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sábado, 9 de janeiro de 2010

Foz, Estrada Real e Belo Horizonte

Expedição Foz, Estrada Real e Belo Horizonte*

Parte 1

* O nome inicial da viagem era Expedição Foz, Estrada Real e Machu Picchu, pois tínhamos como destino final a cidade peruana, contudo, em razão de alguns acontecimentos, relatados aqui, a aventura finalizou temporariamente na capital mineira, Belo Horizonte. No entanto, o planejamento completo está disponível.

Preparando uma nova expedição; Roteiro.

Em 2009, assim que retornei do Rio de Janeiro, meu objetivo era finalizar a monografia, última matéria para me formar na universidade. Nos primeiros meses, ainda me dediquei aos estudos. Mas a condição financeira em casa não era das melhores e fui obrigado a procurar um emprego para estabilizar as contas.

Consegui um emprego no mês de Abril, comecei a trabalhar de caixa atendente em um posto de combustível. Trabalhava por escala e sem horário fixo. Com isso ficou muito difícil conciliar trabalho e estudo, uma vez que, o Trabalho de Conclusão de Curso necessita de toda uma atenção especial. Como não poderia deixar de trabalhar até que estabilizar as finanças, tive que optar por deixar a monografia para 2010. E assim continuei no trabalho.

Com o tempo, consegui além de ajudar nas contas da casa, comprar uma bicicleta nova. E assim começar a pensar na possibilidade de uma nova expedição. Entre tantos destinos, fiz um breve roteiro para Machu Picchu no Peru e deixei o planejamento na comunidade Cicloturismo no orkut. A principio um amigo de Mato Grosso estava disposto a seguir viagem aos Andes comigo. Contudo, meses depois disse que não seria possível. E quase abandonei a idéia de ir ao Peru.

Fiquei pensando em outros caminhos que poderia seguir, cogitei a idéia de ir para a Amazônia, litoral do nordeste ou pantanal. Conversando com um outro amigo, Estêvão de Limeira/SP, combinamos de fazer a Estrada Real, de Parati no Rio de Janeiro até Diamantina em Minas Gerais. E então começamos a planejar o roteiro, distância e tudo que é necessário para embarcar em uma expedição de bicicleta.

Acho que em setembro de 2009, Guilherme, um ciclista de Pinheira/SC, fica sabendo da minha viagem para Machu Picchu através do fórum na comunidade e resolve entrar em contato para saber maiores detalhes. Explico sobre as mudanças de planos, mas faço a seguinte sugestão, seguir conosco para a Estrada Real e depois avançarmos para o Peru. Afinal de contas eu já tinha uma viagem planejada com o Estêvão. O Guilherme, muito animado para seguir viagem, aceita a sugestão de sair de Foz, seguir para a Estrada Real e depois à Machu Picchu. Estava decidido. A próxima aventura seria uma mega expedição.

Começaram os preparativos. Não foi nada fácil fazer o roteiro, comecei a estudar as rotas possíveis e a traçar as melhores opções. Com uma distância considerável, achei melhor preparar a planilha por etapas. Assim o roteiro finalizado com 7,233 km’s e distribuído em seis etapas tem como cidade de partida Foz do Iguaçu no Paraná, onde atualmente estou morando e segue dessa maneira:

1ª Etapa:

Saída: Foz do Iguaçu/PR

Chegada: Limeira/SP

Distância: 1004 km’s

2ª Etapa:

Saída: Limeira/SP

Chegada: Parati/RJ

Distância: 415 km’s

3ª Etapa: (Estrada Real)

Saída: Parati/RJ

Chegada: Diamantina/MG

Distância: 1041 km’s

4ª Etapa:

Saída: Diamantina/MG

Chegada: Corumbá/MS

Distância: 1883 km’s

5ª Etapa:

Saída: Corumbá/MS

Chegada: Sucre/Bolívia

Distância: 1165 km’s

6ª Etapa:

Saída: Sucre/Bolívia

Chegada: Cusco/Peru

Distância: 1725 km’s

Distância Total: 7,233 km’s

Estilo de Viagem

Desde o plano inicial de fazer somente a Estrada Real, a intenção era fazer uma viagem mais tranqüila, com mais tempo disponível para aproveitar e conhecer melhor as cidades, as culturas, histórias e as belezas naturais dos lugares por onde passarmos. Por isso, já pensava em fazer uma quilometragem menor de Parati até Diamantina. O Estêvão aceitou viajar dessa maneira. E quando o Guilherme entrou em contato, mencionei o mesmo estilo de viagem, que por sinal é similar ao modo de como pretendia seguir. Então ficamos acertados ao ritmo da aventura.

Definido o estilo da viagem, o planejamento foi realizado a partir do tempo disponível de cada um. E assim, a viagem total vai ser de no mínimo três meses em ritmo tranqüilo, principalmente na Estrada Real, onde o percurso é quase em sua totalidade por estrada de terra e repleto de história e uma natureza com sua fauna e flora extremamente ricas. É o maior percurso turístico do país. Somando todos seus caminhos, mais de 1600 km’s. A Estrada Real é o antigo caminho utilizado pela coroa portuguesa para levar o ouro das Minas Gerais até os portos de Parati de onde seguiam para a Europa.

De Ouro Preto em Minas até Parati, o trajeto é conhecido como o Caminho Antigo, da cidade mineira até Rio de Janeiro é considerado Caminho Novo. Portanto, nossa viagem segue pelo Caminho Antigo e posteriormente pelo Caminho dos Diamantes, de Ouro Preto até Diamantina. Uma escolha para voltar à bela cidade de Parati, onde tive o privilégio de visitar em 2009 na expedição Curitiba x Rio. Dessa vez pretendo ficar mais tempo para conhecer ainda melhor o local.

Saindo de Foz no dia 11 de Janeiro, partimos para Limeira onde encontraremos o Estêvão, depois seguimos para o litoral paulista até chegarmos em Parati, para então começarmos a Estrada Real, em Diamantina o Estêvão volta para Limeira, Guilherme e eu seguimos em direção a um pequeno trecho no Estado de Goiás e adentramos no território sul mato-grossense, por onde conheceremos o pantanal na região de Corumbá, nossa última cidade no Brasil. E finalmente atravessaremos a primeira fronteira internacional, Bolívia.

Na Bolívia, vamos pedalar até Santa Cruz de la Sierra, avançando um pouco, nos direcionaremos para La Higuera, cidade onde o revolucionário Che Guevara foi assassinado. E então seguiremos para Sucre, Potosi, a mais alta cidade do mundo. De Potosi rumo ao Salar de Uyuni, maior deserto de sal do mundo. Após atravessar o imenso salar, vamos para Oruro e finalmente La Paz, capital boliviana. Nossos últimos quilômetros na Bolívia serão na região de Copacabana, onde conheceremos o lago Titicaca e partiremos para Puno no Peru, terminando a expedição em Cusco, de onde seguiremos para a caminhada nas trilhas incas até Machu Picchu.

Equipamentos:

Uma viagem de três meses necessita de alguns itens indispensáveis, sobretudo, na região de altitude por onde passaremos. Para evitarmos surpresas desagradáveis pelo caminho, fiz, acredito eu, um bom planejamento. Começando pela bicicleta.

Bicicleta: Uma GTS M5, modelo 2009 com grupo Shimano Alivio completo, suspensão GTS CL, selim GTS, pneus Pirelli 1.9 BM-90, aro aero V-Zan Extreme, bagageiro traseiro Tranz-X, Alforje traseiro POC, 75 litros, bolsa de guidão Curtlo. Velocímetro Sigma 906.

Para acampar; Barraca simples, saco de dormir, isolante térmico, cobertor de emergência em caso de temperaturas baixas, mini fogareiro, panela, pratos plásticos e talheres.

As roupas da viagem serão descritas em outra postagem, ainda estou separando o que vou levar. No mais, estamos devidamente preparados para seguir viagem. O Guilherme que está em Foz desde o dia 26 de dezembro, quando chegou pedalando de Santa Catarina, já foi algumas vezes para o Paraguai, comprar alguns itens para a viagem, como filmadora, gps e peças para a bicicleta.

Agora é aguardar o grande dia e seguir.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Pesquisa, universidade e ciclismo.

O ano de 2007 foi o começo de um novo estilo de vida. No ciclismo, expedições, viagens e constantes treinamentos. Na universidade, o terceiro ano decisivo no curso de história. E uma bolsa remunerada de pesquisa na área dos movimentos sociais. Entrei em um projeto já em andamento sobre a relação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, (MST) e a imprensa. Aceitei participar da bolsa em razão do meu interesse pelos fatos de ação social. Mas uma pesquisa de nível acadêmico requer muita, mas muita dedicação, são horas voltadas a leituras de textos, artigos, revistas e livros. Sem mencionar que todas as leituras são dignas de relatórios, esses datados de entrega para o professor coordenador. Foi um período de muito estudo. Por outro lado as matérias do terceiro ano também exigiam minha atenção, sem comparar em nível de importância essa ou aquela disciplina, de modo igual, eu teria que aprender muito bem para poder ensinar, princípio básico da educação. E no terceiro ano da faculdade é período de estágio, portanto, fase ainda mais concentrada de trabalhos e estudos.

Mas com as três coisas ao mesmo tempo, pesquisa, universidade e ciclismo, percebi que alguma coisa eu deveria renunciar, caso contrário, nenhuma seria concluída com êxito. Resolvo então, deixar algumas matérias do terceiro ano, entre elas MTP, Métodos e Técnicas de Pesquisa em História, pré-requisito para realizar o TCC no quarto e último ano do curso. Tinha plena consciência que essa minha decisão estaria atrasando em um ano a minha formação. Mas não me arrependi em nenhum momento, o aprendizado que obtive por esses caminhos da vida está me levando à formação de um indivíduo melhor.

Ao tomar essa atitude, saberia que em 2008 eu teria que estudar de manhã, as matérias do terceiro ano e de noite as disciplinas do quarto ano, exceto o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Mas pelo menos, tinha claro em meus planos que deveria terminar a pesquisa e continuar os treinamentos para a viagem. E isso eu conseguir realizar com êxito. A pesquisa terminou no final de setembro com a apresentação de seus resultados na Universidade Estadual de Maringá no evento especifico para divulgação de pesquisas.

A questão financeira.

O dinheiro da bolsa de pesquisa na universidade era pouco, suficiente para pagar apenas água, luz e internet, sobrando algum trocado e mais nada. Quando acontecia de sobrar, acabava guardando para a viagem. Mas sabia que era pouco. Minha estadia no exterior era entre vinte e vinte e cinco dias. E somando o custo das passagens de ônibus para o retorno, eu precisava de aproximadamente mil reais. Muito dinheiro, é verdade. A solução foi conseguir um meio de levantar esses recursos.

Minha viagem para o Chile ficou comprometida inúmeras vezes em razão da falta de dinheiro suficiente. A situação financeira da minha família não era das melhores, meu pai acabara de perder o emprego e estava recebendo o seguro desemprego. Minha mãe continuava trabalhando, mas seu salário já estava reservado para as despesas da casa. Foi quando tive a seguinte idéia.

Depois de morar três anos sozinho em apartamento, consigo vaga em uma república de estudantes, desse modo economizaria para a família e o pouco que tinha poderia destinar à viagem, mas ainda assim não era suficiente. Consegui um emprego no setor da expedição de um frigorífico de aves. Minha pretensão era trabalhar apenas um mês e conseguir o dinheiro para interar nas despesas. No trabalho novo fico exatamente um mês, entre final de novembro e dezembro como o previsto. Claro, utilizava a bicicleta para trabalhar, mesmo sendo de madrugada, começávamos às cinco horas.

Comprei meu alforje através de parcelamento no cartão pela internet. Esse era o item mais caro para adquirir, com a sua aquisição eu deveria guardar dinheiro para minha alimentação e passagem de volta. Com o término do trabalho alguns dias antes da partida para o Chile, o dinheiro ainda é insuficiente. Mas meus pais resolvem colaborar, conforme disse minha mãe, ela não achava justo eu ter treinado tanto durante o ano para não ir viajar. Então, em comum acordo, meus pais ajudaram, mesmo sem poder, em cerca de 400 reais, quase metade do montante previsto. Minha viagem estava dessa forma garantida. Acabei levando para a viagem quase 700 reais. A passagem eu poderia pagar no cartão, pensei. No final da viagem, o gasto foi de quase mil reais. Metade desse valor destinado para a compra de passagens de Antofagasta a Santiago no Chile, da capital chilena para Curitiba e finalmente à Foz do Iguaçu.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A realidade paradoxal de Marechal Cândido Rondon.

Após alguns anos morando em Foz do Iguaçu, uma nova etapa acontecia, meu ingresso na faculdade, curso de História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Marechal Cândido Rondon, também no oeste do estado, situada a 175 km’s da tríplice fronteira. Marechal é maior cidade germânica do Paraná, a cultura alemã está visivelmente presente no cotidiano da população, sobretudo, dos descendentes, que tradicionalmente promovem eventos típicos de costumes oriundos do país europeu.

Além da característica étnica, Marechal possui um dos melhores índices de desenvolvimento do Paraná, a taxa de desemprego é baixa em função das várias indústrias instaladas no município, algumas chegam a contratar funcionários de outras localidades por ausência de pessoas disponíveis para determinadas funções. A segurança, saúde e uma economia também baseada na agricultura são outros pontos positivos, embora algumas áreas necessitem de maior atenção. A presença da universidade estadual é outro ponto fundamental para a cidade, provoca o ingresso de muitos estudantes provenientes de diversas cidades e estados, movimentando vários setores do comércio, o campo imobiliário merece destaque, principalmente ao redor da faculdade, onde a concentração de estudantes é maior.

Outra prática da população tem uma relevância especial, a utilização da bicicleta no dia-a-dia dos moradores, tornando-se talvez um dos meios de transporte mais utilizado. É muita, mas muita bicicleta por toda parte da cidade. Alguns fatores proporcionam essa utilização em massa, o terreno do município encontra-se em uma área plana, o que favorece muito o ato de pedalar, a prefeitura também investiu na construção de ciclovias e desse modo, a cidade é uma das maiores no estado com a malha viária destinada aos ciclistas, contudo, o projeto realizado está concentrado em sua maioria na parte central da cidade, nas avenidas de maior movimento, um equívoco, segundo alguns especialistas em estrutura urbana. A ausência de uma política pública de caráter educacional para o trânsito voltado especialmente para os ciclistas gera vários conflitos entre motoristas e aqueles que pedalam, ambas as partes cometem erros e muitos deles poderiam ser evitados se o poder público destinasse maior atenção a essa questão.