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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A Travessia do Paraná - Primeiro dia:

Travessia do Paraná - Parte 2

Saída:
Marechal Cândido Rondon

Almoço: Cascavel

Pernoite: Guaraniaçu

Distância dia: 160 km’s

No meu roteiro, fiz a escolha de seguir por Toledo até chegar em Cascavel e pegar a BR 277 que me levaria até Curitiba e conseqüentemente ao litoral. Dessa vez, com um pouco de experiência e informações obtidas na internet, minha saída foi programada pra bem cedo, às 6 horas da manhã eu estava saindo do apartamento em Marechal. Ainda escuro, preparo a bicicleta, coloco todos os itens na mochila, esta eu amarro com elásticos no bagageiro. Acendo o farol e a lanterna, desço as escadas e finalmente a Magrela Guerreira, nome na minha Ônix, está no asfalto.

O trecho até Toledo não é muito calmo, principalmente pelo tráfego intenso de caminhões, como já dito em postagens anteriores, o fluxo é resultante do transporte, sobretudo, de produtos agrícolas produzidos na região. O acostamento é precário, necessitando uma atenção maior. Como ainda é cedo, e aqui uma observação, talvez o melhor horário pra se pedalar seja pela manhã, assim como muitos ciclistas, compartilho dessa opinião. Geralmente nas primeiras horas do dia não exista a presença significativa do vento, este, contra é um dos piores obstáculos do ciclista na estrada. O sol também é menos intenso, assim, o desgaste físico é menor. É somente após as 11 horas (dependendo da região e época), que a presença da forte temperatura se torna um fator presente para nós viajantes.

A ansiedade da partida vai ficando para trás a cada giro do pedal. Não existe medo do desconhecido e muito menos o pensamento que não pode dar certo. Mas a ansiedade é algo inerente àqueles que não vêem a hora de colocar seus planos em prática. E essa sensação só vai passando quando você percebe que seu sonho está tornando-se realidade, um dos melhores sentimentos que um ser humano pode ter. E desse modo, os obstáculos por mais difícil que seja não é maior do que o desejo de viver esse momento.

Toledo vai ficando para trás junto com a ansiedade. Mas nunca estamos realmente sozinhos na estrada, quando os veículos não se mostram presentes, a mãe natureza se incumbe de demonstrar sua presença. Uma pena ter mandando uma companhia não muito desejada, o vento contra. O vento durante o pedal é bom, ajuda a refrescar bastante, mas quando esse se torna contrário à nossa direção, o esforço necessário para deslocar a bicicleta é quase o dobro. E para quem tem um planejamento a seguir, cada minuto é importante para que a quilometragem seja diminuída. Naquele momento, mal sabia que teria aquela companhia por mais três longos dias.

De Toledo a Cascavel a estrada melhora no aspecto físico, asfalto e acostamento são melhores, contudo, as subidas aumentam, e também elas, me acompanhariam por muito tempo. Em Cascavel faço uma parada para almoçar. O ritmo de pedal até então não foi muito alto, o vento e as freqüentes subidas foram os principais motivos. Algumas paradas para alongar e comer uma bolacha ou barra de cereal, mas na maioria das vezes esse processo era rápido. Por volta das 13 horas, avisto um restaurante e não hesito em parar, como é bom sentar na sombra depois de algumas horas de pedal. Melhor ainda é comer a vontade, esse é um dos grandes segredos da economia, aproveitar o máximo possível dos restaurantes à beira da estrada, geralmente a comida é boa e a vontade. No meu caso, era a principal refeição do dia, não sabia onde passaria a noite, então era preciso se precaver para não passar fome depois, pedalar com a barriga vazia é uma das piores sensações.

Após almoçar, descanso alguns minutos, faço uma checagem na bagagem, é sempre bom conferir se tudo está guardado. É um fato comum esquecermos algo durante as paradas.

Na estrada novamente. As paisagens estão diferentes conforme se avança pela rodovia. A plantação extensiva é visível, embora, menos expressiva . Enquanto isso, vou fazendo meus registros fotográficos, afinal são oportunidades únicas, pode-se passar outras vezes no mesmo caminho, entretanto, ele dificilmente estará da mesma forma. Como é a primeira vez que passo por essa região de bicicleta, tudo é muito diferente, a percepção das coisas ao seu redor se tornamaior, cabendo ao observador apreciar a natureza de um ângulo diferente do qual estamos habituados em nosso cotidiano. A altitude aumenta consideravelmente, a cidade de Ibema, depois de Cascavel, está localizada a 910m do nível do mar, isso significa na prática que as subidas agora eram intermináveis assim como o vento contra que parecia incessante. Mesmo em um ritmo mais tranqüilo, continuei pedalando, apesar das adversidades, a condição do asfalto era boa, permitindo o tráfego constante pelo acostamento, favorecendo além de segurança, mais tranqüilidade para observar o cenário natural da região, que agora modificava-se, sendo notório a presença da Araucária ou Pinheiro do Paraná, vegetação típica e símbolo do estado. O Pinheiro era abundante em quase todo o Paraná, contudo, com a colonização a partir dos séculos XVIII e XIX, a mata foi cedendo espaço para plantações, pastos e também para a urbanização, conseqüentemente, são poucos locais onde essa vegetação pode ser encontrada, os vestígios durante a Travessia eram nítidos na região de Guarapuava, poucos foram fotografados após Cascavel.

No roteiro original, a programação era de pernoitar em Nova Laranjeira, totalizando 216 km’s ao final do primeiro dia de viagem. Todavia, eu ganhava mais um aprendizado, as adversidades devem ser consideradas ao fazer um planejamento. Afinal era uma distância enorme e mesmo ciente da ascensão da altitude, não considerei a situação climática, resultado foi a decisão de parar uma cidade antes da prevista. Assim, a cidade de Guaraniaçu seria o local para acampar pela primeira vez durante a viagem e a primeira experiência da minha vida deste tipo. Já estava escuro, o vento resolve se esconder como o sol. Pedalar de noite parece dar a sensação de estar com a energia recarregada, mesmo com quilômetros de bagagem nas horas anteriores, desse modo, mesmo apreensivo por não saber onde iria dormir, o giro do pedal é maior e logo Guaraniaçu é visível.

Como a rodovia é pedagiada, o Serviço de Atendimento ao Usuário (SAU) ,da concessionária responsável, está presente em vários trechos. Um pouco antes da cidade tinha um à beira da rodovia, sem ter nada a perder, resolvo parar e perguntar se posso montar a barraca atrás do local. Sem sucesso, mesmo argumentando sobre o estilo da viagem, o funcionário me explicou que seria impossível, mas me recomendou um posto de combustível logo adiante. Em direção ao local fui pensando que também seria vetado de passar a noite, se por acaso isso acontecesse, o que teria que fazer? Enfim, cheguei ao posto e minha primeira atitude foi explicar a situação para o funcionário que estava na pista de abastecimento e para minha felicidade, fui autorizado sem maiores problemas. Mas o dia ainda não tinha finalizado, uma outra parte da vida quase diária de um aventureiro começava. Montar acampamento.

Já comentei que o único teste com a barraca foi realizado no chão da sala do apartamento em Marechal, onde tudo é perfeito, muito diferente do terreno onde escolhi montar o primeiro acampamento. Sem muita opção e não querendo ficar muito distante da movimentação de pessoas, pois se me acontecesse alguma coisa, a quem eu recorreria durante a madrugada. Então, fiquei perto do poste de energia do estabelecimento, o terreno era todo irregular e com algumas pedras que foram retiradas. Em poucos minutos a barraca estava montada, até eu fiquei surpreso com a rapidez. O próximo passo foi retirar a bagagem da bicicleta e colocar tudo dentro da minha ‘casa’. Separei uma ‘roupa de civil’, tranquei a bike com um cadeado de moto, é um pouco mais reforçado, exatamente pra ninguém ter facilidade em levar a Magrela. Sem movimento no posto, procurei fazer tudo muito rápido e fui verificar o banheiro, como muitos devem saber, banheiro de posto muitas vezes deixa a desejar no que se refere a limpeza. Esse estava mais ou menos, tomei meu banho super rápido. Sim, não pode-se esquecer os itens de higiene básica, eu particularmente não costumo compartilhar essas coisas. Após trocar de roupa, fui até à lanchonete, comi um salgado com um suco e retornei ao banheiro para escovar os dentes. Pronto, estava preparado para dormir. Engano meu.

Dormir de verdade é um pouco difícil em meio a tais circunstâncias, no meu caso, mesmo cansado após pedalar o dia todo, não consegui firmar o sono, apenas tirava uns cochilos e acordava às vezes em razão das vozes que pareciam de pessoas que estavam ao lado da barraca, esse fato me deixava ainda mais apreensivo, o que elas estariam fazendo naquele local, numa hora daquela. Deixei minha bicicleta deitada e trancada do lado de fora da barraca, além do cadeado, amarrei algumas cordinhas na roda e nas estacas da barraca. Se por acaso, alguém tentasse mexer, eu pelo menos acordaria. Mesmo não dormindo, minha armadilha não foi utilizada, para minha sorte. Entre um cochilo e outro a noite foi passando e a hora avançava madrugada adentro. O som dos pássaros anunciava que a noite se transformara em dia, finalmente estava claro. E eu, é claro, estava aliviado em sobreviver a primeira noite na estrada.

Seguindo o roteiro original, a cidade de partida seria Nova Laranjeiras com destino em Guará, perfazendo assim 148 km’s diário, contudo eu estava 47 km’s atrasado em relação ao dia anterior, onde minha parada foi em Guaraniaçu. Desse modo, eu deveria pedalar quase 200 km’s no segundo dia para compensar o atraso, algo muito difícil na prática, a altitude continuava alta e as subidas persistiam. Interessante, é justamente nas subidas que você passa a fazer as reflexões mais variadas que seu cérebro também cansado começa a pensar. Esse processo foi positivo, compreendi que a estrada, sobretudo, a subida, estava havia muito tempo naquele lugar, eu que fui atrás delas, então deveria guardar minha ira e pedalar tranqüilo para superar cada montanha. Em todo caso, o roteiro foi logo modificado. Decidi partir de Guaraniaçu e continuar o máximo possível na estrada, parar somente quando a noite cair e as pernas não agüentarem mais.

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