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sábado, 9 de janeiro de 2010

Foz, Estrada Real e Belo Horizonte

Expedição Foz, Estrada Real e Belo Horizonte*

Parte 1

* O nome inicial da viagem era Expedição Foz, Estrada Real e Machu Picchu, pois tínhamos como destino final a cidade peruana, contudo, em razão de alguns acontecimentos, relatados aqui, a aventura finalizou temporariamente na capital mineira, Belo Horizonte. No entanto, o planejamento completo está disponível.

Preparando uma nova expedição; Roteiro.

Em 2009, assim que retornei do Rio de Janeiro, meu objetivo era finalizar a monografia, última matéria para me formar na universidade. Nos primeiros meses, ainda me dediquei aos estudos. Mas a condição financeira em casa não era das melhores e fui obrigado a procurar um emprego para estabilizar as contas.

Consegui um emprego no mês de Abril, comecei a trabalhar de caixa atendente em um posto de combustível. Trabalhava por escala e sem horário fixo. Com isso ficou muito difícil conciliar trabalho e estudo, uma vez que, o Trabalho de Conclusão de Curso necessita de toda uma atenção especial. Como não poderia deixar de trabalhar até que estabilizar as finanças, tive que optar por deixar a monografia para 2010. E assim continuei no trabalho.

Com o tempo, consegui além de ajudar nas contas da casa, comprar uma bicicleta nova. E assim começar a pensar na possibilidade de uma nova expedição. Entre tantos destinos, fiz um breve roteiro para Machu Picchu no Peru e deixei o planejamento na comunidade Cicloturismo no orkut. A principio um amigo de Mato Grosso estava disposto a seguir viagem aos Andes comigo. Contudo, meses depois disse que não seria possível. E quase abandonei a idéia de ir ao Peru.

Fiquei pensando em outros caminhos que poderia seguir, cogitei a idéia de ir para a Amazônia, litoral do nordeste ou pantanal. Conversando com um outro amigo, Estêvão de Limeira/SP, combinamos de fazer a Estrada Real, de Parati no Rio de Janeiro até Diamantina em Minas Gerais. E então começamos a planejar o roteiro, distância e tudo que é necessário para embarcar em uma expedição de bicicleta.

Acho que em setembro de 2009, Guilherme, um ciclista de Pinheira/SC, fica sabendo da minha viagem para Machu Picchu através do fórum na comunidade e resolve entrar em contato para saber maiores detalhes. Explico sobre as mudanças de planos, mas faço a seguinte sugestão, seguir conosco para a Estrada Real e depois avançarmos para o Peru. Afinal de contas eu já tinha uma viagem planejada com o Estêvão. O Guilherme, muito animado para seguir viagem, aceita a sugestão de sair de Foz, seguir para a Estrada Real e depois à Machu Picchu. Estava decidido. A próxima aventura seria uma mega expedição.

Começaram os preparativos. Não foi nada fácil fazer o roteiro, comecei a estudar as rotas possíveis e a traçar as melhores opções. Com uma distância considerável, achei melhor preparar a planilha por etapas. Assim o roteiro finalizado com 7,233 km’s e distribuído em seis etapas tem como cidade de partida Foz do Iguaçu no Paraná, onde atualmente estou morando e segue dessa maneira:

1ª Etapa:

Saída: Foz do Iguaçu/PR

Chegada: Limeira/SP

Distância: 1004 km’s

2ª Etapa:

Saída: Limeira/SP

Chegada: Parati/RJ

Distância: 415 km’s

3ª Etapa: (Estrada Real)

Saída: Parati/RJ

Chegada: Diamantina/MG

Distância: 1041 km’s

4ª Etapa:

Saída: Diamantina/MG

Chegada: Corumbá/MS

Distância: 1883 km’s

5ª Etapa:

Saída: Corumbá/MS

Chegada: Sucre/Bolívia

Distância: 1165 km’s

6ª Etapa:

Saída: Sucre/Bolívia

Chegada: Cusco/Peru

Distância: 1725 km’s

Distância Total: 7,233 km’s

Estilo de Viagem

Desde o plano inicial de fazer somente a Estrada Real, a intenção era fazer uma viagem mais tranqüila, com mais tempo disponível para aproveitar e conhecer melhor as cidades, as culturas, histórias e as belezas naturais dos lugares por onde passarmos. Por isso, já pensava em fazer uma quilometragem menor de Parati até Diamantina. O Estêvão aceitou viajar dessa maneira. E quando o Guilherme entrou em contato, mencionei o mesmo estilo de viagem, que por sinal é similar ao modo de como pretendia seguir. Então ficamos acertados ao ritmo da aventura.

Definido o estilo da viagem, o planejamento foi realizado a partir do tempo disponível de cada um. E assim, a viagem total vai ser de no mínimo três meses em ritmo tranqüilo, principalmente na Estrada Real, onde o percurso é quase em sua totalidade por estrada de terra e repleto de história e uma natureza com sua fauna e flora extremamente ricas. É o maior percurso turístico do país. Somando todos seus caminhos, mais de 1600 km’s. A Estrada Real é o antigo caminho utilizado pela coroa portuguesa para levar o ouro das Minas Gerais até os portos de Parati de onde seguiam para a Europa.

De Ouro Preto em Minas até Parati, o trajeto é conhecido como o Caminho Antigo, da cidade mineira até Rio de Janeiro é considerado Caminho Novo. Portanto, nossa viagem segue pelo Caminho Antigo e posteriormente pelo Caminho dos Diamantes, de Ouro Preto até Diamantina. Uma escolha para voltar à bela cidade de Parati, onde tive o privilégio de visitar em 2009 na expedição Curitiba x Rio. Dessa vez pretendo ficar mais tempo para conhecer ainda melhor o local.

Saindo de Foz no dia 11 de Janeiro, partimos para Limeira onde encontraremos o Estêvão, depois seguimos para o litoral paulista até chegarmos em Parati, para então começarmos a Estrada Real, em Diamantina o Estêvão volta para Limeira, Guilherme e eu seguimos em direção a um pequeno trecho no Estado de Goiás e adentramos no território sul mato-grossense, por onde conheceremos o pantanal na região de Corumbá, nossa última cidade no Brasil. E finalmente atravessaremos a primeira fronteira internacional, Bolívia.

Na Bolívia, vamos pedalar até Santa Cruz de la Sierra, avançando um pouco, nos direcionaremos para La Higuera, cidade onde o revolucionário Che Guevara foi assassinado. E então seguiremos para Sucre, Potosi, a mais alta cidade do mundo. De Potosi rumo ao Salar de Uyuni, maior deserto de sal do mundo. Após atravessar o imenso salar, vamos para Oruro e finalmente La Paz, capital boliviana. Nossos últimos quilômetros na Bolívia serão na região de Copacabana, onde conheceremos o lago Titicaca e partiremos para Puno no Peru, terminando a expedição em Cusco, de onde seguiremos para a caminhada nas trilhas incas até Machu Picchu.

Equipamentos:

Uma viagem de três meses necessita de alguns itens indispensáveis, sobretudo, na região de altitude por onde passaremos. Para evitarmos surpresas desagradáveis pelo caminho, fiz, acredito eu, um bom planejamento. Começando pela bicicleta.

Bicicleta: Uma GTS M5, modelo 2009 com grupo Shimano Alivio completo, suspensão GTS CL, selim GTS, pneus Pirelli 1.9 BM-90, aro aero V-Zan Extreme, bagageiro traseiro Tranz-X, Alforje traseiro POC, 75 litros, bolsa de guidão Curtlo. Velocímetro Sigma 906.

Para acampar; Barraca simples, saco de dormir, isolante térmico, cobertor de emergência em caso de temperaturas baixas, mini fogareiro, panela, pratos plásticos e talheres.

As roupas da viagem serão descritas em outra postagem, ainda estou separando o que vou levar. No mais, estamos devidamente preparados para seguir viagem. O Guilherme que está em Foz desde o dia 26 de dezembro, quando chegou pedalando de Santa Catarina, já foi algumas vezes para o Paraguai, comprar alguns itens para a viagem, como filmadora, gps e peças para a bicicleta.

Agora é aguardar o grande dia e seguir.

Fazendo novos planos; CuritiBahia 2008/2009

Após a Expedição para o Chile no verão de 2007/2008 não demorou muito para que outros caminhos fossem cogitados para uma nova aventura. Aramis, companheiro na viagem ao Oceano Pacífico, logo se encarregou em planejar uma audaciosa jornada. O destino dessa vez era pedalar de Curitiba até Salvador na Bahia, perfazendo o trajeto em quase sua totalidade através do litoral brasileiro, ou seja, uma viagem, que no mínimo seria marcada por paisagens magníficas e culturas que ainda carregam em seu cotidiano, traços de seus antepassados, estes por sua vez, oriundos de outros países, sobretudo, do continente europeu e africano, que vieram ao Brasil por diversos motivos, pelos quais, não nos cabe simplifica-los no momento.

A princípio fui convidado a participar da CuritiBahia, como intitulou seu mentor. Mas seria muito difícil levantar recursos financeiros durante o ano, uma vez, que destinei todo esse período para estudar de modo integral. Portanto, não confirmei minha participação. Durante a maior parte de 2008, minhas pedaladas se destinaram as trilhas de Marechal Rondon e o deslocamento quase diário até à universidade e algumas poucas viagens pela região. Mas estava em movimento, com um bom condicionamento físico.

Os meses foram passando e surgiu uma oportunidade imperdível. Na internet encontrei uma ótima bicicleta em leilão, consegui arremata-la a um excelente preço. Sem querer desfazer da minha Magrela Guerreira, mas agora eu estava com uma bicicleta superior, no que diz respeito à qualidade de suas peças, inclusive, com um peso muito menor. Comprei a GTS Laser parcelada em algumas vezes.

Depois de muitos meses apenas estudando, a vontade de cair na estrada foi crescendo, precisava apenas de recursos financeiros. Foi quando tive a seguinte idéia, vender a bicicleta adquirida recentemente e viajar com o dinheiro provindo de sua negociação. Desse modo, poderia participar da CuritiBahia com a minha antiga Magrela Guerreira. Não demorou muito e consegui vender a bike também pela internet. O comprador, um ciclista de Mato Grosso que também se tornou adepto do cicloturismo.

Com a negociação ocorrendo sem problemas, agora eu tinha uma grana, que não era muita, para aceitar o convite de pedalar pelo litoral brasileiro. Faltando menos de dois meses para o início da CuritiBahia, confirmo minha presença. Tinha pouco tempo para deixar tudo preparado, até mesmo, ser aprovado direto em todas as matérias na faculdade, algo que não foi fácil, mas com muito esforço consegui.

O planejamento da viagem foi em sua totalidade feito pelo Aramis, que marcara a data de saída para 26 de dezembro de 2008, após passar o natal em Curitiba. Resolvi ir para a capital paranaense alguns dias antes do embarque e conhecer a cidade. Fique esse tempo na casa do Aramis onde fui muito bem recepcionado, principalmente pela sua mãe que ofereceu uma excelente hospitalidade.

Teríamos a companhia de mais um ciclista durante a viagem, Daniel do Rio Grande do Sul, que tinha como pretensão pedalar de Porto Alegre até o Rio de Janeiro, com possibilidades de seguir em frente dependendo do tempo disponível. Chegaria ao Paraná nas vésperas do Natal.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A Travessia do Paraná - Primeiro dia:

Travessia do Paraná - Parte 2

Saída:
Marechal Cândido Rondon

Almoço: Cascavel

Pernoite: Guaraniaçu

Distância dia: 160 km’s

No meu roteiro, fiz a escolha de seguir por Toledo até chegar em Cascavel e pegar a BR 277 que me levaria até Curitiba e conseqüentemente ao litoral. Dessa vez, com um pouco de experiência e informações obtidas na internet, minha saída foi programada pra bem cedo, às 6 horas da manhã eu estava saindo do apartamento em Marechal. Ainda escuro, preparo a bicicleta, coloco todos os itens na mochila, esta eu amarro com elásticos no bagageiro. Acendo o farol e a lanterna, desço as escadas e finalmente a Magrela Guerreira, nome na minha Ônix, está no asfalto.

O trecho até Toledo não é muito calmo, principalmente pelo tráfego intenso de caminhões, como já dito em postagens anteriores, o fluxo é resultante do transporte, sobretudo, de produtos agrícolas produzidos na região. O acostamento é precário, necessitando uma atenção maior. Como ainda é cedo, e aqui uma observação, talvez o melhor horário pra se pedalar seja pela manhã, assim como muitos ciclistas, compartilho dessa opinião. Geralmente nas primeiras horas do dia não exista a presença significativa do vento, este, contra é um dos piores obstáculos do ciclista na estrada. O sol também é menos intenso, assim, o desgaste físico é menor. É somente após as 11 horas (dependendo da região e época), que a presença da forte temperatura se torna um fator presente para nós viajantes.

A ansiedade da partida vai ficando para trás a cada giro do pedal. Não existe medo do desconhecido e muito menos o pensamento que não pode dar certo. Mas a ansiedade é algo inerente àqueles que não vêem a hora de colocar seus planos em prática. E essa sensação só vai passando quando você percebe que seu sonho está tornando-se realidade, um dos melhores sentimentos que um ser humano pode ter. E desse modo, os obstáculos por mais difícil que seja não é maior do que o desejo de viver esse momento.

Toledo vai ficando para trás junto com a ansiedade. Mas nunca estamos realmente sozinhos na estrada, quando os veículos não se mostram presentes, a mãe natureza se incumbe de demonstrar sua presença. Uma pena ter mandando uma companhia não muito desejada, o vento contra. O vento durante o pedal é bom, ajuda a refrescar bastante, mas quando esse se torna contrário à nossa direção, o esforço necessário para deslocar a bicicleta é quase o dobro. E para quem tem um planejamento a seguir, cada minuto é importante para que a quilometragem seja diminuída. Naquele momento, mal sabia que teria aquela companhia por mais três longos dias.

De Toledo a Cascavel a estrada melhora no aspecto físico, asfalto e acostamento são melhores, contudo, as subidas aumentam, e também elas, me acompanhariam por muito tempo. Em Cascavel faço uma parada para almoçar. O ritmo de pedal até então não foi muito alto, o vento e as freqüentes subidas foram os principais motivos. Algumas paradas para alongar e comer uma bolacha ou barra de cereal, mas na maioria das vezes esse processo era rápido. Por volta das 13 horas, avisto um restaurante e não hesito em parar, como é bom sentar na sombra depois de algumas horas de pedal. Melhor ainda é comer a vontade, esse é um dos grandes segredos da economia, aproveitar o máximo possível dos restaurantes à beira da estrada, geralmente a comida é boa e a vontade. No meu caso, era a principal refeição do dia, não sabia onde passaria a noite, então era preciso se precaver para não passar fome depois, pedalar com a barriga vazia é uma das piores sensações.

Após almoçar, descanso alguns minutos, faço uma checagem na bagagem, é sempre bom conferir se tudo está guardado. É um fato comum esquecermos algo durante as paradas.

Na estrada novamente. As paisagens estão diferentes conforme se avança pela rodovia. A plantação extensiva é visível, embora, menos expressiva . Enquanto isso, vou fazendo meus registros fotográficos, afinal são oportunidades únicas, pode-se passar outras vezes no mesmo caminho, entretanto, ele dificilmente estará da mesma forma. Como é a primeira vez que passo por essa região de bicicleta, tudo é muito diferente, a percepção das coisas ao seu redor se tornamaior, cabendo ao observador apreciar a natureza de um ângulo diferente do qual estamos habituados em nosso cotidiano. A altitude aumenta consideravelmente, a cidade de Ibema, depois de Cascavel, está localizada a 910m do nível do mar, isso significa na prática que as subidas agora eram intermináveis assim como o vento contra que parecia incessante. Mesmo em um ritmo mais tranqüilo, continuei pedalando, apesar das adversidades, a condição do asfalto era boa, permitindo o tráfego constante pelo acostamento, favorecendo além de segurança, mais tranqüilidade para observar o cenário natural da região, que agora modificava-se, sendo notório a presença da Araucária ou Pinheiro do Paraná, vegetação típica e símbolo do estado. O Pinheiro era abundante em quase todo o Paraná, contudo, com a colonização a partir dos séculos XVIII e XIX, a mata foi cedendo espaço para plantações, pastos e também para a urbanização, conseqüentemente, são poucos locais onde essa vegetação pode ser encontrada, os vestígios durante a Travessia eram nítidos na região de Guarapuava, poucos foram fotografados após Cascavel.

No roteiro original, a programação era de pernoitar em Nova Laranjeira, totalizando 216 km’s ao final do primeiro dia de viagem. Todavia, eu ganhava mais um aprendizado, as adversidades devem ser consideradas ao fazer um planejamento. Afinal era uma distância enorme e mesmo ciente da ascensão da altitude, não considerei a situação climática, resultado foi a decisão de parar uma cidade antes da prevista. Assim, a cidade de Guaraniaçu seria o local para acampar pela primeira vez durante a viagem e a primeira experiência da minha vida deste tipo. Já estava escuro, o vento resolve se esconder como o sol. Pedalar de noite parece dar a sensação de estar com a energia recarregada, mesmo com quilômetros de bagagem nas horas anteriores, desse modo, mesmo apreensivo por não saber onde iria dormir, o giro do pedal é maior e logo Guaraniaçu é visível.

Como a rodovia é pedagiada, o Serviço de Atendimento ao Usuário (SAU) ,da concessionária responsável, está presente em vários trechos. Um pouco antes da cidade tinha um à beira da rodovia, sem ter nada a perder, resolvo parar e perguntar se posso montar a barraca atrás do local. Sem sucesso, mesmo argumentando sobre o estilo da viagem, o funcionário me explicou que seria impossível, mas me recomendou um posto de combustível logo adiante. Em direção ao local fui pensando que também seria vetado de passar a noite, se por acaso isso acontecesse, o que teria que fazer? Enfim, cheguei ao posto e minha primeira atitude foi explicar a situação para o funcionário que estava na pista de abastecimento e para minha felicidade, fui autorizado sem maiores problemas. Mas o dia ainda não tinha finalizado, uma outra parte da vida quase diária de um aventureiro começava. Montar acampamento.

Já comentei que o único teste com a barraca foi realizado no chão da sala do apartamento em Marechal, onde tudo é perfeito, muito diferente do terreno onde escolhi montar o primeiro acampamento. Sem muita opção e não querendo ficar muito distante da movimentação de pessoas, pois se me acontecesse alguma coisa, a quem eu recorreria durante a madrugada. Então, fiquei perto do poste de energia do estabelecimento, o terreno era todo irregular e com algumas pedras que foram retiradas. Em poucos minutos a barraca estava montada, até eu fiquei surpreso com a rapidez. O próximo passo foi retirar a bagagem da bicicleta e colocar tudo dentro da minha ‘casa’. Separei uma ‘roupa de civil’, tranquei a bike com um cadeado de moto, é um pouco mais reforçado, exatamente pra ninguém ter facilidade em levar a Magrela. Sem movimento no posto, procurei fazer tudo muito rápido e fui verificar o banheiro, como muitos devem saber, banheiro de posto muitas vezes deixa a desejar no que se refere a limpeza. Esse estava mais ou menos, tomei meu banho super rápido. Sim, não pode-se esquecer os itens de higiene básica, eu particularmente não costumo compartilhar essas coisas. Após trocar de roupa, fui até à lanchonete, comi um salgado com um suco e retornei ao banheiro para escovar os dentes. Pronto, estava preparado para dormir. Engano meu.

Dormir de verdade é um pouco difícil em meio a tais circunstâncias, no meu caso, mesmo cansado após pedalar o dia todo, não consegui firmar o sono, apenas tirava uns cochilos e acordava às vezes em razão das vozes que pareciam de pessoas que estavam ao lado da barraca, esse fato me deixava ainda mais apreensivo, o que elas estariam fazendo naquele local, numa hora daquela. Deixei minha bicicleta deitada e trancada do lado de fora da barraca, além do cadeado, amarrei algumas cordinhas na roda e nas estacas da barraca. Se por acaso, alguém tentasse mexer, eu pelo menos acordaria. Mesmo não dormindo, minha armadilha não foi utilizada, para minha sorte. Entre um cochilo e outro a noite foi passando e a hora avançava madrugada adentro. O som dos pássaros anunciava que a noite se transformara em dia, finalmente estava claro. E eu, é claro, estava aliviado em sobreviver a primeira noite na estrada.

Seguindo o roteiro original, a cidade de partida seria Nova Laranjeiras com destino em Guará, perfazendo assim 148 km’s diário, contudo eu estava 47 km’s atrasado em relação ao dia anterior, onde minha parada foi em Guaraniaçu. Desse modo, eu deveria pedalar quase 200 km’s no segundo dia para compensar o atraso, algo muito difícil na prática, a altitude continuava alta e as subidas persistiam. Interessante, é justamente nas subidas que você passa a fazer as reflexões mais variadas que seu cérebro também cansado começa a pensar. Esse processo foi positivo, compreendi que a estrada, sobretudo, a subida, estava havia muito tempo naquele lugar, eu que fui atrás delas, então deveria guardar minha ira e pedalar tranqüilo para superar cada montanha. Em todo caso, o roteiro foi logo modificado. Decidi partir de Guaraniaçu e continuar o máximo possível na estrada, parar somente quando a noite cair e as pernas não agüentarem mais.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Os primeiros giros distantes

Inserido na realidade da maioria da população de Marechal Rondon, eu também utilizava a bicicleta freqüentemente, incomparavelmente em um ritmo maior do que em Foz do Iguaçu. Inicialmente meu deslocamento era mais direcionado ao trabalho, embora a utilizasse para fazer compras e algumas visitas ao centro. Mas isso logo essa limitação iria mudar.

Portanto, eu trabalhava, estudava e também namorava. Havia quase dois anos que eu estava morando em Marechal quando conheci minha ex-namorada, ela trabalhava no mesmo ambiente de trabalho que eu, a expedição de uma indústria têxtil, onde a maior parte dos funcionários também vai trabalhar de bicicleta. Em 2006, após alguns meses de namoro, o inesperado término do relacionamento me deixa profundamente triste.

Lembro-me perfeitamente da ocasião, uma tarde nublada e com muito vento, não agüentando as circunstâncias referentes ao fim do namoro, resolvo pegar a bicicleta da maneira como eu estava, de calça jeans, chinelo e camisa, assim saio em direção a uma das entradas/saídas da cidade, caminho que conhecia apenas de carro e ônibus. Não sei o porque escolhi aquele trajeto, ainda hoje não sei responder. Mas fui, pedalei cerca de sete km’s da minha casa até o ponto onde retornei. Desde então meus dias nunca mais seriam os mesmos. Naquele momento, senti uma curiosidade enorme em conhecer aquele horizonte na estrada, essa sensação ainda permanece, com a diferença que hoje os horizontes são outros. Pois aquele fora conhecido algum tempo após essa primeira experiência.

A mudança. O desconhecido além do horizonte foi o mais desafiador, de alguma forma eu estava disposto a enfrentar a estrada, cada quilometro, na busca de algo no qual eu não imaginava, mas que me fazia sentir vivo. Procurei saber mais sobre as cidades vizinhas, aquelas no decorrer daquele caminho que eu não seguira em frente na primeira ocasião. Então obtive conhecimento das distâncias das ‘cidades’, que na verdade eram distritos de Marechal, e o mais longe ficava a quinze km’s do município, naquela época era um trecho enorme para quem estava mais acostumado a ir e voltar do trabalho. Conversei então com um amigo do trabalho que era competidor de bicicross, uma modalidade do ciclismo. Passou-me algumas dicas muito importantes, sobretudo, na hora de trocar as peças da bicicleta. Sim, resolvi fazer uma mudança, na verdade uma reciclagem geral na bike. Troquei várias peças, nesse primeiro instante, coloquei aros aero V-ZAN para tornar-se resistente a diferentes tipos de terrenos, trocadores tradicionais (modelo antigo) da marca Shimano, uma suspensão de 50mm Logan, um guidão simples curvado. Uma mudança muito significava, os freios V-Brake GTS com as manoplas da Tropical Team, fez uma diferença e tanto na minha Polo Ônix, uma marca não muito conhecida, encontrei apenas um exemplar dela em Matinhos, litoral do Paraná, mas com essas mudanças, ela iria muito longe.

Realizada a troca das peças, era hora de buscar aquele horizonte desconhecido, pelo menos parte dele. Sem nenhuma experiência nas estradas, busquei ser o mais cauteloso possível, principalmente quando aqueles quinze km’s até Iguiporã eram de trechos sem acostamento e um fluxo grande de veículos, sobretudo, de caminhões, uma vez que a rodovia também serve de escoamento dos produtos agrícolas produzidos na região e da mesma forma é rota para o Mato Grosso do Sul. Por isso, toda atenção era necessária para retornar e vivo para casa. A novidade estava presente em cada giro do pedal, metro percorrido e a topo conquistado. Superando as constantes subidas em uma estrada com inúmeros buracos. Mas na verdade, a condição da estrada não me importava muito naquele momento, o principal era chegar no distrito de Iguipora e retornar. Objetivo que estava sendo alcançado sem antes contemplar a natureza, que por muitas áreas estava tomada por plantações extensivas de soja, milho e outras culturas. A beleza demonstrada pelo horizonte me deixava fascinado e isso ficava mais explícito chegando ao topo de cada subida. Parece uma recompensa a todo o esforço empregado para se chegar onde quer que seja. O tempo gasto para fazer esse trecho eu sinceramente não lembro, mas deve ter sido em torno de duas horas, até porque, não estava preocupado com o período para completar o trecho, pelo menos por enquanto.

Finalizada a primeira experiência, mesmo que pequena, na estrada, as expectativas aumentaram. Parece ser algo insaciável, inerente aos aventureiros. Dessa forma, comecei a planejar a minha primeira viagem, de Marechal a Foz do Iguaçu. Na verdade, o planejamento foi de um inexperiente cicloturista que está realizando sua primeira viagem. Mesmo assim, o que parecia impossível, foi conquistado.