais até chegar na praia, mas achamos tudo interessante e estávamos nos divertindo muito.


Safari Express 4x4


Curtindo o visual


Caminho entre as dunas

Em alguns minutos estamos na praia, mas o passeio no 4x4 ainda não chegara ao fim, andamos um bom trecho e avistamos o farol no horizonte. Meia hora depois de embarcarmos no safári ele nos deixa no centro do pequeno vilarejo, próximo ao farol. Ele voltaria às 12 e 14 horas, resolvemos regressar na segundo opção, assim o tempo para conhecer o local seria maior.


Visão de Cabo Polonio no alto do Safari Express

Cabo Polonio é um lugar inópisto, poucas pessoas moram fixamente no vilarejo, sobretudo, pescadores, artesãos e funcionários do farol. Mas sua paisagem singular dá um ar naturalista ao ambiente. "A peculiar geografia é o segredo que garante a preservação da natureza, além de embalar a vida dos moradores." O local ainda carece de energia elétrica e água encanada. Para além disso, Cabo Polonio é conhecido por ter uma das maiores colônias de leões-marinhos do mundo, essa era a principal razão da nossa visita.

Vamos caminhando pela praia onde aos poucos rochas, gaivotas e crustáceos vão aparecendo. Encontramos um casal da França, trocamos algumas palavras e tivemos a notícia que a menos de uma hora um leão-marinho tinha sido visto naquelas proximidades. Continuamos caminhando na intenção de encontra-los, andamos, andamos e nada.


Caminhada pelas praias de Cabo Polonio

Enquanto isso, vamos apreciando a natureza, as aves, o mar e toda a vida presente no ambiente. Encontramos pinguins também, porém esses estavam sem vida. Um filhote de leão-marinho também morto. Curtindo o visual, avançamos nas proximidades do farol que "orienta os navegadores da região", muitas são as rochas entre o mar e a areia, algumas muito altas por sinal.


Registrando as belezas da natureza


Curtindo o visual, ao fundo o farol de Cabo Polonio

Após subir uma dessas pedras, surpresa, dezenas de leões-marinhos descansam sobre uma extensa área rochosa, são vários e de todos os tamanhos. Eles fogem das águas geladas da Antártida e repousam na região. Ficamos minutos observando o banho de sol sobre as rochas, o som de alguns inquietos, entre eles o macho da turma que diferente pelo seu tamanho se mostrava imponente diante o grupo. Poucos arriscavam um mergulho no mar enquanto a maioria descansava.


Dezenas de leões-marinhos

O maior é o macho, imponente.


Carinho


Poucos arriscam um mergulho.


Colônia de leões-marinhos

Estava feliz em presenciar esses animais diante de tal natureza com meus próprios olhos. Após esse encontro, resolvemos subir o farol, aberto ao público, o custo da entrada é de R$1,50. Subimos os degraus até atingirmos os 40 metros de altura. Um funcionário nos acompanhou até o topo. No alto a visão é sensacional, sendo possível ver todo o vilarejo, as praias, ilhas e principalmente os leões-marinhos de um outro ângulo.


O pequeno vilarejo de Cabo Polonio


Ondas


As ilhas

Nos dirigimos para a rua principal do povoado onde se encontra o comércio local, em um pequeno mercado, compramos pão, queijo, presunto e refrigerante para almoçarmos. Marco com muita fome, comeu enquanto esperava o safári que nos levaria de volta. Com as bolachas que levei, estava sem muita fome e resolvi comer depois.

Estávamos deixando esse maravilhoso lugar que merece um retorno com certeza. E fica aqui minha recomendação pra você que está visitando o Uruguay, não deixe de conhecer Cabo Polonio. Na volta, diferente da ida quando tinha apenas Marco e eu no caminhão, agora outros turistas e seus mochilões faziam parte dos passageiros. Todos, incluindo a gente, estavam na parte de baixo do veículo.

Na chegada pegamos nossas bicicletas e seguimos com a sensação de que a viagem estava sendo perfeita e diante da disponibilidade de tempo, conhecendo o que nos era permitido. Assim seguimos pela Ruta 10, sentido La Paloma. Antes, nos deparamos com um túnel natural, formado por enormes árvores que cobriam a estrada por alguns metros nas proximidades de Antoniopolis. Em La Paloma, pedimos informações sobre a possibilidade de seguir para Punta del Este pela Ruta 10. A resposta foi o que imaginávamos a partir das dicas do jovem lá no trevo de Castillos, não seria possível seguir pela 10, teríamos mesmo que seguir pela Ruta 15 rumo a Rocha.


Túnel natural

Ruta 10 - Antoniopolis

Desse modo deixamos a Ruta 10 para trás e começamos a pedalar pela 15, sobe e desce com acostamento não muito bom, mas sem maiores problemas. Meu almoço foi feito só por volta das 6 horas da noite quando paramos na beira da estrada e fizemos nosso lanche diante de um belo pôr-do-sol. Pretensão era chegar em Piriapolis, pedalando madrugada a dentro, foi esse o combinado para que pudéssemos visitar Cabo Polonio sem comprometer o roteiro.

O frio era intenso quando chegamos em Rocha, paramos em um posto Esso pois o Marco precisava ligar para casa, seu último contato havia sido no Chuí. Após a ligação, fica mais tranquilo e sugere que paremos na cidade para pernoitar. Isso implicava chegar em Montevideo em quatro dias, um a mais do que o planejado. Aceito a sugestão e paramos no Hotel Quarahy às margens da Ruta 9, sim, voltamos pra essa rodovia em Rocha. O hotel é simples e a diária sai pouco mais de 20 reais. Ao lado, compramos algumas coisas no Supermercado Ruta 9, estabelecimento bem completo com várias opções de produtos. Na falta de macarrão instantâneo, comprei 1kg de macarrão, sardinha, atum e molho de tomate. Uma comida com mais sustância.

No dia seguinte, seguimos pela Ruta 9 sem um destino certo, na verdade a pretensão era chegar em Piriapolis, mas ainda não sabíamos por qual caminho. Em La Paloma um senhor nos avisou que no km 187 haveria uma entrada que nos levaria para a Ruta 10. E realmente na quilometragem indicada apareceram as placas indicando El Caracol e Laguna Garzon, esta última seria atravessada por balsa.


Ruta 9. km 187, acesso alternativo para a Ruta 10.

Tinha uma questão, esse caminho alternativo era estrada de terra. Marco aceitou o desafio e seguimos, afinal, a Ruta 10 estava a pouco mais de dez quilômetros. Conversei com o Marco sobre a falta de conhecimento a respeito das condições da estrada até Punta del Este, mesmo assim estávamos dispostos a encarar o que viesse pela frente.

Saindo da Ruta 9 você vai encontrar um trecho de terra com longas subidas, existem pedras na estrada mas nada que ameace perigo de furar o pneu. Dez, quinze quilômetros depois você vai chegar na Ruta 10, não haverá nenhuma placa informando quando você estara em tal rodovia. Mas vai aparecer duas placas, siga para a direita, sentido Laguna Garzon, El Caracol. Ao fundo observa-se o mar. Dobrando a direita você esta na Ruta 10, percorrendo mais uns 10 km você chega ao balneário El Caracol e mais uns 5km na balsa que atravessa Laguna Garzon. Todo esse trecho de aproximadamente, 25, 30 km é realizado em estrada de terra. Após o ingresso na Ruta 10 a estrada é plana, ao lado do mar e continua com pouca presença de veículos.


Uma das subidas no caminho para a Ruta 10.


Chegando na Ruta 10, sentido El Caracol para chegar em Punta del Este. Observa-se o mar ao fundo.


Marco pedalando na Ruta 10 ao lado do mar.


Balsa em Laguna Garzon

O serviço para atravessar a Laguna é gratuito, rapidamente se faz a travessia. Descendo da balsa o asfalto retorna e a próxima cidade é José Ignacio, casas luxuosas beira-mar surgem na paisagem que também tem o imenso oceano como companhia. O vento contra limita nosso avanço em um ritmo maior. Na falta de um restaurante pelo caminho, decidimos parar em uma garagem na frente dessas casas beira-mar que aparentemente estava sem ninguém, depois um senhor apareceu, mas preparamos o almoço sem problema. Na saída, o caseiro ao ver a bandeira do Brasil no meu alforje questiona de qual lugar estávamos vindo. Respondemos e fizemos questão de ressaltar que deixamos o ambiente em que almoçamos limpo.


Almoço em uma garagem às margens da Ruta 10

Seguimos costeando o mar e logo aparece La Barra com casas ainda mais luxuosas, não demora e atravessamos uma ponte toda ondulada e estamos em Punta del Este com seus grandiosos prédios, hotéis e cassinos. Vamos pedalando pela ciclovia. Estava curioso para saber se era o caminho certo para um dos mais famosos pontos turísticos da cidade; La Mano, obra do chileno Mario Irrazábal, cinco dedos saindo da areia, representando "a presença do homem surgindo na natureza", na visão do artista e que se encontra na Praia Brava. Alguns quilômetros depois, finalmente estamos diante de La Mano, lugar disputado para tirar uma foto, registramos o momento, conversamos com algumas pessoas, incluindo brasileiros, não raros de se encontrar no país, sobretudo em Punta del Este. Muitas pessoas nos disseram antes da viagem que a cidade não era das mais acolhedoras, contudo, não tenho do que me queixar, todos, inclusive a quem pedimos informações, foram bem simpáticos.


Punta del Este ao fundo


Chegando na ponte ondulada em Punta del Este.


Finalmente, Punta del Este.


Ciclovia em direção aos luxuosos prédios.


Na famosa, La Mano.

Pedimos informações sobre como chegar na Interbalnearea (IB), rodovia para Montevideo. No caminho vamos passando pelas ruas da cidade até avistarmos o famoso Cassino Conrad, eu na verdade não conhecia, mas o Marco disse que era famoso e passava na abertura do programa do Amaury Jr. e etc. Enfim, que é luxuoso isso não resta dúvidas.


Cassino e hotel Conrad

O pôr-do-sol significava mais uma noite pedalando, mas o cansaço não era maior do que a felicidade de estar ocorrendo tudo perfeitamente bem. Nosso destino era Piriapolis, uns 30 km de Punta del Este. Pela IB vamos seguindo até o trevo de acesso para a cidade. Ficamos em dúvida em relação à distância para se chegar realmente em Piriapolis, pois no mapa indica que o município está no caminho. Somos então informados que a distância seria de aproximadamente 7 km e depois uma outra estrada com a mesma distância encontraria com a IB novamente, era essa a nossa dúvida.

Sentido Piriapolis, subidas e descidas constantes até a chegada na cidade, perguntamos qual direção seguir para encontrar um hotel, somos orientados a um que estava fechado, acredito que sem hóspedes também. A outra alternativa era o Hotel Arenas, 30 reais a diária sem café da manhã. Acabou sendo o pior hotel da viagem, não tinha toalha, papel higiênico e a água aquecida a gás não durou dez minutos no banho. Hospedados, fomos ainda de noite na lan house na intenção de passar as fotos de um para o outro, mas infelizmente estava fechando e deixamos pra fazer isso no dia seguinte.

De manhã, seguimos para a lan house e soube que o camarada Ricardo, residente em Buenos Aires não estaria na cidade para uma possível hospitalidade anteriormente combinada. Tudo bem, passamos as fotos, mandamos notícias e seguimos pra Montevideo, na orla de Piriapolis o que me chama atenção são as árvores sem folhas demonstrando ação do rigoroso inverno sobre a natureza.


Piriapolis

Logo estamos novamente na Ruta Interbalnearea para completar os últimos quilômetros de pedal no Uruguay. O tempo amanhaceu cinzento, nublado e aos poucos o sol foi aparecendo sem aumentar a temperatura. Almoçamos nas proximidades de Atlántida, no menu muitas opções, infelizmente não para nossos bolsos, pedimos ao garçom um prato barato e farto, nos recomenda um lanche, na verdade dois pães com milanesa e uma porção de batata fritas. Pensei que não iria saciar minha fome, mas pelo contrário, fiquei muito satisfeito e o Marco nem aguentou comer tudo, fiquei com a parte dele, seria um desaforo jogar fora. Para beber, pedimos um refrigerante de Pomelo, diferente e pouco conhecido no Brasil, mas muito consumido na Argentina e Uruguay, eu já conhecia em uma visita a Puerto Iguazu/Arg.


Refrigerante de Pomelo.

Na IB o trânsito é maior, a pista é duplicada e aparece o primeiro pedágio da viagem em território uruguaio, passamos sem precisar pagar, é claro. As cidades se tornam mais próximas e notoriamente são maiores, isso deve se explicar por estarmos mais próximos da capital, Montevideo. Sem problemas vamos seguindo enfrentando uma ou outra subida, às margens da rodovia avistamos alguns ferros-velhos, um deles chama atenção pela quantidade de peça antiga desde banheiras até bombas, isso mesmo, material bélico. A princípio passamos sem registrar o local, mas Marco não aguentou e retornou quase 1 km para clicar o curioso lugar.


Ferro-velho, de banheira a material bélico.


Interbalnearea, sentido Montevideo.

Não demorou e logo estávamos diante do aeroporto internacional de Montevideo. Na rodovia uma placa indica que após treze dias de muitas aventuras finalmente chegamos na capital. Avançamos os últimos quilômetros pela IB quando aparece um trevo, seguimos pela esquerda e perguntamos algumas vezes se era mesmo o caminho correto, afinal não seria legal ficar perdido em uma capital, justamente nessa altura da viagem. Mas pra nossa felicidade é a direção certa.


Chegada na capital do Uruguay


Sí, Montevideo.

E com uma temperatura de 9ºC. às cinco horas da tarde, tempo aberto e sol o dia todo, resumindo como tinha sido a nossa viagem até então, muito fria, mas somente em relação ao clima. Pois estávamos com espírito renovado e felizes pelas belezas que encontramos durante o caminho e sobretudo, com o aprendizado adquirido. Na entrada da capital, uma das primeiras coisas que chama atenção é um globo instalado no canteiro que separa as duas vias. Quando vejo o nome, Avenida Italia, esse era o local que o Labatut lá no Rio Grande do Sul pediu para tirarmos uma foto assim que chegasse em Montevideo. A promessa estava cumprida.


Montevideo, 17:00.


Globo na Avenida Italia.


Pôr-do-sol na capital uruguaia.


Montevideo

As avenidas são movimentadas e o trânsito em Montevideo é típico das grandes cidades, por isso optamos em seguir por um canteiro paralelo que parecia uma espécie de rua, ciclovia e jardim tudo junto, tinha alguns buracos mas era melhor do que ficar entre os carros, caminhões e ônibus que no horário de pico eram muitos por todos os lados. Quando estava acabando esse caminho lateral ouvimos mais uma buzina nos cumprimentando, mas dessa vez era uma motocicleta e pra nossa surpresa um brasileiro conduzia o veículo. Era um senhor de Pelotas/RS que estava mora no Uruguay há alguns anos e trabalha na construção civil. Assim como outras pessoas questionadas, nos disse que bastava seguir em frente para chegarmos na rodoviária. Também nos fala que podemos seguir na rua pela via destinada aos ônibus. Nos despedimos e seguimos pela indicação, contudo, além dos ônibus, muitos carros acabam utilizando esse espaço.

Entre um longo trecho vamos pedalando entre carros e principalmente os ônibus, atenção redobrada nos locais de parada do transporte público. Nas calçadas, pessoas bem agasalhadas era sinal de que não éramos os únicos a sentir frio. A princípio Marco ficaria em Montevideo, por isso seguimos para a rodoviária conhecendo um pouco da capital uruguaia.

Quando finalmente chegamos no terminal rodoviário, local muito movimentado, Marco fica olhando as bicicletas do lado de fora enquanto entro para acessar a internet e ver a resposta do escritor Eduardo Galeano, autor da conhecida obra, As veias abertas da América Latina. Ricardo, amigo que mora em Buenos Aires conhecia Galeano da época em que esteve em Montevideo e foi através dele que entrei em contato com o escritor para um possível encontro e ter o privilégio de conhecê-lo pessoalmente. Se a resposta viesse a ser positiva, ficaria um ou dois dias a mais na capital antes de seguir para Colonia del Sacramento. Ao entrar na internet, por email Galeano pede desculpas e diz que vai ter que ficar para uma próxima vez em razão de sua agenda cheia.

Sem motivos específicos para ficar em Montevideo, vou até as agências de viagens para encontrar alguma passagem para o Marco que deveria estar o quanto antes no Brasil. Mas nenhuma empresa tinha linhas imediatas para São Paulo, somente no domingo e era sexta-feira. Como alternativa já tinha comentado com o Marco de seguir para Buenos Aires, onde certamente teria linhas disponíveis. Verifico as passagens pela Colônia Express e Buquebus que fazem a travessia do Rio da Prata, mas os horários são apenas para o dia seguinte, volto e comunico essas informações para o Marco. Assim, estou disposto a seguir com ele direto de Montevideo para Buenos Aires, uma vez que por economia iria pedalar até Colonia e então atravessar o Rio do Prata.

Fico olhando as bicicletas enquanto Marco vai ver melhor sobre a possibilidade de ir direto para a capital argentina, retorna dizendo que existe uma alternativa pela Buquebus que nos levaria de ônibus até Colonia del Sacramento e depois de navio (Eladia Isabel) para Buenos Aires. O horário do ônibus estava marcado para 1 hora da madrugada e às 4:30 era a partida do Eladia. Assim por volta das 8 horas já estaríamos na Argentina. O valor não foi baixo, custou 87 reais. Gastei meus últimos pesos uruguaios.

Das 8 horas da noite até 1 hora da madrugada ficamos no local de embarque esperando o ônibus, seria necessário estar no guichê da empresa uma hora antes para fazer o check-in. Não desmontamos as bicicletas e resolvemos arriscar embarcá-las assim mesmo, não foi uma boa idéia. Na hora que o ônibus finalmente chega, aliás, são vários ônibus porque são centenas de passageiros, na hora de embarcar as bicicletas somos orientados a tirar os pneus para ocupar menos espaço no bagageiro. Marco tira até o alforje. E assim elas são colocadas no ônibus.


Aguardando o ônibus na rodoviária de Montevideo.

Embarcamos no ônibus e três horas depois já estamos em Colonia del Sacramento, somos levados direto ao local de embarque para o Eladia Isabel, é neste imenso lugar que registramos a saída do Uruguay e ganhamos a permissão para ingressar na Argentina. Novamente não tenho problemas com meu documento. Após passar pela imigração ficamos esperando o anúncio do embarque que aconteceu exatamente às 4:30. Assim que autorizados, nos encaminhamos para a embarcação, ao avista-la ficamos surpresos por sua grandiosidade. E ainda mais perplexos quando chegamos ao seu interior, realmente de luxo. As bicicletas são levadas diretamente do ônibus para o navio por funcionários da Buquebus.


Interior do Eladia Isabel

Agora com as luzes apagadas.

Após a saída um pequeno lanche é servido e logo depois as luzes são apagadas, horas mais tarde estamos chegando no Puerto Madero em Buenos Aires, somente com o dia amanhecendo conseguimos fotografar o Rio da Prata e avistar os prédios que sinalizavam a arquitetura da capital argentina. Uma passageira uruguaia conversa conosco e fala um pouco mais sobre o caminho necessário para se chegar no Terminal de Retiro, rodoviária que o Ricardo avisou que deveríamos comprar as passagens para o Brasil. Essa senhora ainda faz uma lista dos pontos turísticos imperdíveis.


Chegada em Puerto Madero - Buenos Aires


Frota da Buquebus


Canal em Puerto Madero, ao lado esquerdo a parte moderna da capital argentina.


Frota Buquebus


Fragata Libertad

Depois de atracar no porto, descemos para pegar as bagagens que aparecem por uma esteira, processo parecido com aqueles dos aeroportos, mas como a nossa bagagem era especial, tive que pega-la a partir de uma porta lateral, a Victoria estava inteira pra minha sorte. A bicicleta do Marco sem alforje se tornava um menor volume e assim acabou aparecendo na esteira, pena que não tiramos uma foto, foi engraçado ver o quadro, depois os pneus e por fim o alforje correndo pela esteira.

Pra variar, chegamos na Argentina com chuva, isso não nos impediu de pedalar pelas ruas movimentadas da capital. Pedimos informações para chegar no Terminal do Retiro, que ficava a a uns 3 km do local onde desembarcamos. Pelo caminho encontramos um trânsito complicado, muitos caminhões deixavam o trânsito ainda mais tenso na região portuária e a chuva não ajudava. Mas pouco tempo depois, por volta das 9:30 da manhã estávamos na rodoviária .


Chegada com chuva em Buenos Aires


Argentina, nosso último destino da Expedição de Inverno.


Pedalando com chuva pelas ruas movimentadas da capital em direção à rodoviária do Retiro.


Trânsito complicado na região do porto.

No imenso terminal de ônibus de Buenos Aires fomos verificar a disponibilidade de passagens para Foz do Iguaçu e São Paulo, a Pluma ainda tinha algumas poltronas vagas para Foz no horário das 18:30 , contudo, não realizava vendas no cartão de crédito. Fui obrigado a procurar uma lan house para efetuar a compra/pagamento via internet. Pra isso, pego um dinheiro com o Marco para ir no cyber (como os argentinos/uruguaios chamam), pois meu dinheiro foi gasto na passagem do Buquebus. Marco aproveita e pede para trocar uma certa quantia, a questão era encontrar uma casa de câmbio já que não existe no Terminal, a mais próxima está a cerca de três quadras da rodoviária, mas na verdade fui achar apenas na Avenida Florida, isso fica no centro uns cinco km de distância. Era longe, andei esse trecho a pé, na chuva, mas gostei, estava no meio da multidão, conheci um pouco mais do centro de Buenos Aires e finalmente comprei a passagem.


Grandes e antigos prédios fazem parte da região central.

Voltei para o terminal e peguei minha passagem no guichê da Pluma que infelizmente não dispunha de vagas para São Paulo. Fui verificar na empresa Crucero del Norte e por sorte tinha uma reserva que não havia sido confirmada, assim retornei rapidamente para onde o Marco estava cuidando das bicicletas e avisei para ir correndo com seu documento comprar e retirar a passagem. Logo depois volta com o bilhete em mãos, o ônibus tinha horário para sair às 20:30, ou seja, estávamos mais tranquilos, principalmente o Marco. Então começamos a desmontar as bicicletas. Tirando os pneus e alforjes, no meu caso, fiz a proteção do quadro com a coberta e assim já despachando na Pluma que se encarrega de fazer o embarque das bagagens. Marco opta por embalar a bicicleta em um lugar específico (25 reais) na própria rodoviária e depois deixa-a no guarda volume (guarda-pack).


Terminal de Retiro, Buenos Aires.

Com isso já passava de meio-dia e tínhamos algumas horas vagas até o embarque, restava-nos um tempo para conhecer pelo menos os principais ou mais conhecidos pontos turísticos da cidade. Fomos pegar um ônibus para a região da Casa Rosada, mas a linha 50 demorou para aparecer e resolvemos pegar um taxi.

E pela bela e charmosa Buenos Aires, conhecemos a famosa Casa Rosada, sede da presidência da República Argentina que ainda é local de manifestações políticas e artísticas. E "tem sua cor atribuída ao fato de na época de sua construção as tintas mais baratas serem feitas a base de sangue de vaca, tendo a cor rosada."


Casa Rosada, sede presidencial.


Diante da importante Casa Rosada.


Defronte a Casa Rosada. Estátua equestre de Manuel Belgrano, autor da bandeira argentina

Logo a frente estamos na Praça de Maio, a principal do centro de Buenos Aires, palco de manifestações políticas desde a época colonial. Ainda é onde "desde a década de 70 as Mães da Praça de Maio se reúnem com fotos de seus filhos desaparecidos pelos militares durante a ditadura argentina" em busca de justiça.


"Pirâmide de Maio coroada por uma representação escultórica da Liberdade."


Manifestação das Mães da Praça de Maio

Diante do movimentado centro com sua arquitetura moderna, admiramos a Catedral e seguimos para o Obelisco, "monumento comemorativo, típico do Antigo Egipto, constituído de um pilar de pedra em forma quadrangular alongada e sutil, que se afunila ligeiramente em direção a sua parte mais alta" construído para comemorar os 400 anos da fundação da cidade, sem dúvida um monumento que chama atenção no cruzamento das avenidas Corrientes e 9 de Julho, esta última considerada a principal de Buenos Aires.

Avenida Corrientes


Obelisco. Av. 9 de julho.

Diante de muita chuva e frio, estava de chinelo meio a uma multidão onde todos se encontravam devidamente calçados. Mas no meu caso, o chinelo tinha uma explicação, pois não iria viajar com o tênis encharcado e assim foi retirado e colocado no alforje que tinha sido despachado, ficando apenas com o chinelo, mas isso não foi nenhum problema. Afinal, conheci tudo o que pretendia conhecer, estava infinitamente feliz. Assim, pegamos um taxi para regressar à rodoviária e aguardar o horário de partida. Aqui vale ressaltar que o taxista era muito audacioso no trânsito e parecia ter saído direto do filme Velozes e Furiosos para as ruas de Buenos Aires.


Caminhando de chinelo

Nossa viagem finalizou com exatos 1680 km de Curitiba até Buenos Aires, passando pelo Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguay e Argentina. A Expedição de Inverno estava concluída com sucesso e sem dúvidas entrou para a história como uma das melhores aventuras com “lembranças que guardarei até quando minha memória permitir e uma experiência que é pra sempre, aprender a valorizar a vida e a quem amamos” como gosto de dizer.


Hora de voltar. Adiós Buenos Aires.

Agradeço ao grande camarada Marco pela companhia durante a viagem e amizade dos últimos tempos, foi responsável sem dúvida para que a Expedição de Inverno se tornasse inesquecível e concluída com sucesso total. Pois um companheiro de viagem sai junto e chega junto no destino final.


Grande camarada Marco.

Após 20 horas de viagem estou novamente em casa, Foz do Iguaçu/PR, mas a viagem não acaba, ela continua através das histórias, fotos e lembranças de cada momento.

No mais, agradeço a todas as pessoas que de alguma forma me apoiaram para a concretização de mais uma viagem memorável.

“Hasta la Victoria Siempre"

<< Parte 6

9 comentários:

  1. Parabéns Nelson e Marco, muito show a viagem de vocês. Estou seguindo o blog :-)

    ResponderExcluir
  2. Parabens ae Nelson e Marco, muito massa a historia da viajem, li cada linha do blog.
    Marco provou ser brother mesmo, na dificuldade nao abandonou a missao... quem sai junto chega junto!

    ResponderExcluir
  3. Buenas camarada, isso é praticamente um e-book, hehe, passei toda tarde lendo ontem, até tentei comentar, mas acho que não foi... Então, maravilhosa sua viagem meu amigo, você e o Marco deram uma lição de peseverança, amizade, companheirismo, força, garra, enfim, não é qualquer um que continuaria uma expedição destas em tais condições desfavoráveis... Parabéns a ambos por esta conquista!! Forte abraço

    ResponderExcluir
  4. Muito obrigado pelas palavras meus amigos, me sinto honrado em poder compartilhar essas aventuras com vocês.

    Novamente, obrigado.

    Abraços.

    ResponderExcluir
  5. Muito bacana esta viagem, aliás seu blog está me fazendo reavivar uns planos de viajar por aí de bike... Abraço.

    ResponderExcluir
  6. Como escreveu o colega acima, este relato bom de ler, poderia virar um e-book.
    Congratulo Nelson e Marco por esta jornada concluida com espirito de verdadeiros cicloturistas.

    Fonte de inspiração para muita gente apaixonada por bicicleta e estrada.

    Ciclo abracos.
    Michel Cunha.
    FlorIanopolis, SC.

    ResponderExcluir
  7. Muito bom esse relato, rico em detalhes e me ajudou a planejar minha cicloviagem de SP-Montevideo (previsto para 2015). Parabéns pela cicloviagem! Já fiz SP/Floripa em 4 dias e sei como é pedalar, pedalar e pedalar, além de cuidar da alimentação e do corpo. Mais uma vez parabéns!

    ResponderExcluir
  8. Gamba de orelha branca é o nome do bicho!

    ResponderExcluir