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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Cicloturismo: conhecendo amigos.

Embora eu tenha utilizado o termo cicloturismo para descrever fragmentos da minha primeira viagem em 2006, na época eu não tinha conhecimento algum sobre essa modalidade do ciclismo que consiste em utilizar a bicicleta como meio de transporte para realizar viagens. Acredito que cada cicloturista tenha seu objetivo particular a cada viagem, não importa a distância, mas sim, o aprendizado de vida a cada quilômetro percorrido.

Pedalando pelas estradas tive a feliz oportunidade de conhecer culturas diferentes, paisagens diversas, distintas e magníficas. Superar meus próprios limites, desafiando meu corpo e mente. Aprendi a valorizar ainda mais as coisas básicas para a sobrevivência, que hoje em dia nos parece irrelevantes, como a alimentação, um simples copo de água e também sentir que existem pessoas com um espírito infinitamente humano. Isso tudo eu devo a esse tal de cicloturismo.

Mas outras pessoas fazem parte desse outro estilo de vida que passei a ter após começar a viajar de bicicleta. Depois da viagem para Foz do Iguaçu, procurei na internet se outras pessoas tinham realizado o mesmo tipo de aventura ou se existia planos para que sonhos se tornassem realidade. Em fevereiro de 2007, no orkut.com encontrei a comunidade Cicloturismo Paraná, com fóruns sobre expedições realizadas e planejamentos para próximas aventuras.

Na comunidade encontrei relatos de vários cicloturistas que estavam mais próximos do que eu imaginava, aqui no Paraná, e para minha surpresa não eram poucas as pessoas adeptas do cicloturismo. Entre essas pessoas, conheci um pessoal de Curitiba. Em um primeiro momento contato, conheci o João Paulo Sabóia e o Aramis Junior, ambos já tinham realizado expedições grandiosas, amigos, se conheceram na estrada e realizaram a Volta do Paraná juntos. E o João Paulo estava planejando algo ainda mais audacioso, atravessar o continente pedalando, saindo do Oceano Atlântico, litoral paranaense até o Oceano Pacifico, litoral norte do Chile. O convite para participar da expedição foi feito para aqueles que realmente estavam interessados em realizá-la. Não hesitei em pensar duas vezes para aceitar o ‘desafio’, como o João gosta de ressaltar. Mas uma coisa é pedalar 175 km’s, outra é atravessar o continente, mais de 2 mil quilômetros com uma bicicleta, percorrendo os mais variados terrenos, entre eles, a majestosa Cordilheira dos Andes. Não seria fácil e ninguém disse isso, pelo contrário, seria necessário muito planejamento e treinamento. Eu teria nove meses para preparar minha bicicleta, corpo e mente. E literalmente não fiquei parado por todo esse tempo, entre esse período foram realizadas várias viagens e a minha primeira expedição, atravessar o estado paranaense.

Dezembro de 2006. A primeira viagem.

Trajeto entre Foz do Iguaçu x Marechal Cândido Rondon
Morando sozinho em Marechal Rondon e passado mais um ano letivo na universidade surge uma ideia audaciosa para mim e todos aqueles com quem compartilhei  a possibilidade de ir pedalando até Foz do Iguaçu, cidade onde minha família morava. Aproveitando o período de férias, procurei realizar um planejamento básico para que a viagem não ficasse restrita ao campo das ideias ou dos sonhos. Engraçado, hoje, três anos após essa viagem, não consigo lembrar de algum momento em que ela me parecesse impossível, embora muitos me dissessem o contrário e já me taxavam de louco.

Mesmo sem ter conhecimento de que aquilo que estava planejando era uma modalidade do ciclismo denominada cicloturismo na qual diversas pessoas no Brasil e mundo afora são adeptas dessa prática que hoje considero um estilo de vida. Sem ler relato algum de viagens já realizadas por cicloturistas ou ter contato com um algum aventureiro sobre duas rodas eu sabia que precisava de um mínimo de planejamento para colocar em prática o objetivo, chegar pedalando em Foz do Iguaçu.

O primeiro passo, foi ter um conhecimento prévio do roteiro, as cidades que estariam no caminho e a distância entre elas, assim como a quilometragem total do percurso. Comecei procurando um mapa do Estado do Paraná (não me recordo qual utilizei, mas acredito que tenha sido um acessado na internet) e conseqüentemente traçando as cidades do caminho a ser percorrido. Não existem muitas opções de rotas para quem deseja chegar na Terra das Cataratas partindo de Marechal, então utilizei o mesmo percurso que a linha de ônibus entre M.C.R e Foz, trajeto que passei inúmeras vezes observando a Costa Oeste e seus balneários atrás da janela do ônibus. Em minhas anotações estavam presentes, inclusive os distritos visíveis no mapa, afinal, eu deveria saber por onde estava pedalando.

Essa primeira tarefa não foi difícil, alguns mapas tem disponível a quilometragem entre cada trecho, assim o roteiro fica mais rápido de ser estabelecido. A distância era considerável para qualquer ciclista que deseja concluir em um dia inteiro de pedal a totalidade de aproximadamente 170 km. Na verdade, por alguma razão não me assustei com esses números. Pensar no que levar foi o próximo passo. Ferramentas básicas para trocar uma possível câmera de ar furada durante o trajeto, detalhe, nunca tinha trocado um pneu antes e nem sabia como fazer. Não sei, talvez a falta de experiência ou a confiança de que nada poderia acontecer me fez não prestar muita atenção para esses detalhes.

Uma bomba de ar, câmera reserva e ferramenta básica, foi o que levei em uma mochila que também continha meia dúzia de banana, algumas bolachas e uma garrafa de dois litros de água congelada, sim, pensei que essa seria a solução para ausência de água, um engano. Nos recordamos com risadas das coisas que fazemos no passado quando percebemos o quanto elas podem se modificar com o passar do tempo através da experiência e conhecimento adquiridos. A mochila estava extremamente pesada, o que resultou em um desgaste ainda maior durante a pedalada. Mas o planejamento precisava de algo mais, estabelecer o horário de partida. E aqui talvez esteja o meu principal equívoco, sair após o almoço.

Almocei, deixei um bilhete em cima da mesa com o percurso completo, acho que vi essa dica em algum lugar, como eu não tinha avisado ninguém sobre a viagem, apenas a ideia de viajar, achei que seria interessante deixar o aviso se algo acontecesse. E assim, após as 13 horas fechei a porta do apartamento, encontrei minha vizinha e disse que estava indo para Foz do Iguaçu. Claro, ela ficou incrédula com a notícia. Segui viagem.

É impossível descrever uma viagem na íntegra, Che Guevara, já mencionava em seu diário de bordo em sua viagem pela América Latina, que suas palavras não eram um relato e sim um fragmento das experiências que ele e seu amigo Alberto Granado compartilharam pelos lugares onde passaram. A totalidade de uma viagem é apenas sentida por aquele que embarca na aventura de faze-la. Claro, tentamos expressar aquilo que vivenciamos através das palavras, todavia, como demonstrar pelas letras a emoção e sentimentos em sua essência? Assim, minha primeira viagem de Marechal à Foz do Iguaçu, seguiu sob um forte calor marcado por uma tarde quente de verão em uma das regiões com as temperaturas mais elevadas do estado. Aprendia naquele momento que o melhor horário pra começar uma viagem de bike não era de tarde, muito menos, com aquelas condições. Minha água da garrafinha não demorou a acabar, do mesmo modo a de dois litros não resistiu aos cinqüenta primeiros quilômetros. Mas na maioria das ocasiões existe um lado positivo, e começava ali o contato com as pessoas durante a viagem, pedindo água, informações sobre a estrada e tudo mais. O melhor desse contato é sentir a hospitalidade das pessoas para com os ciclistas que estão viajando. Não sei dizer o que elas pensam, algumas nos chamam de loucos mas ao mesmo tempo ficam admiradas pela nossa coragem e estilo de vida.

Continuando minha jornada, ficava mais difícil chegar em casa no mesmo dia, aquele sábado quente de dezembro. Com paradas freqüentes para me hidratar, comer alguma coisa e, sobretudo, descansar, o tempo foi passando de forma rápida em contraposição aos quilômetros que aparentemente ficavam mais longos a cada giro do pedal. Esqueci de mencionar um detalhe, a altimetria (altitude de cada lugar) é algo que parece banal, mas é de muita utilidade para uma aventura desse tipo, claro que eu não tinha esse conhecimento. E mesmo M.C.R com uma altitude de mais de 400m contra os 164m de Foz, o trajeto não foi apenas de descidas, as subidas são constantes. Se você pretende se aventurar pedalando pelas estradas, comece a olhar a subida por um outro ângulo, se enxerga-la apenas como um obstáculo intransponível, certamente seu aspecto psicológico vai afetar o desenvolvimento físico do seu corpo. Mas vai dizer isso pra alguém em sua primeira viagem. Na prática, as coisas são mais sofridas.

Escuro. A noite chega e eu ainda estava na estrada, há quase 30 k de São Miguel do Iguaçu, cidade onde o caminho para Foz é pela BR 277, rodovia pedagiada, com condições infinitamente melhores que a PR por onde seguia na escuridão. Para variar, o trecho a percorrer até São Miguel é um dos mais complicados de toda a viagem, ainda hoje, após realizar diversas vezes esse percurso, tenho a mesma opinião. O sobe e desce é constante, com um detalhe, as subidas são infinitamente íngremes. Agora acrescente, quilômetros pedalados debaixo de um sol escaldante, uma canseira aparente e pedalando sem enxergar nada. Pois é, não sei o que estava pensando quando resolvi sair depois do almoço. Não levei lanterna, farol ou coisas do gênero, a única luz que enxergava na pista era a dos automóveis que me orientava através do seu reflexo na faixa. Em uma estrada que serve de caminho para vários balneários, hoje tenho a consciência do extremo risco que foi pedalar aquele trecho precário de acostamento quase inexistente. Se era difícil enxergar a pista, imagina as placas informativas, principalmente em relação as distâncias.

Outro aprendizado em minha primeira viagem, não confie cegamente nas informações de pessoas à beira da estrada ou nas entradas das cidades sobre quilometragem, muita gente não tem noção de distância e talvez de modo inconsciente, dez quilômetros pode ser na verdade trinta. Pouco mais das 22 horas, finalmente chego na cidade de São Miguel do Iguaçu, logo na entrada avisto uma panificadora onde comprei alguma coisa pra comer. Não sei qual era maior, a fome ou a canseira. A dona do estabelecimento me informou que Foz estava mesmo a praticamente 40 km e me recomendou não seguir viagem pela rodovia àquela hora da noite e indicou-me um hotel. Aqui, aproveito para mencionar duas coisas. Primeiro, embora eu tenha utilizado os mapas da região, não fiz nenhuma planilha no computador, apenas rabiscos em um papel com a distância aproximada de cada cidade. Segundo, não levei mais do que vinte reais, afinal, não esperava gastar muito. Enfim, resolvi seguir o conselho da senhora e fui procurar o hotel indicado no centro da cidade.

Claro, aprende-se logo cedo nas viagens a escolher o mais barato. Dez reais o pernoite, com direito a café da manha, servido apenas após as 8:00. Não tomei banho. Estava muito tarde e embora estivesse muito sujo e suado, a canseira era maior. Liguei o ventilador e fui dormir no pequeno quarto onde mal cabia uma cama de solteiro. Mas era o suficiente.

No dia seguinte resolvi sair cedo. Ainda estava com fome e o café gratuito era tentador, mas 8:00 horas da manhã era muito tarde para que pretendia chegar o quanto antes em casa. Quase 7 horas da manhã já estava na estrada novamente. As pernas estavam cansadas, assim como o corpo todo, mas ainda conseguia pedalar. Faltavam apenas 45 km e o acostamento era muito bom. Mas parece que o ritmo não era o mesmo. E o psicológico ainda não acostumado com as subidas não ajudava o corpo a compreender aquilo que era o maior dos obstáculos. Avistar uma subida era motivo para desanimar e pra ser sincero, avistava-se dezenas delas. A 277 é repleta de sobe e desce. Mas com muito esforço a distância foi ficando menor e quase ao meio dia estava em Foz. Agora faltavam poucos quilômetros até chegar em casa.

Surpresa. Essa é a palavra de como todos me receberam em casa, estavam atônitos com a minha visita, ninguém me aguardava. Não comentei com ninguém que estava viajando, muito menos de bicicleta. Conhecendo o jeito protetor do meu pai, sabia que não iria gostar nem um pouco sobre a aventura, e não duvido que não medisse esforços para que eu não a realizasse. Não esqueço que me perguntaram se eu tinha vindo de caminhão com a bicicleta na carroceria.

Era realmente inacreditável, sentado na área de casa, comecei a contar sobre a viagem e para a minha surpresa não fui repreendido, mas meu pai disse que se soubesse que eu estava em São Miguel teria ido me buscar. Ainda bem que ninguém sabia, se não teria que ter avisado sobre pernoitar na cidade. 

A sensação é de vitória, conquista, superação, e sobretudo, que estamos vivos, embora naquele exato momento, quase morto de canseira. Fiquei uns três dias sem andar direito, estava tudo travado. Não era pra menos, sem fazer alongamento, ter pedalado no máximo três vezes a distância de trinta quilômetros como treino e depois pedalar 175 km em menos de 24 horas. Mas a experiência existe para aperfeiçoarmos a cada dia. De algum modo, sentia que outros horizontes me aguardavam. E essa primeira aventura foi a porta de entrada para um estilo de vida que levo comigo até os dias de hoje.

As pessoas, sim, elas vão continuar te chamando de louco, mas também vão lhe admirar, você acaba inspirando muita gente, seja pela coragem, determinação ou pelo simples fato de não ser comum ver um ciclista viajando. Contar a história da viagem, as dificuldades, belezas naturais do trajeto, os perigos da estrada, a hospitalidade do povo e todo o resto, talvez sejam uma parte da aventura que não se acaba quando chega ao destino.

Os primeiros giros distantes

Inserido na realidade da maioria da população de Marechal Rondon, eu também utilizava a bicicleta freqüentemente, incomparavelmente em um ritmo maior do que em Foz do Iguaçu. Inicialmente meu deslocamento era mais direcionado ao trabalho, embora a utilizasse para fazer compras e algumas visitas ao centro. Mas isso logo essa limitação iria mudar.

Portanto, eu trabalhava, estudava e também namorava. Havia quase dois anos que eu estava morando em Marechal quando conheci minha ex-namorada, ela trabalhava no mesmo ambiente de trabalho que eu, a expedição de uma indústria têxtil, onde a maior parte dos funcionários também vai trabalhar de bicicleta. Em 2006, após alguns meses de namoro, o inesperado término do relacionamento me deixa profundamente triste.

Lembro-me perfeitamente da ocasião, uma tarde nublada e com muito vento, não agüentando as circunstâncias referentes ao fim do namoro, resolvo pegar a bicicleta da maneira como eu estava, de calça jeans, chinelo e camisa, assim saio em direção a uma das entradas/saídas da cidade, caminho que conhecia apenas de carro e ônibus. Não sei o porque escolhi aquele trajeto, ainda hoje não sei responder. Mas fui, pedalei cerca de sete km’s da minha casa até o ponto onde retornei. Desde então meus dias nunca mais seriam os mesmos. Naquele momento, senti uma curiosidade enorme em conhecer aquele horizonte na estrada, essa sensação ainda permanece, com a diferença que hoje os horizontes são outros. Pois aquele fora conhecido algum tempo após essa primeira experiência.

A mudança. O desconhecido além do horizonte foi o mais desafiador, de alguma forma eu estava disposto a enfrentar a estrada, cada quilometro, na busca de algo no qual eu não imaginava, mas que me fazia sentir vivo. Procurei saber mais sobre as cidades vizinhas, aquelas no decorrer daquele caminho que eu não seguira em frente na primeira ocasião. Então obtive conhecimento das distâncias das ‘cidades’, que na verdade eram distritos de Marechal, e o mais longe ficava a quinze km’s do município, naquela época era um trecho enorme para quem estava mais acostumado a ir e voltar do trabalho. Conversei então com um amigo do trabalho que era competidor de bicicross, uma modalidade do ciclismo. Passou-me algumas dicas muito importantes, sobretudo, na hora de trocar as peças da bicicleta. Sim, resolvi fazer uma mudança, na verdade uma reciclagem geral na bike. Troquei várias peças, nesse primeiro instante, coloquei aros aero V-ZAN para tornar-se resistente a diferentes tipos de terrenos, trocadores tradicionais (modelo antigo) da marca Shimano, uma suspensão de 50mm Logan, um guidão simples curvado. Uma mudança muito significava, os freios V-Brake GTS com as manoplas da Tropical Team, fez uma diferença e tanto na minha Polo Ônix, uma marca não muito conhecida, encontrei apenas um exemplar dela em Matinhos, litoral do Paraná, mas com essas mudanças, ela iria muito longe.

Realizada a troca das peças, era hora de buscar aquele horizonte desconhecido, pelo menos parte dele. Sem nenhuma experiência nas estradas, busquei ser o mais cauteloso possível, principalmente quando aqueles quinze km’s até Iguiporã eram de trechos sem acostamento e um fluxo grande de veículos, sobretudo, de caminhões, uma vez que a rodovia também serve de escoamento dos produtos agrícolas produzidos na região e da mesma forma é rota para o Mato Grosso do Sul. Por isso, toda atenção era necessária para retornar e vivo para casa. A novidade estava presente em cada giro do pedal, metro percorrido e a topo conquistado. Superando as constantes subidas em uma estrada com inúmeros buracos. Mas na verdade, a condição da estrada não me importava muito naquele momento, o principal era chegar no distrito de Iguipora e retornar. Objetivo que estava sendo alcançado sem antes contemplar a natureza, que por muitas áreas estava tomada por plantações extensivas de soja, milho e outras culturas. A beleza demonstrada pelo horizonte me deixava fascinado e isso ficava mais explícito chegando ao topo de cada subida. Parece uma recompensa a todo o esforço empregado para se chegar onde quer que seja. O tempo gasto para fazer esse trecho eu sinceramente não lembro, mas deve ter sido em torno de duas horas, até porque, não estava preocupado com o período para completar o trecho, pelo menos por enquanto.

Finalizada a primeira experiência, mesmo que pequena, na estrada, as expectativas aumentaram. Parece ser algo insaciável, inerente aos aventureiros. Dessa forma, comecei a planejar a minha primeira viagem, de Marechal a Foz do Iguaçu. Na verdade, o planejamento foi de um inexperiente cicloturista que está realizando sua primeira viagem. Mesmo assim, o que parecia impossível, foi conquistado.

A realidade paradoxal de Marechal Cândido Rondon.

Após alguns anos morando em Foz do Iguaçu, uma nova etapa acontecia, meu ingresso na faculdade, curso de História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Marechal Cândido Rondon, também no oeste do estado, situada a 175 km’s da tríplice fronteira. Marechal é maior cidade germânica do Paraná, a cultura alemã está visivelmente presente no cotidiano da população, sobretudo, dos descendentes, que tradicionalmente promovem eventos típicos de costumes oriundos do país europeu.

Além da característica étnica, Marechal possui um dos melhores índices de desenvolvimento do Paraná, a taxa de desemprego é baixa em função das várias indústrias instaladas no município, algumas chegam a contratar funcionários de outras localidades por ausência de pessoas disponíveis para determinadas funções. A segurança, saúde e uma economia também baseada na agricultura são outros pontos positivos, embora algumas áreas necessitem de maior atenção. A presença da universidade estadual é outro ponto fundamental para a cidade, provoca o ingresso de muitos estudantes provenientes de diversas cidades e estados, movimentando vários setores do comércio, o campo imobiliário merece destaque, principalmente ao redor da faculdade, onde a concentração de estudantes é maior.

Outra prática da população tem uma relevância especial, a utilização da bicicleta no dia-a-dia dos moradores, tornando-se talvez um dos meios de transporte mais utilizado. É muita, mas muita bicicleta por toda parte da cidade. Alguns fatores proporcionam essa utilização em massa, o terreno do município encontra-se em uma área plana, o que favorece muito o ato de pedalar, a prefeitura também investiu na construção de ciclovias e desse modo, a cidade é uma das maiores no estado com a malha viária destinada aos ciclistas, contudo, o projeto realizado está concentrado em sua maioria na parte central da cidade, nas avenidas de maior movimento, um equívoco, segundo alguns especialistas em estrutura urbana. A ausência de uma política pública de caráter educacional para o trânsito voltado especialmente para os ciclistas gera vários conflitos entre motoristas e aqueles que pedalam, ambas as partes cometem erros e muitos deles poderiam ser evitados se o poder público destinasse maior atenção a essa questão.

Um breve resgate histórico.

Há muitos anos conheço na prática as inúmeras funções que uma bicicleta pode oferecer enquanto meio de transporte. Desde criança, que sua utilização está presente quase que diariamente, seja para o lazer, trabalho ou mesmo para deslocamentos freqüentes, como à escola, por exemplo, que na época ficava a uma distância considerável de casa, entre outros lugares onde o acesso era possível.

Hoje, fazendo um breve resgate histórico para demonstrar melhor essa relação com a utilização da bicicleta, talvez seja pertinente uma menção aos tempos remotos, onde esse instrumento era considerado, sobretudo, um brinquedo, tornando uma simples bicicleta no sonho de muitas crianças e graças aos meus pais tive a possibilidade de ter algumas, de modelos e tamanhos diferentes, conforme minha idade avançava. Sempre cuidadoso, soube valorizar o que tinha à disposição, desse modo, todas minhas bicicletas foram bem conservadas na medida do possível, favorecendo a um maior tempo de utilização das mesmas. Para além desses fatores, o investimento, destinado aos acessórios e manutenção era algo do qual não hesitava em realizar, mesmo quando os recursos eram escassos, afinal de contas, a maioria das crianças depende do dinheiro dos pais, meu caso não era diferente.

A complexidade urbana de Foz do Iguaçu / PR

Durante a adolescência a bicicleta continuou presente, contudo, de uma forma menos freqüente em razão de alguns fatores que hoje compreendo melhor. Minha infância foi em uma pequena cidade do interior paulista, local onde as condições para pedalar são mais favoráveis, seja pelo tipo de terreno ou do trânsito menos agressivo se comparado a médios e grandes centros urbanos. Esse cenário tranqüilo transformou-se no final da década de 1990, quando minha família mudou-se para Foz do Iguaçu, oeste paranaense, uma cidade de maior expressão populacional e também de espaço físico, este, como na maioria dos municípios brasileiros, com uma estrutura urbana voltada principalmente para os automóveis. Meu atual ambiente se torna um pouco mais complexo por ser tríplice fronteira, Foz do Iguaçu faz divisa com Ciudad Del Este no Paraguai e Puerto Iguassu na Argentina, veículos motorizados de ambos os países são facilmente encontrados na cidade, resultando em um fluxo ainda maior pelas ruas.

Foz do Iguaçu ainda compõe um cenário turístico em razão das várias atrações que a cidade proporciona, seja pelas belezas naturais, sobretudo, das Cataratas do Iguaçu ou por exemplo, da grandiosidade arquitetônica que é a obra da usina hidrelétrica de Itaipu, a maior em funcionamento do mundo e responsável por quase ¼ da energia gerada no Brasil. A estadia no município além do mais, possibilita a visita aos países vizinhos e talvez o Paraguai seja o mais procurado, Ciudad Del Este é um paraíso para compras de todos os tipos, fator que atrai todos os anos um número significante de turistas, excetuando-se aqueles compradores atacadistas, chamados de “muambeiros”. Para além desses fatores, Foz do Iguaçu é composta por moradores de diversas etnias, possuindo por exemplo, a segunda maior colônia árabe do país. Tornando-se assim um fato comum, encontrar diálogos em idiomas diferentes do português em quase todos os lugares.



A complexidade que envolve Foz do Iguaçu, inclusive no trânsito, não é suficiente para que as autoridades sejam capazes de reservar um espaço destinado aos ciclistas, a cidade possui apenas uma ciclovia, sendo um pequeno trecho em frente de hotéis luxuosos, distantes do centro e das áreas mais populosas. Nenhum tipo de política publica na prática encontra-se na realidade daqueles que utilizam a bicicleta como meio de transporte na cidade. O que transforma sua utilização em um grande risco, dificultando, inclusive para a expansão dessa mobilidade urbana. Mesmo com enormes obstáculos ainda observa-se que a atividade é realizada por aqueles, como eu, que conscientemente ou não ainda utilizam a bicicleta pelos inúmeros benefícios que a mesma proporciona.